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Casa paterna

Por Roniwalter Jatobá.

Tenho em casa uma fotografia amarelada pelo tempo. É o mais antigo registro da secular família do meu avô paterno. No verso, numa caligrafia bonita, ele anotou uma dedicatória ao parente distante. No final, registra o ano da pose fotográfica: 1937.

Ali está a família reunida na véspera de uma festa. Reconheço em sérios semblantes algumas tias já adultas e dois tios, ainda crianças. Um quadro incompleto. A maioria estava longe, muitos haviam sumido em busca de seus destinos pelo mundo.

Sinto a falta, entre as mulheres, de tia Nanã, que há pouco realizara seu casamento. O pai, o mais velho dos homens, já vivia pelas minas do Mimoso, à procura de cristal de rocha e pedras preciosas. O tio Preto, assim apelidado devido a coloração mais escura de sua pele, também seguira as mesmas trilhas do garimpo, mas contam que infernizava a todos pelo vício nos jogos de azar. Na mesma época, o tio Olegário já havia partido para o Rio de Janeiro, fascinado pelo futuro na então Capital Federal, e para onde seguiria, depois, também o tio Deco. A velha foto mostra que, pouco a pouco, a família ia se fragmentando, com cada filho criando asas após a fase adulta.

Um relatório do Eurostat, o instituto de estatísticas da União Europeia, revelou há algum tempo o que vem mudando em relação à família. Os jovens europeus relutam em deixar o colo da mamma. Segundo o escritor italiano, Piero Citati, eles pertencem a uma geração de eternos adolescentes, que não têm pressa nem interesse em crescer e, ao contrário de seus avós, não querem se tornar adultos tão cedo. Na verdade, retardam o mais que podem o abandono da casa paterna e o casamento.

Os italianos são campeões no chamado mammismo. Em 1987, 60% dos rapazes e moças continuavam a viver – na maioria dos casos, economicamente independentes – na casa dos pais. Oito anos depois, em 1995, aquela porcentagem havia crescido bastante: 71% dos jovens italianos passaram a considerar desnecessário e pouco interessante viver por conta própria, ou seja, longe da saia da mãe.

Também no Brasil, a casa dos pais virou refúgio seguro. Antes, sair de casa aos vinte anos era obrigação. Hoje, seja pela acomodação da juventude ou pelo funil cada vez mais estreito no mercado de trabalho, mudou a situação.

A primeira vez que deixei a casa paterna tinha quinze anos. Por um longo ano, morei no Rio de Janeiro. Desempregado a maior parte do tempo, foi difícil a distância do lar. No retorno, minha mãe chorou ao ver filho magro com cara de faminto. Realmente abatido, por dois meses caminhei solitário pelas margens do rio Aipim, tentando resgatar a tranquilidade perdida.

A partir daí, chegou o medo. Embora sentisse necessidade de romper os laços com a casa paterna, vinha o receio de encontrar os mesmos obstáculos da primeira viagem. Sofria. Quando imaginava a visão da cidade grande, sentia calafrios e vinha o temor de desistir nos primeiros dias.

Em 1970, depois de dar baixa do Exército em Salvador, finalmente decidi viajar para São Paulo. No ônibus, nos caminhos de Minas e Bahia, sentia temores e tremores. Muitos anos depois, sou capaz de concordar com os jovens. Já superei a casa dos sessenta anos, mas ainda mantenho a intuição de um adolescente de quinze que adora raspar os fragmentos do doce de leite preparado pela mãe numa panela de cobre, no calor fumegante do fogão a lenha.

***

Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

O mistério da eternidade

Por Roniwalter Jatobá.

Toc, toc, toc.

Bato três vezes sobre o tampo de madeira da mesa antes de iniciar essa história.

Medo, superstição? Bom, há algum tempo li numa revista uma pesquisa sobre milhares de norte-americanos que tinham vivido a experiência de morrer e voltar à vida. Existem inclusive vários livros sobre o assunto e na internet tem vários sites que tratam das NDE – Near Death Experiences, ou Experiências Próximas da Morte.

Numa viagem ao sertão baiano, minha mãe comentou certo dia sobre uma amiga, a professora aposentada Marli de Souza Farias, que sofrera um enfarto e, segundo ela, vivia contando coisas do além.

– A coitada se salvou do coração fraco, mas deve ter perdido o juízo – concluiu dona Maria.

Sinceramente, não gostava nem de pensar sobre o tema, mas era uma história e tanto, e por dois dias aquilo aguçou a curiosidade. Em passeios na represa formada pelo rio Aipim, em Bananeiras, o caso não me saía da cabeça. Quando olhava as águas límpidas e espelhadas do imenso lago, via submergir o rosto de uma mulher idosa.

Numa tarde, fui ao hospital da cidade próxima, em Senhor do Bonfim, mais para me certificar se Marli era uma doida de pedra ou se ela sentiu, mesmo por alguns minutos, a sensação da eternidade.

Fui. Quando a mulher começou a me contar o seu drama, no princípio não acreditei na veracidade dos fatos. Mas, deitada ali no leito do hospital, ainda com tubos penetrando no nariz, por nenhum momento pensei que era brincadeira. Sim, tivera um enfarto e, por pouco, escapara da morte. Contou-me que foi salva pelo providencial atendimento de seu filho, um cardiologista, que ali passava as férias.

Puxei uma cadeira e sentei ao seu lado. Embora fragilizada, tinha um sorriso sublime na feição marcada de rugas. O rosto era pálido, pele alva. Falava ainda com dificuldade, mas parecia não se cansar por mais que lhe perguntasse coisas sobre a sua experiência.

Eis o seu relato:

De repente me dei conta de que estava morta. Para confirmar ainda mais o meu pensamento, uma voz fúnebre e fria me disse bem junto ao ouvido esquerdo:

– Você está morta.

Naquela hora, eu estava caída na cozinha de minha casa. É um cômodo pequeno e minhas pernas ficaram dobradas em contato com o fogão. Queria dar um grito lancinante, mas nada saía de minha boca.

Vi uma sombra clara, como a minha pele, pairar sobre o meu corpo inerte. Por alguns segundos, vi aquele corpo parado de mal jeito, mas a cada instante queria me afastar logo dali, como estivesse sendo sugada por uma força estranha.

À frente, uma caverna escura. Não me lembro de detalhes, parecia com a construção de uma mina antiga e abandonada. Mas estava limpa e não tinha madeira para a sustentação do teto. Adiante, via a luz brilhante e azulada, que era provavelmente o que me puxava naquela direção.

Tinha medo, mas não sentia nada no coração frio e sem movimento. Subitamente, veio uma onda de felicidade, então desconhecida. Minha sombra se agitou ao atravessar a luz e, logo depois, seguiu em frente vendo rostos conhecidos de parentes e amigos há muito tempo falecidos.

Vi meu marido já morto. Vi o riso de uma criança que um dia acompanhei o nascimento e não resistiu ao parto. Vi a antiga lavadeira de roupas da casa de minha avó materna. Vi o cachorro chamado Rex, que meu pai me presenteara na infância. Mais adiante, entrei numa grande cidade. Prédios luminosos, jamais vistos. Passei por ruas sem carros, sem movimento de gente.

Sentia medo em olhar para o corpo – uma sombra – e ver através dele. Mesmo assim, olhava para o contorno transparente e sem sinal de carne e osso. Mais adiante, vi uma barreira. Na verdade, uma cerca viva de uma árvore florida e de espécie desconhecida. Tudo fechado. Então, me movimentei para o lado. De repente, me senti mergulhada até o pescoço em um rio negro e frio. Estava perdida. Ouvi uma voz bem alta, de tonalidade doce.

– Esta é a eternidade. Esta é a eternidade.

Em meu pensamento, perguntei:

– O que é isso?

A voz novamente respondeu:

– Este é o rio da Morte.

Depois, o silêncio pareceu durar séculos. Aí, ouvi a voz aflita de meu filho ao meu lado e, creia, a sombra penetrando com cautela no meu corpo. Voltei à vida. Tinha consciência na hora: meu filho estirava minhas pernas e me colocava em posição confortável, enquanto esperava a chegada da ambulância.

No mesmo dia, relatei toda a história a minha mãe. Com seus 85 anos de incredulidade, ela ficou em dúvida.

– Foi e voltou? A vida é uma só – filosofou. – A morte também.

De volta a São Paulo, contei a mesma história a um grupo de amigos. Um deles, o bruxo e farmacêutico Renato Carvalho, afirmou que essas experiências deviam ser bem analisadas. Afinal, concluiu ele, na eternidade não existe guia turístico.

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Breve historinha de bondes

Por Roniwalter Jatobá.

Depois de mais de meio século desativado, em 2002 o bonde elétrico voltou a circular no centro de Londres. Moderno, confortável e sem poluição, o bonde londrino faz parte de uma geração de veículos elétricos usados para o transporte público em algumas cidades da Europa. Os moradores de Croydon e Wimbledon, dois bairros nobres da capital britânica, já estavam, desde o início do milênio, provando da novidade. O objetivo nobre para ressuscitar os bondes elétricos era transportar 25 milhões de passageiros por ano, reduzindo assim em 2,5 milhões o número de viagens feitas de automóveis na região.

Contam que um dos motivos para a retirada dos bondes das vias londrinas, em 1951, foi dar espaço aos ônibus. Todos conhecem essa história. É igualzinha a de São Paulo, que em 1968 fez até festa para tirar os bondes do traçado paulistano. A politicalha tinha tanta gana em acabar com o “atraso” que o então governador Abreu Sodré, em “nome do progresso”, fez questão de ir a bordo de um deles, o da linha Santo Amaro, para acompanhar a última viagem.

No Brasil, a experiência mais próxima da londrina aconteceu em Santos, no litoral paulista. Também em 2000, foi criada uma linha turística, que funciona no Centro Histórico. Além disso, foram contratados doze antigos motorneiros e condutores para um projeto chamado “Vovô sabe tudo”, no qual os velhos trabalhadores lembram a memória dos bondes santistas, que haviam servido a cidade durante um século, de 1871 a 1971.

Se fossem os condutores das linhas paulistanas, teriam também muita história para contar. Como esquecer os primeiros bondes fechados, pesadões e pintados de vermelho? Por isso, foram batizados de camarão. Outro bonde, ainda maior que o camarão, recebeu o apelido de tubarão, que alguns também chamavam de lagosta. E em meio aos peixes e crustáceos, surgiu ainda o jacaré, um bonde todo verde que fazia a linha para Santo Amaro.

Eles não poderiam esquecer, claro, o Centex, o bonde que virou a cabeça dos paulistanos. Era o máximo em novidade. Os bancos eram móveis e revestidos de palhinha ou couro. Era todo equipado com espelhos retrovisores, limpador automático de para-brisas e, nas janelas, vidros de têmpera especial. Seu espaço interno era maior. A visão para o exterior quase panorâmica. Foi aí que algum apaixonado deslumbrou nele as formas sensuais da atriz Rita Hayworth, que na época fazia furor com o filme Gilda.

O bonde Centex, ou melhor, Gilda, fez sucesso e até inspirou expressões paulistanas. Era comum dizer que uma mulher bonita era um “verdadeiro bonde”, assim como “estar de bonde” ou “andar de bonde” significava namorar. Em 1963, o Gilda mudou de cor, ganhou tonalidade alaranjada na carroceria e um amarelo claro nas portas. Desse jeito, ficou parecido com um refrigerante da moda. Aí, até sair de circulação, o Gilda virou Crush.

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Esplêndidas irrelevâncias

Por Roniwalter Jatobá.

Como o personagem Roberto, vivido pelo ator argentino Ricardo Darín no belo filme Um conto chinês, sou um compulsivo colecionador de recortes de jornais. Diariamente, ao ler os periódicos, tenho sempre uma tesoura à mão, para separar notas interessantes, até mesmo aquelas que o escritor norte-americano Bill Bryson denominou de “esplêndidas irrelevâncias”.

– Isso só junta poeira – criticou alguém outro dia.

Faço pouco caso.

– Deixa aí. Uma hora servem para alguma coisa.

Eis aqui três histórias.

Sortear uma égua foi a solução encontrada por duas professoras de um colégio estadual em Itaguajé, no Paraná, diante da dificuldade de seus alunos em ter acesso a livros. Com o dinheiro arrecadado na rifa, elas compraram 250o brasliterárias e inauguraram a biblioteca da escola. A iniciativa foi a primeira colocada na quinta edição de um concurso que escolhia os melhores programas de incentivo à leitura junto a crianças e jovens, promovido por órgãos do governo federal. O programa vencedor, intitulado “Uma égua por livros”, foi inscrito pelo pai de um aluno que quis homenagear as professoras Lúcia Melo e Marisa Tamamaru.Por sinal foi Marisa que, em 1998, doou sua égua para a rifa.

No quintal de sua casa, no Jardim Carmelo, em Guarulhos, o ajudante de cargas, Irso Alves de Souza, vem cultivando uma horta com oito pés de couve gigante. Chegam a alcançar seis metros de altura. Segundo o “agricultor”, o segredo para o cultivo da espécie com desenvolvimento extraordinário pode estar no cuidado que ele tem com as plantas e o adubo que prepara: esterco de gado, de galinha e pó-de-serra.

Na terceira história, dois jovens de 20 anos, totalmente embriagados, perambulavam pelo aeroporto de Frankfurt, na Alemanha, à procura de um banheiro. De repente, viram um ônibus parado e subiram a bordo. De imediato, foram levados para um avião da Lufthansa com destino a Moscou.

– Eles entraram, sentaram na parte traseira do avião e não foram notados por ninguém – explicou o responsável pela segurança do aeroporto.

Ao chegarem a Moscou, ainda não totalmente sóbrios, eles se deram conta de que não tinham passaportes nem vistos de entrada. Foram, então, postos num voo de volta pela polícia russa. Em Frankfurt, foram acusados pela Polícia Federal de Fronteiras de violar a lei ao viajar sem documentos. Um porta-voz da Lufthansa disse que a empresa estava intrigada.

– Não temos ideia de como eles chegaram ao ônibus sem terem passado por uma checagem de segurança. E também como permaneceram no avião sem serem vistos pelo pessoal de bordo. O problema maior é que os dois também não se lembravam como chegaram até lá.

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Tarde em Ribeirão

Por Roniwalter Jatobá.

Ribeirão Preto sediou, entre os dias 12 e 15 de novembro de 2011, o Congresso Nacional de Escritores, organizado pela UBE. Já estive lá em evento parecido.

Lembro. Caminho por uma rua comercial com o falecido escritor José J. Veiga, os amigos Noel, Ademar e Cachaça. Fazíamos uma pequena pausa nos debates e seminários.

Era um dia quente e abafado. Por isso, não via a hora de me sentar na Pinguim e, de um gole só, saborear um espumoso chope escuro. Ágil como meu avô paterno, Veiga andava ao nosso lado na calçada larga, a passos compridos, e narrava histórias de mascates e matadores de aluguel.

De súbito, ele pega em meu braço e literalmente me arrasta para a calçada em frente.

– Vamos até ali – me diz – Quero mostrar uma coisa.

– Tenho sede, mestre.

– Vamos, é coisa ligeira.

Seguimos atrás. Imagino uma livraria com raros exemplares expostos na vitrine. Ao me aproximar, porém, reconheço outro ramo do comércio que não via há muito tempo, apenas na infância durante uma viagem a Governador Valadares, em Minas Gerais.

Era uma selaria. No interior, em mostruários bonitos, tudo para quem gosta de montar no mais fino couro – selas, cabrestos, pelegos e bridas.

Esqueço a sede e o chope. Ligado também nas coisas do campo, fico ali admirando os arreios. Duas selas, do mais rico acabamento, estavam dependuradas num canto, como se estivessem preparadas para equipar os mais belos animais. Não indago o que se passa na cabeça do velho escritor, mas logo lembro de meu pai, descendente de ára­bes e excelente cavaleiro, que um dia me ensinou a arte de cavalgar.

– O senhor é que é o escritor José J. Veiga, autor de Cavalinhos de Platiplanto? aproximou‑se o dono da loja – Vi sua entrevista ontem no noticiário da TV.

Humilde, como era de seu feitio, Veiga concordou com um leve aceno de cabeça.

– Gostaria de presenteá‑lo com uma suma sela de nossa fabricação.

Veiga sorriu.

– Muito obrigado – disse – Em outros tempos, aceitaria sem pestanejar.

Saímos. A duas quadras da loja, não resisto à curiosidade.

– Por que não aceitou? – indago.

O escritor para e me encara com olhos cheios de sabedoria.

– Meu jovem, moro no Rio de Janeiro num pequeno apartamento soterrado de livros. Uma sela vai ocupar muito espaço. Se aceitasse, poderia chegar uma doida vontade de comprar um animal de montaria. Mas, para tê-lo, talvez devesse adquirir um sítio e ter um caseiro para alimentá‑lo todos os dias. Agora, o que quero mesmo é mesmo inventar coisas.

Fomos alegres no rumo da Pinguim. No dia seguinte, cada um viajou para seu canto. Depois disso, nunca mais reencontrei o escritor J. J. Veiga. Ele virou estrela, aos 84 anos, em 19 de setembro de 1999. 

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

O observador inglês

Por Roniwalter Jatobá.

– O brasileiro diz que o seu país é cheio de corrupção!

Quem fez essa afirmação, tão atualíssima em relação ao nosso país, foi o escritor Rudyard Kipling, Prêmio Nobel de Literatura de 1907, no começo do século 20, depois de alguns dias em visita ao Brasil.

Vamos à história. Kipling chegou ao Rio de Janeiro, então capital da República, no final da tarde de 13 de fevereiro de 1927. Foi recebido com festa. Numa recepção na Academia Brasileira de Letras, estavam presentes dezessete acadêmicos, de Afonso Celso a Coelho Neto, além dos embaixadores da Inglaterra, França, Estados Unidos, Argentina, diplomatas, e Getúlio Vargas, na época ministro da Fazenda.

Na segunda semana de março, Kipling desembarcou do navio Sierra Cordoba, no porto de Santos, em companhia do advogado Alexander Mackenzie, vice-presidente da Light. O romancista e poeta era uma celebridade literária mundial e “cantava as glórias perenes” da Inglaterra, ainda a maior potência colonial do mundo. Em prosa e verso, exaltava a coragem com que os ingleses enveredavam por terras estranhas no continente asiático e, com “sacrifícios”, levavam a este mundo o estilo de vida britânico.

O canadense Alexander Mackenzie, também súdito de sua majestade (na época o rei Jorge V), acompanhou Kipling do Rio a São Paulo para mostrar, em Cubatão, o trabalho da Light na Serra do Mar – as represas e uma usina elétrica. Tudo por interesse. Afinal, uma impressão favorável no Morning Post, de Londres, onde o escritor publicava seus relatos de viagem, seria um excelente negócio para a empresa canadense, já que seu capital era também inglês e suas ações, negociadas na Bolsa de Londres.

Relatou o escritor, nascido em Bombaim, Índia, sobre a terra de contrastes: “Chegamos a Santos, porto de São Paulo, sob a claridade bronzeada de um céu da África Ocidental, subimos um tortuoso rio holandês. Montões de bananas desciam o rio em barcaças e se juntavam às cargas verdes de vapores cremes com chaminés pretas e vermelhas. A atmosfera é a do Sul da Índia. Saímos da cidade por uma estrada vermelha. O carro entrou por uma via lateral que lembrava o sopé do Himalaia, embora o clima fosse tão quente como o de Madrasta.”

Na verdade, Kipling veio, viu e não gostou do complexo hidrelétrico construído pela Light.

– Ridiculamente fácil – escreveu em seu jornal.

Mas ficou deslumbrado com a Serra do Mar e “as generosas tempestades tropicais”.

Em São Paulo, o escritor ficou hospedado no hotel Esplanada, um dos mais chiques do centro da cidade. Foi a uma recepção no São Paulo Athletic Club e visitou “na extremidade de um dos intermináveis subúrbios de São Paulo, uma fazenda de criação de cobras onde se preparam e distribuem soros contra as dentadas de cobras venenosas, que são abundantes por aqui”. Era o Instituto Butantã.

Antes de seguir para o Uruguai e Argentina, Kipling, que mostrava muito interesse pelo que hoje se chama de ecologia, ficou fascinado com dois exemplares da nossa fauna: a onça e o tatu. Contam que ganhou e levou para a Inglaterra um tatu-bola, que em sua terra exibia para os amigos.

O escritor inglês, nascido em 1865, faleceu em 1936. O saudoso jornalista e cronista Otto Lara Resende escreveu certa vez na Folha de S. Paulo que fez muita pesquisa e não descobriu o que aconteceu, em terras inglesas, com o tatu-bola, agora em risco de extinção.

Sabemos, no entanto, que hoje, infelizmente, o Brasil ainda ocupa uma bela posição na lista suja da corrupção global. Os brasileiros, ouvidos pelo observador inglês há quase oito décadas, tinham razão.

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000);Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

No fundo da gaveta

Projeto da equipe de Lina Bo Bardi para o Vale do Anhangabaú

Por Roniwalter Jatobá.

Tempos atrás, uma exposição reuniu, no Rio de Janeiro, vários projetos de arquitetura engavetados nos últimos setenta anos. Entre os planos surpreendentes, que foram relegados ao fundo da gaveta, estava a ponte Rio – Niterói, que deveria ter sido construída na década de 1930, ou seja, anos antes da erguida a peso de ouro durante a ditadura militar.

Projetada pelo arquiteto francês Leon D’Escoffier, seria de uma sofisticação só: pistas de rolamento exclusivas para carros de passeio, carros pesados, metrô e até garagem. Sobraria espaço ainda para 946 apartamentos, 996 lojas e dois cine-teatros. O ousado projeto previa a instalação de 102 elevadores. Um deles, por sinal, desceria alguns metros abaixo das águas da Baía de Guanabara.

Também o símbolo máximo do Rio de Janeiro, o Cristo Redentor, poderia ter ficado diferente. Se dependesse só do autor, o arquiteto Heitor da Silva, ao invés de abraçando a cidade, como registram inúmeros cartões postais, teria a mão esquerda segurando um globo terrestre e a direita apoiando uma cruz sobre os ombros.

São Paulo também poderia ter realizado semelhante exposição. Acervos não faltam. Quem passa pela atual ponte das Bandeiras, sobre o rio Tietê, não imagina como aquilo poderia ter sido.

Num projeto dos anos 1920, toda a área estava destinada a interligar duas imensas praças. A primeira, fechando a Avenida Tiradentes, seria totalmente remodelada para ter 97 metros de largura. Já a segunda, ao lado direito do Tietê, abrigaria uma estação terminal de transportes integrados (linhas férreas, rodoviárias, fluviais e também aéreas, devido à construção, no Campo de Marte, do principal aeroporto paulistano).

Um projeto que deveria marcar presença na mostra paulistana seria o do metrô da Light, de 1929. Naquela época, engenheiros desenharam como seria um transporte moderno. Linhas subterrâneas passariam por debaixo do então largo da Sé, seguiriam em faixas intermediárias, dividindo com automóveis, sob o viaduto do Chá, rasgando as entranhas da cidade.

Outro plano que iria abrilhantar a exposição paulistana seria o de um engenheiro canadense que, em 1940, imaginou resolver o problema do transporte urbano entre a Capital e a Baixada Santista.

Seu projeto envolvia a área compreendida pelos rios paulistanos num eficiente transporte fluvial. Era mais ou menos assim: barcos de passageiros fariam viagens programadas a partir das proximidades do bairro da Penha,via Tietê, e depois seguiriam pelo rio Pinheiros e reservatório Billings afora. Vencendo estrategicamente a descida na Serra do Mar, chegariam a Cubatão e, depois, à beira do Atlântico.

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000);Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Cheiro de alecrim

Por Roniwalter Jatobá.

Um amigo me guia pelo bairro do Itaim Bibi, em São Paulo. Durante o breve intervalo do horário do almoço, ele segue me mostrando estreitas vias que desembocam em ruas coalhadas de carros. Nascera ali. Diz ele na altura da Bandeira Paulista, esquina com Tabapuã:

– Vamos por aqui.

Entramos na Professor Tamandaré Toledo. É uma rua pequena, estreita, de mão única. Sabia de sua existência porque toda terça uma feira ocupa seu asfalto, colorindo-o de barracas, bugigangas, verduras e frutas. Tem apenas um quarteirão. De um lado, prédios residenciais; de outro, há uma comprida e antiga parede lateral, que é o que resta da antiga fábrica de chocolates Kopenhagen.

– Sente o cheiro? – indaga o amigo.

Infelizmente, não sinto nada nas narinas cansadas da poluição paulistana.

–Nada mesmo? – quer de novo saber.

–Pastel? – arrisco pensando na barraca do japonês no dia de feira.

–Não.

Ele pára na calçada vazia, bem próximo à parede descascada pelo tempo, e aspira uma longa golfada de ar. Penso, claro, que o amigo acaba de entrar numa espécie de transe com as loucuras de São Paulo.

– Sinta também, companheiro! – e aspira com força e alegria. — Sinta o cheiro de chocolate.

Depois, ele conta que, menino ainda, seu pai sempre o levava pelas imediações. A Professor Tamandaré Toledo era considerada um lugar mágico. Na passagem sobre o calçamento de paralelepípedos, sentia chegar do interior da fábrica os mais diferentes aromas achocolatados. Voltava para casa, mas, durante dias, sonhava com o que imaginava acontecer dentro do galpão industrial: duendes em volta de reluzentes apetrechos numa doce alquimia.

Acho que, provavelmente, fui me influenciando pelo agradável bate-papo. No caminho de volta, descendo a rua Joaquim Floriano, sinto um forte cheiro de café socado no pilão, e coado na hora. Sinto também outros cheiros da infânciae, longe, bem longe, o odor inconfundível da cana-de-açúcar, do melado da garapa e do borbulhar da rapadura já quase sólida em tachos de cobre.

O amigo me conta de uma pesquisa realizada pelo Monell Chemical Senses Center, na Filadélfia, Estados Unidos:

– Uma equipe de norte-americanos reuniu 30 pessoas de ambos os sexos –conta ele. – Todos voluntários. Eram crianças, jovens e idosos, comida de que variavam dos três aos setenta anos. Durante dez horas, todos eles ficaram com um pedaço de gaze preso às axilas, para fornecerem amostras do cheiro de seus corpos.

–Meio nojento, não é? – dou meu palpite. – Já pensou se eles não gostassem de tomar banho, igual àqueles franceses que têm sete anões mortos debaixo de cada braço?

O amigo faz pouco caso da brincadeira. Continua:

 – Eles não podiam usar perfumes ou desodorantes nem comer alimentos de aroma forte nos quatro dias que antecediam a coleta das amostras. Banho, sim. Podiam tomar banho com sabão inodoro e xampu.

– E aí?

– Aí, os pesquisadores pediram que mais de 300 estudantes universitários respondessem a um questionário para avaliar como eles estavam de bem com a vida. Depois, cada estudante cheirou um pedaço de gaze, sem saber qual a origem do odor. Finalmente, todos responderam novamente a um questionário de avaliação de humor. De acordo com as respostas, o humor de quem tinha cheirado amostras retiradas das axilas de mulheres idosas era significativamente melhor. Quem foi exposto ao “aroma” de homens jovens, por outro lado, ficou deprimido. Conclusão: pelo cheiro você pode indicar um estado de espírito.

Comento com o amigo que há algum tempo li algo num jornal abordando o mesmo assunto. Segundo a reportagem, o cheiro tem a capacidade de atrair a pessoa certa e afastar as indesejáveis. Dizia ainda que há uma combinação química entre os sexos, baseada em cheiros, o que ajudaria muito a explicar, por exemplo, o fenômeno do amor à primeira vista.

No caminho até o escritório continuo a sentir outros cheiros: manga madura, terra molhada de chuva, água em queda da cachoeira e, principalmente, uma primeira namorada. Chamava-se Clarice. Durante todoo expediente da tarde burocrata, lembro fortemente que, em qualquer hora do dia ou noite, ela cheirava sempre à suave fragrância do alecrim do campo.

***

Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000);Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

O natal de Doralice

Por Roniwalter Jatobá.

Num ameno domingo de dezembro, véspera de Natal, a dona-de-casa Doralice Carvalho estava sentada na pequena varanda de sua moradia na ruaPedro Soares deAndrade,em São Miguel. Olhao bairro conhecido que já principia a esmorecer de movimento, sossegando no começo da noite. Ao seu lado, também ocupando uma cadeira de plástico branco, seu marido e químico aposentado, Josué Carvalho, faz partedo silêncio. Filhos já criados e casados, os dois já entravam na casa dos 60.

– Dora, qual a cor do vestido que você está hoje?

Fogem os devaneios de Dora. Naquele preciso momento, a mulher pensava numa longínqua data de setembro de 1973, dia de seu casamento. Então, ela responde uma cor qualquer que tinha retida na memória – azul –, que Josué gostava na vida de outros tempos.

Retoma-se o mesmo silêncio de muitos casais antigos. Ela olha em direção às curvas do rio Tietê e, depois, volta para suas antigas lembranças. Numa tarde, estava no Clube da Nitro. Uma fita amarela, que lhe prendia os cabelos, foi o começo de tudo. Quando ela se desprendeu, arrancada pelas mãos ágeis de Josué, os seus cabelos esvoaçaram-se ao vento. Ele acalmou-os, depois desfez o nó do laço e jogou a fita sobre as águas. A fita, então, rodopiou na beira da murada da ponte, caiu, teimou em afundar e ficou boiando.

– O que fiz? – ele se assustou.

Os dois jovens ficaram olhando a fita pegando o rumo da correnteza, até o último momento. Depois, olharam-se parados, sonhando. E riram.

A partir daí, sempre aquela impressão que eram namorados, mesmo. Dora sabia amá-lo. Sorria, sempre, contente. Ele fantasiava histórias, imaginava casos e vestia-os de engraçado. Contava, ria também.

Casaram-se na antiga igrejade São Miguele, durante os cinco dias seguintes, se conheceram mais intimamente num pequeno apartamento emprestado por um colega de trabalho na praia do Gonzaguinha,em São Vicente.

Depois, o dia após dia. Muitas vezes, nalguma tarde, andava apressada – cheia de compras, o dia tão curto –, quase correndo no meio da rua, para esperá-lo. Labutava duro nos cuidados com a casa, mudava, trocava os móveis toda semana de canto. Ele chegava, olhava, aprovava, dizendo bonito. Outros dias, em começos de anoitecer, se assustava em imaginar que aquele seria o instante em que não veria mais o bater do trinco no portão, o limpar de sapatos no capacho, o girar da chave na fechadura. E Dora na sala esperando-o mesmo sabendo que ouviria apenas o seu cansado boa-noite.

Uma noite esperou. Espera fora de costume. Deu para reparar em tudo que era gente que passava na rua. Na cozinha, imaginava ouvir o trinco no portão. Corria à janela, de onde podia vê-lo passar pela varanda. Mas ele não chegava. Então, o trouxeram da fábrica de química. Havia passado a noite no hospital. Ataduras cobrindo-lhe a face, se maldizia:

– Maldito acidente. Onde meus olhos ficaram?

Não se conformava:

– Antes a morte. Sem vista no mundo, pra quê?

Calada, ela ouvia tudo aquilo e sabia que na vida, em muitos de seus meandros, não há caminhos de volta.  Para confortá-lo, sempre respondia:

– Pra tudo tem um jeito.    

Nessa tarde de domingo em que abre suas lembranças no vazio de seu bairro, ela sabe que os móveis, faz muito tempo, permanecem intocados. Mãos espalmadas no braço da cadeira, ela sabe que Josué nunca será o mesmo.

Agora, como faz sempre, ele chama:           

– Dora, me ajuda a ir ao quarto.

Ela desvia o olhar da rua vazia. Levanta. Puxa as sandálias debaixo da cadeira. Chora penosa e limpa as vistas no vestido, que é azul mesmo. Aproxima-se dele e pousa a mão em seu ombro.

Ele levanta seguindo a mulher. Ela guia seu corpo, livrando-o dos baques no sofá, na mesinha de televisão, na porta do quarto.

Junto à cama, ela ajeita o lençol e o travesseiro. Ele senta. Tateia e segura sua mão. Há um sinal de amor antigo e gratidão. Não dá para ver seus olhos.

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000);Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Colecionador de sonhos

Por Roniwalter Jatobá.

Durante muito tempo, guardei as mais estranhas coisas. Aos seis anos de idade, não me apartava de um monte variado de bolinhas de gude. Depois, chegou a época das borboletas. Já um pouco mais crescido, baixou em mim o espírito de um pesquisador científico e passei noturnamente a recolher besouros. Só para se ter uma ideia, reuni, numa cômoda de casa, cerca de 40 espécimes, desde o cascudo, que parecia uma joaninha, até o raro besouro-saltador.

Comento isso ao encontrar um amigo num sábado na feira de antigüidades da praça Benedito Calixto, em Pinheiros, São Paulo. O amigo estava ali por um motivo muito pessoal. Morador do interior paulista, lá para as bandas da Alta Sorocabana, ele é colecionador de cartões-postais e possui mais de 80.000 exemplares do mundo inteiro em seu acervo.

Ele me conta que à primeira vista eles são simples retângulos de papel, mas possuem mais de um século de história. A invenção nasceu na Áustria em 1869, idealizada pelo professor Emmanuel Hermann. No Brasil, passou a ser usado pelos Correios a partir de 1880. Os primeiros não continham fotos nem desenhos. Eram simples cartolinas pré-seladas e que não necessitavam de envelopes.

A época de ouro do cartão-postal foi de 1900 a 1930, embora seja ainda muito usado hoje. Antigo ou moderno, sempre constituiu valioso recurso para os pesquisadores de história e de geografia, importantíssimo para saber o modo de vida, usos e costumes de povos e países.

– Uma coleção de postais é uma verdadeira janela para o mundo – acredita o amigo. – Além disso, é uma excelente terapia para o atribulado ser humano da atualidade, ajudando-o a combater o estresse da vida moderna. Uma espécie de fuga, uma viagem sem passaporte, sem pesadas malas, sem a confusão de rodoviárias e aeroportos.

Há, inclusive, um estudo do escritor pernambucano Gilberto Freyre sobre o cartão-postal no começo do século. Ao visitar a Feira da Ladra, em Lisboa, encontrou vários postais à venda numa barraca de antiguidades, cujo tema era a Amazônia na época áurea da borracha. A atenção dele foi despertada pelas paisagens do seu país, mas, principalmente, pelo conteúdo. As mensagens escritas no verso pelos emigrantes portugueses que vieram para a região descreviam as aventuras: o novo lar, as árvores gigantescas, os bichos, o movimento dos portos, as belezas dos teatros de Belém e Manaus. Num deles, o remetente exaltava até mesmo a maravilha do banho diário e o uso do chuveiro.

Reafirmo ao amigo interiorano, que, como a maioria das crianças, tive muitas manias. Quando menino, guardei bolinhas de gude, borboletas e besouros. Mas, na verdade, eu era muito mais um colecionador de sonhos.

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000);Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.