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Ivan Ivanovitch em abril de 1964

Por Urariano Mota.

Para ser exato, Ivan, Ivanovitch Correia da Silva não morreu em 31 de março de 1964. Foi no dia seguinte, foi no 1º de abril de 1964 que ele abandonou o seu espírito. Para ser mais exato, ele não o abandonou. Ele foi abandonado, porque já antes Ivan perdera a vontade, e perder a vontade, parece, é o anúncio primeiro da morte. Digo, corrigindo: já antes de deixar de existir, Ivan já não mais existia.

Quero ser exato, preciso, claro, mas o reino de que me acerco repele tais exatidões. O que vi naquela tarde não se pega como um cão que se agarra e se pega, como uma ave que seguramos entre os dedos, como uma pedra de gelo  que sentimos e pegamos. Talvez o melhor seja organizar Ivan à maneira do que organiza a memória, o sentimento, enfim, no que organiza o espírito.

Ivan era grande, largo, testa ampla – estranho, agora eu sei, só agora compreendo, ao escrever estas linhas agora compreendo: Ivan era largo e grande como a minha mãe. Ele foi, ou ele era, o melhor amigo que pode ter um adolescente de 13 anos. Escrevo essa generalização e estaco. Estaco porque essa tentativa de ser objetivo e imparcial só me faz escrever burras generalidades. Quero dizer, portanto, e não serei mais falso: Ivan foi o melhor amigo que tive na altura dos meus 13 anos.

Ivan, que só agora compreendo, não era um daqueles “meu tipo inesquecível” da tóxica revista Seleções. Ele era o amigo mais velho, e isso quer dizer: ele está sobre a cama, no 1º de abril de 1964, agitado, movendo-se de um lado para outro de seu leito de capim seco. E me diz, e geme:

– Tem umas cobrinhas subindo pelas minhas costas. – E  bate com as mãos, para retirá-las. E mais se agita: – Eles vêm me pegar. Eles vão me levar.

– Eles quem, Ivan?

– Eles, eles – e eles se confundem às cobrinhas, que lhe sobem pelas costas.

Este Ivan não é Ivanovitch Correia da Silva. O Ivan de antes era um jovem de 19 anos, estudante de Química. Passava o dia todo a estudar, todos os dias. Com um método sui generis, como gostava de dizer. Entre uma fórmula e outra me recebia na única mesa da sua casa. E se punha a contar anedotas, a contar casos de meninos suburbanos, espertos, anárquicos, galhofeiros. E sorria, e ria, e gargalhava, porque ao contar ele era público e personagem, e de tanto narrar histórias de meninos moleques deixava na gente a impressão de ser um deles. Como um Chaplin que fosse Carlito. Se na vida da gente houver algo que nos perca, que mergulhe no abismo a natureza que já se acha perdida, ele contava, e contava a rir, a soltar altíssimas gargalhadas o caso que foi a sua perdição:

– Na greve dos estudantes de Direito, eu fui lá para prestar solidariedade aos colegas. Eu estava só no meio da massa, assistindo à manifestação. Aí chegou o fotógrafo da revista O Cruzeiro. Quando ele apontou o flash, eu me joguei na frente dos estudantes. Olha aqui a foto.

E mostrava uma página em que ele aparecia de braços abertos, destacado, em queda, como um jogador de futebol em um brilhante jogada, em voo sobre as palavras de ordem, viva Cuba, yankees go home, reforma agrária na lei ou na marra. Sorrindo em queda livre o meu amigo, na página da revista O Cruzeiro.

Por isso ele gargalha, por sair em edição nacional, por força do seu espírito moleque. Por isso ele se diz, esta é a lógica, dias depois:

– Tem umas cobrinhas… Eles vêm me pegar!

O meu amigo da foto é quem me resolve problemas de matemática que não consigo resolver. Num deles, um de fração, ele, esperto, me esclarece o que a ambiguidade do problema não deixava ver: existe uma fração de vara enterrada no leito do rio, o corpo dela não vai só até a parte submersa, o todo vai até abaixo da areia depositada sob a água. Bandidos, não deixaram claro, assim é fácil, eu lhe digo. E a minha revolta para ele é um justo motivo de gargalhada. Mas me consola:

– Na sua idade, eu também não resolvi esse problema.

Não sei se sou idealista, naquele mau sentido dos manuais simplificadores do marxismo, mas agora à distância eu percebo a dignificação que o espírito dá. O respeito que relações assim construídas funda. De passagem, lembro que fui amigo de indivíduos valentões, rápidos nos socos e de força, com quem jamais briguei. Ainda bem, considero. Mas o que eu destaco agora é que não havia espaço entre nós para a troca de insultos. Havia um respeito fundado nos objetivos a alcançar, ou melhor, a natureza das nossas relações não comportava um enfrentamento físico. Assim também com Ivan. Agora compreendo que em nossas relações ideais, ou idealizadas, ele me via como um menino precoce, como um menino de futuro.

Neste passo cabe dizer o que era o futuro em nossa condição. Ele era um dos seis filhos de seu Joaquim-da-carne-de-porco. Seu Joaquim, para se dignificar, dizia-se marchante, mas apenas vendia carne de porco no mercado público de Água Fria. Simpatizante do velho Partidão, pusera nos quatro primeiros filhos nomes russos, porque à época a Rússia era a pátria da revolução. Eles se chamavam Pedro, Ivanovitch, Serguei, Andrei, Abrahão e Isaac. Os dois últimos coincidiam com o declínio das convicções do velho comunista – ele passara da revolução na terra para a salvação da alma, embora continuasse a sobreviver da venda da carne de porco. Lembro que da sua casa, feia, sem janelas, com fachada de pobre ponto comercial, vinha um permanente cheiro de torresmo. Lembro do cheiro abusivo, enjoado, repugnante que dava aquela coisa gordurosa, fartura de uma coisa só. Entre as fumaças da casa e o box no mercado, seu Joaquim conservara do antigo ardor revolucionário a fé, a paixão da crença no livro, a crença na educação. O estudo que levantaria as massas passou a salvar pessoas. Daí que seus filhos teriam que ser gente, não simplesmente carne de porco e torresmo.

Naqueles anos de 64, um menino de futuro, naquele cheiro ativo de toucinho torrado, era um menino que gostava de ler, de perguntar, de argumentar, apesar de a sua imagem física não se assemelhar a qualquer futuro. Assim ele era porque o futuro eram os livros, e nos livros, era inquestionável, estava a força que erguera um povo das trevas, do feudalismo. Havia então um respeito mítico, místico, pelos livros. De futuro, até antes do golpe do 1º de abril, era também Ivanovitch. Dos seis filhos de seu Joaquim ele era o mais brilhante, porque, enquanto os demais eram “especialistas”, Ivanovitch era um universalista – gostava de matemática, de química, de física, de política, de filosofia, de romance, lia como um animal que tem fome de letras, e possuía um bom humor que era uma crítica ao mundo.

Por que as pessoas não são lineares? Por que os indivíduos que levam a vida a gargalhar tendem a terminá-la com amargura ou violência? Por que os indivíduos soturnos, sombrios, não são os que enfiam o cano na boca e estouram os próprios miolos? Não, o trágico quer os pletóricos, os plenos de verve e coração. Pois assim como o câncer, que dizem se alimentar da saúde vigorosa, o golpe de 1º de abril comeu o cérebro do meu amigo. E ele que era diurno, solar, tornou-se febril e noturno, naquele fim de tarde.

– Cadê Ivan? – perguntei, na volta da padaria. – Cadê Ivan? – perguntei, porque eu queria com ele conversar os últimos acontecimentos, queria que ele me explicasse os tanques na rua, se Arraes ainda era governo, se os comunistas haviam perdido a batalha. – Cadê Ivan?

– Vem ver o teu amigo. Veja como ele está. – E sua mãe me conduziu até o quarto, que era uma divisória de tabique sem porta, como um quarto de estúdio de cinema. E ela se pôs a chamá-lo, a dizer-lhe que eu estava ali, como se eu tivesse o dom de fazê-lo voltar à realidade, realidade que ela não sabia ser o pesadelo a se inaugurar. Chamava-o, “Ivan”,  para torná-lo ao Ivan de 31 de março, ao rapaz que era a esperança daquela família de seu Joaquim-da-carne-de-porco.

Ele ouviu, hoje sei, ele ouviu porque respondeu, para explicar o seu tormento:

– As cobrinhas estão subindo em mim. Mãe, me tira essas cobrinhas.

Sei agora que naquele delírio Ivan não perdeu de todo a lógica, a razão. Será que enlouquecemos assim, num diálogo entre a desrazão e a razão? Vejam, e nesta manhã em que escrevo me chega a voz de Nat King Cole cantando como naqueles anos, na tela do Cine Olímpia, do Cinema Império, ouço Nat arremedando o espanhol “adios, mariquita linda”, vejam, agora percebo: ele diminuía o tamanho das serpentes, para ter miríades delas a subir-lhe pelas costas. Vejam, havia uma incompatibilidade de áreas físicas de suas costas para as serpentes normais, em grande número. E por isso ele as diminuía ao tamanho de se verem de microscópio, que lógica infernal, como eram micros só ele as via! Meu amigo delirava e, para ele, para mim, último consolo, perdia a razão, mas não perdia a inteligência.

Muitos anos depois eu o revi. Estava mais largo, obeso, imenso, com os gestos lentos de um drogado. A face, sem acusar reação, só olhos mortiços, distantes, que não me reconheceram. Ele passou ao largo de mim como um hipopótamo sem sombra, como um elefante sem orelhas, sem tromba, sem dentes passaria, só a grande massa de carne….

Em 16 de outubro de 2010, fiz a última atualização desta memória sobre meu amigo Ivan Ivanovitch:

“A realidade sempre é infinitamente mais cruel que o narrado. Recebi hoje na fila do supermercado a notícia de que Ivan falecera há um ano. Sem a consciência.”

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O livro de Urariano Mota publicado pela Boitempo, Soledad no Recife, já está à venda em versão eletrônica (ebook), agora com novo preço: R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

O escritor Mario Vargas Llosa e sua tia Júlia

Por Urariano Mota.

Em 2010, quando publiquei o texto “Mario Vargas Llosa, Nobel de Literatura”, de passagem eu criticara a infeliz recriação do peruano no livro A Guerra do Fim do Mundo. Ainda que na época o comunicado de Estocolmo informasse que na literatura de Llosa o tema central era a luta pela liberdade em seu país, pois os prêmios, como os obituários, mentem na proclamação das virtudes, maior foi a mentira na imprensa brasileira ao noticiar o livro sobre Canudos como um dos seus grandes feitos.

Pelo contrário, já ali eu havia notado que pelo menos em A Guerra do Fim do Mundo Mario Vargas Llosa havia sido um portentoso fracasso ao cometer um livro falho, indigno de um criador um pouquinho acima da média, porque não se sustentava em vários níveis: a) pela criação mesma de personagens – e um deles era nada mais, nada menos, que Antonio Conselheiro; b) pela desproporção de abismo entre a dimensão humana/política de Canudos e o livrinho realizado; c) pelo cotejo inevitável com a obra-prima Os Sertões – o de Llosa e o de Euclides eram dois mundos estranhos, antagônicos, repelentes recíprocos; d) pela aviltação de Euclides da Cunha, um intelectual de honestidade absoluta, que só era recuperado para o grande público em recriações constrangedoras (e fugia do objeto do texto, na ocasião, e por isso não foi lembrada a insultuosa minissérie Desejo, da Rede Globo, onde o drama familiar de Euclides se transformara em realce para uma personagem feminista de vanguarda). Mas, digamos, isso é passado.

O diabo é que o passado na literatura é um infindável presente. Nela não há jornal velho ou produto com a validade vencida. Se nos perdoam os norte-americanos, na literatura há uma eternidade muito acima da dos diamantes, pois em vez de pedras a humanidade é que brilha. E se perdoam o passo, passagem e queda, queremos dizer, aquele passado ruim, precário e pretensioso de Mario Vargas Llosa torna a voltar em Tia Júlia e o escrevinhador. Então digamos, isto é presente.

Para o caso de Tia Júlia, pouco importa se o narrado se atribua a um autor de radionovela, Pedro Camacho, louco de frases sonoras e de extravagâncias, ou a um escritor cujas recordações se confundem com as do tido como o Magnífico Mario Vargas Llosa. Importa o conjunto, a forma da argamassa geral do livro, e o sentimento de dó, constrangimento que causa até nos olhos de quem desejava apenas se entreter, mas sem rebaixar a própria inteligência. Pois o que diria um leitor diante desta literatura cuja eternidade está mais para diamantes que para a humanidade?

“Demorou para pegar no sono e, quando pegou, começou imediatamente a sonhar com o negro. Via-o cercado de leões e cobras vermelhas, verdes e azuis, no coração da Abissínia, de cartola, botas e uma varinha de domador. As feras faziam graças ao compasso de sua varinha e uma multidão espalhada pelas moitas, troncos e galhos alegrados pelos cantos dos pássaros e o chiar dos macacos, o aplaudia loucamente”. Dirá no mínimo que estamos ante um mau escritor, que divaga para expressar o mundo dos sonhos sem entrar na pele do personagem. E pior, que neste romance não há uma seleção de fatos, que são substituídos por amontoados descritivos. Mas o trecho é de Pedro Camacho, ruim e extravagante de ruim de propósito. Então vamos ao próprio escritor.

Além da falta de seleção de pessoas e circunstâncias, com narração sonolenta, em um relato de paixões e carnalidade quase não há sexo, ou o que seria mais humanamente literário, de promessa de sexo entre belos e saudáveis primos que se contam segredos, por exemplo. Em um trecho, o narrador fala a sua prima, e dela faz uma confidente amorosa. São dois jovens que se falam de amor e paixão, sem que se envolvam na chama. O que vem a seguir não é crível, acreditem, quando um impetuoso rapaz de 18 anos conta para a linda prima:

“– Você gosta da Julita só ou está apaixonado por ela?

Houve tempo em que lhe fizera confidências sentimentais e agora, como ela já sabia da história, fiz de novo. Tudo havia começado como uma brincadeira, mas, de repente, exatamente no dia em que senti cumes de um endocrinologista, me dei conta de que estava apaixonado. Porém, quanto mais voltas dava, mais me convencia de que o romance era um quebra-cabeça. Não só por causa da diferença de idade. Ainda me faltavam três anos para terminar a advocacia e eu desconfiava que nunca exerceria essa profissão, porque a única coisa de que gostava era escrever. Mas todos os escritores morriam de fome. Por ora, só ganhava para comprar cigarros, alguns livros e ir ao cinema. E tia Júlia ia me esperar até que eu fosse um homem capaz de saldar suas dívidas, se é que algum dia chegaria a isso. Minha prima Nancy era tão boa que, em vez de me contradizer, me dava razão:

– Claro, sem contar que aí você talvez não goste mais da Julita e largue dela – me dizia com realismo. – E a coitada terá perdido tempo miseravelmente. Mas, me diga uma coisa, ela está apaixonada por você ou está só brincando?

Respondi que tia Júlia não era uma biruta frívola como ela (coisa que a encantou).”

A isso caberia só uma anotação ao lado: absurdo! O autor relata como um burocrata, isso conta sem que se reflita nos personagens o que ele conta do que fazem. Em romance, ou melhor, em arte, isso é grave. Ele descreve fatos, não narra gente. O reflexo do acontecimento na pessoa navega ao largo. Aquilo que aprendemos em desenho, em imagens do bom e velho cinema, de que a sombra do personagem, em momentos dramáticos, é mais humana que a pessoa, e nem precisaríamos ir a Eisenstein, pois nos basta o que o genial Kafka ensina quando elude o prosaísmo que é o simples contar fatos, esqueçam. Ou melhor, lembrem por oposição neste passo do Tia Júlia:

“– O que eu não gosto nem um pouco é a história do revólver – comentou tia Júlia. – Acho que é em mim que ele haverá de dar um tiro. Olhe, Varguitas, espero que meu sogro não me mate em plena lua de mel. [Negrito desta resenha] E o acidente? Coitado do Javier! Coitado do Pascual! Que confusão a gente aprontou para eles com nossas loucuras…

Pagamos o hotel, fomos tomar um café com leite na praça de Armas e meia hora depois estávamos outra vez na estrada, em um velho lotação, rumo a Lima. Durante quase todo o trajeto, fomos nos beijando, na boca, no rosto, nas mãos, nos dizendo ao ouvido que nos amávamos e brincando com os olhares inquietos dos passageiros….”.

Para não dizer absurdo, digamos, isso é falso. O jovem Vargas de 18 anos e sua tia de mais de trinta estavam sob a mira de uma explosão familiar, com ameaças de morte de um senhor arbitrário, pai do narrador, sob escândalo moral e de costumes. E no entanto rumavam para o centro do vulcão em Lima aos beijos e apertos. Quem já passou pelo amor e paixão tensos e perseguidos sabe que as linhas citadas acima são vazias de significado. Amantes à beira do limite de uma dissolução não agem com tamanha leviandade, digamos, para dizer o mínimo. Nesses dois falhos personagens não há o morre e renasce, morre e renasce, como as batidas de um músculo no peito. Júlia e Varguitas longe estão de seguir para o centro de suas vidas com os olhos vermelhos, porque desejariam renascer, quando na verdade fariam um nascimento a fórceps, vindo daquela luz emitida por Goethe. “Enquanto não compreenderes que tudo morre e que tudo renasce, continuarás a ser apenas um visitante de um triste planeta”.

Qual. Para quê um clássico luminoso, para que exigências de humanidade em personagens cômicos, burlescos? Em Tia Júlia e o escrevinhador, Mario Vargas Llosa vence o escândalo, os traumas, a tempestade, a inexperiência de adolescente, pelo que conta em suas linhas. “O casamento com tia Júlia foi realmente um sucesso e durou bem mais do que todos os parentes e até ela mesma tinham temido, desejado ou prognosticado: oito anos”. Que sucesso! O narrador venceu todas as dificuldades. Em Tia Júlia e o escrevinhador, Mario Vargas Llosa perdeu apenas o mais essencial para um escritor: a construção e a responsabilidade da arte de narrar.

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O livro de Urariano Mota publicado pela Boitempo, Soledad no Recife, já está à venda em versão eletrônica (ebook), agora com novo preço: R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

O menino-passarinho

Por Urariano Mota.

No texto Como ensinar literatura eu mencionei o conto “Daniel”, que recupero a seguir. O título muda para “O menino-passarinho” em homenagem ao lirismo dos jovens que o escutaram tensos. Em outra oportunidade, falarei sobre o amigo que originou o personagem. A ele, agora.

Da turma, Daniel era o mais gordo. Ainda que sob protestos, ele crescera pelos lados, elastecendo um círculo de carnes. Em seu rosto largo destacavam-se sobrancelhas peludas, que se uniam simetricamente num ponto de inflexão, ficando a sobrancelha esquerda e a sobrancelha direita ligadas como asas dum pássaro, movendo-se no espaço da fronte. Essa união desairosa o incomodava. Se ele tivesse ultrapassado aquele momento crítico em que rapazinhos e mocinhas se entreolham, pesquisam-se, em que as mudanças no corpo, na face, são mudanças de revelação, Daniel teria sobrevivido àqueles elos de siamesas. Mas as sobrancelhas para Daniel não eram propriamente uma revelação, porque há muito vinham sendo anunciadas. Se pudesse, naquela quadra da sua vida, teria feito uma cirurgia. Uma nova face, de quaisquer outras sobrancelhas, finas, ralas, densas, espessas, não importava, desde que fossem gêmeas cada qual a seu canto. Ele se sentia, ou melhor, os meninos e meninas faziam-no sentir-se um rapaz anormal, em razão de se acompanhar do que achavam anormais enfeites sobre a testa. E enfeites muito salientes, cerrados, que se apresentavam à frente, antes que dissesse, “eu sou Daniel”. Enfeites incapazes de disfarce. A não ser que se colocasse permanentemente de perfil.

Em outra pessoa aquelas sobrancelhas viriam a ser um distintivo de elegância, mas em Daniel … Ele era gordo, carregava a fama de ser um quase idiota. Quem é tido como insignificante já traz em si a sua zombaria. O grupo de alunos se tornava coeso, punha-se mais camarada na eleição de Daniel para o divertimento. Que julgavam tão inocente:

– Daniel, tira essa máscara. Tira essa máscara, Daniel!

E num requinte de inocência, um do grupo virava-se para as mocinhas:

– Quem quer, quem quer um quilo das sobrancelhas de Daniel?

Ele não se escondia, não descia para um buraco, porque era impossível sumir por entre os sinais do seu rosto. A classe toda numa gargalhada geral estourava.

As meninas, a princípio tímidas, terminaram por aderir a esse tipo de malhação. Porque era malhado, Daniel transformara-se involuntariamente no contato entre moças e rapazes, que antes mal se relacionavam. A cada troça as mocinhas dobravam a risada. Ruborizavam-se. Os rapazes, sentindo a terra fértil, acercavam-se mais estreitamente. Um banquete.

Desse banquete Iara não participava. Entre a alegria ruidosa ela estendia olhos silenciosos para Daniel. Ele baixava a cabeça. Talvez ela fosse a única pessoa da turma que o olhava como um todo, inteiro. Ele furtava ainda mais o rosto. Isso deixava Iara indignada: por que em meio a toda aquela zombaria era ele o envergonhado?! Iara sentia uma indignação muda, apenas sentimento, de sentimento que fere somente a quem o possui, porque não encontra meios ou argumentos para se exteriorizar. Como, com que palavras, com que forças levantar-se e falar mais alto que a selvageria? Como dizer, “turma, isso não se faz”? Como argumentar, “não se acanham de zombar de um colega, a quem vocês mesmos transformaram num coitado? A vergonha que ele sente deveria ser nossa”, como dizê-lo? Para se expressar assim, era preciso que Iara tivesse mais que catorze anos, e também um cajado, forte, com poderes de bater e emitir raios de um profeta. Impossível. Ainda que tais meios tivesse, ainda assim seria derrubada. Pois não é próprio do grosseiro se comprazer na grosseria? A grosseria não suporta qualquer alteamento. Revolta-se, quando importunada.

Em verdade, nessa indignação muda, Iara possuía, ela mesma, um quê de resguardo à troça.

Seu pai era um louco, um desequilibrado, que vivia a falar sozinho, a pregar um evangelho raivoso nas ruas, na praça, a todos e a ninguém. A causa imediata de sua pregação era sempre uma pequena contrariedade, real ou imaginária, mas de qualquer forma desenvolvida até as raias da explosão. Que explodia, deixando um dilema para as vítimas: ou concordavam com as suas palavras, e nesse caso atingiam a salvação, ou caso contrário emborcariam de cabeça, atingindo as profundas, sem remédio ou absolvição.

Ele não tinha nome, era o Pastor do bairro. E tinha a mania insuportável de ficar no portão do Ginásio, à espera angustiada da filha. Calvo, de bigodes bastos, metido sempre num casaco de frio, ainda que o sol infernizasse a tarde. Vez por outra ia até a porta da sala. Mergulhava a cabeça de olhos grados, e perguntava somente a ela, por cima de toda a turma: “já acabou?”. E voltava ao portão, em passos miúdos, rápidos. Ah, que não lhe levassem a filha, sabia da fama do Ginásio, e daqueles meninos: taras, tarados, demônios. Fincava os pés na vigilância do pátio, dos muros, das janelas.

Não fosse a suave altivez de Iara, há muito ela teria caído nas graças da zombaria. Tivesse ao menos um ar resignado e ter-lhe-iam caído em cima, até arrancar-lhe a pele. Ao aparecimento do pai ela erguia o semblante para o quadro-negro, surda, parecendo a Daniel com a mesma expressão severa de Joana D’Arc nos quadros. Risinhos abafados corriam, mas não prosperavam.

Ela era bela, suavemente bela. Pequenina, morena, de olhos amendoados. A mulher que seria já estava aos catorze anos organizada. Essa certeza vinha menos do corpo que da expressão madura do rosto. Que banhava, essa expressão madura, todo o seu corpo. Ela era aquela menina que se namorava, que se abraçava fortemente, degustável, sem pressa, até o fim dos dias.

Daniel comia-a, com os olhos. Desastrado que era, ao invés de soprar, quebrava o prato pelas beiras.

Como um acréscimo a seu natural, Daniel perdia, definitivamente, o senso da realidade ao sentir pelo faro, pelos ouvidos, pelo perfume, a presença de Iara. Inchava o peito, girava nos calcanhares de modo a ficar de perfil, como um Napoleão de hospício, para demonstrar que não a via. Mas aquele moreno hindu o atordoava. Quando em casa idealizava seus próximos atos, prometia-se que ela receberia a demonstração do seu afeto. Num repente virava-se, lá, aqui estava ela, à margem de toda agitação, quieta. Como um raio lembrava-se da própria testa, mas era necessário demonstrar-lhe o próprio afeto: cuspia-lhe um cumprimento, rápido, como uma bala, arremessada por um aceno bruto de queixo: “Ôi!”. E tornava à posição napoleônica, ouvindo, discutindo não sabia o quê, porque nada ouvia, nada falava do que lhe vinha à mente, que era a presença morena, loucamente morena, daquela pele que um dia sonhava distantemente, perdidamente tocar com as mãos.

– Daniel, você está me ouvindo?

O colega, irritado, chegava-se ao pé do seu ouvido, para baixá-lo do além:

– Você já viu mulher nua? Bem cabeluda, você já viu uma?

– Sim, claro… a ruiva não é como a morena.

Estremecia. Ia sentar-se a um canto, isolado. Era necessário agir. Mas o que era o agir? As pernas suavam. Uma algidez progressiva ia-lhe tomando os membros. Os planos de ação rápida, arquitetados lá dentro do cérebro, naquele lugar íntimo, no pontinho escuro onde o voo é livre para todas as coisas ridículas, risíveis, burras, vaidosas, de superstição, de crime, de vingança, roubo e vontade, enfim, naquela célula privatíssima onde o sonho não se envergonha de sonhar, naquele pontinho que imagina, tudo que ele gerasse era incompatível com a sua pessoa. Ele, Daniel, sonhava para outro Daniel. O Daniel sonhado não era para o Daniel materializado. Por que não fazia a corte como os outros? Nem como os outros, qualquer corte que fosse algo mais que recolher a cara envergonhada quando Iara descia até ele os humaníssimos olhos? Haveria alguma estrada, alguma ponte invisível, que ninguém visse, somente eles dois, que o levasse até ela?

Se ele fosse magro, se não mangassem dele, se tivesse dinheiro no bolso, se tivesse futuro, isto seria uma ponte. Se ao menos tivesse sobrancelhas de gente. Suas calças não guardavam vinco. A camisa não lhe descia, verticalmente, por entre as calças. Ela apenas era puxada, repuxada, naquela barriga. Se ao menos fosse como Gilvan, como Aciole – eles eram olhados, eles podiam ter as meninas que quisessem, num assobio. Elas abanavam o rabo, como cadelas. Eles têm um rosto bonito, de galã de cinema. Como seria feliz se tivesse o corpo deles … eles têm músculos, são atletas, pulam obstáculos, mostram-se num porte … Eles têm peito de homem. Onde está a mulher que não consigam? Por que a miséria não gosta da miséria? Isso fere. Por que a miséria detesta e pisa a miséria?

Num belo dia, Daniel entrou no Ginásio de sobrancelhas raspadas. Ou melhor, ele amputou o corpo, o ponto onde se uniam as duas asas do pássaro. Ou melhor, pensando em amputar o corpo, inabilmente foi mais longe, amputou também pedaços à esquerda e à direita das asas, fez sumir os pedaços que a natureza fazia cair rumo a um encontro. Melhor, no que sobrou, diminuiu o volume, a espessura dos pelos, ou das plumas. Melhor, finalmente, tirou plumas abaixo e acima das articulações, reduzindo-as a finas linhas.

A cirurgia deu nascimento a dois pontos de interrogação deitados, quase a dois acentos circunflexos incompletos, sem acomodação.

O turno da tarde, o Ginásio inteiro se levantou. Daniel não conseguia sentar-se em uma cadeira. Ficava rodando, com sua cara gorda de palhaço, por entre a turba excitada. “Mulherzinha, mulherzinha”, vinha em gritos agudos, vaias, risadas, de início uma passarada de praga, depois uma massa compacta, “Mulherzinha!”. Estrondavam. Num gesto reflexo, Daniel punha as mãos sobre o rosto, protegia a cabeça como um ser em queda, como um suicida em arrependimento tardio que se lançou do alto de um arranha-céu.

Não se pode dizer que pensava, mas seu arrependimento tardio parecia tão somente dizer, “em que deu, Daniel, em que deu o teu sonho impossível de te fazer aceito”. Ao que outra voz respondia, na mesma escuridão, por entre seu corpo aos soluços, “agora o teu sonho se vai, Daniel. Antes houvesses feito do que era impossível uma hemorragia”.

Com solenidade, os professores arrastaram-no para a secretaria. Uma procissão de meninos seguiu-os.

Na secretaria, diante daquele ser cabisbaixo, dona Augusta mandou que ele erguesse o rosto. A medo obedeceu: tinha o rosto úmido, inchado, com as inscrições esborrachadas na testa. A diretora então, em seu natural prosaico, achou por bem ajeitar-lhe as interrogações deitadas sobre os olhos, enfeixando-as numa única interrogação:

– Por que você nunca usou um boné, Daniel?

E assinou a sua expulsão.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

O amor verdadeiro de Madre Teresa ou Como escrever um bestseller

Por Urariano Mota.

No firme e forte, ou melhor, sonhado propósito de virar um escritor de bestseller, andei pesquisando como um louco, como um morcego de guincho sem eco a bater no escuro das cavernas, procurando a fórmula, a receita ou o segredo.

Antes, confesso, eu pensava que um bestseller se fazia pelo título. Quero dizer, antes eu pensava que os livros se vendessem como os artigos de jornais e revistas, que atraem nossos olhos pela fraude e falsidade das manchetes. Assim, imaginava que os livros mais vendidos ostentassem chamadas, que eu julgava fossem títulos, como “As perversões sexuais de Hitler”, ou “A cama secreta da Rede Globo”, ou mesmo “O sexo descoberto da Madre Teresa de Calcutá”. Engano meu, porque ao consultar a lista dos últimos mais vendidos – últimos, porque mais veloz que o bestseller só a velocidade da luz – vi títulos que, em si, não eram um apelo imediato aos instintos ou à curiosidade mais censurável. Estavam lá: Ágape, O melhor de mim, Para sempre, É tudo tão simples… e eu complicando.

Mas na pesquisa que andei fazendo sobre como virar um autor bestseller, se não descobri o sexo secreto, pude ver o que antes não sonhava: uma certa e certeira uniformidade de características. Entendam. Não é que sejam comuns para eles, os bem-aventurados dos autores, temas, assuntos, épocas e, mais importante, idioma. Apesar de muitos editores pensarem que o best venha do inglês, está aí Padre Marcelo, que pegou uma distensão de tanto autógrafo, mas abençoou e abençoou filas intermináveis de leitores, está aí Paulo Coelho, que só escreve em inglês quando traduzido. Não, a uniformidade a que me refiro é outra, ou são outras.

Em primeiro lugar, um escritor best se assemelha às bestas-feras de vendas nos temas. Umberto Eco, um Bat writer que não se perde nas cavernas, já diagnosticou que o primeiro passo é encontrar um magnífico tema. E recomenda algo como Trevas, Idade Média, Maçonaria, anel dourado, Santo Graal, sociedades tumulares, subterrâneas. E haja pesquisa, para que se movam os crimes e criminosos. Bom, se olharmos as listas, esse é apenas um tipo de best, porque para vender bem a primeira condição, na diversidade de temas, é se afastar léguas de qualquer sofisticação na língua, na complexidade de pessoas e personagens. É sempre se manter em uma visão de mundo conservadora, nunca, jamais, nevermore contestar a organização da sociedade. Os sofredores, porque há peripécias e enovelados enredos antes em que o herói sofre e sofre, os sofredores vencerão, porque deles é a palma ao fim, quando hão de subir ao pódio sob as regras vigentes. Bem-aventurados os que sofrem…

Os editores de arrasa-quarteirão, em concordância com os maiores vendedores e empresários, possuem uma fórmula infalível para seus bests: é preciso realizar as necessidades e desejos do público-alvo. Isso é mais que um nec plus ultra, é o tudo, o todo e o total. Pois o que deseja toda a gente? Conforto, riqueza, amor e felicidade, conforme as leis do mercado e da justiça secular do mundo. Então, passa a ser bom o machucado corpo de coitados – em tudo semelhantes e iguais a quem lê as páginas – para que ao fim recebam o prêmio do paraíso, na terra e no céu. É justo. Todos ganhamos, ainda que se roube a literatura. Mas se assim é como alvo, espírito e conteúdo, como escrever, produz essa alegria geral? Os autores/editores bests recomendam nada mais, nada menos que não se elabore algo mais alto, difícil, que leve à pausa ou à reflexão.

“Desde a antiguidade os leitores buscam em livros o mocinho ou mocinha para torcer. Tem toda aquela história de que ele precisa passar por momentos difíceis antes de se tornar herói. A sua criação tem que ser diferente, não elabore algo maçante, que todos já saibam o que irá acontecer, descreva melhor os acontecimentos. Cuidado com invenções, nada de tornar sua escrita rebuscada. Os estilos literários podem ser utilizados e dar incremento a obra. Deixe o texto fluir de uma forma que o leitor não precise interromper a leitura para pensar no que o determinado parágrafo quer dizer. Por exemplo, se tratar de alguma investigação explique alguns detalhes de como é feito. Isso deixará o leitor com curiosidade para entender o caso. Mas o que muitos também procuram em um livro é o aprendizado. Buscam algo que possa acrescentar e que lhes ensine”.

Santas palavras. Se olhamos na lista dos mais vendidos o Jogos Vorazes, dele se fala que em suas páginas aparecem adolescentes forçados a participar de um jogo de vida ou morte, transmitido pela televisão. Quem vencerá, ou sairá vivo desse mortal Big Brother? Já no escritor Nicholas Sparks, no lindo livro livres lágrimas O Melhor de mim, vem o gênero “romântico”. Nele dois adolescentes se apaixonam e se separam até um reencontro, hum… Fala o herói para a reencontrada: “Porque você não é só alguém que amei no passado. Você era minha melhor amiga, a melhor parte de quem eu sou, e não consigo me imaginar desistindo disso outra vez. – Ele hesitou, buscando as palavras certas. – Eu lhe dei o melhor de mim e, depois que você foi embora, nada jamais voltou a se o mesmo”. Agora vocês entendem o que é livro lindo livres lágrimas. E por último, porque meu coração anda meio balançado entre a boca e a náusea, vem o maravilhoso livro Para sempre. Inolvidável, Para sempre é para sempre um grande exemplo de amor, fé, esperança e determinação. Uma história real de superação admirável, cujo resumo canta:

“A vida que Kim e Krickitt Carpenter conheciam mudou completamente dois meses após o casamento, quando a traseira do seu carro foi atingida por uma caminhonete que transitava em alta velocidade. Um ferimento sério na cabeça deixou Krickitt em coma por várias semanas. Quando finalmente despertou, parte da sua memória estava comprometida e ela não conseguia se lembrar de seu marido. Ela não fazia a menor ideia de quem ele era. Essencialmente, a ‘Krickitt’ com quem Kim havia se casado morreu no acidente, e naquele momento ele precisava reconquistar a mulher que amava”.

E reconquista! É de dar convulsões.

Terrível. Firme, forte e fulminante, desisto. Ou melhor, amigos, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa, eu pecador confesso: dou um tempo, porque resistir invencível ao dinheiro futuro que há de? Nem mesmo o amor secreto da Madre Teresa de Calcutá.

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O livro de Urariano Mota publicado pela Boitempo, Soledad no Recife, já está à venda em versão eletrônica (ebook), agora com novo preço: R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Terroristas no tempo de Médici

Por Urariano Mota.*

Samuel tomou conhecimento dos assassinatos na praça de Paulista. Ele esperava o ônibus da Alumínio SA, que o deixaria na fábrica em Igarassu, onde com orgulho vestia o seu macacão. Ao ver as fotos no jornal pendurado na banca, ele não conseguiu reprimir a exclamação:

– Caíram! Meu Deus …

Ato contínuo foi lendo com raiva e ansiedade: “equipes especiais dos órgãos de segurança cercaram no último dia 9 um ‘aparelho’ numa chácara em Camaragibe, utilizado como centro de treinamento de guerrilha. Dada ordem de prisão os terroristas que ali se achavam reunidos reagiram a bala. Após cerrado tiroteio, foram encontrados no aparelho dois terroristas mortos. Dois outros conseguiram fugir …”.

– Mentira, canalhas – resmungou. E olhou para os lados. Era como se a praça, a avenida, a feira de Paulista, estivessem vazias. Porque desconheciam o cinismo da manchete estampada no jornal.

– Isso é uma canalhice! – Samuel conteve-se, à força, para não gritar. Quanto sofrimento coberto pelo silêncio. Ele o sabia: Vevê há uma semana fora arrancado da casa dos pais por soldados. Num sequestro, pode-se dizer, à maneira de quem toma da família um cão danado. Agora ele aparecia como terrorista, morto, porque teria trocado balas com a repressão. Isso acusava também a falsidade das circunstâncias da execução de Cíntia. Desde que entrara para a clandestinidade, tornado-se operário, não mais a vira. Tomaram caminhos paralelos. Ainda assim, sabia-o, a prática da organização não era a de treinamento de guerrilha em chácara, pelo menos no grande Recife. Haviam sido assassinados sob tortura, desarmados, isso era evidente. A bonequinha de milho fora machucada até o último sopro de vida. Samuel sentiu-se tomado por um profundo desprezo, um desdém por sua própria segurança. “A revolução há de responder”, ele se disse, em voz baixa. Ergueu-se. Sentia-se cheio de coragem, mas não no sentido vulgar que é dado a essa qualidade. Nada de fanfarronice, de pabulagem, ou de se sentir melhor e mais alto que o comum da gente. Apenas estava tomado pela decisão de fazer o que era preciso ser feito. Sem ostentação, mas com uma naturalidade prenhe de raiva. Como dizer, decompondo essa raiva? – angústia, paixão, amargura. Ele não queria que chegasse a sua vez, de morrer amordaçado sob a dor – isso ele não queria. Mas se esse fosse o único e possível preço … que raiva o invadiu por tão estreita opção, que não se liberava nem se deixava expandir para um campo de luta aberto. Ele se dizia, sem articular em vocábulos: “chama-me, convicção, e eu te responderei. Mas, luta, dá-me pelo menos a lealdade de armas claras no duelo. Sem canalhice, sem essa brutal infâmia. Sem ter de optar entre o amor por minha particular humanidade e a humanidade do amor geral, histórico. Eu não quereria sacrificar os olhos de quem mais quero à minha convicção. Mas a isso nos impelem. Canalhas…”. E gritou, a todos e a ninguém, em frente à igreja de Santa Elizabete:

– Filhos da puta!

Baixou o rosto, e numa convulsão autônoma ficou com as mãos apertando-se nos bolsos. Quase não ouviu o ônibus da Alumínio buzinando.

João chegou no trabalho afundado. Desejava, porque estava triste, afastar de si todo e qualquer convívio, ao mesmo tempo que gostaria da compreensão por seu estado de tristeza, numa parca esperança de solidariedade. Era necessário, no entanto, e aí o seu rosto não sabia que face vestir, era necessário no entanto ostentar frieza, indiferença, como se não soubesse da notícia dos jornais, para que o rosto de dor não lhe atraísse suspeita, assemelhando-o aos companheiros mortos. Sabia-o na inteligência, – como dizer? – por instinto primário, animal, que o insinuar de um sorriso cúmplice com os assassinatos da manhã seria bem-vindo. Mas um frio no estômago lhe interditava essa possibilidade. “Disse-lhe Pedro”, vinha-lhe num tormento: “Por que não posso eu seguir-te agora? Darei a minha vida por ti. Jesus respondeu-lhe: Darás a tua vida por mim?”. A pergunta lhe chegava num espanto, incrédula: “Darás a tua vida por mim?!”.

Entrou no escritório. Sentou-se, abriu a gaveta, fechou-a, tirou a capa da máquina, sem saber como a partir de tais movimentos rotineiros iria tocar o seu dia. Ouviu, do chefe janota:

– Pegaram uns terroristas hoje. Vocês viram?

Abriu e fechou a gaveta, fechou e abriu, cabisbaixo, imergindo todo nesse ir e vir. Um perfume enjoado, ativo, mistura de repelente e álcool, chegou-lhe próximo:

– A puta era até bonitinha. Carinha de anjo, mas terrorista. Você viu, João?

– Eu? – “Darás a tua vida por mim?” pensou – Não vi o jornal hoje.

Um bolo azedo lhe subiu à boca.

– Trocaram tiros com a polícia… São afoitos.

Era como um cerco. Deviam ter desconfiança dele, e vinham com armadilha, estimulando-o, para que se traísse pelo coração na goela.

– Vocês se lembram da bomba no aeroporto? Tem que matar mesmo. Eu nuca vi terrorista ter cura – dizia um velho, que João sabia ser um funcionário desonesto.

– Mocinha tão bonita … – acrescentava outro, em falsa piedade – …desencaminhando jovens de família.

“Eu a quero como um homem sozinho quer o seu amor em silêncio”, bateu-lhe na mente. E rosnou:

– Os jornais mentem muito. – “Com a ternura e raiva e um bem guardado no mais íntimo segredo”, os seus olhos quiseram marejar. Conseguiu mantê-los num seco frágil.

– O quê, o que você disse? – voltou-se o chefe.

Quis responder com voz alta e firme, “eu disse que os jornais mentem”. Mas a voz, teimando em lhe sair num fio, que era a expressão do seu real embaraço, tropeçou nas sílabas:

– (Eu) diis-se que os (jor)nais (es)tão meentindo…

– Como é que você disse?

João sorriu, para a sua desgraça e inferno sorriu, como um menino espancado em frente a visitas. A fortaleza evadira-se do peito. Em luta, restou-lhe um meio sorriso, procurando ganhar tempo para o desvencilhar do enredo. E como os segundos de um embaraço multiplicam-se na angústia, a sua inteligência descobriu uma terceira via: ele deu de ombros, e declarou num ar de quem fala coisa de pouca importância:

– Esses jornais… de vez em quando eles inventam. A gente tem que dar uns descontos.

– Ah! mas eles eram terroristas. Isso não é mentira, é?

“Jesus respondeu-lhe: Darás a tua vida por mim? Em verdade, em verdade te digo: Não cantará o galo sem que tu me tenhas negado três vezes”. João virou-se e procurou começar a bater a máquina. As lágrimas teimavam em lhe vir aos olhos.

– Mas eles não eram terroristas? – ouviu de novo. “Disse-lhe Pedro: por que não posso eu seguir-te agora?”. E era como se o indivíduo que estava às costas lhe dissesse: tu também és um deles. E o seu silêncio frente à pergunta, “eles eram terroristas, isso não é mentira, é?”, soava como a resposta “Eram. Mas eu não sou um deles”. As teclas da máquina ficaram embaciadas. Então ele se levantou da cadeira com um nó na garganta pronto a desatar. E, tendo saído para fora, chorou amargamente.

* Do romance “Os corações futuristas”.

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O livro de Urariano Mota publicado pela Boitempo, Soledad no Recife, já está à venda em versão eletrônica (ebook), agora com novo preço: R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

A pobreza é uma piada

Imagem dos personagens Primo Rico e Primo Pobre, do programa humorístico "Balança mas não cai", criado na Rádio Nacional na década de 1950 e posteriormente exibido na TV Globo a partir de 1968

Por Urariano Mota.

Como se sabe, os pobres são ridículos. Eles estão sempre metidos em situações de vexame, e o mundo inteiro para eles é um vexame, porque o mundo todo está sempre alguns palmos acima de suas posses. Então eles se metem onde não devem. Vão  irrefletidos, insensatos, aonde não deviam ir. Aliás, só existe um lugar onde podiam e podem estar: debaixo e abaixo de uma vida confortável e digna. Imaginem o que é um miserável a tocar violino cercado pelo mangue, casebre e lama. E com uma carinha negra a dizer “eu não gosto deste movimento de Vivaldi”. Ridículo.

Essa reflexão me veio esta manhã ao ouvir a última piada de um pobre. Ele, o eterno a dar vexame, estava no aeroporto – lugar onde não devia estar, a não ser lavando o chão – e desprevenido foi à lanchonete e pediu uma coxinha. Ao se dirigir ao caixa, soube do preço: 7 reais. Então recusou a tantalizadora, tenra e crocante coxinha. Mas o melhor da piada, o maravilhoso desfecho vem agora: ao se ver olhado por outros que estavam onde sempre estiveram, porque ambientes de luxo lhes é familiar, o pobre comentou num acesso de verdade:

–  Muito caro. Isso é um Prato Feito no Piauí.

Ridículo. Ai dos pobres que cedem ao rompante, à generosidade da fala verdadeira. Então me veio à lembrança um dos meus personagens mais conhecidos, que adolescente viajou em um navio rumo à cidade maravilhosa, mais conhecida pelo nome de Rio de Janeiro. Pobre, suburbano, e de navio. Ah, foi uma sucessão de piadas e gags, que Chaplin jamais filmou, que Cantinflas com o seu rabinho à guisa de cinto nunca pôs no cinema. Na mesa do restaurante do navio, diante do garçom, o jovem pede um abuso de culinária na sobremesa:

– Me dê um champanhe.

E o garçom, sério como um Buster Keaton:

– O jovem se refere ao refrigerante.

– Sim, um guaraná champanhe da Antártica.

Depois, mal refeito, pede um bife com macarronada. Perdoem, mas este autor não é um humorista. Pois vem o macarrão e o jovem, à sua maneira, tenta comer a iguaria que, feito de matéria elástica, não sobe completa à boca: desce em fios gordurosos pelo queixo. Então um senhor classe média, comovido e comovente, como todo bom cristão, insinua um fim àquele desespero gastronômico:

– Não sei em Pernambuco, mas nós, em São Paulo, comemos assim.

E se pôs a cortar antes o macarrão no prato, com a paciência de quem não vive com fome, que come com modos civilizados desde a corte francesa. Então o jovem, bom aluno, responde:

– Gostei do modo paulista de comer macarrão.

Todo o pobre é sempre uma piada. Ou ele é a empregada doméstica que fala a todos, sem cerimônia, que teve um câncer e amputou um seio, ou é um homem cego, em cadeira de rodas, que urina diante de visitas em plena sala. Os cegos não veem, vocês já percebem a piada. Todo pobre é ridículo. Dizem que eles, como os negros, ou fazem na entrada, ou fazem na saída. Então me lembrei de outra piada.

Um dia houve que um menino e sua mãe não tinham dinheiro nem comida para a principal refeição do dia. Comer, para toda a gente, mas principalmente para os pobres, é razão fundamental de viver. O pai do menino passara dois dias sem voltar para casa, e assim procedia porque se entregara a nova paixão. Estava de novo amor. Talvez, quem sabe, porque a mãe do menino estivesse uma senhora gorda, a disputar em programas de auditório no rádio o prêmio de igualar o peso de uma cantora ainda mais gorda. E, verdade, tantas vezes conseguiu igualar o peso da estrela que terminou por receber um prêmio de consolação, um corte de fazenda para fazer um vestido, que nunca fez, porque o vendeu. Para quê vestido, se comer era mais importante?

Mas assim como um temporal que chega sem aviso, um portador trouxe para a mãe, como prova de que o marido não fugia aos deveres do matrimônio, quando tudo era aflição, eis que um anjo lhe traz uma nota de duzentos cruzeiros. Sim, uma cédula que trazia no verso o Grito do Ipiranga. E o que ele mais lembra: mal o portador se ausentou, a mulher puxou o filho. E o que ele mais lembra, fundamente, como a sua mais íntima e guardada pele: a mãe pulava, rolava pela cama, e sua alegria era tamanha que chorava de felicidade. Nos olhos vermelhos, nas bochechas subitamente róseas, a alegria dela não se continha, pronta a gritar, a anunciar para a rua: 

– Hoje temos almoço! Hoje temos galinha!     

Como dizia antes, os pobres são ridículos. 

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O livro de Urariano Mota publicado pela Boitempo, Soledad no Recife, já está à venda em versão eletrônica (ebook), agora com novo preço: R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

O lugar do escritor no Brasil

Pintura de Rodolfo Mesquita

Por Urariano Mota.

As notícias nos jornais, que fazem da história real um eterno fla-flu, não deixam dúvida: militares da reserva atacam a presidenta Dilma e a ministra Maria do Rosário, por atos e declarações sobre a ditadura. A presidenta reage, militares fingem um recuo, e o jogo segue, em aparente 1 a 1. Mas a notícia maior, que vem sendo construída há mais de uma geração, fala mais fundo além dos jornais: durante este ano o Brasil passa pela Comissão da Verdade, a partir do Congresso Nacional. Diante disso, o que dizem as vozes estéticas do Brasil, alheias à superfície das páginas do noticiário?  E os que usam a ferramenta exclusiva do verbo,  os escritores, o que temos com isso?

A julgar por suas intervenções públicas, até aqui, nada têm a ver. Entenda-se. Não se exige dos nossos criadores obras de engajamento nas questões de peso da pátria. Não, e seria abusiva e estúpida tal exigência, porque exterior à escrita mais pessoal, onde têm vez e voz o mais íntimo de cada um. Mas escritores escrevem artigos ótimos, crônicas cultas, dão palestras brilhantes, entrevistas maravilhosas, espetáculos do mais fino humor,   e entre uma exposição e outra do precioso ego, bem podiam dizer, falar, sugerir, recomendar algo como, por exemplo, “olhem, tem a ver conosco esta Comissão da Verdade. Ela é do interesse de todos os artistas”. E diante do silêncio de um entrevistador, cujas perguntas vêm antes da entrevista, o escritor perguntaria mais claro:  “Você não quer saber a razão?”. E o show continuaria, se não com mais graça, pelo menos com mais verdade.     

Mas tal não se vê, nem mesmo nos lugares de aparência livre de suas colunas. Por quê? Certo não é covardia. Se apostamos no grau de altura moral dos nossos irmãos, poderíamos dizer que este assunto urgente, de esclarecimento dos crimes da ditadura, para eles não vem à tona por uma certa, digamos, acomodação estética. Talvez uma estética de não ferir a boa vontade do dono, não da sua pessoa, pois nosso escritor é livre, mas de não ir contra a corrente dominante no meio. Ou de respeitar o espaço, que não é gratuito por todas as justiças. Quem trabalha, recebe, é justo. Quem paga, cobra, o que também é justo. Ora vá o escritor famoso à custa do jornal, pelo que  o magnânimo editor acha, ora vá o dono da folha cair na fria de pagar para o que não lhe interessa divulgar. Um absurdo. Se assim fosse, não existiria justiça na terra. 

Para que exista paz nas relações materiais do espírito, passemos a terrenos mais autônomos. Se o escritor nacional se ausenta do debate sobre a memória da ditadura nas aparições onde lhe pagam, onde o tema poderia causar no público um visível desconforto, e escritor, para a maioria no auditório, ou é um palhaço, ou um pop star  ou um bibelô, passemos a outro campo. Passemos, mas de passagem imaginamos o desagradável que seria lembrar assassinatos, torturas e sua impunidade numa conversa educada. Imaginem a indelicadeza. Que assunto mais fora de tema, pois a concepção reinante de literatura se dirige mais para a excelência do criador que para o valor absoluto da realidade.  

Passemos ao terreno mais pessoal, de conversas, de mensagens pessoais, de manifestações de escritores entre amigos. O desencanto é grande. Causa espanto a capacidade que têm os nossos romancistas, poetas, de se ausentar da vida brasileira. A maioria de todos, digamos maioria assim, para ressalvar as exceções, estão metidos na viagem e divulgação da própria criação. Pouco se lhes dá que não só os  séculos, mas o presente histórico, aquele que vai além deste minuto, lhes solte gargalhadas quanto à maravilha de suas crias. Aquela mesma gargalhada que um dia Balzac soltou, em um jantar entre seus pares, ao ouvir de um deles “nós, criadores…”. O magnífico Balzac não se aguentou:

- Nós, criadores?!        

E a gargalhada soou da altura de A Comédia Humana. Assim, para os nossos criadores, pouco se lhes dá agora o riso de Balzac dos séculos. Importa mais estar na onda, numa feliz adaptação do funk, “sou feio, mas estou na moda”. Ora, quando falamos da sua ausência da vida brasileira, como se isso fosse uma qualidade extraliterária, e, acreditem, não o é (perdoem essa construção), queremos dizer: os nossos escritores se ausentam de tudo que não diga respeito à sua extraordinária pessoa. Eles não refletem como agentes sociais, como pessoas que são chamadas à liça, como homens que sentem na própria pele a dor de um semelhante. Perdão, dor de um longinquamente parecido. Mas se assim é no geral, no particular exibem uma descrença – ou ignorância – que chega à raia do absoluto em termos políticos. Aderem fácil, fácil a qualquer onda de descrença em um governo ou pessoa ou idéias de esquerda. Mas isso, essa derrocada,  para eles tem o nome de ironia, pose de mais altos estudos e vivências pós-muro de Berlim.

A esta altura sinto – mas não “sinto muito” – que o título do texto deu lugar a uma crítica negativa. Em outra oportunidade, espero sobressair mais o lugar do escritor do Brasil com os exemplos mais eloquentes de Lima Barreto, Joaquim Nabuco, Drummond, Machado de Assis, Graciliano Ramos…  Agora, prefiro constatar que todos escritores temos uma arma, que está empoeirada sem uso: o nosso talento e sensibilidade para o que os generais e os príncipes jamais ousarão. Pois jamais os poderosos conseguirão algo que remoto lembre um Dom Quixote, um Rosa do Povo, um levante de consciências de levar os nazistas à queima de livros, a ponto de um general de Franco gritar “Morte à Inteligência”.      

No entanto agora, neste minuto, neste presente, a literatura, a poesia do futuro,  vem sendo construída à margem dos escritores. Logo, logo, esperamos, ela tomará o seu lugar, o lugar dela, que é seu por todos os direitos. Não por ora, que estamos cegos e distantes desta notícia:

“Maria Auxiliadora Lara Barcellos atirou-se nos trilhos de um trem na estação de metrô Charlottenburg, em Berlim… tinha sido presa sete anos antes, em 1969, no Brasil. Nunca mais conseguiu se recuperar plenamente das profundas marcas psíquicas deixadas pelas sevícias e violências de todo tipo a que foi submetida. Durante o exílio, registrou num texto… ‘Foram intermináveis dias de Sodoma. Me pisaram, cuspiram, me despedaçaram em mil cacos. Me violentaram nos cantos mais íntimos. Foi um tempo sem sorrisos. Um tempo de esgares, de gritos sufocados, de grito no escuro…’”

Por enquanto, essa breve tragédia ainda não fura a espessa couraça de nossos literatos.  É só uma nota na tela. 

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O livro de Urariano Mota publicado pela Boitempo, Soledad no Recife, já está à venda em versão eletrônica (ebook). Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

O frevo novo, jovem e renovado

Por Urariano Mota.

O quadro Frevo, de Lula Cardoso Ayres, bem que podia ser uma primeira aproximação do frevo dançado em Pernambuco. Ele é imagem precisa e preciosa do frevo ao ser dançado, numa dança que os pernambucanos chamam de “fazer o passo”, e haja passos, saltos, acrobacias, explosão de energia humana. Dizemos explosão e, para quem não viu nem conhece, esclarecemos que isso não é bem uma metáfora. No reino animal, o fenômeno que mais lembra a dança do frevo, quando os metais de sopro jogam no calor, para o azul do céu o frevo Vassourinhas, no reino animal o que mais lembra a dança coletiva do frevo é um estouro de boiada. A poeira sobe. Os gritos de libertação se gritam com força. É uma felicidade, um desassosego e um sufoco.  Quando Vassourinhas é anunciado como se deviam anunciar os batalhões na guerra, e quando por fim num surto Vassourinhas avança, sobe uma nuvem de violência no ar. Há bombos, percussão intensa, mas não sabemos se o baque pesado vem dos bombos ou dos passos, dos muitos pés, pontapés, cotoveladas, golpes que homens e mulheres se dão. É coisa forte, é tempero forte, é calor intenso, é gozo pesado, que é uma forma de ser de Pernambuco, desde a bebida, a grossa aguardente, aos pratos da gastronomia, que mais se devia chamar de gastroviolência. Nada de mais ou menos. É preto negríssimo, é branco de incandescer. Ou estás vivo, ou estás morto.

Dissemos explosão, e esclarecemos uma vez mais, escrevemos explosão sem usar imagem de escritor ocioso. Imaginem uma multidão, seis, oito, dez mil pessoas, imaginem toda essa gente comprimida em um espaço estreito. Imaginem agora que de repente toda essa gente enlouquece e quer correr, mas não sai do lugar, porque está cercada por todos os lados. Imaginem que essa gente, cada homem, cada mulher, cada menino, todos querem ainda assim abrir espaço à sua volta, e todos querem isso a um só tempo. Imaginem essa gente estimulada, embriagada de álcool e alegria. Imaginem agora essa gente excitada por uma música que não se ouve só com os ouvidos, porque ela se ouve com os braços, as mãos, a boca, os pés. Imaginem, portanto, uma grande massa em fúria. Raiva, alegria e libertação sob ritmo. Isso é o passo, ao som de Vassourinhas em Pernambuco.

A música do frevo para os corações fracos não se recomenda. Pode ser ouvida aqui:

Ouçam e desfrutem as variações criadoras do sax de Felinho. Essa música é uma promessa das coisas que se devem fazer com o corpo. Mais que promessa, é uma intimação, uma ordem. Vamos, esmorecido. Se você não é mais de pular, como este que lhe fala, procure um abrigo de abstração ao ouvir Vassourinhas. Diga-se, por exemplo: “Que melodia estranha e bela. Que acordes”. Isso você deve se dizer com os olhos bem fechados para não ver a multidão na praça e nos largos que se tornam pequenos. O frevo de rua, que vem encantado em instrumentos de sopro, de metais, e mais está para sangue coagulado de porco, que melhorado com suas vísceras chamamos de sarapatel, o frevo de rua ainda guarda elementos de música de guerra. Nelson Ferreira, que era maestro supremo do gênero, dava uma lição bem prática: “Peguem o Hino Nacional. Toquem rápido, mais rápido… isso já é frevo”. Com isso ele queria dizer que o frevo veio das bandas militares, que em uma estranheza tão rara quanto a passagem do primo do macaco para o homem, evoluíram dos dobrados marciais para o frevo. De rua, e de rua foi para o frevo-canção, que se espraiou para o frevo de bloco, com um andamento mais leve, suave, mais família e menos raivoso, digamos assim.

“Por que o frevo não se renova?” me perguntou esta semana o amigo Joaquim Ancilon no Pátio de São Pedro, enquanto ouvíamos frevos de bloco. Joaquim é um professor, um homem honesto, mas nem por isso é imune a perguntas de provocação. E em que momento oportuno ele fez a pergunta!, porque lá no palco a senhora Lilia, ex-presa política, cantava:

“Felinto, Pedro Salgado,
Guilherme, Fenelon,
Cadê teus blocos famosos?
Bloco das Flores, Andaluzas,
Pirilampos, Apois-Fum,
Dos carnavais saudosos?

Na alta madrugada
O coro entoava
Do bloco a marcha-regresso
Que era o sucesso
Dos tempos ideais
Do velho Raul Morais:
‘Adeus, adeus, ó minha gente,
que já cantamos bastante..’
E Recife adormecia
Ficava a sonhar
Ao som da triste melodia….” 

Não sei se foi o calor do uísque ou da raiva diante da pergunta, não sei se foi a lembrança da fase de ouro do frevo, com Nelson Ferreira, Capiba, Levino Ferreira, Edgard Moraes, João Santiago, não sei se foi a recordação do que um dia escrevemos sobre o gênio de Nelson Ferreira, quando dissemos que esses compositores de frevo de Pernambuco tinham o dom de falar do sentimento da gente com uma voz que atravessava a parede de uma sala vizinha. Queremos dizer, dissemos, não somos nós que falamos, mas esses compositores se referem ao que sentimos com tamanha intimidade que são essa maravilha ainda não descoberta: um parente amigo da infância com quem não brigamos, que tem crescido em nosso afeto, nutrido no tempo incessante… não sei. Mas deve ter sido uma mistura de tudo isso, porque à pergunta

- Por que o frevo não se renova?

Respondemos com outra:

- Por que Dante não se renova?

Por que um clássico não se renova? Por que não temos mais A Divina Comédia? Por quê? As obras seminais, que fundam o nosso ser, não se renovam, não se encontram no mercado, não estão à venda. Estão para sempre, para a nossa reconstrução. A sua modernidade é a sua infindável permanência. A sua renovação é o seu dom de ser insubstituível. Ora. Mas ainda assim, ficamos matutando. Ficou um travo de coisa ruim, de coisa que não está resolvida, na garganta, no peito. Está certo, viemos pensando, está certo, Nelson Ferreira hoje é impossível, ninguém mais, nunca mais será Nelson Ferreira, o grau de excelência que ele alcançou não se faz mais. Certo. Mas por que o frevo tem que ser somente à maneira e feição de Capiba, Nelson e Levino? Ora, se Dante não se renova, a poesia continua e continuará em outras faces que não a de Dante. Sim, e por que não, como não? É impossível hoje algo como a Evocação número 1, é certo. É absolutamente improvável, absurdo, que se faça de novo Último Dia, de Levino Ferreira. Mas o frevo acabou?

– Não. Todos os dias temos prova que não, em nossos dias, em nosso ser, nos novos intérpretes que vêm, alguns até bem jovens. Então… O frevo se renovou? Mas o que é mesmo renovar? – Certamente não é repetir. Certo. Será algo então jamais visto, tão novo quanto seria um extraterrestre para o nosso convívio? E se assim for, como dizer que essa coisa jamais vista ainda é do mesmo gênero, do frevo? Ora. Então esse renovar deve com mais certeza aliar, resolver a tradição no presente. Há caminhos ainda não percorridos, a partir mesmo da tradição. Como pode ser visto aqui, com a orquestra Spok,  

Watch again, incrédulos. Que me dizem, ó insensatos? O ET não precisa ser a negação do humano. Spok vai no caminho das estrelas, na jornada das estrelas. Aquelas antecipações de Felinho ao executar Vassourinhas antes de 1950 agora são retomadas pela orquestra de Spok, ao improvisar com liberdade sobre a base da história do gênero, livre com liberdade, que sem ela nada se cria nem se transforma. Dele, disse o maestro e compositor Clóvis Pereira: “A SpokFrevo, afinadíssima e conduzida por Spok, é uma orquestra formada por jovens de irrecusável talento musical e nos mostra que o frevo está mais vivo do que nunca, evoluindo cada vez mais até o alvorecer do novo século. Quem viver, verá!”. Que dizer, então, em outro ponto, de J. Michiles, autor de muitos sucessos na voz de Alceu Valença? Me segura senão eu caio, Diabo Louro, Roda e Avisa. Que dizer do Maestro Forró, da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério? Que dizer da ação civilizadora de Antonio Nóbrega, que dança, toca, canta e distribui o gênio do frevo em todo o mundo?  Como veem, o mundo continua, a vida segue, apesar da saudade que dá na gente de Nelson Ferreira em todos os carnavais. Que importa? Nós, os senhores encanecidos, com ar respeitável, mas com um espírito de moleque, este sim, imortal, devemos saudar os nossos filhos que pulam nas ladeiras cantando

“Olinda, quero cantar a ti esta canção,
Teus coqueirais, o teu sol, o teu mar,
Faz vibrar meu coração de amor
a sonhar, minha Olinda sem igual,
Salve o teu Carnaval!”

Ouvir e ver esta renovação com os olhos e ouvidos bem abertos, plenos de curiosidade, é uma ordem para melhor receber o presente do frevo. Temos agora a certeza, com algo vivo, que uma cultura não se destrói. Isso é bom, uma felicidade e bela. Estamos todos bestas, cantarolando com aparência de idiotas que nunca perdemos, “você diz que ela é bela, ela é bela, sim, senhor. Porém poderia ser mais bela, se ela tivesse meu amor. Bela é toda a natureza, bela é tudo que é belo”. Nem sequer sonhávamos com algo assim. Bela é tudo que é belo. Todos podemos afinal dizer que o frevo venceu. Nos mais de 100 anos do aparecimento do seu nome em letra impressa, em todo 9 de fevereiro o frevo vence. Tão novo e centenário. Como diria Oscar Niemeyer, “ultimamente o tempo tem passado muito depressa”. Viva a juventude dos seus mais de 100 anos. 

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O livro de Urariano Mota publicado pela Boitempo, Soledad no Recife, já está à venda em versão eletrônica (ebook). Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

A paixão no tempo do Big Brother

Por Urariano Mota.

Eu tenho visto, e as pessoas que me cercam também, aqui e ali jovens que se agarram, e se apertam, e se sufocam aos beijos em público. Agem assim nas filas dos supermercados, nos transportes coletivos, nas feiras livres, nos teatros, em todos os lugares abertos à visitação da gente. Até parece haver uma onda, um vagalhão de ternura que arrasta e assalta os corpos de nossos jovens. É como se o amor estivesse no ar. É como se uma ardente atração fizesse com que se friccionassem amorosa, irresistível e interminavelmente. Como se amam! dizemos de início. Que paixão irreprimível! dizemos mais adiante. Que despudor! dizemo-nos enfim, em silêncio.

A evidência manda dizer que somente observa jovens quem não mais é um deles. Mas consideremos que o não ter mais 20 anos de idade nos deixa mais à vontade, permite à gente refletir melhor sobre os que estão no fogo. Então nos perguntamos: que mal há na exibição da necessidade de uma pessoa que exige, urgente, outra? O escândalo que sentimos diante de tais exibições não é já manifestação de conservadorismo? Não é já, como nos diria um jovem, a expressão de uma inveja, porque já não mais sentimos o fogo doce e vital da paixão? Então nós, que não temos mais 20 anos, mas nem por isso alcançamos o tempo da invenção da lâmpada elétrica, respondemos. Mas aos poucos, como convém a nossas pausas de respiração.

Achamos que assim como na organização da vida social, há fronteiras entre o público e o privado. Isso se estende ao reino das paixões, cremos. Existem as públicas, necessária e indissoluvelmente públicas, como a expressão do pensamento em palavras, em símbolos, em imagens, em música. Um poema, um romance, um relato, ainda que expressem a maior intimidade, aquela mesma que em palavras não saberíamos expressar no cotidiano, esse poema, essa criação, ainda que atinja o âmago do nosso ser, é por necessidade e realização um expressar para o mundo. Que infelicidade seria, para todos nós, a poesia de Mario Benedetti cercada para sempre entre quatro paredes. Que tristeza vil nos alcançaria se não soubéssemos do verbo de João Cabral. Paixões assim trazem o destino de se tornar públicas. E elas só se realizam na medida mesmo em que as conheçam toda a gente. A criação, quando guardada, fechada por injustificáveis escrúpulos ou descaso, ainda não atingiu a sua força. É botão sem florescer.

O que é diferente, acreditamos, das paixões dos indivíduos que se realizam neles mesmos. Que importa ao distinto público a maneira como amamos a amada na intimidade da nossa cama? Que importa à vida de toda a gente a expulsão de humores, vale dizer, o orgasmo do nosso sexo? Se não fazemos disso a expressão de algo menos físico, se não fundamos nesse ato, perdoem o termo, uma ontologia, que importância tem para o mundo? Um cínico nos diria, com evidente inversão do sentido da pergunta, que muito importa o mostrar o que é bom: “O que é bom é para ser mostrado”. E que o beijar, o abraçar, o devorar, são atos naturais, e, portanto, ao serem mostrados, é bom. Ao que responderíamos: existem outros atos naturais, intestinos, mas que nem por isso devem ou podem em público ser mostrados. É certo que ao respondermos assim, descemos ao rés do chão. Embora a isto nos leve o nível da objeção, diria melhor, da abjeção dos cínicos, tentemos subir um pouco acima do piso. Queremos dizer:

O amor tem um significado que é a própria expressão do humano. Ele se ferramenta, digamos assim, ele transforma em ferramentas a seu serviço tudo o que de bom e de mau ao longo de uma vida, inteligência e sensibilidade somos. O tocar das mãos, dos dedos das mãos, o viajar juntinhos, em silêncio, conversando sem palavras, não é já uma eloquência do sentimento? “Nós nos queremos”, insinuam-se os casais com um ser além até da consciência. Se o amor é tão íntimo, para quê demonstrá-lo?

Mas alto! Alto lá! Não podemos, em tempos tão raivosamente ferozes, ser tão ternos. É tempo de fogo, de chumbo e de sangue, de catchup, de fast food, de correr e viver veloz, tudo pode sumir num instante, e não podemos esperar de casais jovens o conhecimento de anos. Em obediência, estacamos. Então fazemos a volta, até o ponto mais preciso da paixão. Cheguemos àquele sentimento avassalador que não respeita modos, regras e conveniências. E à sua mostra.

Haveria em tais demonstrações de afeto uma genuína paixão? Sim, concedamos, se não por método, pelo menos em respeito ao princípio de que sem prova não cabe imputar crime a ninguém. Sim, concedamos: a julgar pelas exteriorizações, os jovens estão cada vez mais apaixonados. Que bom! Mas … permitam-nos a reflexão, esse mal da idade. Essa genuína paixão não estaria vestida do exibicionismo do Big Brother? Vestida, queremos dizer, em roupa que se apresenta ao público, e de tal maneira que, ao ser retirada, desvela um rei nu sem nenhuma majestade. Sim, essa vestimenta, hipotética, é de ouro, e reluz, pelo que se proclama à vista de todos nós. É um Big Brother da paixão, essa roupa. Uma exibição onde os portadores mais simplórios viram celebridades. Sob que atos? Ora, pela exibição do que fazem na cama, no edredom, para toda a gente. É o próprio espetáculo do afeto. Eles não se dizem (nem têm necessidade de dizer) eu te amo. Os lençóis lhes falam, por eles. Se não há uma cama nos supermercados, o que se há de fazer? Se as palavras lhes faltam, então as realizam com a mais brava (ia dizer bravata) das eloquências: agem, com o furor das sugadas no cangote, do amassar dos seios, diante dos olhos de todo nós, numa televisão ao vivo. Nós, que viramos os grandes irmãos, os voyeurs basbaques. “Então isto é a paixão e eu não o sabia”, dizemo-nos, como um novo Monsieur Jourdain, de Molière.

Refeitos da descoberta, acordamos. Então um demônio nos sopra aos ouvidos que há uma vulgarização do afeto. E vulgar, acrescenta o demo, não somente no sentido de divulgar, de tornar público, ou no significado de que o sentimento da paixão é comum a todos os homens. Mas no sentido mais corriqueiro, vulgar, de algo que desceu de uma instância mais digna, que se acanalhou, sorri o demo. Se o amor, se a nossa paixão é uma pepita guardada, rara, única, para quê exibi-la como um novo-rico, como um bárbaro? Mas aí, a acreditar nessa pergunta-afirmação, entraríamos no terreno que nega ao sentimento que se exibe o status de uma genuína paixão. Façamos então uma última pausa, para concluir.

Imaginemos esses casais, se prosperarem até uma união mais duradoura, imaginemos esses jovens quando as dificuldades da vida baterem à sua porta. Queremos dizer, imaginemo-los naquele provável tempo em que o dinheiro para a diversão lhes faltar. Mais grave, imaginemo-los naquele tempo em que a doença lhes bater no domicílio, sem aviso e sem agenda. Pior do que tudo, imaginemo-los naquele tempo em que o fogo da paixão tiver queimado o vigor das melhores forças. Como reagirão? Se o amor se foi, se a paixão queimou até as cinzas, o que é o mesmo que dizer: se os corpinhos sarados perderam a forma, se os apertos, por morte do exterior estímulo, não mais se dão, se um beijo, num supremo esforço, não mais substitui a palavra e o sentimento amor….

“Corta”, diz-nos o diabo. Sabemos porque ele pula e nos interrompe. Esse final não está no Big Brother.

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O livro de Urariano Mota publicado pela Boitempo, Soledad no Recife, já está à venda em versão eletrônica (ebook). Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

A presidenta Dilma, Paulinho da Viola e os brasileiros

Por Urariano Mota.

Um dia desses notei que a história política do Brasil poderia ser contada pela história da sua música popular. E como sempre acontece em qualquer descoberta, essa conclusão geral me chegou pela insistência, persistência e resistência de alguns casos particulares, individuais, que traziam em si o dom universal e reclamavam lugar. Assim foi, por exemplo, em páginas de Soledad no Recife, quando a ressurreição dos malditos anos da ditadura se fez sob a canção dos tropicalistas. Assim foi quando escrevi sobre Geraldo Vandré, sobre Chico Buarque, sobre Roberto Carlos… assim tem sido em textos mais ambiciosos, escritos sob a música íntima que me acompanha ao narrar o mundo submerso da infância. Que nos acompanha a todos quando recuperamos vidas, melhor dizendo.   

Escrevo isso agora a partir de uma revelação do livro A vida quer é coragem, de Ricardo Batista, conforme artigo de Alberto Villas: 

“…a uruguaia Maria Cristina Uslendi conta que em outubro de 1971, toda vez que voltava das sessões de tortura encontrava Dilma de braços abertos ‘me amparando, me ajudando a usar a latrina quando não tinha forças, me dando sopinhas de colher na boca, me cedendo a parte de baixo do beliche e pondo na vitrolinha de pilhas as melhores músicas da MPB’.
Cristina conta que Dilma sempre pedia a ela que prestasse muita atenção à letra de ‘Para um amor no Recife’, uma canção de Paulinho.”

O quanto isso é verdadeiro. O quanto a música popular foi remédio, cura e perdição da maioria dos brasileiros que estiveram contra a ditadura. O quanto devemos a esses artistas da canção, numa dívida que eles próprios não alcançam o tamanho, mas que é, ao mesmo tempo, motivo de sufoco e prisão para eles, em razão do papel que ganharam à sua revelia. No entanto, importa mais aqui, para não me distanciar do objeto destas linhas, falar alguma coisa sobre o Paulinho da Viola daqueles anos. Assim vamos agora.       

Quando “Foi um rio que passou em minha vida” apareceu no Brasil, éramos estudantes numa sexta-feira à noite, numa serenata em Maria Farinha. Achávamos então que a revolução socialista seria a coisa mais natural do mundo. E por ser assim tão natural, nada demais também que ouvíssemos, não se espantem, 41 vezes seguidas, contínua e incansavelmente foi um rio, foi um rio, foi um rio em uma vitrolinha de pilha. Naquele ano, e por que não ainda?, todos nós éramos Paulinho, nessa estranha empatia, mistura de identidades que a verdadeira arte produz. Todos nós repetíamos, e repetimos e repetimos… que “meu coração tem mania de amor, e amor não é fácil de achar”. À maneira de  cantar, gritávamos esses versos então.

Depois, morando na Pensão Princesa Isabel, no centro do Recife, Paulinho era  Simplesmente Maria. “Na cidade, é a  vida cheia de surpresa, é a ida e a vinda, simplesmente, Maria, Maria, teu  filho está  sorrindo, faz dele  a tua ida, teu consolo e teu  destino, Maria…” Nesse tempo, sempre  compreendíamos o “faz dele a tua ida” como um “faz dele a tua ira”. Enquanto subíamos a escada para um quartinho isolado no alto, da televisão da sala vinha a música, tema de uma novela. Ela nos lembrava sempre que estávamos sozinhos e sem mãe, cujo nome também era Maria. À hora dessa música sempre esperávamos algum golpe traiçoeiro da polícia que queria nos matar. Sem Maria que nos velasse.

Então houve “Para um amor no Recife”. Diziam então que Paulinho fizera essa música para a secretária de Dom Hélder Câmara. As boas e as más línguas (principalmente) acrescentavam que a dedicada senhora vinha a ser a namorada secreta do arcebispo. Entre o sussurro e a maledicência, entre a repressão da ditadura Médici e a resistência serena erguia-se um poema belo, quase autônomo da melodia: “A razão por que mando um sorriso e não corro, é que andei levando a vida quase morto. Quero fechar a ferida, quero estancar o sangue, e sepultar bem longe o que restou da camisa colorida que cobria minha dor. Meu amor, eu não esqueço, não se esqueça, por favor, que voltarei depressa, tão logo acabe a noite, tão logo este tempo passe, para beijar você ”. Esta é uma canção que só fez melhorar ao longo de todos esses anos. A ditadura não existe mais, o seu motivo imediato não mais existe, mas a composição só vem crescendo, apesar da degradação do Recife, que entra quase incidentalmente no título.

Que sorte imensa a nossa de ter sobrevivido aos piores temporais para viver estes anos na maturidade! O que Paulinho anunciava num Samba Curto, “só me resta seguir rumo ao futuro, certo do meu coração mais puro”, agora vem chegando, agora atinge o seu tempo. Menos puro que o esperado, como é bom esse coração amadurecido pelo crisol, pela  lembrança de quando  o tínhamos somente dor. O que  podemos fazer  quando as águias piscam à civilização desse moleque bamba? Tentar, tentar compreendê-lo em uma crônica curta.

Enfim, amigos, que estranho e magnífico poder tem a obra de arte. Quarenta e um anos depois, Paulinho da Viola, Dilma e os brasileiros voltamos a “Para um amor no Recife”:

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O livro de Urariano Mota publicado pela Boitempo, Soledad no Recife, já está à venda em versão eletrônica (ebook). Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.