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Maria Rita Kehl associa tortura a ‘gozo proibido’: entrevista para a Folha de S.Paulo

Acontece hoje, a partir das 11h, cerimônia de instalação da Comissão da Verdade. Após a solenidade no Palácio do Planalto, haverá a primeira reunião da comissão, já empossada. A psicanalista Maria Rita Kehl, autora de diversos livros publicados pela Boitempo Editorial, integrará o grupo. Leia abaixo entrevista concedida ao jornalista Morris Kachani, publicada na edição de hoje da Folha de São Paulo.

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“Em menos de 40 anos, a presidente Dilma Rousseff estava no pau de arara e hoje está chefiando as Forças Armadas. Isso é uma glória para o Brasil. Mais importante do que ela ser mulher é o fato de ser ex-guerrilheira.” Com estas palavras, a psicanalista Maria Rita Kehl, 60, recebeu ontem a Folha em seu consultório para uma conversa sobre a Comissão da Verdade, da qual fará parte.

“Certamente altas patentes militares sabem que essa comissão não tem caráter punitivo. Então por que a mera divulgação os incomoda tanto? Há hipóteses. A otimista seria a de que têm vergonha do que fizeram. Mas a pessimista, ou realista, é: existe um gozo na teoria psicanalítica, que é o gozo proibido. Tão sem freios que no limite é mortífero”, disse.

Utilizando Marquês de Sade como exemplo, ela explicou: “A pessoa que está diante do corpo inofensivo dispondo dele a seu bel-prazer, está gozando. Então me parece que o grande vexame, e não a culpa ou o medo, é o sentimento que pode predominar entre aqueles que terão seus nomes citados eventualmente. Como se fossem devassados no seu sentimento mais íntimo”.

Para ela, o discurso de que muitos agentes da ditadura se consideravam a serviço do Brasil não cola. “Isso já é uma construção secundária, que te permite dormir em paz.” Kehl, que diz sempre ter votado no PT, afirmou que não participou da luta armada por tê-la considerado uma opção que significava quase ir para a morte, à época. “Não me parecia que havia condição para virar a mesa, destituir os militares, mesmo com mortos nessa batalha.” Indagada sobre a fala do ex-ministro da Justiça José Calos Dias, seu futuro colega de comissão, que defendeu a apuração das ações do regime e também da luta armada, a psicanalista afirmou: ”Não vejo simetria. Você falar em anistia para os dois lados implica supor igualdade de forças, dizer que o outro lado também tinha gente presa e condenada”.

Kehl lembrou que o Brasil é o único país da América Latina que perdoou os militares sem exigir ao menos o reconhecimento de crimes. Utilizando a linguagem psicanalítica, disse que “o problema surge quando você recalca algo que está mais ou menos sabido mas não é falado”. Esse processo, segundo ela, autoriza implicitamente o abuso da violência – “principalmente das instituições repressivas, que estão contaminadas”, acrescentou.

“O país passou por três séculos de escravidão e duas ditaduras, que terminaram do jeitinho brasileiro. Há um certo incômodo. É como se você abrisse as portas para a interdição inconsciente. Quando certos tabus da sociedade como o ‘não matarás’ são infligidos sem consequência, a conivência permanece.”

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Recomendamos também a leitura de dois textos escritos pela psicanalista e publicados no Blog da Boitempo:

Mulher ou militante (publicado originalmente na revista CartaCapital), acerca da importância da eleição de Dilma Rousseff como ex-presa política torturada durante a ditadura militar;

Comentários sobre K., de Bernardo Kucinski, sobre o romance que investiga o passado histórico do país através da história da busca de um pai pela filha, desaparecida durante o regime militar.

ebooks

Todos os livros de Maria Rita Kehl publicados pela Boitempo estão à venda em versão eletrônica (ebook), custando metade do preço dos livros impressos. Confira abaixo alguns links para livrarias onde os títulos podem ser adquiridos:

O tempo e o cão: a atualidade das depressões – R$20 (Livraria Cultura | Livraria da Travessa | Gato Sabido | Livraria Saraiva)

18 crônicas e mais algumas – R$15 (Livraria Cultura | Gato Sabido | iba | Livrarias Curitiba)

Videologias: ensaios sobre a televisão, em coautoria com Eugênio Bucci – R$22 (Livraria Cultura | Livraria da Travessa | Gato Sabido | Livraria Saraiva)

O que resta da ditadura: a exceção brasileira, coletânea organizada por Edson Teles e Vladimir Safatle  – R$26 (Livraria Cultura | Livraria da Travessa | Gato Sabido | Livraria Saraiva)

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Outras leituras sobre a ditadura militar brasileira

Além de O que resta da ditadura, a Boitempo Editorial também publicou outros livros sobre o tema:

Caparaó: a primeira guerrilha contra a ditadura, de José Caldas da Costa (2007)

Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988, de Beatriz Kushnir (2004)

Dos filhos deste solo: mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar – a responsabilidade do Estado, de Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio (2008)

Memórias, de Gregório Bezerra (2011)

Ousar lutar: memórias da guerrilha que vivi, de José Roberto Rezende e Mouzar Benedito (2000)

Maria Rita Kehl integrará Comissão da Verdade: leia textos da psicanalista sobre a ditadura militar brasileira

A psicanlista Maria Rita Kehl, autora de diversas obras publicadas pela editora, foi nomeada integrante da Comissão da Verdade. A lista com os nomes dos sete integrantes escolhidos pela presidenta Dilma Rousseff foi divulgada ontem e publicada hoje no Diário Oficial da União. Além de Maria Rita Kehl, integrarão a comissão José Carlos Dias (ex-ministro da Justiça no governo Fernando Henrique Cardoso), Gilson Dipp (ministro do STJ e do TSE), Rosa Maria Cardoso da Cunha (advogada), Cláudio Fonteles (ex-procurador-geral da República no governo Lula), José Paulo Cavalcanti Filho (advogado e escritor) e Paulo Sérgio Pinheiro (atual presidente da Comissão Internacional Independente de Investigação da ONU para a Síria). A Comissão da Verdade trabalhará por dois anos (a partir de sua posse, marcada para a próxima quarta-feira, 16 de maio) com a finalidade de investigar e narrar violações dos direitos humanos ocorridas no Brasil durante o período de 1946 a 1988.

Maria Rita Kehl foi jornalista entre 1974 e 1981, tendo publicado artigos em diversos jornais e revistas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Editou a seção de cultura nos jornais Movimento e Em Tempo, periódicos de oposição à ditadura militar. É formada em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) onde realizou pesquisa de mestrado em psicologia social, com a dissertação “O Papel da Rede Globo e das Novelas da Globo em Domesticar o Brasil Durante a Ditadura Militar”, e doutora em psicanálise pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atua desde 1981 como psicanalista em clínica de adultos em São Paulo e, desde 2006, na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Guararema (SP). É autora de O tempo e o cão (Boitempo, 2009), ganhador do prêmio Jabuti de Melhor Livro do Ano de Não Ficção em 2010; da coletânea de crônicas e artigos 18 crônicas e mais algumas (Boitempo, 2011) e Videologias: ensaios sobre a televisão (Boitempo, 2004 – em coautoria com Eugênio Bucci), entre outros. É colunista esporádica do Blog da Boitempo.

Além de ter atuado em movimentos de contestação e resistência ao regime militar, Maria Rita Kehl tem desempenhado papel de destaque na crítica do processo unilateral de reconciliação promovido pelo Estado através da Lei da Anistia (de 1979), defendendo a necessidade da reelaboração do passado histórico pela sociedade brasileira. Segundo ela, os crimes cometidos pelo regime militar e recalcados socialmente pela Anistia influem diretamente nas práticas de corrupção e, sobretudo, de violência exercida pelos agentes do Estado atualmente. Segundo estudos, o fato de o Brasil não ter julgado os crimes cometidos pelo Estado durante o regime militar está diretamente relacionado com o fato de ser um dos únicos países no mundo em que a violência policial só aumentou após o fim de um período de ditadura.

A Boitempo Editorial publicou em 2010 a coletânea O que resta da ditadura: a exceção brasileira, organizada por Edson Teles e Vladimir Safatle. O livro reúne uma série de estudos que apresentam diversas perspectivas para as reminiscências da ditadura militar no Brasil contemporâneo. Dentre eles, está o ensaio “Tortura e sintoma social”, escrito por Maria Rita Kehl. Confira abaixo o início do texo:

Em um livro escrito em 2004 [Ressentimento, São Paulo, Casa do Psicólogo] eu me referi ao ressentimento como um dos sintomas mais representativos da relação ambivalente da sociedade brasileira com os poderes que, em tese, deveriam representar e defender interesses coletivos. Fruto dos abusos históricos que aparentemente “perdoamos” sem exigir que opressores e agressores pedissem perdão e reparassem os danos causados, o ressentimento instalou-se na sociedade brasileira como forma de “revolta passiva” (Bourdieu) ou “vingança adiada” (Nietzsche), ao sinalizar uma covarde cumplicidade dos ofendidos e oprimidos com seus ofensores/opressores. A magoa ”irreparável” do ressentido indica que ele sabe, mas não quer saber, que aceitou se colocar em uma condição passiva diante dos abusos do mais forte; por covardia, por cálculo (“mais tarde ele há de reconhecer e premiar meu sacrifício”) ou por impotência autoimposta, o ressentido acaba por se revelar cúmplice do agravo que o vitimou.

É importante ressaltar, entretanto, que o ressentimento não abate aqueles que foram derrotados na luta e no enfrentamento com o opressor, e sim os que recuaram sem lutar e perdoaram sem exigir reparação. O expediente corriqueiro – por má-fé ou mal-entendido? – de chamar de “ressentidos” aqueles que não desistiram de lutar por seus direitos e pela reparação das injustiças sofridas não passa de uma forma de desqualificar a luta política em nome de uma paz social imposta de cima para baixo. Nossa tradicional cordialidade, no sentido que Sérgio Buarque de Hollanda tomou emprestado de Ribeiro Couto, obscurece a luta de classes e desvirtua a gravidade dos conflitos desde o período colonial.

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Recomendamos também a leitura de dois textos escritos pela psicanalista e publicados no Blog da Boitempo:

Mulher ou militante (publicado originalmente na revista CartaCapital), acerca da importância da eleição de Dilma Rousseff como ex-presa política torturada durante a ditadura militar;

Comentários sobre K., de Bernardo Kucinski, sobre o romance que investiga o passado histórico do país através da história da busca de um pai pela filha, desaparecida durante o regime militar.

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Todos os livros de Maria Rita Kehl publicados pela Boitempo estão à venda em versão eletrônica (ebook), custando metade do preço dos livros impressos. Confira abaixo alguns links para livrarias onde os títulos podem ser adquiridos:

O tempo e o cão: a atualidade das depressões – R$20 (Livraria Cultura | Livraria da Travessa | Gato Sabido | Livraria Saraiva)

18 crônicas e mais algumas – R$15 (Livraria Cultura | Gato Sabido | iba | Livrarias Curitiba)

Videologias: ensaios sobre a televisão, em coautoria com Eugênio Bucci – R$22 (Livraria Cultura | Livraria da Travessa | Gato Sabido | Livraria Saraiva)

O que resta da ditadura: a exceção brasileira, coletânea organizada por Edson Teles e Vladimir Safatle  – R$26 (Livraria Cultura | Livraria da Travessa | Gato Sabido | Livraria Saraiva)

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Outras leituras sobre a ditadura militar brasileira

Além de O que resta da ditadura, a Boitempo Editorial também publicou outros livros sobre o tema:

Caparaó: a primeira guerrilha contra a ditadura, de José Caldas da Costa (2007)

Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988, de Beatriz Kushnir (2004)

Dos filhos deste solo: mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar – a responsabilidade do Estado, de Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio (2008)

Memórias, de Gregório Bezerra (2011)

Ousar lutar: memórias da guerrilha que vivi, de José Roberto Rezende e Mouzar Benedito (2000)

Comentários sobre K. de Bernardo Kucinski

Por Maria Rita Kehl.

“Acendo a história, me apago em mim”; a citação de Mia Couto que abre o romance de Bernardo Kucinski ganha seu pleno sentido somente depois que o leitor chega à última página. “Apagar-se” na tentativa de acender uma história que nunca foi contada é uma imagem que sintetiza a epopéia do pai idoso à procura da filha desaparecida durante a ditadura militar brasileira. Mas é também a posição do próprio narrador: é possível que o estilo contido e preciso de Bernardo Kucisnki tenha sido construído à custa de um corajoso e calculado método de apagamento subjetivo.

Na medida em que avançava na leitura de K., aumentava em mim a impressão de que só assim, apagando-se, teria sido possível ao autor encontrar coragem para reconstituir o sofrimento do pai que procura em vão pela filha e se convence aos poucos de que nunca a reencontrará, nem terá direito a homenagear seus restos mortais. A contenção no estilo da narrativa, longe de aparentar frieza ou impessoalidade, coloca o leitor em permanente estado de alerta diante do campo minado do texto. Uma bomba de dor está para explodir no capítulo seguinte, no parágrafo seguinte, enquanto a brutalidade que a provocou se insinua, sistemática, a cada nova tentativa de K. encontrar notícias da filha e do genro desaparecidos.

É preciso coragem para conduzir a narrativa, e com ela, o leitor, pelos caminhos tenebrosos percorridos por quem procura notícias assim, a esmo, um pouco às cegas, sem saber em quem confiar, à mercê de armadilhas, chantagens, falsos informantes, delações. Caminhos que são eles próprios o avesso da vida. O avesso do que a vida deveria ser. Coragem para inventar o que mais se aproxima da verdade: a perspectiva subjetiva do inimigo. Pois a narrativa de K. reconstitui a voz do delator, do torturador, da amante do delegado e até daquele que se tornou símbolo do mal absoluto no Brasil da década de 1970: Sérgio Paranhos Fleury. É preciso apagar-se um pouco para conseguir dar voz a quem certamente disse coisas como essas: “É isso aí, Mineirinho, vamos espalhar boatos de onde os corpos estão. (…) a gente solta um, dá um tempo, depois solta outro. Vamos matar esses caras de canseira”. (p.76). “…agora é hora de limpar os arquivos, não deixar prova. (…) Entregar a moça, onde é que esses caras estão com a cabeça? Mesmo que eles estivessem vivos, como é que eu ia entregar, depois de tudo o que aconteceu? Não é para acabar com as provas? Pois nós acabamos.” (p.77)

Talvez por isso, K. só pudesse ter sido escrito quarenta anos depois do acontecido. No prefácio de A grande viagem, o escritor espanhol Jorge Semprún escreve que precisou de 16 anos até obter o distanciamento necessário para descrever sua passagem por um campo de concentração nazista. Kucisnki precisou de mais tempo que isso, porque foi muito além da introspecção necessária para reconstituir o passado em primeira pessoa. Transportou-se por escrito para a perspectiva do pai, cada vez mais desesperançado e mais envelhecido, cada vez mais obstinado em fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para encontrar – o quê? Primeiro a filha; depois, notícias de sua morte; a seguir, pelo menos uma ossada que pudesse sepultar; no fim de tudo, o direito a uma matzeivá vazia no cemitério judaico onde apenas o nome se perpetuasse e evocasse a morte. Direito que também lhe foi negado pelo rabino, em nome da ortodoxia contida nos livros sagrados, assim como lhe foi negado pelo dono da pequena gráfica o direito de publicar um livrinho em memória da filha e do genro: “como o senhor se atreve a trazer material subversivo para a minha gráfica…?” (p.84). O pai se atreveu a isso e muito mais. O pai nem sabia de fato o quanto se atrevia. “O pai que procura pela filha desaparecida não tem medo de nada” (p….).

A enorme angústia do pai diante do desaparecimento da filha transforma-se aos poucos no desespero de não conseguir nem ao menos uma inscrição simbólica de sua existência. Esta virá na forma modesta de nome de rua em um loteamento na periferia do Rio de Janeiro, que um vereador de esquerda conseguiu batizar em homenagem aos desaparecidos políticos. Na volta da cerimônia, K. se espanta ao passar por uma avenida batizada com o nome do criador do DOI-CODI, General Milton Tavares de Souza, também imortalizado numa das pontes sobre a marginal Tietê,em São Paulo.  Estranhocostume dos brasileiros, pensa o velho, de “homenagear bandidos e torturadores e golpistas como se fossem verdadeiros benfeitores da humanidade” (p. 158).

O livro termina com uma crítica piedosa e elegante a respeito da intransigência da direção de certas organizações, na luta armada, que se recusaram a liberar seus militantes diante da obviedade da derrota e do massacre iminentes. Mas não é este o alvo principal do belo romance histórico de Bernardo Kucinski. Hoje, quando finalmente o Brasil anuncia a intenção de pelo menos investigar os responsáveis pelos crimes de Estado cometidos durante o regime militar (punir, como os argentinos, jamais!), K. deveria ser leitura obrigatória para todos os membros da nossa tímida Comissão da Verdade, criada com quatro décadas de atraso, no atual governo da ex-prisioneira política Dilma Roussef.

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Todos os livros de Maria Rita Kehl publicados pela Boitempo estão à venda em versão eletrônica: 

18 crônicas e mais algumas, de Maria Rita Kehl * ePDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

O tempo e o cão: atualidade das depressões, de Maria Rita Kehl * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Videologias: ensaios sobre televisão, de Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl * PDF (Livraria Cultura)

O que resta da ditadura, organizado por Edson Teles e Vladimir Safatle * PDF * Com artigo de Maria Rita Kehl (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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Maria Rita Kehl é psicanalista, doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo, poeta e ensaísta. É autora de vários livros, entre os quais se destacam Videologias – Ensaios sobre televisão (Boitempo, 2004), escrito em parceria com Eugênio Bucci, e O tempo e o cão (Boitempo, 2009), ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Não-Ficção 2010. Colabora para o Blog da Boitempo esporadicamente.

Dois pesos…

Os candidatos à presidência da república José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) se cumprimentam durante debate eleitoral em setembro de 2010.

No dia do lançamento de 18 crônicas e mais algumas, coletânea de artigos e crônicas de Maria Rita Kehl publicadas em diversos periódicos e portais ao longo da última década, o Blog da Boitempo resgata o último artigo da psicanalista em sua coluna quinzenal no jornal O Estado de S. Paulo, cuja publicação (em 02 de outubro de 2010) provocou, dentre outros motivos, o cancelamento de sua coluna. O texto está incluído na coletânea que tem noite de autógrafos hoje, a partir das 19h na Livraria da Vila (Fradique). Mais informações ao fim do texto.

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Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

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Maria Rita Kehl é psicanalista, doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo, poeta e ensaísta. É autora de vários livros, entre os quais se destacam Videologias – Ensaios sobre televisão (Boitempo, 2004), escrito em parceria com Eugênio Bucci, e O tempo e o cão (Boitempo, 2009), ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Não-Ficção 2010. Colabora para o Blog da Boitempo esporadicamente.

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Noites de autógrafo de 18 crônicas e mais algumas (SP e RJ)

Maria Rita Kehl participará de duas noites de autógrafo de seu novo livro, 18 crônicas e mais algumas: em São Paulo, na Livraria da Vila (26/10, às 19h) e no Rio de Janeiro, na Livraria da Travessa (03/11, às 19h). O livro já está à venda nas livrarias e em ebook no Gato Sabido e na Livraria Cultura.

Também à venda em ebook:

O tempo e o cão: atualidade das depressões, de Maria Rita Kehl * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Videologias: ensaios sobre televisão, de Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl * PDF (Livraria Cultura)

O que resta da ditadura, organizado por Edson Teles e Vladimir Safatle * PDF * Com artigo de Maria Rita Kehl (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Escuta aqui: entrevista de Maria Rita Kehl à Revista Cult

Entrevista publicada na Revista Cult nº 162 (outubro de 2011)

Maria Rita Kehl foi jornalista antes de se tornar psicanalista. Juntando essas disciplinas, desenvolveu uma forma de crônica em que analisa o noticiário identificando sintomas da psique brasileira. O estilo carregado de coloquialidade e referências pop facilitou a comunicação com os leitores dos jornais, revistas e sites para os quais tem escrito. 

No ano passado, ela exerceu essa atividade regularmente em O Estado de S. Paulo, origem da maior parte dos textos reunidos em 18 crônicas e mais algumas (Boitempo). 

A autora lança, portanto, uma obra de apelo mais geral do que O tempo e o cão (Boitempo), tríade de ensaios sobre a depressão que lhe rendeu o Prêmio Jabuti na categoria não ficção. 

Kehl teve sua coluna interrompida em outubro passado, logo após publicar uma crônica sobre o voto da classe média. “Dois pesos…”, na qual critica mensagens que corriam pela internet desqualificando o voto dos beneficiários de programas sociais como o Bolsa Família, tornou-se popular nas redes sociais e marcou o debate eleitoral. 

Essa e outras crônicas que buscam expor os recalques da sociedade brasileira estão na coletânea, que deve chegar às livrarias no final do mês. 

CULT – Ao descrever o filme Cronicamente inviável, a senhora fala da “indignação moral meio infantil” que acometeu o diretor Sérgio Bianchi, que depois amadureceria. O que impede a classe média de amadurecer politicamente? 

Maria Rita Kehl - Não sei se posso responder com justeza a essa pergunta. A primeira resposta que me ocorre é: o conforto relativo que se pode comprar (ou que se espera poder comprar) para suprir as carências do Estado no plano da vida privada não impede, mas poupa boa parte da classe média de amadurecer sua perspectiva de cidadania, que remete necessariamente à vida pública. 

Quem acede à classe média planeja imediatamente conseguir pagar pela educação dos filhos, pela saúde, pela segurança na rua em que mora etc., e com isso, ufa!, deixar a política pra lá. 

No Brasil, todos conhecem e denunciam a corrupção, a injustiça social, o desleixo dos políticos, mas numa perspectiva fatalista, do “este país não tem jeito jeito mesmo…”, e não numa via de engajamento em protestos transformadores. 

Que recalques da cultura brasileira a senhora diria que melhor evidenciou nos textos deste livro?

O mais importante, o mais onipresente, é o recalque da brutal violência da desigualdade social brasileira. É imprescindível que os intelectuais que se consideram de esquerda tentem se colocar, ao escrever sobre as mazelas brasileiras, no ponto de vista do outro. 

Às vezes escuto dizerem que os pobres no Brasil não sabem falar sobre sua perspectiva de classe. Sabem, sim, e com muita propriedade. É só escutá-los. O que eles não têm é acesso aos meios de divulgação de sua palavra – o que já revela, de saída, a brutalidade da exclusão a que me refiro. 

Sem perder o rigor da linguagem psicanalítica e a referência a dados jornalísticos, a senhora usa bastante a linguagem coloquial. De onde vêm a gíria e o ditado popular em sua escrita? 

Sem demagogia, acho que antes de mais nada o uso da linguagem coloquial, para qualquer escritor, vem da vida, da circulação pelo mundo. 

Creio que a conquista da linguagem acadêmica, ou daquela que chamamos de “elevada” – e que tem grandes méritos, como se deve reconhecer –, exige o recalque de parte dessa memória que é auditiva, infantil ou adolescente, assim como de todas as expressões que circulam nas letras de música popular, nas gírias, naquilo que os poetas dos anos 1960/70 chamavam de “a fala das ruas”. 

Mas é bom lembrar que a sensibilidade para escutar as expressões populares também vem da clínica. Freud, o criador da psicanálise, não excluiu de seus conceitos teóricos a origem popular das expressões que escutou da boca de seus pacientes. 

Embora diga que prefere adiar suas “veleidades literárias” para a velhice, a senhora testa os limites formais da crônica em textos como “Sua única vida”, que evoca a morte de um jovem em uma chacina em São Paulo: “Pensou em guaraná maconha Maria Inês calcinha…”. Sente que a hora da literatura está chegando em sua vida? 

Gostaria que fosse assim, mas não posso afirmá-lo. Esse texto foi realmente escrito sob forte emoção, eu me coloquei no lugar do menino baleado e pensei: como é você perceber que está morrendo e não poder nem pedir socorro? O que será que passa na cabeça de quem percebe que a vida chega ao fim aos 15, 16 anos? 

Quanto à literatura, falta-me a imaginação do ficcionista. E falta-me, principalmente, tempo. A escrita literária exige um tempo de incubação, um tempo vazio, que no momento não tenho. Espero ter, um dia. Antes tarde do que tarde demais. 

O artigo “Dois pesos…”, que culminou em sua saída da coluna quinzenal em O Estado de S. Paulo, ganhou destaque na edição desta coletânea. Fazendo uma paráfrase, o livro é uma espécie de cura para o impacto traumático do acontecimento? 

Para mim, sim. Acho que nenhum artigo meu foi tão lido como aquele, depois que o cancelamento da minha coluna vazou para o Twitter e foi o item mais divulgado nacional e internacionalmente nas 24 horas seguintes. 

Soube de gente que mudou o voto por causa de “Dois pesos…”, principalmente entre jovens que estavam indecisos. 

Claro que aquele excesso de visibilidade me fez esquecer momentaneamente a perda do espaço do Estadão, mas isso não significa que não tenha perdido algo que tinha muito valor para mim: não só o espaço para me manifestar quinzenalmente de forma mais ou menos livre (nem tanto, no fim das contas), mas também o desafio de escolher os temas – ou ser escolhida por eles –, apurar o estilo para caber no espaço limitado etc. 

Agora, o lançamento deste livrinho com as crônicas também vai me ajudar a reparar a perda.

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Participe de promoção e concorra a um exemplar de 18 crônicas e mais algumas clicando aqui.

 

Boemia e malandragem: Maria Rita Kehl e a preguiça na cadência do samba

Noel Rosa

Para a semana do lançamento de seu novo livro, 18 crônicas e mais algumas, Maria Rita Kehl nos enviou com exclusividade o texto preparado para sua apresentação durante o ciclo de palestras Mutações: Elogio à preguiça. Foi apresentado com o título “Boêmia e malandragem: a preguiça na cadência do samba”, no Rio de Janeiro (27/09), Belo Horizonte (28/09) e São Paulo (29/09).

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O contrário do burguês não é o proletário, é o boêmio

(Oswald de Andrade)

 

Elogio à preguiça tem sido interpretado neste ciclo como uma defesa das condições do pensamento. Para grande parte dos filósofos, o valor da preguiça repousa (repousa?) no fato dela ser entendida como recusa das atividades produtivas em prol das atividades mais nobres do devaneio e da reflexão. A imagem da preguiça é a do corpo em repouso. Será então apropriado falar de preguiça no caso de uma atividade da qual o corpo participa de maneira tão intensa – canto, ritmo, instrumentos – ou mesmo frenética – alguns modos de dançar – quanto o samba? De que modo  o samba elogia a preguiça?

A preguiça é tema de uma variedade enorme de sambas, desde que o gênero foi batizado como tal, no início do século XX. É verdade que raramente ela aparece com este nome. A exaltação da preguiça no samba é feita sob o nome de malandragem, boemia, orgia, vadiagem. Não se refere à inação, nem às diversas formas de retirada do mundo (Montaigne, Pascal). A preguiça do sambista não se apresenta nas formas da lassidão, do repouso, da inatividade do corpo. Muito menos, do afastamento do mundo – o belo “Samba e amor”, de Chico Buarque, é uma exceção no gênero, tanto rítmica quanto temática (“escuto a correria da cidade, que alarde/ e apressa o dia de amanhã/ De madrugada a gente ainda se ama/ e a fábrica começa a buzinar…”). Aqui o sambista, na década de 1970, é um moço de apartamento, que se refugia nos braços da amada enquanto a cidade ferve, muitos metros abaixo de sua cama. Seu elogio à preguiça, embora claramente diferenciado do discurso da malandragem a que vou me referir, mesmo assim presta homenagem ao que se pode chamar de “lugar comum” do samba tradicional carioca: a incompatibilidade entre o samba e o trabalho. Esta é a tradição que vou privilegiar nessa conferência. Nos sambas a que vou me referir, a preguiça aparece sob os nomes de orgia, malandragem e boemia, a misturar vadiagem e sociabilidade, bebedeira e trabalho criativo (quantos sambas não foram compostos em parcerias espontâneas, ao longo da madrugada, em mesas de bar?), sensualidade malemolente (bela palavra que já soa preguiçosa) e destreza no domínio de algum instrumento de corda ou percussão.

É uma forma nobre de preguiça em que o corpo se entrega ao ritmo, em que o tempo longo da noite (um turno oposto ao horário da fábrica e do trânsito que buzina no samba-canção de Chico) transcorre sem peias, sem acenar com a angústia que nos acomete diante do tempo vazio: é um tempo sincopado, marcado pelo ritmo característico do samba. O ritmo confere outra marcação à passagem das horas, diferente da do relógio. “Repetição sem tédio”, como alguém certa vez definiu o rock’n roll. Sambar, tocar, cantar a noite toda, sem preguiça nenhuma, é uma forma de vadiagem que escapa à polarização atividade/inatividade e, em troca, opõe trabalho a prazer, uso útil do tempo a desperdício inútil das horas que o relógio se esquece de marcar e cuja passagem o corpo não dá sinais de reparar. Preguiçoso, o sambista? Que nada: incansável! “pois então saiba que não desejamos mais nada/ à noite a lua prateada/ silenciosa, ouve as nossas canções…” (Cartola, “Sala de Recepção”). “O sol da Vila é triste, samba não assiste/ porque a gente implora/ Sol, pelo amor de Deus não vem agora que as morenas vão logo embora.” (Noel Rosa, “Feitiço da Vila”).

O protesto pela chegada do sol, que inaugura o dia de trabalho e encerra a noite de samba e boemia, é comum nas letras dos sambas pelo menos até que a política repressiva do Estado Novo passasse a censurar abertamente o elogio da malandragem e incentivar os compositores a gravar sambas de exaltação à pátria (Ary Barroso) e ao trabalho. O samba “Bonde São Januário” por exemplo, de Wilson Batista e Ataulfo Alves (1940) é uma exceção entre os temas recorrentes nas composições de ambos: aqui se escuta um elogio ao trabalho, motivado pela política de incentivo ao tema do “bom crioulo”, ou do “malandro regenerado” durante o Estado Novo. Segundo Cláudia Matos em Acertei no Milhar, durante o primeiro governo de Getúlio Vargas “abriam-se novos canais de divulgação para os compositores populares, com cachês compensadores”, desde que os sambistas aderissem aos temas incentivados pelo DIP.

“Quem trabalha é que tem razão/ eu digo e não tenho medo de errar/ o bonde são Januário leva mais um operário/ sou eu que vou trabalhar”. (Wilson Batista e Ataulfo Alves).

Há quem diga que a primeira versão desse samba dizia: “leva mais um otário”, e a substituição de otário por operário foi feita “a pedido do DIP” (Cláudia Matos).

Mas este não é o período que pretendo abordar aqui. Quero me concentrar na preguiça, e para isso destacar as duas grandes décadas da origem do samba urbano (carioca), desde meados dos anos 1910 até meados dos anos 1930.

O samba é sociável e ativo. Nunca excluiu de sua roda a companhia da ralé, embora tenha feito um esforço para sair da senzala e alcançar o gosto das classes médias, sobretudo a partir da década de 1920. Mas sua origem é vira-latas. Os primeiros sambistas que se identificavam como tais, viviam entre (ou eram) vagabundos, prostitutas e cafetões, cachaceiros e golpistas, gente miúda vivendo de pequenos serviços, de trapaças no jogo e até mesmo – da venda de sambas.

O desprezo pelo trabalho recorrente nas letras dos primeiros sambas-maxixe (mais adiante explico essa denominação) pode ter duas origens diferentes, porém combinadas. Primeiro, como ideologia de recusa da servidão em uma geração de negros e mulatos descendentes de pais ou avós escravos. Lembremos que a escravidão no Brasil só foi abolida, vergonhosamente, no final do século XIX (1888) e que a Lei do Ventre livre, de 1871, ao invés de proporcionar uma vida mais digna aos filhos dos africanos nascidos depois do 28 de setembro daquele ano, produziu uma situação anômala na qual os proprietários de escravos não se sentiam no dever de manter junto às mães as crianças “livres”, que, a depender da maior ou menor boa vontade de seus senhores, poderiam ter a sorte de serem criadas nas casas e fazendas onde suas mães serviam, livres da escravidão, ou serem abandonadas nas ruas sem nenhuma proteção, nem dos senhores, nem do Estado. Os primeiros menores abandonados no Brasil foram os filhos da chamada “Lei dos Inocentes”. 

Outra deformidade social causada pela escravidão foi a situação do trabalhador livre que “não tinha lugar na sociedade, sendo um nômade, um mendigo, e por isso em parte alguma achava ocupação fixa”. Nas grandes cidades escravocratas, como Salvador e Rio de Janeiro, essas populações deserdadas da ordem social organizavam a vida como podiam, em cortiços e (mais tarde) favelas, criando uma sociabilidade própria, entre ritos religiosos e festas profanas a partir dos restos reprimidos de suas culturas de origem.

Nabuco, a respeito dos escravos que migraram das fazendas para as cidades, escreve: “…essa população foi, por mais de três séculos, acostumada a considerar o trabalho do campo próprio de escravos. Saída quase toda das senzalas, ela julga aumentar a distância que a separa daqueles, não fazendo livremente o que eles faziam forçados”.

Assim se estabeleceram as bases materiais para a compreensão do tema da degradação do valor do trabalho no Brasil do início do século XX. Por um lado, o trabalho era visto pelos mais pobres como um castigo opressivo, por conta do vício e da vergonha do longo período escravagista. 

A isto vêm se somar duas situações que em nada contribuíam para valorizar o trabalho: o desemprego em que se encontraram os descendentes de escravos depois da abolição e a degradação do valor do trabalho braçal, pago miseravelmente a uma grande parcela da população que, duas ou três gerações atrás, era forçada a trabalhar sem pagamento nenhum (situação que, devemos reconhecer, persiste em muitas regiões do Brasil até hoje).

Cocorócó, o galo já cantou/ levanta nêgo, cativeiro já acabou…

Assim canta Clementina de Jesus (“Cocorócó”). A mulher tenta acordar o marido para o trabalho porque o “senhorio” não tem clemência e virá cobrar o aluguel. Mas o homem, negro liberto da escravidão, quer dormir mais um pouco. A vida do trabalhador braçal era (é…) dura demais, e o salário, pequeno.

Sendo assim, “Prá que trabalhar?”. Neste outro samba de Wilson Batista, o cantor se queixa do salário curto, que nem lhe permite pagar o bonde pra ir à sua Escola predileta: “acabou o meu dinheiro e eu vou pro salgueiro a pé”.

De 1870 a 1917

A origem do que depois veio a se chamar de samba foi a zona rural. Fazendas na zona da mata da Bahia. Rodas de improviso, lundus, terreiros de Candomblé, função religiosa. A seguir, migração dos negros libertos para as capitais (Salvador, Rio de Janeiro). A abolição lançou nas ruas do Rio de Janeiro, maior cidade negra fora da África em finais do século XIX, um enorme contingente de homens “livres” do trabalho forçado, mas desamparados, desempregados ou subempregados, para quem a vadiagem não tinha necessariamente o sentido de recusa ao trabalho. Era uma condenação.

Essas populações de escravos e ex-escravos, quando não moravam em casa dos patrões, não tinham moradia nem ocupação nas áreas centrais da cidade. Concentravam-se nos subúrbios, em áreas degradadas e, mais tarde, nas encostas dos morros. As Festas da Penha, nos domingos de outubro, reuniam os antepassados dos primeiros sambistas (ainda não com este nome) junto com tocadores de fados, modinhas portugueses, lundus, cateretês do sertão de Minas, catiras nordestinas. O ritmo que veio a dar origem aos sambas da primeira geração foi o maxixe, cuja marca rítmica era o uso da sincopa (contrametricidade) típica das danças africanas. A sincopa se define pela acentuação rítmica da música num ponto em que o ritmo básico não seria acentuado, isto é, a acentuação rítmica não corresponde às acentuações ou subdivisões do compasso – com isso, surpreende o ouvido e o corpo também. Pode ocorrer pela acentuação de uma nota, ou pela ausência de nota no lugar onde deveria cair uma acentuação forte. (ex: Samba-Lelê, maxixe ou samba amaxixado). 

No final do XIX o samba começa a se movimentar da periferia para o centro, “da roça à cidade, das províncias à capital, dos negros ao povo em geral, movimento que se consumará na criação, entre 1917 e o início da década de 1930, do samba urbano carioca” (segundo Sandroni).

Vale lembrar aqui, ainda com referência à escravidão, a frequência do tema da sedução da escrava pelo senhor nas letras das primeiras modinhas, das polcas dançantes, dos lundus e, mais tarde, do maxixe.

Exs (livro de Sandroni): “Yoyôzinho vá-se embora/ que eu não gosto de brincar/ Não venha com seus carinhos/ minha reza atrapalhar”. Ou: “Ah meu Deus, sinhô Juquinha/ Você é os meus pecados/ Vá-se embora, já lhe disse/ não me queira dar cuidados./ As artes do Sinhô Moço/ são mesmo artes do demônio/ não me posso livrar delas/ nem rezando a Santo Antonio…” Brincar, bulir, “matar”, são expressões alusivas à tentação sexual que o senhor exerce sobre a escrava que mal consegue resistir. O resultado do abuso dessas artes ilícitas é o surgimento, no Brasil, da figura do mulato/mulata, associados desde sempre ao samba, ao dengo e à sedução.

A polca e o lundu abrem passagem para o maxixe, parente afro-brasileiro da polca, com cadência diferenciada por causa da sincopa (comum também ao lundu). O Maxixe surge no Rio em meados do século XIX, e é logo considerado pela elite e pelas classes médias como muito vulgar, um ritmo de “baixa categoria” – talvez por conta do ritmo sincopado, que induzia o corpo a requebrar de modo muito diferente dos passos marcados da polca, por exemplo. Lembrar a dança de salão no conto de Machado, “Um homem célebre”, de 1870: neste conto, o personagem principal (o compositor carioca Pestana) persegue o ideal da música clássica, mas ganha fama por suas polcas e maxixes que os frequentadores dos salões adoram dançar. Quando senta-se ao piano para compor um noturno, os dedos parecem correr sozinhos pelo teclado, ao ritmo contagiante do maxixe. O título de uma polca tocada por Pestana para animar um jantar de aniversário é “Nhonhô, não bula comigo”, alusão de Machado ao tema do abuso sexual dos senhores sobre as escravas.

O maxixe supera a polca no gosto popular por conta da sincopa, quebra rítmica que convoca imediatamente o requebrado típico das danças africanas. Além disso, o maxixe era dança de “par enlaçado” enquanto o lundu, também africano, mas de raízes rurais/coloniais, se dançava em roda, sem enlaçar o par.

A origem da palavra samba também é africana. Era usada no interior do Brasil para nomear um folguedo que conjuga batuque, dança de roda e “umbigada”, (semba na origem angolana) – gesto de forte sensualidade que inclui o samba entre as danças profanas afro-brasileiras (Sandroni). Quando algumas versões do lundu já eram aceitos em “sociedade” (no Rio), o samba ainda era desconhecido até o final do XIX – era visto como um “signo do atraso rural” pelos moradores da capital.

A grande concentração de negros e mulatos em uma região mais central da capital federal aconteceu no bairro da “Cidade Nova” – hoje Estácio – região de mangue aterrado em 1860 que logo abrigou uma multidão de escravos e ex-escravos, pequenos funcionários e trabalhadores braçais, subempregados e desempregados, prostitutas e jogadores, tornando-se o bairro mais populoso da cidade na década seguinte. Em razão da origem social de sua população, a Cidade Nova (que Heitor dos Prazeres batizou de “Pequena África”) também se tornou um centro de “diversões de má fama”. A dança dos negros descendentes de escravos não tinha prestígio entre os brancos e só era tolerada nos teatros de variedades e clubes carnavalescos. Foi nesse meio que se deu a passagem do maxixe ao samba, que ainda não se parecia com o samba atual, criado já no começo do século XX.

O samba nasceu da tradição oral dos escravos – e penso que até hoje a música popular, que recobre a vida social brasileira com um discurso paralelo ao da política, da economia, do consumo, dos modismos em geral, guarda a força da tradição oral na cultura brasileira. A música popular cria sua própria zona de discurso que, com ajuda do rádio e hoje da tevê, mas ainda também da propagação boca a boca, pinta a aquarela de um outro Brasil no qual o Brasil real se reconhece, como num espelho melhorado, comunitário, popular, auto crítico – não necessariamente feliz, mas alegre.

Algumas “tias” oriundas da Bahia tiveram grande importância no período em que o samba nasceu. Os migrantes do nordeste que se aglutinaram na “pequena África” mantinham, na capital federal, fortes laços de solidariedade e uma sociabilidade ainda provinciana. O mais famoso ponto de encontro de sambistas foi a Casa da Tia Ciata, na rua Barão de Itaúna. Hilária Batista de Almeida foi uma negra de classe média baixa, marido chegou a estudar dois anos de medicina. Além de curandeira ligada ao candomblé, Tia Ciata ficou famosa por abrir sua casa para uma variedade de festas com músicas para os gostos da classe média branca e dos negros. (Outras tias: Amélia, mãe de Donga, e Perciliana, mãe do João da Baiana). Embora o candomblé fosse fortemente reprimido na época, o terreiro de tia Ciata foi liberado depois que ela teria convocado seus Orixás para curar a perna doente do então presidente Venceslau Brás – o que mostra também a escassa diferenciação cultural entre as classes no Brasil da República Velha.  

As festas na casa de Tia Ciata eram divididas em vários ambientes entre os quais se mantinha a hierarquia entre os frequentadores. “Baile na sala de visitas, samba de partido-alto nos fundos da casa e batucada no terreiro” (depoimento de João da Baiana). O baile na sala de visitas seria “mais civilizado”, o samba na sala de jantar ainda se parecia com as polcas amaxixadas do conto de Machado e o “batuque” no quintal podia misturar cantos de candomblé com rodas de “partido alto” acompanhadas de palmas, onde também se podia dançar a umbigada – foi neste ambiente que o samba firmou suas primeiras características marcantes. E que exerciam, claro, forte fascínio entre os frequentadores das salas “da frente”, pela oportunidade de desrepressão sexual que ofereciam aos brancos educados pela moral católica. A transação entre os três ambientes de casas como a da Casa da tia Ciata, para Sandroni, recobria essa “polarização entre o espaço público e a intimidade”.

Pixinguinha: “Samba de partido-alto/ só vai cabrocha que samba de fato/ só vai mulato filho de baiana/ e gente rica de Copacabana”.

Nem por isso a polícia deixou de perseguir os sambistas “vagabundos”, e dissolver as rodas de samba, como contam João da Baiana (“preso várias vezes por tocar pandeiro”), Cartola (“O samba naquela época era coisa de malandro e marginal”), Noel Rosa (“A princípio o samba foi muito combatido, considerado distração de vagabundo”).

O tema da malandragem – de origem marginal – acaba por cair no gosto dos brancos de classe média

O jornalista Irineu Marinho, por exemplo, junto com Arnaldo Guinle, foram grandes incentivadores do primeiro conjunto musical popular, “Os oito Batutas”, organizado em 1919 por Donga e Pixinguinha, músicos negros da primeira geração de sambistas que tinham, no entanto, formação musical de conservatório – não eram sambistas improvisadores.

Humberto M. Franceschi relata que os dois músicos apresentaram-se em Paris, junto com Os Oito Batutas, por ocasião do centenário da Independência do Brasil (1922), mas não há registro da passagem deles por lá. Ao ser perguntado por quanto tempo o grupo viajou pela Europa, Donga teria respondido com simplicidade: “desde que saímos até quando voltamos”.

Donga, por sinal, foi o primeiro compositor de sambas a se destacar da tradição comunitária, da música composta no improviso nas rodas de samba, música sem autoria e sem formato fechado, ao assinar em seu nome o primeiro samba gravado sob essa denominação, e que teria nascido numa roda na casa de Tia Ciata: o famoso “Pelo telefone”, gravado pela primeira vez em 1917, tendo alcançado grande sucesso no carnaval daquele ano.

A apropriação individual da criação coletiva por Donga foi alvo de protestos por parte de outros frequentadores da casa de tia Ciata, inclusive o famoso Sinhô, que alguns anos mais tarde se tornaria o mais conhecido compositor popular, apelidado de “Rei do Samba”.

Vale lembrar episódio criado ou recriado por Julio Bressane em seu filme sobre Mário Reis: “A glória é de um tremendo mau gosto”. Tia Ciata, Sinhô e outros sambistas publicaram uma carta no Jornal do Brasil (4/2/1917) protestando contra a apropriação indébita de Donga.

Resposta de Donga: “Recolhi um tema melódico que não pertencia a ninguém e o desenvolvi…”,  e em outro depoimento: “ofereceu-se a oportunidade… porque a hora era aquela”.

Que “hora” era essa? O momento da passagem do samba ingênuo, coletivo e pedestre, ao samba autoral, com partituras vendidas para fazer sucesso no carnaval e, logo mais, ser cantados nos rádios e gravados em discos. Anunciava-se o fim do sambista espontâneo e o nascimento do sambista profissional, do samba moderno “com autor, gravação, acesso à imprensa, sucesso no resto da sociedade” (Sandroni). Nascia o samba-mercadoria no Brasil. E que mesmo assim não deixava de se identificar com a malandragem, como veremos.

A letra de “Pelo telefone” contém uma alusão maliciosa à promiscuidade entre a polícia e a contravenção, a partir do episódio em que repórteres de A noite instalaram uma roleta no largo da Carioca, em frente à sede do jornal, e convidavam os passantes a apostar sem ser incomodados – e no dia seguinte publicaram no jornal: “o jogo é livre”. Duas versões do samba: chefe da polícia/ roleta na carioca e (2ª versão) chefe da folia/ com alegria não se questione para se brincar.

Terceira parte, que foi parodiada para ameaçar Donga, era assim originalmente: “tirar amores dos outros/ depois fazer seu feitiço”. Virou: “assinar o que é dos outros e esquecer o compromisso”. Com esses versos, Sinhô e tia Ciata finalizaram a carta de protesto publicada no JB.

Uma característica dos primeiros sambas, de criação improvisada e coletiva, era a ausência de relação temática e musical. Depois da primeira quadra de “Pelo telefone”, outras estrofes foram acrescentadas, sem nenhuma relação de continuidade entre elas.

“Ai, ai, ai, deixa as mágoas para trás, ó rapaz/ ai, ai, ai, fica triste se és capaz e verás/ olha a rolinha, sinhô, sinhô, se embaraçou, sinhô, sinhô/ pobre avezinha, sinhô, sinhô, nunca sambou”. No final: “Mas este samba/ é de arrepiar/ põe a perna bamba/ mas faz gozar”.

Malandragem também é “roubar” para si a autoria de uma criação coletiva. É importante dizer que a criação coletiva era a marca dos primeiros sambas, compostos de improviso pelos participantes de uma festa ou de uma roda de samba, ao ritmo de palmas, sem preocupação autoral e sem exigência de coerência ou continuidade entre as “partes” do samba, que se emendavam livremente de acordo com a dinâmica do improviso coletivo.

Mas o próprio Sinhô, depois da desavença com Donga (que não constituiu rompimento entre os dois), chegou a defender a apropriação individual de temas coletivos dizendo: “Samba é que nem passarinho: é de quem pegar”

Vejamos uma sequência de sambas da primeira fase (1919-1927), de autoria indeterminada porque coletiva, surgidos no quintal da casa da famosa tia Ciata. Seus autores? Donga, Sinhô, Heitor dos Prazeres, João da Baiana. Na gravação que encontrei, estão assinados por Sinhô.

“Não se deve amar sem ser amado/ é melhor morrer crucificado/ Deus me livre das mulheres de hoje em dia/ desprezam homens só por causa da orgia!

“Gosto que me enrosco de ouvir dizer/ que a parte mais fraca é a mulher/ mas o homem com sua fortaleza desce da nobreza e faz o que ela quer.

Ora vejam só, a mulher que eu arranjei/ ela me faz carinho até demais/ jurando ela me pede, meu benzinho/ deixa a malandragem se és capaz…”

A malandragem eu não posso deixar/ juro por Deus, e por Nossa Senhora/ que é mais fácil ela me abandonar, meu Deus do Céu, que maldita hora”.

Esta pequena sequência de sambas, que na minha infância ouvia meus tios maternos cantarem ao violão, emendando um ao outro como se fossem um só, são na verdade três sambas amaxixados de autoria coletiva, gravados em nome de Sinhô. As invenções coletivas surgiam nas rodas de samba, antes que as gravadoras começassem a comprar dos sambistas essas criações e gravá-los com o nome dos supostos autores (com frequência, com co-autoria do cantor Francisco Alves, que comprava os sambas para gravar e colocava seu nome junto ao do compositor). Os sambas bem conhecidos, gravados como sendo de Sinhô, defendem a orgia e a malandragem contra a tendência disciplinadora das mulheres, contra a boemia e a favor do “batente”.  A alegre recusa do sambista em obedecer aos pedidos da amada (“é mais fácil ela me abandonar”) cativa o ouvinte, que se esquece que a mulher sempre pagou pelos excessos do companheiro malandro.

A mulher que dá duro no batente, preocupada com o que dar de comer aos filhos enquanto o homem escapole de casa e some na orgia, é tema de alguns belos sambas – alguns melancólicos, outros cheios de amorosa resignação (“Camisa Amarela”, “Com açúcar, com afeto” etc). O mais triste deles aprendi com minha mãe, e nem no Google consegui achar o compositor:

“Isso é papel, João/ papel que se faça/ com essa carestia/ jogar meu dinheiro no chão/ Olha pros neguinhos/ barriga vazia/ coquinho pelado, roupinha surrada/ pezinho no chão….” 

“Se você Jurar”, de Ismael Silva e Nilton Bastos (1931) propõe um acordo com a mulher: “se você jurar que me tem amor eu posso me regenerar/ mas se é para fingir, mulher, a orgia assim não vou deixar”. Aqui, o sambista propõe um pacto com a mulher: só vale a pena deixar a orgia por um amor sincero.

 Segunda geração de sambistas: o samba do Estácio

Na primeira década do século passado, a reforma do centro do Rio feita pelo prefeito Pereira Passos (da qual participou, como engenheiro principal, meu bisavô materno Francisco Bicalho…), jogou uma multidão de desabrigados no bairro da Cidade Nova, cujo coração palpitava na Praça Onze, único espaço desocupado para as festas populares – a começar pelo carnaval. Aos despejados de Pereira Passos somaram-se os soldados remanescentes de Canudos, que acabaram por ocupar as encostas do Morro da Providência, a primeira favela do Rio de Janeiro.

A praça Onze foi local onde, desde 1870, os cultos do candomblé se misturavam às rodas de samba; ali se originaram os primeiros blocos carnavalescos que provocaram uma importante transformação no ritmo do samba: o samba “de sambar”. A vadiagem, entre a população da “Pequena África” (quadrilátero demarcado pelo Campo de Santana que se estendia até os limites do Estácio) não era apenas uma opção existencial: era praticamente um destino para os milhares de desempregados e subempregados que moravam em cortiços da região.

Artur Ramos, sobre a Praça Onze: “Perseguido pelo branco, o negro no Brasil escondeu suas crenças nos terreiros de macumbas e nos candomblés. O folclore foi a válvula pela qual ele se comunicou com a civilização branca. (…) Carnaval: “catarse coletiva”. A Praça Onze é uma grande trituradora que elabora o material inconsciente e prepara-o para sua entrada na civilização. A praça Onze é o censor do inconsciente negro-africano. É a fronteira entre a cultura negra e a branco-europeia, fronteira sem limites precisos, onde se interpenetram instituições e se revezam culturas” (Sandroni).

O malandro, personagem popular nos subúrbios e no centro do Rio de Janeiro, era forçado a viver na base do improviso, entre a ilegalidade e a miséria, entre a oferta de pequenos serviços mal pagos, trabalho braçal pesado e igualmente mal pago. Ou, na falta de ambos, a inventar uma série de expedientes à margem da legalidade que consistiam o núcleo material da “malandragem”: jogo, cafetinagem de mulheres, pequenos furtos, pequenos golpes para extorquir algum tostão dos trabalhadores pouco menos famintos que eles. Outra ocupação já estabelecida naquela época entre os ex-escravos mais fortes era a de cabos eleitorais de políticos locais. Segundo Humberto M. Franchesqui, a tradição da malandragem teve origem entre os antigos escravos soldados, “oriundos das revoltas do início da República”, lutadores da capoeira de Angola que prestavam serviços aos políticos locais. “Uma outra geração formada 20 anos depois (já no século XX) toda descendente de ex-escravos e mantida na mesma condição social (…) conduzia-se por conta própria sem mais depender exclusivamente dos políticos locais. Dessa geração surgiu o malandro carioca”.

Entre as diversas origens do malandro, o ponto em comum é a criação de um “mundo sem culpa”, retratado com graça no romance de Manoel Antonio de Almeida, Memória de um sargento de Milícias e  elogiado por Antonio Candido em seu conhecidíssimo ensaio “Dialética da malandragem”.

O sucesso da gravação de “Pelo telefone” no carnaval de 1917 abriu o precedente para uma nova ocupação do malandro talentoso: sobreviver à custa do samba. A inauguração da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, em 1922, (comemoração do 7 de setembro, governo Epitácio Pessoa) possibilitou que o samba criado no Estácio, na Mangueira, na Vila Isabel, ultrapassasse os limites da transmissão oral e caísse no gosto da classe média branca. As vendas de discos efetuaram a transformação do samba popular em mercadoria.

Mas volto um pouco à origem da segunda geração de compositores cariocas. As rodas de samba e batuque, com ou sem cultos religiosos, que deram origem ao primeiro bloco carnavalesco (o “Deixa falar”), aconteciam nos fundos da primeira Escola Municipal do Rio (demolida em 1938). Ali havia uma balança e um bebedouro para animais de carga que traziam carregamentos vindos do cais. O tablado de madeira da grande balança de pesar carroças carregadas, também usada como palco para rodas de capoeira, facilitava a dança, já que no “piso pé de moleque” que revestia o chão da Escola Benjamin Constant não permitia que os pés deslizavam com a mesma facilidade. No século XX a crescente concentração da população pobre na região da Pequena África fez daquele bairro o berço de um novo tipo de samba: o “samba de sambar” do Estácio, de ritmo compatível com a movimentação dos blocos (Ismael Silva), que segundo Franceschi abalou profundamente os principais compositores até a década de 1920, como Sinhô, Donga e Caninha. Diálogo suposto entre Donga e Ismael Silva: “Isso não é samba, é maxixe” (“Pelo telefone”). “Isto não é samba, é marcha” (“Se você jurar”).  Mais tarde,em entrevista a Sergio Cabral, Ismael – um dos poucos representantes longevos da 2ª geração – resumiu a diferença rítmica assim: “O samba antigamente era assim: “tan-tantantan/ tan- tantantan”. Depois virou: “bumbumpaticunbum burugudun” (tema de um samba enredo do Estácio nos anos 70).

Pertenciam à segunda geração de sambistas Ismael Silva, Bide (Alcebíades Barcelos), Brancura (Silvio Fernands) e Nilton Bastos, da região do Estácio, além de frequentadores de outras regiões, como Cartola (da Mangueira), Noel Rosa (Vila Isabel), Wilson Batista (que veio de Campos para viver na Lapa) etc. O culto à malandragem entre esses sambistas, alguns de classe média baixa como Noel, também vinha do fato, entre real e lendário, de que no Brasil da primeira República os ricos não trabalhavam.

“Ai ai meu Deus, tenha pena de mim /todos vivem muito bem, só eu que vivo assim/ trabalho não tenho nada/ eu vivo num misere/ ai ai, meu Deus/ isso é pra lá de sofrer”. Ciro de Souza e Babáu, 1938 (grande sucesso no carnaval daquele ano).

Se o trabalho não impede que se viva no misere, então mais vale viver na malandragem. Ismael Silva tem duas canções complementares em louvor à malandragem, contra o trabalho.

“Se eu precisar algum dia/ de ir pro batente/ não sei o que será/ pois vivo na malandragem/ e vida melhor não há” (1931).

A ideia de que fazer samba não é trabalho, é prazer que não requer esforço e não encontra dificuldades entre os verdadeiros boêmios é bem ilustrada por um depoimento de Ismael sobre uma de suas composições: “Minha música sai assim, quando não estou pensando em música, como uma coisa que viesse e me botasse na mente, (…) acabei de beber um café, fiquei sentado olhando pra a rua, de repente comecei assim, naturalmente. “Nem tudo que se diz, se faz…” Tá vendo, letra e música, já tudo junto, daí parei aí – “eu digo e serei capaz” – capaz de que? A conclusão, não acabei naquele dia, levei três dias pra encontrar o final, sem poder terminar. No terceiro dia, eu andando na rua e aí veio o final, “de não resistir, nem é bom falar/ se a orgia se acabar”. Nada de forçar, tudo bem espontâneo”. Entre 1828 e 1935 Ismael gravou mais de 50 música, sozinho ou em parceria. O grande cantor de seus sambas, que “comprava” a parceria para ter seu nome de co-autor nos discos, era o cantor Francisco Alves.

“Nem tudo o que se diz, se faz/ eu digo e serei capaz/ de não resistir, nem é bom falar/ se a orgia se acabar” com Nilton Bastos e Francisco Alves.

O tema da malandragem, como lembra Claudia Matos, não é tão simplesmente o reflexo direto das condições de vida dos primeiros compositores de samba do Rio de Janeiro. A preguiça no samba é um discurso, e assim deve ser entendido. O elogio da boemia, da vadiagem e da malandragem seduz o ouvinte de classe média não apenas pela ginga, a cadência, a sensualidade e o remeleixo do samba, mas também pela figura carismática do sambista malandro, que escolhe uma vida de prazeres ao preço de muita pobreza, mas despreza a disciplina, o trabalho e até mesmo o dinheiro

Ao contrário do proletário, cujos interesses estão ligados aos aspectos materiais da vida (e se fizer a revolução, será em nome deles), o boêmio é o anti-filisteu.  Sua pobreza não resulta de um espírito de sacrifício, e sim da experiência positiva com tudo aquilo que o dinheiro não pode comprar.  A começar pela liberdade. O boêmio é capaz de trocar tudo, até o amor, só para não deixar a tal da “orgia”.

Este quadro foi bem nítido pelo menos até a década de 1930, quando o rádio passou a divulgar os sambas para fora do morro e dos becos boêmios da cidade, favorecendo o surgimento de sambistas dos bairros de classe média A inclusão social do samba foi promovida com grande empenho pelo genial Noel Rosa. Ainda assim, persistiu a associação entre os blocos de carnaval, o samba, a vadiagem e a malandragem. Ainda na década de 30 os blocos eram obrigados a fazer registro na polícia antes de desfilar. Para obter a licença, tinham que cumprir algumas condições, como a de não falar de malandragem ou estimular vadiagem.

“Quando Noel se tornou compositor profissional, um tema de larga tradição dominava a música popular: a malandragem. Até a Abolição, a ordem social era rígida: os escravos trabalhavam, os senhores mandavam e o restante da sociedade ficava à margem do processo de produção, sem produzir regularmente nem ter acesso ao poder” (Jorge Caldeira em seu livro Noel Rosa).

Franceschi afirma que um dos preconceitos infundados contra os sambistas era o de que seriam todos analfabetos. O autor cita um auto de prisão revelador dos preconceitos sofridos pelos sambistas:

Perambulava pela cidade sem destino, na mais completa ociosidade, sendo vadio contumaz e jogador de chapinha incorrigível que não tem arte, ofício ou ocupação honesta (…) vivendo exclusivamente do produto de jogos ilícito; sempre encontrado na mais completa ociosidade na zona do baixo meretrício em todas as horas do dia e em companhia de jogadores profissionais e outros elementos nocivos à sociedade.

Franceschi retruca que os tais “marginais que não têm arte” eram artistas que, em menos de quatro ano, mudaram a música carioca e a música brasileira.

Noel, que tentou mostrar ao mundo branco que o samba da Vila Isabel era um “feitiço decente” (sem farofa, sem vela e sem vintém…) não deixou, entretanto, de associar a imagem do sambista à vadiagem, à preguiça, ao avesso do mundo do trabalho: em Vila Isabel, o povo pede pra que o sol “pelo amor de Deus não venha agora que as morenas vão logo embora…”

A paixão pelas noitadas de samba sem limite para terminar, o envolvimento apaixonado com as primeiras Escolas, era motivo de desprezo pelas regalias do mundo dos endinheirados. Esse tema, retomado por Chico Buarque no famoso “Quem te viu, quem te vê”, foi lindamente retratada pelo samba “O X do problema”, de Noel, onde uma mulher recusa deixar a escola do Estácio para casar-se com um pretendente rico: “Você tem vontade que eu abandone o largo do Estácio pra ser a rainha de um grande palácio/ dar um banquete uma vez por semana/ Nasci no Estácio, não posso negar minha raça de sangue/ você pode crer, palmeira do mangue não vive na areia de Copacabana”.

O personagem urbano que corresponde ao universo do samba, além de malandro não poderia deixar de ser… boêmio. O oposto do burguês não é o proletário, escreveu Oswald de Andrade. O oposto do burguês é o boêmio. Só ele encarna o desapreço pelo conforto e pelo dinheiro, a recusa a se deixar explorar, a aceitação da pobreza como preço pago pelo encantamento de uma vida livre ligada à orgia, à poesia, ao amor e à música.

O próprio Noel, que tentava desassociar o samba da vadiagem, não deixou de compor várias músicas em que o personagem narrador é um vagabundo sem dinheiro pra nada. Mas em vez do grande malandro, Noel vai preferir falar das pequenas malandragens do cidadão em meio à grande miséria geral, à “prontidão sem fim”.

“O orvalho vem caindo, vai molhar o meu chapéu/ e também já vão surgindo as estrelas lá do céu/ tenho passado tão mal, a minha cama é uma folha de jornal”… Assim canta o “poeta da Vila”, com bom humor, a pobreza a que está condenado o sambista – e que só se torna um problema quando ele tem que resolver… com que roupa eu vou ao samba que você me convidou?”. O personagem desse que foi o primeiro samba de sucesso composto (e gravado) por Noel, nem cogita em trabalhar para comprar roupa nova. Contava com “o português” que sustentava sua amada, e que agora “foi-se embora e levou seu capital”, deixando o casal de boêmios a ver navios – e de roupa surrada.

A polêmica de Noel com Wilson Batista ficou mais conhecida por conta dos sambas que discutiam o valor da Vila Isabel. Antes dessa, porém, Batista e Noel compuseram sambas discordantes a respeito, justamente, do valor da malandragem. O jovem mulato recém chegado de Campos dos Goytacazes tentou se entrosar no mundo boêmio da Lapa declarando-se um verdadeiro malandro:

 “Chapéu de lado, tamanco arrastado/ lenço no pescoço, navalha no bolso/ eu passo gingando, provoco e desafio/ eu tenho orgulho de ser um vadio/ eu sou vadio porque tive inspiração/ já me lembro, era criança, tirava samba-canção”.

Não se sabe se por ciúmes, por orgulho de boêmio que recusa imitações ou se por puro espírito de provocação, Noel rebateu o samba do novato posando de moralista, a aconselhar o compositor:

“Deixa de arrastar o seu tamanco/ pois tamanco nunca foi sandália/ arranca do pescoço o lenço branco/ bota sapato e gravata/ joga fora essa navalha, que te atrapalha/ de chapéu de lado deste rata/ da polícia quero que escapes/ tirando samba-canção/ eu já te dei papel e lápis, arranja um amor e um violão/ malandro é palavra derrotista que só serve pra tirar todo valor do artista/ proponho ao povo civilizado não te chamar de malandro/ e sim de rapaz folgado”.

Mesmo assim, observem que o ofício sério que Noel recomenda a Wilson Batista, contra a pecha de malandro, era o de compositor. O conselho do sambista não era para que o suposto malandro procurasse emprego. Noel procura dissociar a imagem do sambista da do malandro sempre sujeito a cair nas mãos da polícia. Malandro, palavra derrotista?

O mesmo Noel, na consagrada “Conversa de botequim”, encarna o sambista vagabundo que passa a tarde na mesa do bar a pedir uma dúzia de favores ao garçon (média e pão com manteiga, recados ao escritório, o placar do jogo e até “algum dinheiro, que eu deixei o meu com o bicheiro”), pra terminar com “vá dizer ao seu gerente/ que pendure essa despesa no cabide ali em frente”. 

Uma ameaça cerca o sambista, escreve Caldeira: nego largou a batucada e já bate a fome. “Agora, o malandro se preocupa no seu samba quase tanto com o dinheiro quanto com a mulher”, disse Noel.

Noel não foi só o “branqueador” do samba carioca, no sentido de ter desvinculado o samba da favela e da cultura negra. Noel criou o samba moderno.  Inscreveu na tradição oral da cultura carioca a crônica cantada da vida da ralé, no Rio de Janeiro, com graça, humor e ironia.  Há quem diga que Noel Rosa está para o samba como Machado de Assis para a literatura.  “Gago apaixonado”, “Tarzan, filho do alfaiate”, de grande comicidade, convivem com “Três apitos” (a moça é operária, seu apaixonado é “do sereno, poeta muito soturno, vou virar guarda noturno e você sabe porquê”), “Último desejo”, “Feitio de Oração”, que nasceram clássicos.

Foi triste destino dos sambistas da segunda geração, que viveram na pele o personagem do malandro e abraçaram a “orgia” como modo de vida: mortes precoces. A folia dos sambistas da antiga geração parece inocente diante da orgia dos malandros das décadas seguintes. Sandroni escreve que, “entre os sambistas do estilo antigo, que no início dos anos 1920 já desfrutavam uma posição profissional relativamente boa, o único que morreu de tuberculose foi Sinhô, aos 42 anos. Pixinguinha, João da Baiana, Donga e caninha chegaram inteiros à casa dos 70 anos, com cachaça e tudo.” A tuberculose matou muito mais sambistas da segunda geração, talvez porque – hipótese minha – a maior concentração urbana na região central do Rio e a falta de políticas de saúde pública por parte do Estado, tenha tornado a vida dos pobres ainda mais insalubre do que no início do século.

Noel, como já se sabe, morreu tuberculoso aos 26; três parceiros seus, Canuto e Antenor Gargalhada e Grandin, morreram da mesma doença antes dos 30 anos. Na turma do Estácio, Rubem Barcelos, irmão de Bide, Nilton Bastos, parceiro de Ismael, morreram tuberculosos, o primeiro com 23, o segundo com 32 anos. Brancura morreu louco aos 27 anos e Baiaco, aos 22, de úlcera.

A violência ceifou outras vidas, como a de outro parceiro de Noel, Ernani Silva, atirado do alto do morro da favela por “adversários desconfiados”. Mano Edgar foi assassinado numa briga de jogo.

Cartola, que chegou aos 72 anos respeitado pelos amantes do samba, por duas vezes caiu na marginalidade e desapareceu da Mangueira, por conta de dívidas, cachaça e, dizem, abuso de cocaína. Ismael Silva também morreu reconhecido, aos 73 anos. Mas também passou por um episódio de decadência e sumiço depois de ter sido preso, entre 1935 e 37, por atirar no amante da irmã, que batia nela. Outra vez, já famoso, foi preso em Paquetá por trapacear no jogo, mas foi reconhecido por um policial que admirava seus sambas e o comissário o soltou. De acordo com o jeitinho bem brasileiro, Ismael não foi inocentado da acusação de trapaça, mas deixou a prisão na condição de compositor e amigo de um policial (Sandroni).

A tradição continua: exemplos da “preguiça no samba” décadas depois da morte da geração do Estácio

Moreira da Silva, cantor e compositor que encarnou o personagem do malandro, compôs desde a década de 1930 até 1995 uma profusão de sambas cujo protagonista é o malandro esperto que não quer trabalhar, engana a polícia e as mulheres (“Na subida do morro” e “Faltava um ás no meu baralho”) e sonha com uma vida burguesa sem que precise trabalhar pra isso (“Acertei no milhar”).

Janet de Almeida e Haroldo Barbosa, em 1956, compuseram o famoso “Pra que discutir com Madame”, ironizando o preconceito dos grã-finos contra o samba.

Madame diz que o samba tem cachaça, é mistura de raça, mistura de cor/ madame diz que o samba democrata, é música barata sem nenhum valor/ Vamos acabar com o samba, Madame não gosta que ninguém sambe/ vive dizendo que o samba é vexame/ pra que discutir com Madame? (Haroldo Barbosa)

Também da década de 50 é o “Mambo da Cantareira”, protesto contra as agruras da vida do trabalhador composto pelo baiano radicado no Rio, Gordurinha, e gravado em 1974 por Jards Macalé (“Aprendendo a nadar”):

Mas ninguém sabe como é que dói, ninguém entende como é que dói/ trabalhar em Madureira, viajar na Cantareira e morar em Niterói”.

Além da vertente humorística, malandra, temos no belo “Sala de recepção”, de Cartola, a versão lírica do repúdio ao mundo do trabalho e a exaltação poética da vida devotada ao samba.

“Habitada por gente simples e tão pobre que só tem o sol que a todos cobre/ como podes, Mangueira, cantar? / pois então saiba que não desejamos mais nada/ à noite, a lua prateada/ silenciosa, ouve as nossas canções…”

Chico Buarque, o grande continuador da tradição do samba carioca, tematizou o fim da malandragem em 1978, na Ópera do Malandro (“A nata da Malandragem”):

“Eu fui fazer um samba em homenagem à nata da malandragem que conheço de outros carnavais/ eu fui à Lapa e perdi a viagem, que aquela tal malandragem não existe mais.”

O malandro, depois da “modernização” do país imposta pela ditadura militar (uma contradição em termos) enfiou a viola no saco e tornou-se trabalhador: dizem as más línguas que ele até trabalha/ mora lá longe, chacoalha/ num trem da central”. Quem tomou seu lugar foi a elite dos aproveitadores que se beneficiaram de todos os esquemas de apadrinhamento e corrupção do governo militar, aproveitando a falta de liberdade que impedia que seus esquemas viessem a público:

“Agora, já não é normal/ o que dá de malandro regular, profissional/ malandro candidato a malandro federal/ malandro com retrato na coluna social/malandro com contrato, com gravata, e tralha, e tal/ que nunca se dá mal”.

No mesmo disco, Chico gravou a belíssima “A volta do malandro” que termina com o brado de triunfo: “o malandro é o barão da ralé”. Encerro deixando vocês com a faixa completa do samba enfurecido, mas de letra irônica, que Chico compôs para o filme Vai trabalhar, vagabundo, de Hugo Carvana, em 1973. A voz que manda o vagabundo trabalhar é a mesma que arrasa com o ideal bem comportado do pobre, porém honesto, e revela que a exploração do trabalho não dá nada ao trabalhador a não ser “terminar moribundo com um pouco de paciência/ no fim da fila do fundo da previdência”. 

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Maria Rita Kehl é psicanalista, doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo, poeta e ensaísta. É autora de vários livros, entre os quais se destacam Videologias – Ensaios sobre televisão (Boitempo, 2004), escrito em parceria com Eugênio Bucci, e O tempo e o cão (Boitempo, 2009), ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Não-Ficção 2010. Colabora para o Blog da Boitempo esporadicamente.

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Noites de autógrafo de 18 crônicas e mais algumas (SP e RJ)

Maria Rita Kehl participará de duas noites de autógrafo de seu novo livro, 18 crônicas e mais algumas: em São Paulo, na Livraria da Vila (26/10, às 19h) e no Rio de Janeiro, na Livraria da Travessa (03/11, às 19h). O livro já está à venda nas livrarias e em ebook no Gato Sabido e na Livraria Cultura.

Também à venda em ebook:

O tempo e o cão: atualidade das depressões, de Maria Rita Kehl * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Videologias: ensaios sobre televisão, de Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl * PDF (Livraria Cultura)

O que resta da ditadura, organizado por Edson Teles e Vladimir Safatle * PDF * Com artigo de Maria Rita Kehl (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Mulher ou militante

Por Maria Rita Kehl.*

Que diferença representa para o Brasil a eleição, pela primeira vez na nossa história, de uma presidente mulher? No plano simbólico, é evidente que a escolha de Dilma Rousseff para presidente ou presidenta do Brasil revela a ausência, ou pelo menos a irrelevância dos preconceitos sexistas na determinação do voto de grande parte dos brasileiros. Também não houve, em público, manifestações machistas em reação aos primeiros problemas enfrentados pela presidenta. Passados quase oito meses desde a posse, os recentes escândalos em alguns ministérios, os primeiros sinais de inflação e o risco de desaceleração econômica provocaram uma queda de 8 pontos na aprovação da presidenta, que ainda -assim continua mais alta do que a de todos os seus antecessores em início de governo-, desde a volta das eleições diretas. 

Grosso modo, a escolha de Dilma parece ter sido mais pautada por razões políticas e interesses de classe do que pelo imaginário de gênero. Se assim foi, o mérito é todo dela. Durante os oito anos de seus dois governos, o presidente Lula perdeu grandes oportunidades de politizar os eleitores ao definir a relação necessariamente conflituosa entre a sociedade e seus governantes a partir de metáforas ligadas à vida familiar. Fiel ao seu estilo de “homem cordial”, na acepção de Ribeiro Couto e Sérgio Buarque de Hollanda, Lula desde o início se apresentou como pai dos brasileiros. Antes da campanha de 2010, já apresentava sua futura candidata como a “mãe do PAC”. Dilma comprou o rótulo por conveniência, mas teve o mérito de não encarnar o estereótipo maternal que faria par com o estilo carismático e paternalista de Lula. 

Quanto à identificação de Dilma com as causas feministas, vale lembrar que a presidenta em toda sua longa trajetória política – se contarmos desde os anos de militância no grupo VAR-Palmares, na década de 1970 – nunca foi uma típica militante feminista. Como outras raras mulheres independentes de sua geração, as opções políticas da jovem Dilma Rousseff pautaram-se antes por causas universais – liberdade, igualdade, socialismo – do que pelas lutas de gênero, que, no Brasil, só se impuseram com mais força depois da derrota das organizações armadas. Quando as pioneiras das causas feministas começavam a levantar suas bandeiras, por aqui, a militante “Wanda” estava na cadeia. 

Os preconceitos sexistas mais pesados contra ela surgiram durante a campanha, não por parte de eleitores, mas dos adversários políticos. O modo violento como a campanha de José Serra tentou explorar a polêmica sobre o aborto, a meu ver, não teria sido o mesmo com um candidato homem. Ao tentar caracterizar a possível simpatia de Dilma pela legalização do aborto como um grave delito de opinião, Serra apostou na convicção popular de que a mulher que não criminaliza o aborto é um monstro que mata criancinhas. Dilma não enfrentou a polêmica com a seriedade que o caso exigia, mas pelo menos não desceu tão baixo. Em todo caso, nunca saberemos até onde a oposição teria chegado se a notícia de um suposto aborto de Mônica Serra não tivesse vindo à baila. 

Outro preconceito que se manifestou durante a campanha foi o de que, sendo mulher, a candidata não teria pulso- -firme para segurar os “radicais do PT”. Que saudades do tempo em que o PT contava com alguns radicais a incomodar a geleia geral do Congresso. No atual- estado da arte, o governo Dilma corre- mais risco de se descaracterizar em -razão do -excesso de aliados ao centro e à direita do que pela pressão de supostos radicais à esquerda. Além do onipresente PMDB, com sua prática de toma lá dá cá que já se incorporou ao folclore político do jeitinho brasileiro, a barca do governo- terá- de acolher -agora os -intere-sses do novo- PSD, criado pelo prefeito de São Paulo para abocanhar cargos e supremacias junto ao governo federal.

Será mais difícil a uma mulher defender-se da sedução e da chantagem de tais aliados? Não parece. A recente “faxina” (trabalho de mulher?…) executada pela presidenta no Ministério dos Transportes, assim como o atual embate com a “banda podre” do PMDB, a fim de eliminar os cabides de emprego na Agricultura, a despeito das ameaças de perda de apoio por parte da base aliada – problema que só uma reforma política poderia -sanar –, demonstra que Dilma teve a lucidez de perceber que com amigos assim ninguém precisa de inimigos. O destemor da primeira mulher presidente do Brasil, para além de sua forte história de coragem política, pode também ser explicado pela consciência da desvantagem de seu estilo pessoal em comparação com o -carisma popular que permitiu ao presidente Lula ser leniente com a corrupção sem perder prestígio entre eleitores, nem (consequentemente) apoio entre a classe política. 

Na via oposta, penso que os preconceitos favoráveis a uma candidata mulher também não ajudam a politizar o debate. Seria uma presidenta mais apta a “cuidar com zelo materno” de seu povo? Escolho ao acaso exemplos brasileiros que contrariam tal premissa. Entre as poucas governadoras brasileiras, temos Roseana Sarney, filha de cacique político que governa o estado com o pior IDH do País. No Sul, a ex-governadora Yeda Crusius, em 2009, colocou o aparato militar da PM do estado para intimidar os participantes da festa dos 25 anos do MST. Maternais? Protetoras dos fracos e oprimidos? No Senado, basta mencionar o estilo fálico de Kátia Abreu, ativa defensora dos direitos do agronegócio contra os ambientalistas que tentam preservar o que restou das florestas de Mato Grosso e de outras regiões da Amazônia Legal. 

A própria Dilma, se fosse mais “maternal”, teria defendido com maior firmeza a qualidade de vida dos operários da Usina de Jirau, submetidos a condições subumanas no canteiro de obras da Camargo Corrêa. Ou tentaria conciliar a brutal agenda desenvolvimentista com medidas efetivas de preservação da natureza, em prol da saúde das próximas gerações. O compromisso com as causas feministas poderia levar Dilma Rousseff a se manifestar de maneira mais clara no debate sobre a descriminalização do aborto, mas parece que o escândalo que se promoveu em torno do assunto, durante a campanha, contribuiu para transformar o aborto numa espécie de tabu político para a atual gestão. 

Outras questões relativas à saúde das mulheres, no entanto, ainda podem ser contempladas no governo Dilma. Os casos mais óbvios seriam novas políticas de proteção à maternidade, com ênfase no amparo às mães adolescentes. Além disso, toda e qualquer melhora no atendimento à saúde de maneira geral beneficiaria as mulheres, acostumadas a cuidar não apenas da saúde dos filhos, mas também de pais, sogros e maridos. Ainda há tempo para esperar da primeira mulher presidente do Brasil medidas que diminuam a desigualdade de gênero no País, sobretudo nas classes mais baixas. 

Essa esperança se deve ao fato de Dilma, em sua trajetória pessoal e política, ter escolhido as alternativas progressistas que se apresentaram à sua geração. Afinal, a característica mais marcante da presidenta é sua longa trajetória como militante radical de esquerda. Esse segundo aspecto de sua biografia coloca o País diante de um fato espantoso, bem menos alardeado na imprensa: o de que há menos de quatro décadas a atual chefe das Forças Armadas estava pendurada no pau de arara em uma dependência clandestina desse mesmo Exército, seminua, a levar choques elétricos, pancadas e socos até o limite da exaustão, em consequência de sua participação na luta contra a ditadura. Ali, segundo entrevista concedida em 2009 para o blog do Luis Nassif, a militante “Wanda” aprendeu a “mentir adoidado” para defender os companheiros que ainda estavam em liberdade. Ali, frequentemente perdeu a noção de tempo entre uma sessão e outra, jogada sem roupas no chão de um banheiro frio para refletir melhor se não seria o caso de “tomar juízo” e delatar alguém. O pior da vida no presídio, disse Dilma na entrevista, eram os períodos de espera, sem saber quando e como seria o próximo round com os torturadores. 

Por conta desse episódio, Dilma Rousseff conhece o valor inestimável da solidariedade entre companheiras de prisão, homenageadas por ela em um dos momentos mais emocionantes da festa da posse. “Devo grande parte de ter superado (…) e aguentado (a tortura) às minhas companheiras de cela”, declarou Dilma a Nassif na entrevista de 2009, ao mencionar o recurso inteligente e corajoso inventado por elas para “dessolenizar” o medo da tortura através do humor. Cada vez que uma prisioneira era levada para o interrogatório, as outras piscavam um olho cúmplice e ironizavam: “Não se preocupe, companheira. Se você for torturada, a gente denuncia…”

Graças ao que aprendeu com essa experiência, se é que se pode escrever “graças” num caso assim, Dilma teria desenvolvido a capacidade de manter sangue frio diante do torturador, a calcular o que podia ser dito, porque já era sabido, e o que deveria ser calado com falsa tranquilidade, sem nunca afrontar o inimigo para não aumentar sua fúria. Por ironia, não do destino, mas da política, é possível que o exercício democrático do poder venha a exigir que a presidenta recorra, no presente, aos mesmos recursos de resistência que soube desenvolver em sua sinistra temporada nos porões da ditadura. Astúcia e sangue frio podem lhe valer mais do que a força, nas inúmeras vezes em que for encostada contra a parede pelos aliados do governo, caso decida permanecer menos leniente com a corrupção e com o cinismo palaciano do que seu antecessor cordial. 

Muito mais significativo diante do profundo conservadorismo brasileiro do que ser governado por uma mulher é ter uma presidenta que conheceu, por dentro e na pele, a violência e o arbítrio da ditadura militar. Nesse quesito, a posição tíbia dos sucessivos governos brasileiros diante da ala conservadora do Exército envergonha o País diante do mundo, em particular a América Latina. De Dilma, que afinal se decidiu a substituir o sinistro Nelson Jobim no Ministério da Defesa, espera-se uma posição decisiva a favor da abertura da investigação sobre os desaparecidos políticos do governo militar, assim como a decisão de tornar públicos os nomes dos assassinos e torturadores, praticantes de crimes de Estado não contemplados pela Lei da Anistia. 

Ao fazer valer o direito das famílias dos militantes assassinados e desaparecidos, a presidenta alcançaria também o efeito de prevenir a perpetuação dos assassinatos de jovens das periferias brasileiras por policiais militares, a quem, até hoje, nenhum governante disse com firmeza que tais práticas não seriam mais admitidas por aqui. O Brasil foi o único país da América Latina que encerrou uma ditadura sem julgar publicamente nem punir seus torturadores. Indiretamente, os termos em que se negociou a Lei da Anistia por aqui funcionaram como um aval para a perpetuação da violência do Estado. 

No livro O Que Resta da Ditadura: A exceção brasileira (Edson Teles e Vladimir Safatle orgs., Boitempo), a procuradora Flávia Piovesan cita pesquisa feita pela norte-americana Kathryn Sikkink em que se revela que o julgamento dos crimes contra direitos humanos serve para fortalecer, e não para enfraquecer, o Estado de Direito. A pesquisa de Sikking revela que, depois do fim do período militar no Brasil, a violência policial tornou-se maior do que a da Argentina durante a ditadura. De uma presidenta que foi presa política por ter lutado em favor das liberdades democráticas se espera que atue decisivamente para condenar, no passado, e eliminar, no presente, a violência dos agentes do Estado que a sociedade, envergonhada, acostumou-se a considerar como um traço indelével da “cultura” brasileira.

* Artigo publicado originalmente na revista CartaCapital.

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Maria Rita Kehl é psicanalista, doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo, poeta e ensaísta. É autora de vários livros, entre os quais se destacam Videologias – Ensaios sobre televisão (Boitempo, 2004), escrito em parceria com Eugênio Bucci, e O tempo e o cão (Boitempo, 2009), ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Não-Ficção 2010. Colabora para o Blog da Boitempo esporadicamente.

Reservas ambientais, reservas do imaginário

Cena de Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weerasethakul (2004)

Por Maria Rita Kehl.

Caros,

o assunto do Código Florestal não sai de minha cabeça. Mando pro Blog da Boitempo um artigo que escrevi em 1989 e que me parece mais atual do que nunca.

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- Doutor, eu gostaria que o senhor me explicasse prá que serve uma Onça-Pintada?

A pergunta foi dirigida a meu irmão, ardente defensor das causas ambientalistas, pelo barbeiro da cidadezinha do interior onde mora. O cara, exaltado, foi além:

- Uma Onça-Pintada não serve para nada, doutor. Só prá comer o gado de uns pobres sitiantes. Não entendo por que esse pessoal da cidade faz tanto barulho quando se mata uma Onça. Se uma Onça-Pintada não tem mesmo serventia nenhuma neste mundo, o que dizer de uma reserva ecológica inteira? São terras preciosas pro plantio, ou para empreendimentos turísticos, ou para a implantação de pólos industriais, são milhões de reais – ou de dólares – convertidosem quê? Emmato, doutor.

Mato e bicho do mato. Que serventia tem gastar tanto espaço e dinheiro preservando mato?

Nenhuma, eu diria. Colocadas as coisas nesses termos, os termos dos nossos tempos neoliberais, uma reserva ecológica não serve mesmo pra nada. Não dá lucro, não movimenta o mercado, não se compra nem se vende. Uma inutilidade. Mas tento pensar o contrário – o que seria de nós, num planeta que só refletisse a nossa cara, a cara do homem e de sua civilização?

Suponhamos que o problema dos recursos naturais, das chuvas, do clima, se resolvesse em laboratório e num futuro de ficção científica o homem não precisasse mais preservar nem mesmo a Amazônia – a ciência nos forneceria o necessário à vida, ainda que a terra inteira estivesse urbanizada, ou desertificada, tanto faz. Neste caso, a inutilidade da Onça-Pintada, dos Gorilas, do Boto, dos Golfinhos e todo o seu ecossistema estaria mais do que provada.

Danem-se os bichos e suas exigências tão antifuncionais, nós somos os reis da criação. Viveremos muito bem com galinhas de granja, verduras de estufa e gado sintético. Um mundo mais limpo. Mais asfaltado. O clima regulado por satélites. Não vai ser bom?

Mas, instintivamente, esta idéia nos provoca horror.

Não é racional, o horror. Talvez chegue mesmo o dia em que a humanidade não precise da natureza em estado bruto para sobreviver. No entanto, acho que não poderemos sobreviver sem ela. As reservas naturais, mesmo para quem nunca saiu de um apartamento na Avenida Paulista, são reservas do nosso imaginário.

Mesmo quem nunca pisou na Antártida ou na Amazônia sabe que habita um planeta onde vivem Araras e Pinguins, onde existem grandes florestas e grandes geleiras, onde nem tudo tem a cara da nossa civilização. Precisamos das reservas naturais como reservas de mistério, de desconhecido, reservas para nosso fascínio e nosso medo. Reservas de escuridão. Já pensaram que a escuridão total, completa, de uma noite sem lua e sem estrelas, é quase uma desconhecida para a maioria de nós? Reservas de silêncio, como no deserto. Reservas de cheiros estranhos, que nos remetem a um mundo sem humanidade, o mundo das nossas origens perdidas no tempo. Reservas de memória, da memória da espécie, impossível de se guardar no computador. Reservas para o inconsciente.

Reservas de humildade, onde devemos ser lembrados da insignificância de nossa condição no universo. Reservas de instintos, de pulsões, de fúria, de desamparo. Nós não seríamos humanos se não existissem as grandes reservas naturais.

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Maria Rita Kehl é psicanalista, doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo, poeta e ensaísta. É autora de vários livros, entre os quais se destacam Videologias – Ensaios sobre televisão (Boitempo, 2004), escrito em parceria com Eugênio Bucci, e O tempo e o cão (Boitempo, 2009), ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Não-Ficção 2010. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, sempre na primeira segunda-feira do mês.

Fetichismo e perversões

"A dama e o vagabundo" (1955)

Por Maria Rita Kehl.

O casal jovem está sentado frente a frente na mesa de um restaurante caro. A cena reproduz o tipo de encontro que já está configurado no imaginário romântico de nossa época. É nas mesas de bares e restaurantes, frente a frente, que as pessoas flertam, se declaram, se encontram para conversar e namorar. Sabemos que o encontro amoroso, assim como todas as relações humanas, é atravessado por alguns objetos: a decoração da sala, a comida e as bebidas, as roupas e adereços dela e dele. O encontro amoroso não acontece entre dois; ele é mediado pela linguagem, que se faz presente também na forma de objetos que a cultura e a classe social consideram adequados para a ocasião. Assim o vinho, os talheres, a música ambiente, a comida e o preço da comida participam do encontro, demarcando e ao mesmo tempo preenchendo um intervalo entre os parceiros. Este intervalo, esta descontinuidade entre um e outro é que permite a circulação do desejo, como se fosse – mas não é – o puro desejo de um pelo outro.

Na cena que descrevo, o rapaz está tentando dizer algo à moça. Começa timidamente, hesita – o espectador percebe que ele esboça um pedido de casamento. Mas o olhar da moça é distante.  Custamos a interpretar seu sorriso de polida indiferença, até que a câmera faz um giro e conduz nosso olhar para fora da janela, para onde o olhar da moça se dirige. Lá está um carro novinho, de cuja marca não me lembro (mas sei que é vermelho). Quando o noivo, cada vez mais embaraçado, termina seu pedido, ela cai em si e pergunta: “desculpe, o que você dizia…?” A ironia é confirmada pela voz do locutor que alerta os espectadores para o objeto que realmente interessa às moças casadoiras. Se o rapaz não puder oferecer a ela o carro x, desista da empreitada.

O carro introduz-se entre os dois namorados não como um objeto a mais entre os outros – vinho, talheres, cardápio, preço – uma série cujos elementos podem sempre ser substituído por outros. Nessa propaganda, o carro não é um entre os muitos objetos mediadores do desejo (sexual); é ele, este artefato mecânico revestido de lata e tinta brilhante, que se instala no lugar de um dos parceiros como se fosse o próprio objeto do desejo. Se os outros acessórios fálicos recortam o lugar da falta a partir do qual o desejo circula, o carro x, que desvia a atenção da mulher no momento em que o homem lhe pede que seja sua esposa, está no lugar (imaginário) do objeto (simbólico) do desejo. Agora, o homem é que ocupa o lugar acessório; casar-se com ele seria, para ela, apenas um meio de acesso ao gozo/carro.  O homem tornou-se supérfluo diante do único bem que interessa à moça de maneira absoluta. O carro é o objeto irrecusável do desejo, tanto dela quanto do espectador, convocado a identificar-se não com o olhar ingênuo do moço, que ignora o que sua noiva vê, mas com o olhar indiferente e sonhador dela, focando o carro zero estacionado do lado de fora. Ao contrário da mulher freudiana, esta personagem publicitária sabe exatamente o que quer; diante disso o pretendente, que lhe oferece o pobre substituto de um compromisso de amor, faz papel de otário.

Como bem lembrou Eugênio Bucci em vários de seus artigos sobre televisão para a Folhade São Paulo e o Jornal do Brasil, o apelo psicológico comum a todas as formas de publicidade visa à dinâmica da inclusão e da exclusão. A publicidade, escreve Bucci, vende sempre a mesma coisa: a proposta de uma inclusão do sujeito às custas da exclusão do outro. A identificação do espectador como consumidor do produto que se apresenta como capaz de agregar valor à sua personalidade promove sua inclusão imaginária no sistema de gosto, na composição de estilos, que move a sociedade de consumo. Goza-se com isso: não tanto da própria inclusão (que pode não passar de uma fantasia), mas da exclusão do outro. O que a publicidade vende, portanto, é exclusão. Não é imprescindível que a exclusão seja de classe, como ocorre em outro anúncio em que os meninos de rua que pedem para tomar conta e limpar os carros ao preço de um real brigam pelo privilégio de polir o modelo top de linha de um feliz playboy que acabou de estacionar. A exclusão pode ser de estilo. Durante a copa, um comercial de cerveja mostrava um torcedor que errou ao oferecer uísqueem vez de Skol aos amigos que foram assistir ao jogoem sua casa. Diante da gafe imperdoável, foram todos tomar a cerveja certa no bar ao lado, excluindo o anfitrião da alegria coletiva. Não foi uma troca de produto – a cerveja pelo uísque – mas de companhia. O uísque, bebida errada na hora errada, desqualificou o anfitrião perante seus amigos. Este mostrou-se tão otário quanto o pretendente da moça do primeiro comercial que não entendeu qual seria o verdadeiro objeto da sua paixão. É óbvio que a relação que se estabelece é entre as pessoas e as coisas. Ou entre as próprias coisas, que se relacionam, se avaliam e se atribuem significações na medida em que as pessoas (reduzidas a consumidores) se perfilam diante de suas marcas.

Aquela mulher que sabe o que quer, no entanto, não é o mestre do gozo na pequena peça publicitária que escolhi para abrir esse artigo. Se ela sabe que quer é porque um outro, em posição de mestria, lhe apresentou um objeto imperativo da satisfação garantida. Para nós, espectadores, o mestre é o publicitário. É ele quem dirige nosso olhar para o objeto que atrai o olhar dela. É ele quem promove a iniciação dos sujeitos desejantes, convocados desde o lugar de consumidores, em relação às possibilidades de gozo em circulação no mercado. Mas para a personagem do filme de propaganda, no qual a autoria do publicitário está elidida, o objeto do desejo se apresenta por conta própria, como por obra dos deuses do acaso. Ele entra em cena através de um giro da câmera que conduz, “naturalmente”, o nosso olhar; está ali, na calçada fora do restaurante, para que a moça reconheça em suas formas, em sua cor vermelha, mas acima de tudo na marca de fabricação, o objeto inquestionável do desejo.

Os deuses do acaso dispõem as mercadorias em circulação no mundo contemporâneo como o antigo Deus cristão dispunha das forças da natureza para abençoar ou castigar seus fiéis. Uma nova versão imaginária do Outro ocupa o lugar – lugar de um Ser onipresente, onisciente e onipotente – deixado vazio quando parte da humanidade deixou de orientar suas escolhas a partir da crença no Deus judaico-cristão. Um Outro que enuncia o que deseja de nós e promete suas bênçãos para aqueles que melhor se dispuserem a atender suas demandas. Este Outro pode ser, simbolicamente, o Mercado, filho enviado à terra por seu Pai, o Capital – abstrações sem nome e sem rosto que determinam nosso destino e, de um lugar simbólico fora do nosso alcance, nos submetem às leis inflexíveis do Seu gozo.

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Maria Rita Kehl é psicanalista, doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo, poeta e ensaísta. É autora de vários livros, entre os quais se destacam Videologias – Ensaios sobre televisão (Boitempo, 2004), escrito em parceria com Eugênio Bucci, e O tempo e o cão (Boitempo, 2009), ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Não-Ficção 2010. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, sempre na primeira segunda-feira do mês.

O que pode fazer uma (um) psicanalista em uma coluna de jornal?

Por Maria Rita Kehl.

Trecho de introdução a 18 crônicas e mais algumas (título provisório), a ser lançada pela Boitempo no segundo semestre de 2011.

 O que pode fazer uma (um) psicanalista em uma coluna de jornal? Parece óbvio que sua primeira missão seja a de divulgar a psicanálise entre leigos. Mas, cuidado. Mesmo quando praticado com honestidade, o proselitismo tem limites. Na melhor das hipóteses, fica chato e previsível. Na pior, transforma-se em propaganda – à qual, invariavelmente, o epíteto “enganosa” assenta melhor que uma luva.

Caberia então ao analista explicar ao leitor de jornal, com base na teoria freudiana, certos fenômenos e “comportamentos” que intrigam a sociedade? OK; mas com muita, muita cautela. Já se usou e abusou do “Freud explica”, uma prática que tende antes a naturalizar nossa percepção do sofrimento social e nos conformar com suas causas, do que a produzir questionamentos e tocar na raiz do mal estar – efeitos que, estes sim, poderíamos chamar de analíticos.

A psicanálise, a rigor, não é aplicável a situações fora da relação de transferência que a clínica propicia. Há quem diga que o próprio inconsciente seja um fenômeno de laboratório, que só existe na presença do analista, se a transferência se estabelecer. Um purismo de tal monta deixa de levar em consideração a chamada “psicologia das massas”, mas deixemos para lá, por enquanto. A psicanálise não é uma teoria aplicada à clínica e/ou aplicável para explicar todas as bizarrices de que o humano é capaz. Antes de mais nada, a psicanálise (assim como seu irmão gêmeo em importância, no século XX, o materialismo histórico) não é uma teoria aplicável, é um método investigativo – que parte, evidentemente e assim como o dispositivo marxista, de hipóteses teóricas razoavelmente bem fundamentadas.

O melhor que um psicanalista pode fazer, na imprensa, é quase idêntico ao melhor que pode fazer um jornalista bem vocacionado: investigar. A diferença está no instrumental de que cada um dispõe, e não no destino do texto. Investigar a história (marxismo), os “fatos” (jornalismo), as motivações e/ou as conseqüências silenciadas de um fato (psicanálise).  Mas só agora, seis meses depois de ter perdido minha coluna quinzenal num grande jornal paulista por não ter cumprido o combinado de ocupar o espaço de que dispunha no papel de psicanalista, consigo formular com clareza isto que, desde sempre, foi para mim uma convicção.  A escrita do psicanalista é sempre clínica – mas não sua aplicação.  O que distingue o lugar do psicanalista na imprensa não é o número de vezes em que ele se refere a Freud, a Lacan ou ao complexo de Édipo, não é a escolha de pautas relacionadas á vida íntima, aos problemas amorosos ou familiares. O que poderia distinguir o psicanalista que escreve em jornais, e que acima de tudo – que isto não seja esquecido – é também um cidadão, é o modo como sua experiência clínica pode ajudá-lo não a explicar, mas a escutar o sintoma social. É a abertura para as manifestações do inconsciente, e não a explicação teórica, que faz com que um texto seja psicanalítico – não “ao invés de” jornalístico, e sim “além de”.

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Maria Rita Kehl é psicanalista, doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo, poeta e ensaísta. É autora de vários livros, entre os quais se destacam Videologias – Ensaios sobre televisão (Boitempo, 2004), escrito em parceria com Eugênio Bucci, e O tempo e o cão (Boitempo, 2009), ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Não-Ficção 2010. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, sempre na primeira segunda-feira do mês.