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Rubens Paiva não estava lá

Por Mouzar Benedito.

Um dos assuntos que certamente a Comissão da Verdade deve apurar é o “desaparecimento” de Rubens Paiva. A versão da ditadura para o caso foi de que ele estava sendo transportado de um presídio para outro e foi resgatado por um comando “terrorista”. Segundo essa versão, houve um intenso tiroteio e um dos veículos usados pelos guerrilheiros se incendiou. Como prova, mostram a foto de um fusca queimado.

Jornalistas afinados com os militares aceitaram essa versão sem contestar, publicaram a foto nos jornais e contaram a história como a repressão lhes contou. Mas é uma versão totalmente falsa. Rubens Paiva não estava naquele fusca, nem foi resgatado por comando guerrilheiro nenhum.

A história do fusca queimado está no livro Ousar Lutar – Memórias da guerrilha que vivi, um depoimento que me deu José Roberto Rezende, militante do Colina (Comando de Libertação Nacional) e depois da VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares) e da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária).

Ele me contou que ficou surpreso ao ver a foto do carro no jornal, ilustrando uma matéria fantasiosa.  A VPR usava carros temporariamente expropriados (ela devolvia os carros aos donos – o próprio Zé Roberto ligava a eles dizendo onde estava, para ir buscar), mas tinha um fusca legalizado, para uso cotidiano, sem correr riscos. Esse fusca, considerado uma “companheira”, tinha o apelido de Natália. Seu “proprietário” era um militante da VPR que usava o nome de guerra Ângelo.

O problema é que para soltar o embaixador alemão, que havia sido sequestrado, e trocado por quarenta presos políticos, falhou o esquema do uso de uma kombi. O encarregado de levá-la ao local do cativeiro estacionou o veículo em local proibido e ela foi guinchada. Era ponto de honra para os guerrilheiros cumprir o trato de soltá-lo quando os presos libertados chegassem ao seu destino. E resolveram usar a Natália.

Aí baixou uma dúvida: e se o embaixador tivesse memorizado a placa do carro? Para resolver a situação, limaram a numeração do chassi e do motor do carro e o levaram para um local ermo, onde ele foi incendiado. E os militares aproveitaram o fusca queimado para montar uma farsa, engolida por parte da imprensa.

Até hoje, quando se fala do “desaparecimento” de Rubens Paiva, representantes da ditadura usam a matéria de jornal com foto do fusca como “prova” do resgate pelos guerrilheiros. E tem gente da esquerda que sabe que é uma fantasia, mas discute a questão. Já mandei o livro para pessoas que não conheciam a história real do fusca, mas o assunto continua sendo tratado como se ninguém soubesse dessa história. Não sei porque.

Quem matou Rubens Paiva, como o mataram e o que fizeram com o corpo, não é uma história esclarecida, ainda. Tomara que seja desvendada pela Comissão da Verdade. Mas uma coisa é certa: a história do fusca queimado é totalmente falsa. Quem quiser ler a história do jeito que me foi contada por José Roberto Rezende, ela está no livro citado, publicado pela Boitempo no ano 2000, com uma segunda edição em 2007.  [O livro está em promoção até amanhã, saiba mais clicando aqui.]

Há um capítulo sobre o sequestro do embaixador alemão e logo em seguida, a partir da página 65, vem “Natália e a farsa montada pela polícia sobre a ‘fuga’ de Rubens Paiva”. É só conferir.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

De bar em bar XIV: Lugar de falar mal do governo

Por Mouzar Benedito.

Logo depois da ponte de Pinheiros para o Butantã, no final dos anos 1970, havia vários botecos do tipo sujinho. De vez em quando algum virava moda para os estudantes, sem motivo nenhum. A cerveja era gelada como nos botecos vizinhos, as cachaças eram as mesmas, os preços eram iguais e os tira-gostos também. E tinham um inconveniente: fechavam relativamente cedo, uns às onze da noite, outros à meia-noite e outros, pouco depois.

Foi num boteco desses que discuti certa vez com um grupo de paulistas — no meio dele, um carioca morando em São Paulo — que tinha inveja de uma coisa do Rio de Janeiro, fora as praias: as casas de sucos de frutas. No Rio, essas casas já eram comuns nos anos 1970, enquanto em São Paulo quase não existiam. Tomava-se, sim, suco de laranja (principalmente) em botecos comuns. Mas não casas com sucos naturais de goiaba, manga, caju, maracujá e muitas outras frutas, na época feitos da própria fruta mesmo e não de polpa congelada. Eu gostava de suco, mas tinha uma crítica às casas de suco: nelas não se falava mal do governo. O freguês entrava, tomava um suco e saía, quase sempre sem falar com ninguém.

— Falar mal do governo é tomando cachaça ou cerveja, em boteco — dizia eu. — Por isso, acho os botecos muito mais saudáveis do que as casas de suco de frutas.

Ninguém concordou comigo. Quando morei no Rio, repetia meus argumentos sobre o assunto e eles eram sempre repelidos como maluquices. Até que um dia o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu uma crônica, acho que no Jornal do Brasil, falando exatamente as coisas que eu falava. Aí o argumento ganhou crédito e eu passei a ser visto como um plagiador do Drummond.

Mas, voltando aos botecos do Butantã, uma vez encontrei o Mendes num deles. Era um velho amigo piauiense que eu não via há tempos e tínhamos muita coisa pra conversar e muita sede pra beber. No tempo em que trabalhamos juntos eu dizia que ele era o cara mais feio do mundo e o comparava com coisas feias “tradicionais”, como mudança de pobre, rascunho do mapa do inferno, briga de foice no elevador, praga de mãe e briga de irmãos por causa de mistura, além de outras feiuras inventadas por mim. Ele dizia que o mais feio era eu. Em alguns meses, arrumei mais de trezentos de feiura para ele e ele arrumou outros tantos para mim. E admito: no final, ele venceu, dizendo que eu era mais feio do que resto de sarapatel. Caí na risada e me considerei derrotado!

Desta vez falávamos de outros assuntos. De repente, só estávamos nós no bar e o dono avisou que aquelas duas doses de cachaça e aquela cerveja seriam as últimas bebidas que nos serviria. Tinha que fechar. Bebemos e saímos procurando outro boteco. Achamos um que estava fechando também. Foi o tempo de tomar uma dose de pinga e uma cerveja. E fomos fechando todos os botecos. Parecia que não tinha mais nenhum aberto, era tarde, até o Rei das Batidas tinha fechado. Mas vimos depois dele, do outro lado da avenida, uma porta larga aberta, com o interior todo iluminado. Corremos para lá, cambaleando, pra chegar antes que ele fechasse também. Entramos correndo e o Mendes já gritando:

— Duas pingas e uma cerveja, por favor.

O rapaz de dentro do “balcão” respondeu com cara de espanto:

— Ô, moço, aqui nóis vende é passagem de ônibus — era o ponto de parada dos ônibus que iam para o sul do país.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

De bar em bar XIII: Bosque de Viena

Paella no Bar Botequim

Por Mouzar Benedito.

O Bosque de Viena era um restaurante, mas não austríaco. A música era latino-americana, tocada por paraguaios. Mas não era um restaurante paraguaio também, nem mesmo latino-americano. Era espanhol, e localizado na rua Aurora ou dos Timbiras (não me lembro bem), em São Paulo, em plena “boca do lixo”, nome que davam à zona de prostituição…

A especialidade da casa era paella. Uma das melhores paellas que existiam em São Paulo, a um preço bem razoável, a ponto de gente dura como eu jantar lá pelo menos uma madrugada por semana. E a ponto, também, da música que a gente gostava ser conhecida pelo conjunto. Por exemplo: era só eu entrar que, mesmo tocando em outras mesas, o conjunto sapecava a Alma Llanera, um clássico da música popular venezuelana que eu sempre pedia. Tornaram-se meus amigos e também gostavam dessa música.

Um detalhe: na época, todo mundo pronunciava paelha, como os espanhóis, e não paeja, como a pronúncia argentina, imitada por muitos brasileiros. Até hoje me fere os ouvidos escutar alguém falar paeja. Aliás, na Espanha, era comum ironizar os argentinos por sua pronúncia, e já ouvi espanhol se referir a um argentino assim: “É aquele paeja”.

Uma das maiores atrações do Bosque de Viena era o garçom, Don António. Quando ele entrava no salão trazendo uma paella fumegante e o conjunto estava tocando alguma música que ele gostava, não tinha dúvida: parava ao lado e cantava junto. E a paella chegava à mesa não tão fumegante assim. Mas ninguém reclamava. Quem ia lá era meio alternativo, meio chegado a um tipo de vida mais de amizade e brincadeiras do que de brigas e reclamações. Eu encontrava lá todo tipo de gente, como Lourenço Diaféria, Zé do Caixão e pessoas “da noite” em geral.

Um dos amigos que frequentavam o restaurante na mesma época que eu era o Clóvis, jornalista e estudante de História, também conhecido como Penão. Ele adorava uma paella com vinho, e ia lá direto. O detalhe era que nessas ocasiões o Penão se considerava espanhol. Era neto ou bisneto de espanhol, mas gostava de se passar por espanhol legítimo, radical. Quando ia ao Bosque de Viena, uns cem metros antes de chegar lá (a gente só andava a pé ou de ônibus) ele só falava em castelhano. E lá dentro também.

O Bosque de Viena não vendia cigarros, mas em frente a ele, do outro lado da rua, tinha um bar que ficava aberto até de madrugada, e Don António comprava para os fregueses. Numa dessas, bêbado, ao atravessar a rua de madrugada, foi atropelado e morreu. O dono do restaurante — não me lembro do nome dele — entrou numa tristeza profunda e o fechou.

O Hino popular da Venezuela

A canção Alma Llanera é não é um hino nacional oficial, mas é considerada um “hino nacional popular” da Venezuela. O país viveu mais de cem anos sob ditaduras e nelas esta música chegou a ser proibida, por ser uma declaração de amor à liberdade. No Brasil, ela foi gravada por Ney Matogrosso, que a interpretou muito bem. Me deu vontade de mostrar a letra dela. Aí vai, com uma tradução “livre”:

Alma Llanera

Yo nasci en esta ribera     Eu nasci nesta margem
Del Arauca vibrador     Do vibrante [rio] Arauca
Soy hermano de la espuma,     Sou irmão da espuma,
De las garzas, de las rosas,     Das garças, das rosas,

Soy hermano de la espuma,     Sou irmão da espuma,
De las garzas, de las rosas     Das garças, das rosas,
Y del sol, y del sol…     E do sol, e do sol…

Me arrulló la viva diana     Me cortejou a intensa alvorada
De la brisa en el palmar     Da brisa nas palmeiras,
Y por eso tengo el alma,     E por isso tenho a alma,
Como el alma primorosa     Como a alma primorosa

Y por eso tengo el alma,     E por isso tenho a alma,
Como el alma primorosa     Como a alma primorosa
Del cristal, del cristal…     Do cristal, do cristal…

Amo, sueño, canto, rio     Amo, sonho, canto, rio
Com clavetes de pasión,     Com os cravos da paixão,
Com clavetes de pasión.     Com os cravos da paixão.

Para ornar las rubias crines,     Para ornar as loiras crinas,
Para ornar las rubias crines     Para ornar as loiras crinas
Del potro de mi amador.     Do potro da minha amada.

Eu nasci nesta margem     Eu nasci nesta margem
Do Arauca vibrador.     Do vibrante Arauca.
Soy hermano de la espuma     Sou irmão da espuma
De las garzas, de las rosas,     Das garças, das rosas,
Y del sol, y del sol.     E do sol, e do sol.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Ruminâncias

"O pensador", por Singer

Por Mouzar Benedito.

Certas coisas que ficam martelando a cabeça da gente, nos deixam ruminando sobre elas, por serem bestas, bobas, injustas ou simples babaquices. Eu poderia dizer que esses troços são incômodos, aborrecimentos, mas se for usar a forma usual de hoje de transformar em adjetivos, diria que são “incomodâncias”, “aborrecências”. No meu caso, os motivos são dos mais variados, como podem ver a seguir:

* Lideranças – o Fulano é uma liderança sindical, Beltrano é liderança indígena e Cicrano é liderança do MST. Ninguém mais é líder. Lembro-me que Lula era líder sindical, líder metalúrgico, Maluf era líder da direita e Marighella era líder revolucionário. Mas depois de um tempo passaram a usar a palavra “liderança” no lugar de líder. Acho que isso começou com a volta de exilados, que aprenderam essa forma em países de língua espanhola. Ora, liderança é o que o líder exerce. Se for para usar essa regra, ninguém mais vai ser verdeador, vai ser uma vereança, assim como o Zé das Couves não será mais gerente de uma agência bancária, vai ser gerência, e o doutor Abobrinha vai deixar de ser diretor de uma empresa para tornar-se direção, ou diretoria, E Dilma Roussef não será presidente nem presidenta, será presidência.

* Todos e todas – quando estou em algum evento e alguém começa um discurso se dirigindo a “todos e todas” me dá urticária, não levo mais nada do que ele fala a sério. A palavra todos já inclui todas. Falar companheiros e companheiras, vá lá. Mas é uma espécie de demagogia querer a todo momento usar palavras específicas para mulheres. Colaborei na imprensa feminista, quando ela existia, e nunca houve nesse período de militância séria esse tipo de preocupação.

* Banheiro no metrô – beber e dirigir é, cada vez mais, considerado um crime, desde que você não atropele e mate ninguém. Quem atropela e mata, paga uma fiança e fica livre. Mas quem tomou uma dose de cachaça e tem um mínimo de álcool no sangue, se estiver dirigindo direitinho e for pego pelo bafômetro, dançou. Concordo que a gente não deve dirigir bêbado. O negócio, depois de tomar umas cervejas, é pegar o metrô, por exemplo. Só que quando a gente bebe umas cervejas dá uma vontade danada de urinar, e quase nenhuma das estações do metrô tem banheiro público. Como se justifica isso? Devíamos mijar nas catracas.

* Banheiro nas estações de trem – em estações de trem, pelo menos nas que precisei, tinha sim banheiro. Mas ao sair da estação Pinheiros do trem, vi um sujeito mandando o filho urinar no poste, porque iriam entrar na estação. Falei pra ele que na estação tinha banheiro, e ele disse que sabia, mas não levava o filho lá, porque uma vez que levou o menino presenciou algo que o chocou: dois homens transavam e ao lado um fazia sexo oral em outro. Ele falou que ali não era lugar de fazer aquilo e o que fazia sexo oral no outro tirou a boca da botija só para gritar de forma ameaçadora: “Eu te processo por homofobia”. Prender ou pelos menos impedir que casais heterossexuais transem em lugar público pode, né?

* Pregação religiosa em rádio – a liberdade religiosa é uma conquista das sociedades democráticas, e acho que tem de ser seguida religiosamente, liberdade total para pregação nas igreja, terreiros, templos ou outros locais destinados a ela. Mas rádio e televisão são para informação, matérias culturais e entretenimento. Quando eu viajava pelo interior, gostava de uma emissora que só tocava boa música brasileira. Parei de viajar uns anos, quando viajei de novo liguei nela, e um cara gritava coisas contra o demônio. Virei para outra, alguém falava que só quem pagava o dízimo direitinho ia para o céu. Não dá. É difícil achar uma emissora, especialmente do interior, que não seja assim.

* A minoria manda na maioria – há alguns anos, a Câmara de Vereadores de Sorocaba aprovou a comemoração do Dia do Saci em 31 de outubro. O projeto seguiu para sanção do prefeito, mas dois vereadores evangélicos ameaçaram tirar o apoio a ele, se sancionasse a lei. E os outros muitos vereadores viram o prefeito negar a sanção, para agradar os dois evangélicos. Ora, acho que nesse caso os não evangélicos deveriam fazer valer sua força: “Se não sancionar, você fica com os dois que são contra e nós todos viramos oposição”. Isso vale também para governos estaduais e federal. Na Câmara Federal, a bancada evangélica é de menos de 10% dos deputados, mas, unida, ela manda mais que os 90% restantes. Nenhum governo ousa peitar esse pessoal, e a pequena minoria manda mais que a grande maioria.

* Ex-BBB – quando vou entrar na internet, aparecem notícias sobre o programa televisivo Big Brother Brasil. Parece que a coisa mais importante que está acontecendo no mundo é mais uma versão do BBB. Fulana não gosta do Beltrano, há suspeita de que rola sexo e a Globo não mostra. É futilidade demais! E pelo que li, tem gente que paga para ver esse programa imbecil o dia inteiro. Mas o pior é que as pessoas que saem dele tornam-se “celebridades”, pessoas que devem ser ouvidas sobre qualquer assunto. O sujeito não é mais professor, nem publicitário, nem cabeleireiro, nem cantor sertanejo nem nada, é “ex-BBB”, assim como as mocinhas que eram ou queriam ser modelos, atrizes ou qualquer coisa, também. E tornam-se autoridades em tudo, para os padrões televisivos. Um monte de programas babacas da TV chama “ex-BBB” para dar opinião sobre qualquer assunto. O sujeito, ou a sujeita, faz pose e fala como grande autoridade sobre as causas e efeitos dos terremotos no Japão e no Haiti (e o que ele/ela fala vale mais do que o que dizem os geólogos), a crise da zona do euro (ah, eles/elas sabem muito disso!), o programa nuclear do Irã (físicos nucleares não entendem tanto quanto eles, não é?) ou as plantações de jiló no sudoeste de Rondônia. Tenho vontade de encontrar os/as próprios/as (estão vendo como sou correto nessa questão de gênero?) “ex-BBB”, os produtores de TV que os convidam, os apresentadores e quem é babaca a ponto de aceitar o que dizem, e dizer: “Vão todos à PQP!”. O que merecem é porrada, mas não tenho vocação pra isso, meu limite é xingar. Sei que continuarão faturando com a imbecilidade e indecência de certos responsáveis por meios de comunicação. Pena, mas sou filosoficamente contra a pena de morte.

* Facebook e sei lá o que mais – costumo entrar uma vez por dia na internet, gasto mais ou menos uma hora nisso e acho que é bastante. Recebo diariamente convites para entrar no facebook e outras redes sociais. Não entro porque acho que teria que dedicar mais tempo ainda a essas coisas. Tudo bem. Mas algumas pessoas parecem ficar o dia inteiro ligadonas na internet, mexendo nas tais redes sociais (importantes em muitas ocasiões). Parece que trabalham nos intervalos entre as mensagens. Sendo por conta do patrão, tudo bem. Mas quem trabalha por conta própria… Bom, espero que leiam minhas abobrinhas colocadas nos blogues.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

De bar em bar XII: E por falar em Semana de Arte Moderna de 22…

Por Mouzar Benedito.

Um piano, um violino, um bandoneón e três velhinhos tocando eram bons motivos para se ir à Confeitaria Vienense, no primeiro andar de um prédio da rua Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo. Fora isso, havia a comida, a bebida e os frequentadores. Diziam que os participantes da Semana de Arte Moderna de 1922 frequentavam a Vienense. E, lá por volta de 1974, eu dizia que os sobreviventes dela continuavam frequentando. Tirando meia dúzia de jovens atípicos, o que tinha lá era um pessoal meio fora de época, velhinhos e velhinhas, arrumadinhos e arrumadinhas, saboreando, às vezes, um chá com bolachas e bolos, ao som de músicas de antigamente, por sinal muito apreciáveis também. Os músicos, para mim, eram os mesmos que deviam ter tocado para Tarsila, Pagu (que não estava na Semana de Arte Moderna, mas depois se incorporou ao grupo), Oswald e Mário de Andrade.

Nunca fui lá para os tradicionais chás da tarde, meu horário sempre foi mais noturno. E como o lugar era muito calmo e escondido, cheguei a usar a confeitaria como ponto de encontros políticos clandestinos. Mas muitas vezes ia mesmo à Vienense para beber e ouvir música.

Numa noite de quarta-feira, tomávamos chope e comíamos salgadinhos na confeitaria, ao som de um tango tocado com toda a dedicação, baixinho, quando começou uma discussão na mesa ao lado, ocupada por um casal de meia idade. Mesmo que eu não quisesse ouvir, não tinha jeito. O tom de voz deles chegava à minha mesa não muito alto, mas o suficiente para não ter como ignorar a conversa. Ela estava grávida e ele era o responsável. Ela queria casar-se e ter o filho, ele não queria uma coisa nem outra. Tentava evitar a discussão, recomendando que ela ouvisse a música tocada pelos velhinhos.

A certa altura, sem mais argumentos para usar, ela começou a chorar baixinho. Os músicos, percebendo a situação desagradável, aumentaram um pouco o volume (eu que não sou músico, até hoje não sei como se aumenta o volume do piano, do bandoneón e do violino) para abafar o choro. Ela começou a chorar mais alto, eles passaram a tocar mais alto. Ela chorou mais alto ainda, parecendo querer envolver as mesas vizinhas na questão do casal, e os músicos revidaram com acordes mais estridentes. Fora as pessoas mais próximas, ninguém entendia o que estava acontecendo. Só se percebia que a música estava cada vez mais alta.

Bem, para resumir, chegou a um ponto em que os músicos extraíam de seus instrumentos o máximo de volume que podiam, e a mulher não tinha desistido de competir com eles, para ganhar a atenção do público. Chorava ainda mais alto! O tocador de bandoneón fez um sinal desesperado para o maître, que em seguida abordou o casal litigante:

— Olha, mais alto que isso, nossos músicos não tocam. E como não queremos que nossos fregueses venham aqui para ouvir choro, solicitamos que se retirem, por favor.

Eles saíram sem pagar, ele dizendo que ela tinha engravidado porque quis, a música voltou ao normal e eu propus à amiga que me acompanhava:

— Se a conta ficar muito alta, você começa a chorar baixinho. Depois vai aumentando, aumentando…

Mas há muitas outras histórias acontecidas ali. Lembro-me do Mendes, que gostava de ir lá só pra tomar conhaque barato. Ele se impressionava com o garçom trazendo copo apropriado para conhaque legítimo, devidamente aquecido, e servindo com todo o ritual uma beberagem vagabunda.

Voltando aos encontros clandestinos: havia uma mesa grande, afastada das demais. Nela, em 1968 e 69, fazíamos muitas reuniões políticas. Muitas “ações”, que não passavam de panfletagens contra a ditadura, foram planejadas ali. E comemoradas também.

Se existisse ainda, seria um bom lugar para se comemorar os 90 anos da Semana de Arte Moderna, né?

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

De bar em bar XI: Os cafés de São Paulo

Fotografia: blog Lugarzinho

Por Mouzar Benedito.

Na década de 1960, muitos brasileiros estavam exilados na França, e muitos outros iam lá visitá-los ou simplesmente passear. Destes últimos, muitos já tinham um estilo tucano, invejavam Paris e explicavam que na capital francesa existiam cafés, ou seja, bares sofisticados, frequentados por intelectuais que iam lá ler livros ou jornais, passavam horas tomando um simples café, sem serem incomodados.

— Aqui no Brasil a gente toma café no balcão. Se ocupar uma mesa, logo o dono do bar vem perguntar se não vamos consumir nada! — falavam, criticando nosso subdesenvolvimento.

Lá por volta de 1970, enfim, aleluia! Um café! Estilo francês mesmo, por sinal chamado Café Paris, em plena entrada da Cidade Universitária, na avenida Waldemar Ferreira. Glória, glória, aleluia!

Torci o nariz quando vi, mas fui lá, tinha que conhecer o tal café. Pedi um conhaque, que não sou de demorar muito pra tomar um cafezinho, nem gosto de café frio, e fiquei olhando um sujeito de “oclinhos” redondos, na mesa ao lado, olhando pro vazio, com ar de tédio, tendo à frente uma xícara de café esfriando havia um tempão. Pensei: “Ele está pensando que a gente está pensando no que ele está pensando”, e não voltei mais lá. Não gostei. Meus amigos também não gostaram, mas alguns iam lá de vez em quando, pra tomar algo caro e depois dar um pinote — sair correndo sem pagar.

A moda dos cafés começou a pegar, não pelo café servido, mais pelo ambiente e a bebida alcoólica mesmo. Logo apareceu outro café no bairro da Bela Vista, o Café do Bixiga. Eu morava perto, na avenida 9 de Julho, e andava muito pela região, com muitos teatros e botecos, e gostava de ficar parado perto do Café do Bixiga de vez em quando. O bairro era conhecido como área da malandragem (no “bom sentido”, não eram marginais), então quem ia lá parecia sentir-se na obrigação de fazer um jeitão de malandro, como quem ia ao Café Paris fazia um ar de francês. O sujeito que ia a pé ou que parava o carro meio longe vinha andando normalmente até chegar a uns cinquenta ou cem metros do Café do Bixiga, aí seu andar adquiria um gingado diferente, teoricamente de malandro. Era divertido ver essa bobagem.

Depois soube do Café Piu-Piu, mas também fui lá só uma vez. O ambiente era bonito e tinha música ao vivo. O café estava lotado, e cobravam couvert artístico. Uma cantora que fazia parte do grupo que se apresentava naquele dia era minha amiga e eu comentei que ela, que vivia dura, ia ficar cheia da grana aquela noite.

— Nada! — respondeu ela. — O dono fica com o cachê na primeira noite em que a gente se apresenta aqui. Só paga a gente da segunda vez em diante, e hoje é nossa primeira vez.

― Primeira e única — respondeu alguém ao lado. — Tem sempre conjunto novo querendo se apresentar aqui e assim ele não precisa pagar ninguém.

Fiquei injuriado. Hoje, sei que muitas outras casas cobram couvert artístico e não o dão para os artistas. Acho uma sacanagem. Por sinal, comentei sobre isso com amigos do Quarteto Pererê, e me disseram que tocaram no Café Piu-Piu recentemente e receberam direitinho.

― Que bom ― brinquei. ― Será que mudou de dono?

Mas nessa minha única ida lá, fiquei mais injuriado ainda no final, quando fui pagar a conta e fiz um cheque incluindo a gorjeta. A garçonete, timidamente, pediu por favor que eu pagasse a gorjeta à parte, pois o dono não distribuía toda a gorjeta entre os empregados (outra prática que se revelou usual em São Paulo)… Na verdade, imaginei, ele podia dividir a gorjeta também com o pessoal da cozinha, mas por via das dúvidas, não voltei mais lá.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

De bar em bar X: Acontece cada coisa atrás da igreja!

Por Mouzar Benedito.

Calma! Não pensem que é sacanagem eu falar que frequentei o Cu do Padre. Não é safadeza nenhuma, muita gente boa frequentou.

Oficialmente, o estabelecimento que se localiza atrás da igreja de Nossa Senhora do Monte Serrat, que fica no largo dos Pinheiros, em São Paulo, chama-se Bar das Batidas. Mas justamente por causa dessa localização ele ficou conhecido como Cu do Padre.

Acredito que seja o primeiro bar de batidas de São Paulo. Foi fundado em 1954. Recentemente ele foi vendido pelo herdeiro, filho do seu Narciso, que manteve o bar e a freguesia cativa por décadas, até morrer no início de 2009.

Suas batidas eram cheias de componentes secretos para ter um sabor especial, “diferenciado”, para usar a palavra modernosa. Com o novo dono, não sei se continua igual. Pelo que fiquei sabendo mudou pouco, mas os preços subiram.

Cheio de enormes provolones, mortadelas e linguiças penduradas no teto, com aparência de que estavam ali há décadas, sua marca era o aspecto de empoeirado, dando a impressão de que nunca um espanador andou por ali…

Mas alguns frequentadores tradicionais diziam que aquilo era puro charme. Onde interessava, quer dizer, na limpeza dos copos e dos alimentos utilizados, era um rigor total. Até o chão era limpíssimo. “Você pode lamber o chão”, disse-me um adepto incondicional do Cu do Padre. Exagerou, mas tudo bem.

Foi no Cu do Padre que tomei a primeira batida que não era simplesmente a de limão, que já existia em vários lugares, ou aquelas engarrafadas industriais, de coco, amendoim e não sei que mais, que nunca tive coragem de tomar.

Era 1964, eu tinha 16 anos de idade, pouco depois de chegar a São Paulo para morar numa pensão, e um irmão me levou lá, dizendo: “Hoje você vai conhecer uma coisa diferente”. E era diferente mesmo, na época.

Mas além das características já citadas, havia outra: o dono, que chamava todo mundo de “sócio”, era corintiano fanático e durante muito tempo esperava ansioso que o Corinthians ganhasse um campeonato paulista, na época não havia o nacional. A decoração do bar incluía distintivos do Timão e uma coleção de flâmulas penduradas no teto também.

Muitos jovens nem imaginam que houve época em que havia gente que colecionava flâmulas, aquelas bandeirinhas triangulares, com distintivos de times, de empresas ou de qualquer coisa, com alguns dizeres.

Desde 1954, por coincidência o ano da fundação do bar, o Corinthians não ganhava o título perseguido, e surgiram então promessas feitas pelo seu Narciso. Uma delas, segundo a lenda, é que ele tiraria o pó dos provolones e mortadelas pendurados só quando o Corinthians fosse campeão – “o que vai demorar muito”, gozavam os “sócios” até meados da década de 1970.

Aliás, um monte de gente não sabe por que a torcida do Corinthians é chamada de “Fiel”, e dos torcedores radicais surgiu a Gaviões da Fiel. É justamente por causa do longo jejum de títulos, sem que ela abandonasse o Timão que começou a ser chamada pela imprensa de “Fiel Torcida”.

Outra promessa é a de que as pessoas que cobiçavam as flâmulas penduradas no teto poderiam ir lá no dia seguinte ao que o Corinthians fosse campeão e pegar as que quisessem.

Pois bem. Em outubro de 1977, no dia da final do campeonato paulista, disputado por Corinthians e Ponte Preta, até uns palmeirenses colecionadores de flâmulas torceram pelo Corinthians, prevendo incluir algumas raridades nas suas coleções.

O Corinthians ganhou por 1 x 0. A festa durou a noite inteira, pois foram 23 anos para chegar lá de novo. Foi uma alucinação coletiva que dominou São Paulo e que durou até o amanhecer.

Pouco antes de abrir o Cu do Padre, epa!, o Bar das Batidas, um monte de gente esperava na porta. O bar abriu, todos entraram correndo para pegar as flâmulas que queriam, mas… Surpresa! Seu Narciso tinha levado todas para sua casa na véspera.

Não puderam pegar as flâmulas, mas comemoraram de forma inédita ali: um daqueles provolones enormes, que pareciam milenares, pendurados no teto, foi devidamente retirado, picado e servido gratuitamente como tira-gosto. Um cara que estava lá jurou que foi assim. Eu não garanto: nem fui lá, estava com uma baita ressaca depois da noite de bebedeira, pois fui corintiano também. Só deixei de ser depois que acabou a Democracia Corintiana, que nem era desse tempo. Mas isso é outra história.

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças-feiras. 

E a Líbia virou uma democracia?

Por Mouzar Benedito.

Não se fala mais da Líbia. Kadhafi está morto, pronto, assunto resolvido. Virou mesmo uma democracia, como queriam os interventores e supostamente queriam também os que derrubaram o governo? Estou curioso.

Independente do bem e do mal que se falava do governo Kadhafi, achei desde o começo muito estranho o apoio da OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte – aos rebeldes. Apoio que incluiu muitos bombardeios, inclusive o que resultou na morte de Khadaffi.

Ex-aliados incondicionais, como Berlusconi, que segundo ele mesmo dizia participou de orgias com Kadhafi, viraram inimigos totais. Europeus que mamaram nos petrodólares líbios, de repente se tornaram moralistas que excomungam o governo que lhes abasteceu os cofres.

E me incomodava mais ainda ver ex-ministros do governo Kadhafi, virando repentinamente defensores da democracia – e líderes da revolta – quando o regime começou a balançar. Lembrei-me de José Sarney aqui, ex-presidente da Arena, partido da ditadura, virar vice-presidente (e assumir como presidente por causa da morte de Tancredo) do governo que selava o fim dessa mesma ditadura. E com ele, continuaram como expoentes na política brasileira seus companheiros arenistas ACM, Bornhausen, Marco Maciel, Paulo Maluf e outros “democratas”.

Esse preâmbulo é para falar de um livro escrito pelo repórter dos velhos tempos Mário Augusto Jakobskind.

Soube que ele ia ver o que estava acontecendo na Líbia pela Folha de S. Paulo, quando a coisa começava a engrossar por lá. Ele fazia parte de uma delegação brasileira convidada, segundo a Folha, pelo governo Kadhafi (que virou Ghadaffi ou algo assim, conforme cada jornal), para mostrar a realidade segundo o governo líbio.

Entre os membros da delegação, seguiam o deputado Protógenes Queiroz, do PC do B, e o “jornalista esquerdista” Mário Augusto Jakobskind.

A delegação não conseguiu entrar no país, foi barrada na fronteira com a Tunísia, porque a guerra já estava instalada, os bombardeios eram frequentes. E o repórter inquieto ficou no entorno, estudando a questão Líbia e o comportamento não só da OTAN e aliados, mas principalmente o tratamento que a mídia dava ao assunto.

Escreveu então o livro Líbia – barrados na fronteira (o que não saiu na mídia sobre a invasão da Líbia) , em que começa relatando a viagem e garantindo que o convite para ir lá e escrever um relatório que seria entregue à ONU foi de uma ONG, e não de Kadhafi, e ninguém da comitiva recebeu dinheiro nenhum, cada um custeou sua viagem.

O livro de Mário Augusto aborda, além do comportamento da mídia, a história do país, o interesse pelo petróleo líbio e a composição do Conselho Nacional de Transição (CNT). Sobre o comportamento de países europeus, que mudaram de posição radicalmente em relação ao regime, a questão – segundo ele – não era o petróleo, que já estava sob controle desses países, por uma concessão de Kadhafi para ficar bem com eles.

O principal motivo, segundo um economista egípcio entrevistado por Jakobskind, é que os Estados Unidos mantêm um comando militar voltado para a África, chamado Africom, mas sua sede é na Alemanha. Khadafi estaria acertando a transferência da sede do Africom para seu país, tirando a Europa da jogada, Criaria uma ponte direta EUA-África.

Enfim, o livro merece ser lido para se entender um pouco mais o que acontece por lá – concorde-se ou não com ele.

Mário Augusto, que foi meu colega no Versus e no Pasquim, repórter da sucursal da Folha no Rio e depois editor de política internacional na Tribuna da Imprensa, de Hélio Fernandes. Mas por suas posições não tem mais espaço na grande mídia, é um jornalista que nada contra a corrente. Tem vários livros escritos, entre eles Cuba: apesar do bloqueio, relatando sua experiência na Ilha, publicado em 1985 e reeditado com atualizações agora, em 2010. É outro livro importante. Ambos – o da Líbia e o de Cuba – publicados pela Book Link, trazem informações e análises que obviamente não estão nos nossos jornais diários, nas revistas semanais nem nos telejornais. 

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças-feiras. 

O Saci como ícone da identidade nacional na literatura

Por Mouzar Benedito.

Participei do Congresso da União Brasileira de Escritores, realizado em Ribeirão Preto entre 12 e 15 de novembro, fazendo uma palestra sobre um tema sugerido pelos organizadores. O texto básico da palestra é esse a seguir. É extenso… Paciência, leitores.

Vou começar contando uma historinha usando o vocabulário “moderno”, usado principalmente por jovens:

A fulana estava insatisfeita e teve um insight: se morasse um pouco no Primeiro Mundo, seria um up-grade, inicializaria uma nova vida. Foi para a América num voo charter.

Morou em New York, onde trabalhou como baby-sitter e às vezes cuidando de pets. Em pouco tempo teve dinheiro para comprar uma bike num shopping-center, com 30% off por pagar in cash. Era uma bike made in China (não se esqueça: a pronúncia correta é Chaina). Tinha um defeito, mas fizeram recall. 

Mudou-se então para Miami, morando em down-town. Fez MBA (não vá pronunciar errado: é embiei) em financial domestic. Para ir à faculdade, fazia sempre um pit stop para um happy hour. Deletou o Brasil de sua memória, mas como user, mantinha contato direto com a family, pela Internet.

Não era uma vida soft, pois morava com loft com várias pessoas, comendo pizzas delivery, que era o que dava para comprar com o cachê de atriz em filmes trash. Mas voltou para o Brasil com um novo look e know-how para ter um happy-end.

Estamos falando em português, a língua pátria, ou, como podemos preferir, vernáculo?

Ah, mas pegaria mal contar essa história de outro jeito:

A fulana estava insatisfeita e teve um estalo: se morasse um pouco em algum país desenvolvido seria uma melhora para iniciar uma nova vida. Foi para os Estados Unidos num voo fretado.

Morou em Nova York, onde trabalhou como babá e às vezes cuidando de animais de estimação. Em pouco tempo teve dinheiro para comprar uma bicicleta num centro comercial, com 30% de desconto por pagar à vista. Era uma bicicleta fabricada na China. Tinha um defeito, mas fizeram reposição dela.

Mudou-se então para Miami, morando no centro da cidade. Fez mestrado em economia doméstica. Para ir à faculdade, dava uma parada para uma bebidinha no final da tarde. Apagou o Brasil de sua memória, mas como usuária de computador, mantinha contato com a família pela Internet.

Não era uma vida suave, pois morava num cômodo tipo sótão com várias pessoas, comendo pizzas entregues em domicílio, que era o que dava para comprar com o que ganhava como atriz, trabalhando em filmes vagabundos. Mas voltou para o Brasil com um novo visual e conhecimentos para ter um final feliz.

Pois é, se podemos falar em inglês, ou mesmo linguagem de computador, por que falar em português?

Muita gente fala assim hoje em dia. E não se limita a isso. Já ouvi gente falando beach em vez de praia, e não foi em tom de brincadeira, foi falando sério. E quase ninguém fala em fazer uma cópia de segurança de alguma coisa. É back-up.

Algodão, para eles, é cotton. Roupa 100% cotton! Sem contar algumas coisas que estão mais ou menos definitivas na linguagem dos brasileiros, como feedback em vez de resposta. E as competições fitness? E os alimentos diets e lights?

Recentemente, em São Paulo, vi uma matéria de jornal sobre uma encrenca por causa de uma “house party”, em que se pagava 25 reais de entrada com direito a “open bar”. Apareceram centenas de pessoas num lugar que não cabia 60.

O que estranhei é a tal de “house party”, que, fiquei sabendo, não era nada mais do que uma festa em casa. E o “open bar” queria dizer que quem pagou os 25 reais tinha acesso livre às bebidas.

Chegou a um ponto em que eu mesmo me surpreendi ao procurar um lugar para acessar a Internet, vi uma placa indicando um lugar desses no primeiro andar de um prédio e, quando subia pela escada um homem já velho me perguntou: “Você vai ao lanhouse?

Ele pronunciava lanhouse como se fosse uma palavra da língua portuguesa, em vez de lan rause, como se diz em inglês. Eu sorri e confirmei. Ele me informou que estava fechada e fiquei pensando: eu mesmo falo lan rause e estranhei que ele tenha pronunciado lanhouse.

Lembrei-me dos franceses pronunciando as palavras que vêm de fora, inclusive nomes próprios, com sotaque francês. Basta lembrar o exemplo de Santos Dumont, que foi muito popular em Paris, onde era conhecido como “Santos”.

E mesmo os hispano-americanos fazem isso. Por exemplo: foram os espanhóis que colonizaram a Flórida. E Miami fica lá. Os hispano-americanos pronunciam florida, com a sílaba tônica no ri, e miãmi, e não se sentem mais burros por isso.

Aliás, como tiraram o trema do português, houve uma ameaça de tirar o til em cima do n, em espanhol, e não deixaram. Nem por isso o espanhol ficou pior.

Aqui, não. Temos que nos internacionalizar a qualquer custo. De preferência assimilando tudo o que vem dos Estados Unidos. É de se espantar como falar corretamente inglês, e usar no cotidiano expressões em inglês pronunciadas “corretamente”, se tornou uma exigência para muitos brasileiros.

Falei para uma conhecida que assisti a um filme no canal HBO – pronunciei agá bê ó – e ela me corrigiu: eigibiôu.

Conheço gente que não sabe escrever uma frase sem erro em português e corrige a escrita e a pronúncia inglesa – de preferência com sotaque estadunidense – de quem ousa não falar e escrever como os anglófonos.

E isso não se restringe à linguagem, parecem querer exigir da gente costumes “de primeiro mundo”. Essas pessoas adoram se referir à Europa e aos Estados Unidos como “primeiro mundo”. Quando reconhecem alguma coisa boa no Brasil, dizem que “até parece de primeiro mundo”.

Até nos mitos elas são assim. Por exemplo: já vi adesivos de carros com os dizeres “Gnomo – eu acredito”. Vá dizer para uma pessoa dessas que acreditaem Curupira, Saci, Iara ou Boitatá! Aliás, elas acham ridículo fazer festa do Saci em 31 de outubro, mas acham o máximo participar de festas do raloín – epa, Halloween.

Aí é que eu queria chegar para entrar no tema desta conversa.

E começo falando uma coisa óbvia: a literatura não é uma coisa isolada dentro da cultura, nem mesmo dentro do cotidiano das pessoas. Ela costuma refletir o que pensamos, nossos problemas, nossos ideais, e identifica uma nação.  

E o que nós, brasileiros, pensamos de nós mesmos, a nossa identidade, tem sido uma coisa meio negativa, nossa autoestima como nação não é das melhores. Isso aparece muito em jornais, e revistas e em parte da literatura brasileira produzida atualmente.

Finalmente estamos numa fase em que o brasileiro vem perdendo progressivamente o que Nelson Rodrigues chamava de “complexo de vira-lata”.

Mas ainda há um sentimento de inferioridade nossa na literatura e nos espelhamos muito no exterior. Isso se reflete no uso de um vocabulário com o maior número possível de palavras em inglês – mesmo tendo equivalentes em português.

Abro um parêntese aqui para a “vontade” de tornar o português uma língua mais conhecida internacionalmente, o que é bom, mas há coisas desastrosas, como o acordo ortográfico para unificação da língua portuguesa, que só o Brasil cumpre.

Uma das “desculpas” para o acordo era que com a unificação ficaríamos mais acessíveis ao resto do mundo, o que não passa de uma fantasia. Tudo para ficarmos mais “parecidos” com os gringos. Aliás, tem quem defenda eliminar todos os acentos, com o argumento de que “em inglês não tem”.

Foi um acordo altamente nocivo, que – afora eliminar o charmoso trema, por exemplo – custou e custa bilhões ao Brasil, pois bibliotecas escolares costumam transformar em lixo tudo que é “antigo”, quando se muda a ortografia, com a alegação de pedagogos que os livros com grafia antiga confundem os estudantes.

Em outros momentos, já ocorreram ações positivas de afirmação da cultura brasileira. Basta lembrar a Semana de Arte Moderna, de 1922.

E o que propomos é isso: uma afirmação da literatura brasileira, que inclui a abordagem de temas brasileiros, o uso de um vocabulário brasileiro e até a “contrarreforma” ortográfica, readotando o trema e até mesmo – eu radicalizaria – a volta dos acentos diferenciais e de colocação de acento grave nas sílabas subtônicas (ex.: cafèzinho).

No português do Brasil há influências indígenas, africanas e de imigrantes que enriquecem e diferenciam o vocabulário, com variações regionais enriquecedoras do idioma. Isso é bom, enriquece nosso português brasileiro. Só que é uma coisa que passa por um processo de assimilação de imigrantes, não é colocada sem mais nem menos de lá pra cá.

Vou defender aqui uma proposta que não é xenófoba. É de afirmação, mas sem preconceito nem desconhecimento do que acontece no mundo. Assimilar sim, muitas coisas, num processo antropofágico como o defendido por Oswald de Andrade. Mas não fazer festa pra tudo o que vem de fora e torcer o nariz para tudo o que nasce aqui.

Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Raquel de Queirós, Manuel Bandeira, Drummond, Antônio Callado,Castro Alves,Euclides da Cunha e muitos outros sempre fizeram uma literatura brasileiríssima, e duvido que alguém possa encontrar neles qualquer traço de xenofobia.

Mas o que tem o Saci com isso?

Em 1917, Monteiro Lobato passeava pelo Jardim da Luz, ponto de encontro da burguesia paulistana, e viu estátuas de nibelungos, fadas, gnomos… E concluiu: parece que estamos perto do Polo Norte! Perguntou: cadê o Saci? Cadê a Iara? Cadê o Curupira?

Foi para a redação do Estadinho (vespertino do Estadão) e pediu que os leitores escrevessem contando se nos locais onde moravam tinha Saci e o que ele fazia. Recebeu tantas cartas que publicou um livrão chamado Inquérito sobre o Sacy.

E o Saci representa bem o brasileiro: é pobre (nem roupa tem), negro e perneta… e vive alegre, é brincalhão. Além disso, ele era índio na origem, virou negro e ganhou o gorrinho mágico dos europeus. É mesmo a síntese do brasileiro. É ícone do nosso imaginário. E o que seria da literatura sem o imaginário?

Um pouco da história do Saci

Saci, em tupi-guarani significa “olho ruim” ou “olho doente”, porque segundo a lenda seu olho se mexia sem parar. Pererê é “saltitante” – aliás, é desta palavra que vem o nome da perereca.

O mito Saci surgiu entre os índios guaranis da fronteira do Brasil com a Argentina e o Paraguai. É uma região de Mata Atlântica. Era um curumim encantado que tirava da mata as pessoas perdidas.

Como os povos dominantes de hoje, os portugueses e espanhóis sabiam que um modo eficiente de domínio de um povo passava pela destruição de sua cultura, incluindo seus mitos. A mitologia tupi-guarani é muito ligada ao meio ambiente, cada mito é ligado a um elemento da natureza e o protege.

Os deuses principais são a Lua (Jacy), criadora e protetora dos vegetais, o Sol (Guaracy), criador e protetor dos animais, e Rudá, deus do amor, que faz com que as criaturas se amem e se reproduzam.

Sob Guaraci, estão os mitos Iara, protetora dos animais que vivem nas águas, e portanto protetora das águas também, Caipora, protetor dos pequenos animais e Anhanga, ou Anhangá, protetor dos grandes animais da floresta.

Sob Jacy estão o Curupira, protetor das matas e Boitatá, protetor dos campos. O Saci é um mito menor, bem abaixo destes, mas acabou se tornando o mais popular de todos.

Os jesuítas transformaram todos esses mitos em demônios, sem contar outros de origem não tupi, como o Jurupari, que aparece nos dicionários de português como o “diabo dos índios”. Mas ele é na verdade o grande legislador, que determina comportamentos bons e outros não bons, puníveis. E nos relatos antigos, punia os que violavam suas leis, batendo em crianças ou maltratando mulheres, por exemplo. A punição era feita através de terríveis pesadelos.

Voltando ao Saci, de curumim que ajudava as pessoas perdidas na mata, passou a ser um ser maligno, com cheiro de enxofre, como convém aos demônios dos cristãos.

Com o tempo, lá pelo fim do século XVIII e início do século XIX, acabou sendo adotado pelos negros. Na cozinha, se uma negra escrava errava na mão e punha sal demais, para não ser punida dizia que foi o Saci que jogou nas panelas. Nas senzalas, quando havia rebeliões em que o líder seria punido com torturas e talvez a morte, nada mais conveniente do que apresentar o iniciador dessas rebeliões o Saci.

Depois, os europeus deram também sua contribuição ao mito Saci, dando a ele o “capuz” mágico, presente em vários mitos europeus. E essa sua única vestimenta era também usada – não como única, claro – pelos republicanos durante a Revolução Francesa. Então, é um símbolo libertário.

Para reforçar essa ideia do Saci libertário, uma das versões para contar porque ele tem só uma perna é de que, quando se tornou negro, foi escravizado e à noite era mantido preso com grilhões em uma perna a um tronco da senzala. Uma noite resolveu cortar a perna presa e fugir. Preferiu ser um perneta livre a um escravo com duas pernas.

Então, vejam, o Saci, além de ser uma síntese do brasileiro, formado por índios, africanos e europeus, é um ser libertário. E é conhecidoem todo o Brasil.

Quando se fala do Saci em qualquer parte do território brasileiro não é preciso explicar “quem” é ele: todo mundo o identifica como um negrinho que usa um capuz vermelho, pita cachimbo, se movimenta num redemoinho e faz artes.

Repito: não estou defendendo aqui nada de xenofobia. Simplesmente acho que o preconceito não é daqui pra lá, mas de lá pra cá, e os colonizados engolem o preconceito e até gostam dele.

No mínimo, um mundo globalizado deveria ter mão dupla, não deveríamos aceitar a condição de repositório de tudo quanto é coisa vinda de fora, inclusive lixo cultural.

Tem um monte de gente que acha que temos que nos inspirar sempre nas coisas do “Primeiro Mundo”, principalmente dos Estados Unidos. Eu já brinquei com um cara desses, dizendo que conheci um sujeito com comportamento radical de Primeiro Mundo: não tomava banho de jeito nenhum.

Inicialmente, me irritava era com o currículo de certos articulistas de jornais, sempre com PhD na universidade de não sei onde. Não eram pós-graduados, eram PhD.

Não interessa se a faculdade em que fizeram esse tal PhD era uma daquelas de beira de estrada nos cafundós dos Estados Unidos, o que interessava era que o curso foi feito na “América”. Para esse tipo de gente, América é lá, aqui somos o quintal da América, apesar do nome ter sido dado ao continente muito antes dos europeus começarem a colonizar a América do Norte.

Seria como se a Alemanha, por exemplo, se apoderasse do nome Europa, tratando os demais países do continente europeu como quintal.

Sei que passou a ser comum gente ligada à música fazer questão de ressaltar que morou não sei quanto tempo em alguma cidade da “América”, como se isso lhe desse uma voz melhor, afinação melhor, musicalidade melhor.

Agora tenho visto um pouco disso também em literatura. Há autores que querem mostrar serem conhecedores do “Primeiro Mundo” ambientando seus romancesem Paris, Nova Yorkou outras cidades do dito-cujo. Às vezes tem sentido, mas muitas vezes fica uma coisa grotesca, mero exibicionismo.

É um direito de qualquer pessoa escrever com o “sotaque” que quiser e ambientar sua obra onde quiser. Que continuem escrevendo. Podem ser livros bons ou ruins, assim como livros escritos no mais estrito vernáculo podem ser bons ou ruins também. Mas acho que deveríamos ter uma maneira de mostrar ao leitor que um determinado livro tem características bem brasileiras.

Um troféu, talvez

O que defendo, o Saci como ícone de identidade da literatura brasileira, serviria sim para identificar e reconhecer um pouco uma literatura voltada para nós, diferentemente desse tipo pretensamente internacional. Minha proposta, se algum dia for aceita, seria criar uma espécie de “selo Saci”.

Livro que recebesse esse selo significaria que ele tem algo a ver com a nossa cultura. Não quer dizer que essa literatura seja nacionalista, nem voltada exclusivamente para o Brasil profundo. Pode ser ambientada em qualquer parte do país, inclusive em comunidades de migrantes, e neste caso obviamente o uso de expressões lingüísticas deles faz obviamente parte do contexto. O não uso delas é que seria anormal.

O Brasil é formado por um montão de povos, e cada um deu e dá sua contribuição à cultura brasileira.

Assim, há livros bem brasileiros que tratam, por exemplo, dos italianos vivendo aqui, de problemas da colonização. É exemplar o livro “Coronéis e Carcamanos”, de Júlio Chiavenatto, tratando da imigração italiana para a região de Ribeirão Preto, para trabalhar na cultura do café.

Falando de outros bem conhecidos, tem “Canaã”, de Graça Aranha, um romance que trata da imigração alemã no Espírito Santo. 

Fernando Moraes publicou há poucos anos o livro “Corações Sujos”, sobre japoneses que viviam no Brasil e não aceitavam a derrota de seu país de origem na Segunda Guerra.

Trata de uma coisa acontecida aqui, com gente que veio para cá e virou brasileira depois, apesar das diferenças inclusive físicas da maioria do nosso povo. Trouxeram sua cultura, tiveram dificuldades de adaptação, e isso faz parte da História e da formação do povo brasileiro.

Falando em japoneses, e extrapolando a literatura, quer mais brasileiro do que o filme “Gaijin”, de Tizuka Yamazaki? E os alemães de “Aleluia Gretchen”, de Sylvio Tendler?

Já que citei esses filmes, quero lembrar uma coisa sobre os civilizados do que chamam de Primeiro Mundo. Fiz uma parte da tradução da “Enciclopédia Contemporânea da América Latina”, da Boitempo Editorial, e entre os textos traduzidos havia um sobre cinema latino-americano.

Por ele, fiquei sabendo de uma coisa que não imaginava: existe um controle das distribuidoras sobre quantos filmes latino-americanos podem ser vendidos de um país para outro dentro do continente. Só quatro filmes por país.

Assim, se a Argentina produzir cinquenta filmes bons num ano, só quatro deles poderão vir para o Brasil, quatro para o Paraguai, quatro para o Chile etc. Não são necessariamente os mesmos quatro em todos os países, podem mandar quatro filmes para cá e outros quatro totalmente diferentes para o Chile, por exemplo.

Mas não adianta querermos mais do que isso. Existe um controle feito pelos distribuidores internacionais. Filmes dos Estados Unidos podem vir quantos forem, duzentos, trezentos por ano. Não tem limite.

Se a gente fizesse isso aqui, nós seríamos taxados de subdesenvolvidos, protecionistas, ignorantes e coisas piores, mas eles fazem, assim como ma economia, no comércio. São protecionistas e prepotentes, obrigam o continente a engolir filmes deles e impedem a chegada de filmes que não são da sua lavra. 

Sei que haverá quem queira ridicularizar essas coisas que falei aqui, como tentaram ridicularizar a instituição do 31 de outubro como Dia do Saci. Disseram ser ridículo comemorar o Dia do Saci, mas achavam normal e até interessante se vestir de bruxa e sair por aí festejando o que nem mesmo sabiam o que era.

Estamos sujeitos a rótulos e preconceitos de gente que se submete com prazer a uma pretensa superioridade primeiro-mundista.

Então, voltando à literatura, reafirmo que vejo algo de Saci e de qualidade literária nem um pouquinho inferior à do tal “Primeiro Mundo” em livros como “Os Sertões”, de Eulcydes da Cunha; “Grande Sertão, Veredas”, de Guimarães Rosa; “O quinze”, de Raquel de Queirós; toda a literatura de Jorge Amado, que só aprecio em parte, mas é incontestavelmente brasileira; “Galvez, Imperador do Acre”,de Márcio Souza,tudo de Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Machado de Assis, Lima Barreto e João do Rio, dos poetas João Cabral de Mello Netto, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Mário Quintana, Manoel de Barros e Patativa do Assaré, entre muitos outros.

E também de todos que trazem para os leitores brasileiros temas e personagens que contribuíram para formar o Brasil e os brasileiros.

Para terminar, a União Brasileira de Escritores tem o troféu Juca Pato, para o intelectual do ano, e este ano quem o ganhou foi o geógrafo Aziz Nacib Ab’Saber, que tenho orgulho de dizer que foi meu professor. Além de maior geógrafo vivo do mundo, o professor Aziz é muito provavelmente a pessoa que mais conhece o Brasil, em seus detalhes físicos e humanos.

Por sinal, o professor Aziz nasceu em São Luiz do Paraitinga, sede da Sociedade dos Observadores de Saci e primeira cidade a adotar oficialmente o 31 de outubro como Dia do Saci e seus amigos.

Fiz esse preâmbulo para fazer uma sugestão, que não seria uma concorrência ao Juca Pato. Pensei, indo além da ideia de um “selo Saci”, em propor que tivéssemos também um “troféu Saci”, para nossos autores mais emblemáticos, juntando ao tema tratado uma qualidade literária superior.

Aliás, já teve um troféu Saci para as artes cênicas, dado pelo jornal “O Estadode S. Paulo”. Mas como ele não existe mais, e ninguém é dono do Saci, acho que o perneta pode pular para a literatura que tenha as características do próprio Saci: resistência, liberdade e denúncia contra a opressão e o preconceito.

Esse troféu não seria dado só para uma única pessoa anualmente.

Seria para cada autor que honrasse a nossa literatura, juntando qualidade e brasilidade. E gostaria também que existisse um oposto a ele, para os que mais se submetem à indústria cultural gringa, o “troféu Raloin”. Seria bom, não é? Aliás, para agradar melhor seus recebedores, escrevamos como eles gostam: Halloween.

Enfim…

Viva o Saci!

Viva a Iara!

Viva o Curupira!

Viva o Boitatá!

Vivam todos os mitos brasileiros!

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças-feiras. 

De bar em bar IX: Martinelli e outras lembranças

Por Mouzar Benedito.

— Nem pra beber a direita presta.

Esta foi minha grande conclusão ao olhar um bar que existe no térreo do prédio Martinelli, na fachada da rua Líbero Badaró, num final de tarde, quando Maluf era prefeito.

É que, durante o governo Erundina, muita gente que trabalhava em várias secretarias localizadas no prédio Martinelli ia tomar uma no bar, depois do expediente. Suplicy perdeu para Maluf a eleição para sucessão de Erundina, todos os cargos de confiança foram trocados, passando a ser ocupados por um pessoal de direita, e o bar ficou às moscas nos finais de tarde, pelo menos quando eu passei por lá. Parece que até os funcionários de carreira ficam influenciados pelos ocupantes dos postos de confiança, pois no nosso tempo, quando eu fazia uns trabalhos para a Secretaria da Habitação, eles participavam das nossas bebedeiras pós-expediente.

Às vezes eu parava pra tomar uma cerveja no bar na hora do almoço também, porque eu achava uma coisa muito divertida lá: pra mim, o entorno do Martinelli devia ser, na época, declarado protestódromo oficial de São Paulo. Havia no próprio Martinelli as secretarias municipais de Habitação e de Vias Públicas, a Emurb (empresa municipal de urbanização), mais alguns órgãos públicos que não me lembro e uns andares eram da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e do Sindicato dos Bancários. Então, todos os dias tinha grupos protestando embaixo do prédio, seja reivindicando moradias, seja criticando os banqueiros ou seja lá o que for.

Só pelo tom de voz de quem protestava ou reivindicava, embora a às vezes não se ouvisse claramente o que gritavam ou cantavam, a gente já sabia que tipo de manifestação era e quem promovia. O Sindicato dos Bancários tinha um animador de protestos teatral e competente, que fazia paródias com músicas de sucesso e lançava palavras de ordem. Já os movimentos de moradia também cantavam mudando as letras das músicas de sucesso, mas dando um tom mais “revolucionário” ou pelo menos reivindicatório. O detalhe era que quem puxava a música geralmente era alguma freirinha que assessorava ou apoiava o movimento em questão. Eram freirinhas animadíssimas, que soltavam a voz com gosto. E era sempre uma voz fina e quase sempre desafinada. Eu não aguentava a voz das freirinhas de movimentos de moradia. Mas bebia ouvindo.

Outro boteco que frequentávamos, nessa época, ali pertinho, na ladeira da avenida São João, era um sujinho a que chamávamos “Dá licença”, porque era estreito e tudo era servido no balcão. Ficava cheio de gente enfileirada junto ao balcão comprido: o bar era estreito, mas comprido pra chuchu, parecia o mapa do Chile. O banheiro ela lá no fundo e, quando alguém ia lá precisava ir pedindo licença aos que estavam no caminho, que precisavam chegar a bunda pra frente para que o outro passasse atrás.

Relembrando os botecos simplórios dessa área do centro, me veio à memória um que nem me lembro se tinha nome, mas nós o chamávamos de Passarela, porque lá se vendia uma bebida, um coquetel, com esse nome. Conheci esse boteco quando fui trabalhar no escritório da Fábrica de Tecidos Tatuapé, na rua Boa Vista, em meados da década de 1960. Um dos meus colegas de trabalho era tarado por esse coquetel meio adocicado, feito não sei com que bebidas, mas acho que incluía vermute ou vinho branco doce, com algumas uvas passas no fundo. Era uma portinha no prédio Martinelli, na face virada para a avenida São João.

Aliás, vale uma lembrança desse prédio que já foi símbolo de São Paulo, maior arranha-céu da América Latina, ficou decadente e depois foi recuperado e transformado em sede de repartições públicas. Na época da decadência, abrigava moradias precárias, escritórios de advogados que cobravam barato, outros tipos de escritório, sempre com ar decadente, relojoeiros, barbearias, alfaiatarias e não sei o que mais. Só me lembro que os corredores inspiravam insegurança, eram cheio de “gatos” para ligação de energia, pois vários dos apartamentos ou escritórios testavam com a luz cortada por falta de pagamento.

O Martinelli é enorme e tem três entradas: uma pela rua São Bento, outra, um andar abaixo (o prédio fica num declive bem acentuado) pela avenida São João e outra, mais um andar abaixo, pela rua Líbero Badaró. Todas as vezes que fui lá, nessa época, geralmente acompanhando algum amigo — um deles era freguês de uma alfaiate barateiro que ocupava um comodozinho pequeno num andar lá do alto —, uma piadinha se repetia: na hora de descer, os passageiros iam falando ao ascensorista o andar em que queriam parar, mas quando se tratava de sair do prédio falavam o nome da rua: “Me deixe na São João”… “São Bento”… “Líbero Badaró”, e algum engraçadinho dizia: “Eu fico no Parque Dom Pedro”.

Mas voltando ao bar da passarela, em 1966, quando saía do trabalho eu ia pegar o ônibus para Pinheiros no Anhangabaú e sempre dava uma paradinha lá, com colegas de trabalho que iam para outras bandas, mas me acompanhavam porque gostavam da bebida.

No final da tarde não tinha mais na rua São Bento, nosso caminho, umas cenas que me divertiam muito quando chegava para trabalhar, de manhã. Uma figura era um cego que vendia barbatanas para camisa (coisa inacreditável hoje — acredito que quase ninguém mais sabe que os colarinhos das camisas sociais tinham um buraquinho para enfiar as barbatanas, para eles ficarem retos, duros). Ficava quieto e, quando ouvia a aproximação de toc-tocs de sapatos femininos esperava que os passos chegassem frente a ele e gritava com voz bem alta e estridente, parecendo uma araponga: “Barbatana”, provocando um baita susto na mulher. Cheguei a ver mulheres caindo de susto. O cego era sádico.

Outro personagem que eu gostava era um vendedor de bilhetes de loteria. Este, às vezes, continuava até o final da tarde vendendo seus bilhetes na rua São Bento e eu parava um pouquinho para ficar olhando, porque era divertido. Ele gritava os nomes dos bichos não conforme os bilhetes que tinha nas mãos, mas “homenageando” as pessoas que passavam. Quando vinha alguma mulher de meia idade toda emperiquitada, cheia de jóias ou balangandãs, o grito era “olha a vaca, olha a vaca”; quando era algum engravatado gordo e suarento, o grito era “olha o porco, olho o porco”, e assim se sucedia, com gritos de “olha o veado… Olha o pavão… Olha a galinha…”.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças-feiras.