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O sapo Gonzalo em: O lutador

Por Luiz Bernardo Pericás.

Outra manhã na praça Fellini, a mesma que sempre frequentava. Gonzalo sentia que, a qualquer momento, alguém se sentaria a seu lado e começaria a desfiar longas histórias. Como de costume. Afinal, seria pedir muito ficar só, em silêncio, apenas a olhar as crianças rechonchudas passeando com suas babás esclerosadas, os pombos tuberculosos bicando os grãos duros de milho no chão de concreto rachado e os pipoqueiros estropiados que rotineiramente circulavam por ali. Alguém teria que surgir como que por encantamento e incomodá-lo, mesmo naquele horário alvorar, logo após o nascer do sol.

O homem sem braço, que conversara com Gonzalucho por longos minutos, na semana anterior, nunca mais aparecera por lá. Mas algum novo personagem haveria de surgir… Enquanto isso, a pirose do caçote dava pontadas, queimava, corroía o esôfago. E seu velho problema na “fauna intestinal” também voltava a incomodá-lo…

Pois não é que o dendróbata esmeraldino mal terminava de tragar seu vigésimo cigarro desde que acordara quando percebeu que um troglodita barrigudo, de rosto deformado e lábios rasgados, vinha em sua direção. Olhou para o outro lado, tentando se esquivar, mas de nada adiantou. O indivíduo de nariz torto e feições desarmoniosas, uma espécie de Quasimodo moderno, sentou-se sem muita delicadeza justo a seu lado. E, como era de se esperar, queria trocar uma ideia. O nosso querido e pigarrento dicó argentino, coçando a virilha, sem querer discutir nem desapontar o forasteiro, meneou a cabecinha esverdeada, concordando.

“Meu caro sapo, não quero importuná-lo, mas gostaria de lhe pedir um cigarrinho desses, por favor”, disse o estranho, polidamente.

“Sim, claro…” , retrucou o anfíbio engelhado, deixando que o homem retirasse um Marlboro do maço.

O giboso puxou o fumo até o fundo da alma e depois soltou a fumaça lentamente, sem se mover do lugar.

“Belo dia, não acha?”

Gonzalo não estava entendendo onde o corcovado queria chegar. E se mantinha quieto. O indivíduo, contudo, parecia não se importar com o silêncio solene do batráquio. Continuou:

“Você gosta de esportes, colega?”

Da boca de Gonzalucho, nem um coaxar sequer.

“Olhe só aquele rapaz dando socos no ar”, apontou o gebo repugnante. “Ali em frente, do outro lado da praça. Conheço o jovem. Está treinando para o ‘Luva de Prata’ e o ‘Forja de Campeões’, os maiores certames de pugilismo aqui da cidade. Ele acha que será uma estrela dos ringues… Ah, quanta ilusão! Ser como Patterson, Frazier, Foreman, é para poucos… Pois vou lhe contar. Cruzei com muitos garotos como este, ao longo de toda minha vida. Mas havia um em especial que se deixou deslumbrar, mais do que os outros, pelos holofotes… E acabou na sarjeta! Quanto potencial despediçado! Era um galã… Parecia até o Paul Newman, veja você! E teve seu momento de glória… Agora nem as donas de casa de meia-idade o reconhecem. Mas em sua época, foi grande!”

“Conte mais”, retrucou Gonzalucho, sem demonstrar grande interesse por seu interlocutor, mas desconfiando, lá no fundo, que o homem iria narrar sua própria história. Como da outra vez, com o maneta, ídolo local do braço de ferro. Era o que sempre ocorria quando estava sentado, sem ter o que fazer, ali na praça Fellini, aparentemente o lugar mais agitado da cidade naquelas horas da manhã. Não tinha como escapar dos chatos…

“Pois vou lhe narrar, então, a saga deste lutador. E também seu drama…”

Foi desconectado deste mundo por alguns segundos. O violento direto de direita que levou no meio da testa sacudiu sua cabeça e deslocou o cérebro dentro de seu crânio. Os olhos estavam tão inchados que mal conseguia abri-los. O nariz, com o dobro de seu tamanho normal, sangrava. Na outra extremidade do ringue, o adversário esperava a contagem do juiz. Mas já comemorava a vitória.

No começo, era apenas o sonho. Nas revistas esportivas que comprava todas as semanas via as fotos de seus heróis de luvas. O sonho, propriamente dito, era se tornar um campeão de boxe como eles. Mas isso parecia impossível. Um físico pouco privilegiado, comentavam os amigos.

Na adolescência, era surrado diariamente pelos colegas na escola. As provocações, frequentes: anos de bullying e desrespeito…

Considerado um moleque estranho e solitário, se escondia sempre, nos intervalos das classes, num canto do pequeno jardim da escola, simulando, sozinho, combates ferozes com inimigos imaginários. Saltava, praticava o pêndulo e golpeava no vazio, para finalmente erguer os braços para os céus, se jactando de mais um grande triunfo no tablado. Depois disso tudo, chegavam os grandotes, que iam se divertir às suas custas. Por mais que fosse enxotado diariamente, não abandonava sua ambição. “Algum dia todos irão se arrepender dessas brincadeiras”, dizia para si mesmo.

Ao se formar no secundário, já se podia notar claramente a diferença dos anos anteriores. Ainda não havia iniciado sequer um treinamento formal, mas seus músculos começavam a aparecer. De vez em quando, colocava camisas apertadas para impressionar as meninas do colégio. Na maioria das ocasiões, entretanto, continuava sendo o mesmo tímido e recatado rapaz de sempre. Permanecia cheio de expectativas em relação a seu futuro promissor.

Em vez de tentar entrar numa faculdade, foi diretamente falar com um antigo amigo de seu pai, que lhe apresentou a um dos mais renomados preparadores técnicos da cidade. Como sua família tinha uma posição econômica confortável, pôde lhe pagar, sem qualquer dificuldade, os treinamentos custosos. A academia estava repleta de outros jovens de classe média como ele. Mas nenhum deles tinha a mesma estâmina, a mesma vontade de vencer, pensava o jovem. Derrotaria a todos.

Sua rotina era sempre igual: saía de casa pela manhã, ia para o ginásio em seu carro importado, entrava no vestiário, colocava as faixas nas mãos, enrolando as gazes metodicamente nas palmas abertas e entre os dedos finos, e então ia golpear o saco de areia. O treinador parecia gostar de seu progresso, e quando viu que derrubava frequentemente alguns sparrings na academia, percebeu que podia fazer dinheiro fácil com o discípulo.

Um ano depois de ingressar nos mistérios da nobre arte, sem nunca haver participado de uma luta oficial, já tinha um empresário, também chapa do progenitor, que garantiu ao velho bons lucros com as futuras pugnas do filho. Só precisavam de uns combates arranjados. E isso não seria difícil de conseguir.

Antes do primeiro desafio a ansiedade era grande. Sua mãe, uma matrona corpulenta que passava boa parte do dia conversando com as amigas ao telefone, estava desesperada. “Isso não é coisa de gente civilizada”, gritava, com as mãos nos cabelos. Acariciava de forma enlouquecida a face lisa do filho e temia pelo pior. Não queria que machucassem seu “menino”. Só a ideia de ver o rosto do filho desfigurado lhe causava arrepios. Chorou por duas semanas seguidas, todas as noites, ao pensar no que poderia acontecer com o jovem. Na grande noite do evento, ela sentou-se com o marido na primeira fila e gritou como um animal selvagem, pedindo que o “garoto” arrancasse a cabeça do oponente, certamente um ato de alguém que não conhecia as regras do belo esporte.

De qualquer forma, lá ia o jovem boxeador para o ginásio. Durante todo o trajeto parecia estar concentrado ao máximo, absorto em seus pensamentos mais íntimos. Seu treinador dirigia o automóvel de marca alemã, enquanto ele, no banco do passageiro, meditava de olhos fechados.

Agora seria para valer. Por anos imaginara aquele momento e ele havia chegado. Em alguns minutos, enfrentaria seu adversário: um enigma. Mas recebia constantemente a garantia do “professor” de que não haveria problema. O oponente era um garoto de origem humilde, com péssima técnica e pouca força física. Tinha queixo de vidro, garantia. Estava tudo arrumado: uma luta arranjada. Não havia nada com que se preocupar.

Entrou no vestiário, se despiu e em seguida colocou a proteção dos genitais, os calçados, as luvas e o short com cores brilhantes. Começou, então, o aquecimento…

Seu nome foi chamado em alto e bom som pelo alto-falante e dos bastidores, ele correu até o ringue distante, se escondendo no capuz do roupão cintilante. Os flashes espocavam; uma música agitada anunciava sua presença. Aquele era seu momento de apoteose. Tudo estava preparado para que ganhasse seu primeiro evento. Havia muito dinheiro em jogo; tinha de vencer.

Subiu no quadrilátero e cumprimentou o público. A multidão já o conhecia pelos cartazes e notícias publicitárias colocadas em destaque nos jornais. Era uma lenda sem nunca antes ter lutado profissionalmente em sua vida. Mas isso não era o mais importante. O mais importante era a imagem. E isso ele tinha. Jovem, delgado, músculos enrijecidos, com o nariz e lábios finos, era exatamente o que aquele público queria. Quando olhou para seu adversário, um negro raquítico, que havia sido colocado ali apenas para apanhar, deu um sorriso. A peleja estava no papo. Era só ter paciência, jabear um pouco e meter um gancho no queixo do famigerado. Sabia o que fazer. Planejou todo o transcurso da lide, cada pequeno detalhe, cada movimento. Acreditava que em no máximo dois assaltos estaria comemorando a vitória com a plateia.

Devia agradecer ao treinador e ao empresário por terem escolhido um oponente tão fácil. Seria o protagonista de um massacre.

Uma bela mulher, de corpo escultural, desfilou com uma grande placa dentro do cercado. Preparava-se para o primeiro round. Seu coração batia mais rápido; a respiração, ofegante.

Soou o gongo. Foi em direção do fraco lutador sem pestanejar. O rapaz afrodescendente tentava se defender, mas era difícil conter o bombardeio de socos.

O pugilista branco não se detinha; os jabs, ininterruptos. Em pouco tempo, o rival se abraçava a ele. Quase não conseguia se manter de pé. As pernas bambas tremiam; os braços finos “clinchavam” em volta de seu corpo. O frágil oponente tinha, no olhar, o medo de um animal acuado por um caçador: achava que se soltasse daquela posição, receberia uma saraivada de murros impossível de conter.

Enquanto isso, o boxeador de classe média lhe infligia pancadas poderosas no baço e no plexo. O juiz com alguma dificuldade separou os dois contendores, para logo ter de apartá-los de novo alguns segundos mais tarde, já que o mirrado lutador negro mais uma vez colava seu corpo junto ao de seu oponente.

Ao recomeçar a sova unilateral, o público entrou em estado de transe. A multidão delirava e pedia a cabeça do pobre coitado. Aquele rapaz branco, que havia sido um garoto sonhador anos antes e que admirava os pugilistas clássicos, agora iria satisfazer o público presente na pequena arena. Com um soco na mandíbula, acompanhado de seu cotovelo, finalmente conseguiu derrubar o oponente franzino.

O juiz começou a contagem. Ainda tonto, sem entender bem o que estava acontecendo, o negro conseguiu, com muito esforço, se levantar. Garantiu que poderia seguir adiante no combate. Sentia-se como se tivesse sido atropelado por um caminhão. No outro canto, o jovem “ariano” conversava descompromissadamente com o treinador e dava piscadinhas para as mulheres da audiência. Ainda teve tempo de acenar para o pai, dando a entender que ganharia a luta facilmente. O árbitro então mandou os dois recomeçaram o embate, mas o gongo soou, salvando a pele do adversário.

Sentou-se em seu corner e recebeu algumas instruções do treinador. Na verdade, não estava ouvido o que seu mentor dizia. Naquele momento, ele observava a beleza feminina de biquini que caminhava com a placa levantada sobre a cabeça. O segundo assalto logo começaria, mas estava tranquilo.

Os assistentes colocaram um pouco de água em sua boca, a qual bochechou e cuspiu. Apesar da intensidade do primeiro assalto, não aparentava cansaço. Olhou de viés para fora do quadrilátero e viu sua mãe gorducha gargalhando com uma velha amiga: dizia que seu filho era o tal. Já o pai, orgulhoso do pimpolho, explicava a um espectador, com dedo em riste, as qualidades técnicas do primogênito. Então se escutou novamente o sinal.

Desta vez teria de acabar logo com o combate. Saltou como uma fera em cima do oponente, jogando agressivamente seu punho na face de traços duros, rasgando o supercílio direito. O corte, o sangue transbordando e o inchaço mal permitiam que o coitado abrisse a pálpebra. Ainda assim, o médico, em pé numa das esquinas, pôde detectar algo estranho no olho coagulado, que tempos mais tarde se comprovou ser um descolamento de retina. Mas não fez nada para parar a derriça. Havia muito dinheiro em jogo naquela noite.

Bateu com tanta força na cara do adversário negro, explodindo o punho petrificado em sua boca, que produziu um edema descomunal em seus lábios. Queria massacrar aquele garoto. Até que conseguiu encaixar um violento golpe lateral no fígado. No momento em que o adversário se contorceu, aplicou o gancho de direita no queixo, como havia planejado. Mais uma vez, o magrizel foi à lona. Só que desta vez não conseguiu se levantar.

Vencera a luta em apenas dois assaltos. Seu primeiro duelo como profissional havia sido um sucesso. Pulou nas cordas e bateu as luvas no peito. Quando voltou para o centro do tablado, para ter seu braço levantado pelo juiz, estava exultante. Os fotógrafos logo chegaram, e junto com eles, vários repórteres esportivos. Seria como seus ídolos do passado: também teria seus retratos estampados nas revistas especializadas! Já o pobre negro foi esquecido em seu canto junto com sua equipe. Saiu do palco sem atenção nem interesse de ninguém…

O boxeador branco, com sua luta armada, sentia que dali em diante teria uma carreira de êxito. Percebeu que algumas mulheres do público haviam subido ao ringue e agora o adulavam. Descalçado das luvas vermelhas, abraçou uma loira falsificada, que não se queixou. Os dedos finos apertavam a carne macia da moça oxigenada, que se entusiasmava ao ser tocada por um campeão. Pegou o telefone da jovem e ficou de sair com ela outro dia. Tantos anos solitário, considerado um animal estranho pelos colegas da escola, ele agora sentia-se triunfante!

Apesar da jornada daquela noite, foi jantar com sua família num restaurante caro. O pai ria sozinho ao exibir o maço de dinheiro em sua mão. O boxeur, por sua vez, sem uma cicatriz sequer no rosto, não conseguia parar de pensar na moça que abraçara pouco tempo antes no ringue… Alguns dias depois, sairia com a rapariga pela primeira vez, e a partir daí, começaria um romance de fachada com ela…

Como seu combate inicial havia sido fácil, diminuiu a intensidade dos treinamentos, talvez por excesso de confiança em si mesmo e nas tramóias de seu empresário. Recebeu a garantia de que seu próximo oponente seria do mesmo calibre do primeiro. Por isso, não ligou para suas noitadas e novo estilo de vida.

Próximo do novo prélio, entretanto, começou a se preocupar. Talvez devesse levar mais a sério sua carreira. A namorada, sempre vista com ele em todos os eventos sociais importantes da cidade, dizia que o parceiro era o maior e que venceria com facilidade qualquer adversário. Isso o tranquilizava em certa medida. Até chegar a hora do gládio…

Entrou no ringue tão ou mais confiante do que da primeira vez, mesmo sabendo que não estava bem preparado. O rival, conhecido como “Tanque”, um rapaz de sua academia e que morava, coincidentemente, em seu bairro, era mais forte que o anterior e disposto a brigar. A luta parecia difícil… Mas então se lembrava das palavras confortadoras de seu empresário, que lhe assegurara mais uma vitória fácil.

O ginásio estava lotado, desta vez por muitos curiosos, querendo conhecer a sensação do momento. Ao se dar conta da adulação do público, começou a saltitar e a bater as luvas, como se estivesse se aquecendo. Em realidade, se exibia.

A parceira, sentada ao lado de sua mãe, acenava euforicamente. Seu nome, peso e cartel foram anunciados com exagero pelo apresentador no centro do ringue. A multidão, influenciada por todo o esquema publicitário construído ao longo dos meses em torno do pugilista, parecia estar diante de um ídolo musical. Nas revistas de entretenimento, descreviam-no como um artista, criando a imagem de um astro pop. Logo as menininhas impressionáveis tinham seu pôster nas paredes de seus quartos e seu retrato nas carteiras.

Uma das queixas do treinador era que o pupilo perdia muito tempo nos estúdios, em sessões de fotos demoradas. Quando começou a tomar esteróides, acreditava que melhoraria a aparência (afinal, havia algum tempo que, ao se olhar no espelho, sentia que ainda lhe faltava massa muscular). Seu mestre discordou da decisão, mas ao tentar dissuadir o rapaz, foi repreendido de tal forma que não abriu mais a boca sobre esse assunto. O discípulo pretendia ficar bonito para suas fãs, e acreditava que tal atitude não comprometeria sua performance no quadrilátero.

“Tanque” queria tirar tudo isso do inimigo. E ansiava, ele próprio, se tornar a estrela da nova geração do boxe local. Aquela seria sua quinta luta, após uma derrota, uma vitória por pontos e duas por nocaute. Deixaria para trás o tropeção da primeira contenda, que para ele fora um erro: simplesmente não tivera tempo suficiente para se preparar; abrira a guarda e levara uma sequência de golpes duríssimos no rosto. Mas aos poucos havia se recuperado, planejado melhor sua estratégia e conseguido vencer os outros desafios. Os dois nocautes recentes haviam sido resultado de um treinamento intenso. Agora estava pronto para acabar com a “sensação” do momento. Aquele combate garantiria sua ascensão ao estrelato. Também se achava garboso e acreditava que poderia ser convidado a participar de algum filme nacional em breve: era só questão de saber como manipular a mídia. Seu empresário se encarregaria do resto…

A rinha começou. Nosso protagonista agora percebia que havia se metido numa encrenca. Durante os dois primeiros rounds, apenas se estudaram, medindo distância e somente desferindo alguns jabs sem grande potência. Queriam conhecer a técnica e o encaixe um do outro; os clinchs, frequentes. Tinham receio de se expor demasiadamente numa luta franca e acabar levando um golpe inesperado. Para o público, aquilo estava parecendo um acordo de cavalheiros. Queriam sangue, mas presenciavam um espetáculo entediante.

No sexto assalto, o novo ídolo jovem conseguiu acertar uma boa sequência na facha adiposa de “Tanque”, que cambaleou como se fosse desabar: conseguiu se equilibrar rapidamente e continuar o combate. Esse talvez tenha sido o único momento de maior emoção da noite. Em seguida, o tédio voltou a reinar. Parte da audiência começou a vaiar os dois, enquanto outros espectadores, desapontados, se levantavam e partiam.

O fato é que “Tanque” era um adversário mais difícil do que havia imaginado. Já pensava em se queixar com o manager por ter mentido a respeito do rival. Mesmo com todas as dificuldades, percebia que estava sendo filmado e preocupava-se em se colocar no melhor ângulo para as câmeras, desferindo cada soco com uma plasticidade proposital. Tentava imaginar como ficariam suas fotos nos jornais desportivos.

A namorada perdia paulatinamente o interesse na luta e conversava com um homem obeso a seu lado, provavelmente um apostador frequente do local. Nesse momento, entretanto, nosso protagonista não percebia nem se interessava por isso: só queria que aquele suplício acabasse logo. Havia muito tempo que não se sentia tão cansado.

Ao terminar o décimo segundo round, foi proclamado vencedor por pontos, o que para ele era mais do que o suficiente. Se o próximo adversário fosse tão difícil, demitiria seu empresário.

“Tanque” não partiu sem antes reclamar de que aquele combate havia sido forjado. Tinha certeza que lutara melhor. Mas os golpes que quase o haviam derrubado foram a desculpa para lhe tirar a vitória. Seu futuro já não parecia tão promissor. Saiu do ringue desconsolado e dizendo que havia sido roubado. Iria denunciar aquela armação na imprensa. Depois de uma semana, ninguém mais queria entrevistá-lo e em pouco tempo, ele e aquela pugna foram esquecidos.

Agora o sonhador de classe média pensava numa volta triunfal. Sua intenção era a de planejar melhor as lutas seguintes, para restabelecer sua imagem de ídolo e calar a boca dos críticos. Deveria vencer de maneira arrasadora, em eventos transmitidos ao vivo, com ampla publicidade. Em poucos anos, poderia se dedicar a outras atividades e desfrutar da fama. Queria ser cantor. Neste caso, o mais importante não seria cantar, considerando que não tinha boa voz e era desafinado. Sabia que no show business o que mais importa é a aparência. Conseguiria músicos para acompanhá-lo e diretores competentes para seus video clips. Depois que gravasse suas canções, não teria mais com que se preocupar. Afinal de contas, seria só questão de colocar um play back e tudo estaria resolvido. Também queria ser ator de telenovelas. Mas estes eram projetos para o futuro. Primeiro teria de se consolidar como grande campeão de boxe, seu sonho de infância. Depois se dedicaria ao resto.

Decidiu colocar o pai para cuidar de seus assuntos, juntamente com o manager, para ter certeza de que seu próximo adversário seria fácil. Continuou, mesmo assim, a sair rotineiramente com a consorte platinada, participando de eventos sociais e bebendo mais do que devia. Acreditava que isso era parte do negócio.

Suas próximas contendas foram fáceis. Combateu o argentino “Huracán” González e o mexicano “Charro” Ramírez, dois boxeadores de segunda, vencendo a ambos sem problema. Mas não modificou sua rotina de farras e álcool. Sabia se promover e divulgava seus “grandes” feitos para o público seleto que frequentava as casas noturnas da moda. Nos pôsteres encomendados pelo empresário, sua fotografia era estilizada e seu nome, escrito em letras garrafais. As lutas com estrangeiros desconhecidos eram difundidas como atrações internacionais. É claro que muitos comentaristas sabiam que tudo aquilo era arrumado com antecedência e que o jovem pugilista era uma farsa, mas se calavam quando recebiam as notas gordas na mão. Como lutava em organizações de boxe de pouco prestígio, a mentira ainda passava despercebida entre os aficionados e amantes do esporte, com exceção de alguns fanáticos mais atentos. Caso chegasse em algum momento a lutar com prize fighters de nível superior, as coisas certamente mudariam de figura. Mas como se considerava, antes de tudo, um entertainer, um showman, o boxe em si não era algo tão importante.

Os anabolizantes e o treinamento relapso começaram a fazer efeito, e em pouco tempo, ganhava uma barriga flácida e espinhas na cara. A namorada se queixava, mas não o abandonava por saber que se tratava de alguém com potencial para o estrelato. Era vista, contudo, com outros homens que conhecia na noite, de alguma forma conseguindo esconder os amantes do companheiro, que muitas vezes estava excessivamente bêbado para perceber o que se passava à sua volta.

O rapaz assinou contrato para participar de uma telenovela na época que mais tarde considerou ser o auge de sua carreira como boxeador profissional. Tinha a aparência que os diretores queriam. Era jovem, de pele clara e contornos suaves: dava a impressão de ser o garoto da esquina, o filho que todas as mães gostariam de ter. Só que precisaria dar um jeito de se livrar da barriga proeminente e da acne, que infestava sua cara. Os donos da emissora sabiam que fotografava bem, e que poderiam fazer milagres com maquiagem e truques da câmera. Mas acreditavam que ele, mesmo assim, tinha de ficar com o corpo atlético e o rosto limpo: era um produto, e para ser vendido, deveria se adaptar. Queriam passar a imagem de saúde e juventude ao grande público, e fariam o que fosse necessário para atingir esse objetivo.

Aquele era seu ápice. Havia vencido quinze combates, quase todos por nocaute nos primeiros rounds. As pessoas o reconheciam nas ruas e algumas chegavam a lhe pedir autógrafos. Até mesmo um fã-clube foi criado para homenageá-lo. Era o ídolo das menininhas adolescentes. Tudo isso para alguém que nunca demonstrara qualquer qualidade técnica no ringue. A curta carreira não deveria ser o suficiente para que conseguisse tanto em tão pouco tempo. Mas com a influência da família e os esquemas promocionais, conseguira acelerar sua chegada aos caminhos da fama.

O folhetim da “tela de prata” começaria a ser gravado em um mês. Assim, teria de voltar a ficar em forma o quanto antes. Discutiu com o treinador um plano de exercícios e começou sua dura rotina. Tinha apenas mais uma luta programada antes das filmagens. Provavelmente seria como todas as outras. Depois, colheria os frutos da glória.

Em pouco tempo, sua flacidez desapareceu e seu rosto voltava a ser liso. Descobriu que sua namorada tinha casos com outros homens, mas não se importou e justo antes de seu próximo duelo, pediu a loira falsificada em casamento. Ela, como se pode imaginar, aceitou. O enorme anel de ouro e diamantes que ganhou foi a recompensa por ter aturado aquele chato por tanto tempo. Sua conta bancária estava inchada, seu cartel de lutador, melhorando ao longo dos meses, e sua carreira de ator, pronta para deslanchar. Tudo parecia estar indo de vento em popa: chegava ao sucesso que tanto almejara na infância. Tinha de cumprir apenas mais um compromisso antes de estrear na carreira de ator. E acreditava que aquela seria mais uma vitória tranquila.

Entrou no ringue e viu do outro lado um homem de sua altura, mas com um físico exageradamente desenvolvido para sua categoria. Diziam que o indivíduo se chamava Tonhão. Era escuro, retinto como petróleo, com olhos amarelados e lábios descomunais: tinha ódio no olhar. Quase não se movia: estava parado, estático, olhando furiosamente para ele.

Naquele momento, pensou que o embate poderia ser duro. Mas seria seu último em muito tempo. Depois disso, a fama na televisão. Como o empresário sempre conseguia adversários fáceis, imaginou que aquele boxeur assustador fosse apenas mais um carregador de sacos de cebola numa feira qualquer, que fazia um bico no pugilismo para ganhar alguns trocados a mais.

Antes de soar o gongo, lhe solicitaram uma entrevista. Deu declarações para os jornalistas presentes, explicando os detalhes de seu recente contrato com a emissora e desmentindo que tivesse um caso com uma atriz famosa. Depois disso, colocou a proteção na boca, foi ao centro do tablado receber as instruções do juiz e voltou ao seu corner. E então, finalmente, começou o combate.

Já no início, percebeu que aquela seria uma peleja complicada. Tonhão atacava com uma agressividade que nunca havia visto, seus golpes, desferidos com uma velocidade impressionante: era difícil se defender de tamanha quantidade de socos. Em poucos minutos, corria de sua boca o fluido vital…

Foi castigado em seguida na linha de cintura, uma sequência feroz na zona hepática. Após receber upper cut, upper cut, upper cut, cambaleou desequilibrado para as cordas e teve de “clinchar” o adversário. Separado de Tonhão pelo juiz, continuou a sentir o impacto da mão pesada do desafiante negro. Sua mucosa bucal estava em frangalhos. Um murro mais forte e então ouviu um estranho ruído: seu maxilar acabava de quebrar. Queria que tocasse o sinal, que pudesse ir descansar em seu corner, mas o tempo parecia lento, e os minutos, intermináveis. Até que visitou as zonas arqueológicas pela primeira vez… Foi à lona! Conseguiu levantar-se com dificuldade, quando o juiz terminava a contagem. Cambaleando, agarrou-se a Tonhão o suficiente para que acendesse a luz âmbar. Estava salvo, ainda que provisoriamente.

Pensou em abandonar a batalha, mas seu técnico insistiu que continuasse. Como sempre, havia muito dinheiro em jogo; todos os amigos e parentes haviam apostado nele. Tinha de continuar…

O próprio treinador afirmou que não jogaria a toalha, que não pediria para parar a contenda. E depois, ele tinha de pensar na novela… Mas seu rosto agora estava tão desfigurado que dificilmente poderia ser um leading man de uma trama televisiva. Era como se Tonhão espancasse propositadamente seu rosto para que perdesse seus traços finos, suaves, tão apreciados pelo público feminino.

Estava apreensivo em voltar ao centro da arena para o segundo round, mas quando soou o gongo, correu para cima do adversário como que por instinto. Só que Tonhão agora batia com mais força e aumentava o ritmo.

Sua visão estava turva, a cabeça rodava, não conseguia ficar de pé. E então percebeu quem era seu adversário. Estava diante de seu primeiro oponente, aquele negro frágil e franzino, que para ele nunca tivera nome nem importância, que ele tanto castigara em seu combate inaugural e que saíra do ringue desprezado por todos. Seus olhos subitamente se abriram mais do que o normal e miraram fixamente para o rosto do rival. Tonhão se deu conta de que seu grande inimigo o havia reconhecido. E decidiu puni-lo ainda mais.

A partir daquele momento, golpeava com prazer. O sangue cobria todo o rosto do jovem galã, que, àquela altura, já não era tão galã quanto gostaria… O bom senso diria que a luta deveria ser interrompida. Mas ninguém mexeu um dedo para acabar com o combate. Até que finalmente veio o golpe de misericórdia.

Foi desconectado deste mundo por alguns segundos. O violento direto de direita que recebeu no meio da testa sacudiu sua cabeça e deslocou o cérebro dentro de seu crânio. Os olhos estavam tão inchados que mal conseguia abri-los. O nariz, com o dobro de seu tamanho normal, sangrava. Sua carreira na televisão e no boxe já não era tão promissora. Ao que tudo indicava, precisaria de um longo tempo para voltar ao normal. Estava irreconhecível. Os golpes que recebera haviam desfigurado seu rosto, coberto de cicatrizes. Só queria ir embora dali. E a multidão aplaudia… 

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Já estão à venda em versão eletrônica (ebook) os livros de Luiz Bernardo Pericás publicados pela Boitempo Editorial: o premiado Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica, e o lançamento ficcional Cansaço, a longa estação. Ambos estão disponíveis na Gato Sabido, Livraria Cultura e diversas outras lojas, custando até metade do preço do livro impresso.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010) e do lançamento ficcional Cansaço, a longa estação (2012). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

O sapo Gonzalo em: El Caballero de París

Por Luiz Bernardo Pericás.

Sentiu o bafejo úmido e salgado do mar penetrando em suas narinas dilatadas. Ao caminhar, sonolento, pelo calçadão do Leme, Gonzalo se recordava dos tempos em que estivera em Havana, muitos anos antes: o centro antigo, o Vedado, as enormes ondas atingindo as muretas do Malecón e molhando os casais de namorados desavisados… E se lembrava também do Caballero de París, um dos homens mais decentes e elegantes que já conhecera. Por vários anos, muita gente achou que o humilde maltrapilho espanhol fosse apenas mais um mendigo sujo que caminhava sem destino pelas ruas da capital. Com o tempo, contudo, todos foram percebendo que ali estava um fidalgo moderno, um verdadeiro “aristocrata” das praças e calçadas da grande metrópole caribenha…

José María López Lledín nasceu em 30 de dezembro de 1899, na aldeia de Vilaseca, distrito de Fonsagrada, Galícia, perto da fronteira da Astúria e próxima ao rio Eo, na época um povoado com pouco mais de duas centenas de casas. Foi batizado em seguida pelo pároco de Salvador de Negueira.

Há ainda muito mistério sobre a juventude de José. Há quem diga que ele era o quarto de oito filhos. Outros, que eram onze irmãos. De qualquer forma, ele teria sido o único que aprendeu a ler e escrever: adorava as boas leituras, a música e o conforto. Chegou até mesmo a terminar o curso secundário. “Desde garoto tinha jeito de nobre”, comentavam em seu vilarejo. Alguns dizem que sete de seus hermanos imigraram para os Estados Unidos e quatro, José incluído, foram para Cuba. Uma versão distinta aponta que todos os “oito” teriam se mudado para o Caribe. De qualquer forma, depois de embarcar no vapor alemão Chemnitz, chegou à ilha poucos dias antes de completar quatorze anos de idade. Viveu com um tio e com a irmã Inocencia (que chegara lá três anos antes) durante algum tempo, para depois largar a tutela familiar e procurar seguir seu caminho por conta própria. Trabalhou numa loja de flores, numa livraria, num escritório de advocacia, em cassinos, restaurantes e vários hotéis, como o Inglaterra, o Telegrafo, o Sevilla, o Manhattan, o Royal Palm, o Salon A e o Saratoga. Ao mesmo tempo, estudava inglês e refinava seus modos no trato com os clientes. Parte do dinheiro que ganhava, enviava aos seus pais, que continuavam cuidando do pequeno vinhedo que possuíam no Velho Continente.

Até 1920, tudo parecia ir bem para aquele que mais tarde seria conhecido como “El Caballero de París”. Era apenas mais um jovem imigrante e trabalhador esforçado, tentando, como podia, ganhar a vida honestamente. Até ser preso no Castillo del Príncipe e tudo mudar.

Ainda hoje há controvérsias sobre os motivos para sua prisão. Alguns dizem que foi por causa da venda de bilhetes de loteria falsos; outros, que foi acusado injustamente por um assassinato que não cometeu. Não se sabe, inclusive, por quanto tempo ficou atrás das grades. Certos pesquisadores afirmam que seria em torno de dois ou três anos. Há quem insista, entretanto, que sua sentença original teria sido de dez anos, mas que ele teria cumprido apenas seis e depois, libertado. O fato é que na cadeia começou a perder a noção da realidade. Pronunciava discursos exaltados para os outros detentos, apresentando-se a todos como o Papa, um Rei ou um Cavaleiro. O que se pode afirmar é que o período que permaneceu aprisionado foi o suficiente para acabar com sua sanidade.

Quando foi libertado, magro e andrajoso, começou a caminhar pelas ruas da capital, acreditando piamente em seu novo personagem. Vivia delírios de grandeza: era o comandante de gigantescos exércitos, senhor de castelos medievais, um homem de muito poder.

Nunca mais trabalhou para ninguém. Nem voltou a morar com sua família. Aquele indivíduo de estatura média, nariz aquilino, barba e bigode castanhos e pontiagudos (que ao longo dos anos se tornaram completamente grisalhos), sempre com roupas negras, uma longa capa e camisa branca, os cabelos desgrenhados que chegavam até o cóccix e as unhas compridas, tornou-se um dos personagens mais emblemáticos da paisagem habanera.

Sempre que o saudavam na rua, respeitosamente o chamavam de “caballero”, talvez por causa de seus trajes, quiçá por suas maneiras educadas com os transeuntes ou por sua figura de cavaleiro andante. Muitas são as versões sobre seu apelido. Como o povo local achava que se parecia a um mosqueteiro, e como ninguém mais sabia de onde vinha, começaram a chamá-lo de Caballero de París. Por outro lado, o próprio José gostava de dizer a todos que Havana era muito parisiense. E falava para as pessoas que era um corsário ou um cavaleiro de Lagardiere. Moradores mais antigos da capital, por sua vez, costumavam insistir que ele havia trabalhado no restaurante Paris, e que seus patrões é que teriam lhe dado aquela alcunha. Houve também quem comentasse que ele recebera aquele “título” da revista humorística Zig Zag. Finalmente, sua irmã garantia que José começara a usar o apelido depois que uma suposta namorada francesa, moradora da Cidade Luz, havia perdido a vida num terrível naufrágio. O rapaz teria ficado tão traumatizado com aquilo que, em homenagem à amada, decidira utilizar aquele nome.

O fato é que, a partir principalmente dos anos cinquenta, o burpilheiro galego se tornou uma figura famosa em Cuba. Foi internado brevemente no Hospital Psiquiátrico em Mazorra, em 1941, para ser liberado pouco depois, por ordens presidenciais.

Ainda que tivesse um ar altivo e orgulhoso, José, ao abordar os pedestres, era o mais educado e respeitoso dos cidadãos. Carregava constantemente um portfólio de papéis e uma sacola, de onde tirava postais coloridos por ele mesmo. Nunca pedia dinheiro a ninguém; tampouco usava linguagem vulgar. Cumprimentava o indivíduo, entabulava alguma conversa sobre filosofia, religião ou política, e depois o presenteava com um cartão, com canetas decoradas com plumas de várias cores ou com qualquer outro objeto que tivesse à sua disposição no momento. Se alguém lhe oferecesse dinheiro ou quisesse pagar pelos “presentes”, ele fazia questão de devolver o troco. De vez em quando, donos de bodegas ou de pizzarias lhe davam algo para comer, sem nada cobrar.

Podia ser visto por vários bairros da cidade: andava pelo Paseo del Prado, pela Avenida del Puerto ou próximo da Plaza de Armas; por vezes ia para a Iglesia de Paula e para o Parque Central; também gostava de caminhar pela rua Muralla, perto de Infanta e San Lázaro, pelo bairro do Vedado ou pela Quinta Avenida em Miramar. Nunca viajou para fora da capital. Mesmo com um aspecto exótico e rompegalas, era visto como uma celebridade local.

Depois da revolução liderada por Fidel Castro e Che Guevara, seus irmãos e irmãs saíram de Cuba, mas ele decidiu ficar. Até que em 7 de dezembro de 1977, por motivos humanitários, foi internado no mesmo sanatório onde havia ficado por um breve período, décadas antes. Aí lhe deram banho, novas roupas, lavaram seus cabelos (nos quais fizeram uma longa trança) e lhe forneceram boa alimentação. Todos os exames físicos, laboratoriais e psicológicos foram realizados nele. Ah, o bom e velho “Caballero de París”, esse adorável parafrênico! Apesar de tudo, seus anos restantes foram tranquilos, ainda que, certa vez, quebrasse a bacia, por causa de um escorregão. Enquanto esteve internado, nunca teve alucinações. É mais do que se pode dizer de tanta gente que se conhece por aí. Terminou seus dias em 11 de julho de 1985, aos 86 anos de idade. Foi enterrado no cemitério de Santiago de Las Vegas, mas algum tempo depois, seus restos foram transferidos para o Convento de São Francisco de Assis, no centro de Havana. Em frente ao local, colocaram uma estátua de bronze sua, em tamanho natural, feita pelo escultor José Villa Soberón. Lá está, até hoje, a imagem em metal, bastante fidedigna, daquele homem, caminhando na calçada, no meio da multidão. Aquela não é uma estátua de um rei, de um general ou de um presidente. Não é a estátua de um cidadão repleto de títulos, de dinheiro ou de poder. É a imagem de um homem puro de alma, simples, singelo e sincero. De um louco mais são do que a maioria das pessoas que conhecemos. Só mesmo um grande povo é capaz de admirar seus vagabundos e poetas…

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Já estão à venda em versão eletrônica (ebook) os livros de Luiz Bernardo Pericás publicados pela Boitempo Editorial: o premiado Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica, e o lançamento ficcional Cansaço, a longa estação. Ambos estão disponíveis na Gato Sabido, Livraria Cultura e diversas outras lojas, custando até metade do preço do livro impresso.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010) e do lançamento ficcional Cansaço, a longa estação (2012). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

O sapo Gonzalo em: O campeão

Por Luiz Bernardo Pericás.

Vivemos num mundo estranho…

O sapo Gonzalo estava sentado num banco de praça com as pernas esticadas, vendo os pombos cinzentos ciscando perto de seus pés. Já havia tomado meio litro de café arábico numa padaria das redondezas e agora fumava, tranquilamente, cinco cigarros simultaneamente. Inchava.

Tudo parecia calmo naquela manhã. Algumas crianças brincando, correndo atrás dos ratos de asas; vendedores de pipocas empurrando suas carrocinhas; transeuntes caminhando a passos largos, atrasados para o trabalho. De repente, Gonzalucho, de óculos escuros, notou que um sujeito encardido, com as pupilas dilatadas e forte bafo de álcool, se aproximava. O homem enigmático acomodou-se justo a seu lado: dava para perceber a manga direita de seu paletó quase toda dobrada para cima, presa na linha do ombro por um pequeno alfinete enferrujado. No começo, o maltrapilho não disse nada; depois de alguns minutos, contudo, virou o rosto para o caçote e falou:

“Quero te contar uma história, coleguinha”.

Com a única mão que lhe restava, gesticulava mais do que um cocainômano italiano. Gonzalo certamente achou aquilo inusitado. Não tinha a menor vontade de conversar naquela hora do dia, até porque esperava que os dois sacos de sal de fruta que tomara havia pouco começassem a fazer efeito em seu esôfago, que queimava mais do que a estação antártica da República do Repolho. Mas o indivíduo, ainda assim, insistiu, com um leve tom de amargura e decepção na voz:

“Olhe aqui, preciso desabafar, falar com alguém… Você tem de me escutar”.

O enfastiado cururu alviceleste, com suas olheiras características e a cara de desânimo de sempre, se manteve em silêncio, achando que desta forma o forasteiro perderia o interesse e partiria dali. Que nada! O homem repelente, cheirando a cerveja e suor, apenas continuou, com a voz embargada:

“Veja bem, mesmo não querendo, você vai me ouvir… Vou lhe contar a história de um amigo. Sim, de um amigo íntimo, um grande campeão, um ídolo desta cidade! Depois de escutar, talvez você pense que sou louco, ou, quem sabe, que estou mentindo. Mas é a mais pura verdade. Vou lhe contar tudo… Aí vai…”

Colocou o cotovelo em cima da mesa, esticou o antebraço e apertou a palma da mão do adversário. Aquela seria mais uma vitória fácil.

Ele era a sensação do bar, uma espécie de celebridade local. Todas as noites fazia seu show particular, desafiava fregueses e desconhecidos, exibia seus músculos, competia no braço de ferro. Achava que isso o tornava famoso e, em consequência, atraente para as mulheres.

De fato, sempre que se sentava à mesa para vencer seus oponentes, era cercado por uma pequena multidão de bêbados e senhoritas impressionáveis, que o adulavam e pediam mais entretenimento. Plexo em dia, caixa toráxica invejável, bíceps petrificados! Tudo isso e um pouco mais: a cabeleira escura, lambida pela brilhantina da marca mais cara; a camisa aberta até o umbigo, mostrando o peitoral peludo e grisalho; a calça apertada, socada até o limite; e nos dentes, jaquetas de porcelana que cintilavam quando sorria. A cada semana, trazia uma pequena mudança no visual, para dar ao público cativo algo de novo. Essa, a magia do espetáculo.

É bem verdade que era conhecido apenas naquele boteco e nas imediações; ainda assim, era a sensação do momento, o maior expoente da queda de braço do bairro. As noites eram longas e entediantes, e só alguém como ele poderia trazer um pouco de diversão aos clientes do bar. Não recebia um tostão por suas exibições, apenas uma dose de uísque barato, de vez em quando. Mas continuava a desafiar a todos naquele “nobre” esporte. Por vezes achava que era o próprio John Brzenk, o maior “arm wrestler” de todos os tempos!

Precisava sentir-se admirado. Desprezado na infância, o garoto mirrado que sempre apanhava na escola crescera e se tornara um touro! Era um vencedor! Quando terminava de estraçalhar um oponente em poucos segundos, recebia tapinhas nas costas dos ébrios de plantão e cumprimentos de policiais militares que trabalhavam por lá como seguranças nas horas vagas.

O pequeno séquito de aduladores era fundamental para que ele continuasse com sua performance diária. Muitos no outro dia sequer se recordavam do que havia ocorrido na noite anterior. Com as bebedeiras e as ressacas constantes, pouco ficava na memória daqueles sujeitos que faziam do frege seu escritório. Mas o “campeão”, ainda assim, tinha plena convicção de que era lembrado e idolatrado por todos ali.

Até que, certo dia, ao atravessar uma rua mal iluminada, foi atropelado por um automóvel em alta velocidade, que arrancou seu braço, quase na altura do ombro. Levado às pressas para a setor de emergência de um hospital qualquer, ficou internado por várias semanas, semiconsciente. Apesar de se recuperar fisicamente num tempo relativamente curto, durante meses após receber alta isolou-se, deprimido, melancólico, sentindo a falta do membro, que nunca foi encontrado. Os motivos para tal acontecimento não haviam sido esclarecidos: alguns diziam que haviam visto um cão perto de onde tudo ocorrera, e que o animal provavelmente teria levado o braço para um beco escuro, devorado sua carne e lambido até o osso; outros afirmavam que teria sido roubado por algum estudante de medicina ou um colecionador de objetos exóticos desocupado. O fato é que sem seu poderoso “instrumento de trabalho”, o grande “campeão” anabolizado já não se sentia mais a personalidade esportiva do momento nem tampouco a sensação atlética do apreciado botequim.

Quando voltou a frequentar o local que considerava sua casa, foi desprezado pela maioria dos clientes, “bartenders” e garçons. Canalhas! Tentava puxar conversa com alguns velhos colegas borrachos. Nem estes lhe davam mais atenção: sem seu braço musculoso, não era ninguém.

Antes bebia pouco, apenas para esquentar o corpo e impressionar algumas mulheres. Agora estava próximo de se tornar um verdadeiro alcoólatra…

A tristeza certamente havia afetado seus relacionamentos. Tornara-se mais tímido, introspectivo, isolado. Qualquer pessoa que entrava na taberna podia vê-lo num canto escuro, sozinho, virando copos e mais copos, sem falar com ninguém. Na verdade, nenhum dos fregueses tinha a menor intenção de perder seu tempo com o antigo “campeão”. De vez em quando ele dava voltas dentro da chafrica, tentava entabular conversa, mostrar que ainda era o tal. Até que começava a lembrar dos seus grandes feitos e glórias. Contava detalhes de cada uma de suas vitórias, de como havia sido bom no passado. As pessoas logo se entediavam e saíam de perto rapidamente. Ele então retornava à sua mesa, no canto mais escuro do local. Assim continuou por meses…

As noitadas pareciam-se umas às outras, o tédio imperava e ele já havia se resignado a ir ao bar cotidianamente tomar seus tragos sozinho, sem imaginar que fosse ocorrer algo de novo ou inusitado por ali. Até que, ao entrar na baiuca, em mais uma noite aparentemente como outra qualquer, notou que havia algo de diferente no ambiente, uma estranha agitação, uma nervosa movimentação de clientes e funcionários. Uma pequena multidão se aglomerava para ver a mais uma disputa de braço de ferro. Alguém aparentemente havia ocupado seu lugar como astro local e agora era a nova sensação da clientela, que, enlouquecida, gritava entusiasmada ao presenciar um evento tão espetacular. Não sabia quem estava na disputa, mas mesmo assim sentiu uma ponta de inveja. Haviam roubado seu lugar.

Lentamente, foi se aproximando da aglomeração, um pouco hesitante, preocupado, curioso para saber quem era a nova estrela do bar. Teve dificuldade em se aproximar, já que eram muitas as pessoas que se amassavam em volta dos contendores, querendo ver qual seria o resultado da emocionante disputa. Até que, quando finalmente conseguiu chegar bem perto da mesa, viu, assombrado, no meio de dezenas de espectadores, algo que nunca poderia esperar. Era seu braço, solitário, suado, musculoso, que ganhava mais uma batalha contra um adversário qualquer, enquanto era adulado pelos bêbados e acariciado por belas mulheres de roupas apertadas, que tentavam seduzi-lo como podiam. Seu braço!

O sapo deu um pulo no mesmo lugar, seus olhos mais arregalados do que nunca. Mas manteve a postura. Tinha a sensação que o indigente, na verdade, falava de si mesmo! “Vivemos mesmo num mundo estranho! Não dá para acreditar!”, pensou. “Cada um que me aparece…” Já o manita ressacado apenas terminou de contar sua história, levantou-se e partiu, ainda cambaleante, em completo silêncio, sem dizer mais uma palavra sequer.

E quando passaram na praça, conversando animadamente, o homem de três cabeças, a mulher barbada e o gigante mapuche, Gonzalo nem ligou… É que tudo parecia possível agora…

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Já estão à venda em versão eletrônica (ebook) os livros de Luiz Bernardo Pericás publicados pela Boitempo Editorial: o premiado Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica, e o lançamento ficcional Cansaço, a longa estação. Ambos estão disponíveis na Gato Sabido, Livraria Cultura e diversas outras lojas, custando até metade do preço do livro impresso.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010) e do lançamento ficcional Cansaço, a longa estação (2012). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

As aventuras do sapo Gonzalo e Luiz Bernardo Pericás no Blog da Boitempo

Desde a sua renovação em abril de 2011 o Blog da Boitempo vem contando com a colaboração mensal do historiador Luiz Bernardo Pericás, autor de Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica (que acaba de ganhar Menção Honrosa no Prêmio Casa de las Américas 2012, de Cuba, onde será publicado este ano). Em sua coluna, Pericás apresenta as desventuras do sapo Gonzalo, um mal humorado sapo argentino.

Confira abaixo os links de todas as aventuras do sapo Gonzalo publicadas até agora e não deixe de comparecer ao lançamento do novo livro de Luiz Bernardo Pericás, Cansaço, a longa estação, narrativa ficcional que tem o sertão brasileiro como seu cenário. O lançamento será hoje, às 19h na Livraria da Vila (Unidade Lorena). Mais informações acima!

As aventuras do sapo Gonzalo contra Yoani Sánchez | 08 de abril de 2011

Estava tomando uma cerveja no Bar do Joaquim, uma pocilga no centro da cidade, quando seu Gonzalo entrou no recinto, soltando fumaça pelas ventas, como de costume.  Deixem-me aqui apresentar meu amigo. Seu Gonzalo era um sapo argentino. Grandes olheiras, barba por fazer, cabelos grisalhos, fumava sem parar um cigarro sem filtro.  Parecia sempre contrariado. Militante de esquerda, havia fugido de seu país durante a ditadura militar, saltando através das fronteiras de todas as nações sul-americanas com suas longas e agéis pernas de batráquio acrobata. [leia mais]

O sapo Gonzalo no Sítio da Dona Benta | 13 de maio de 2011

Gonzalo, o indefectível batráquio argentino, entrou em casa, exausto, deixou o casaco em cima do sofá e caminhou lentamente até o quarto. Sempre quisera morar no campo: o ar puro, o leite morno na mesa do café da manhã, os raios de sol entrando pela janela… Mas acabara naquela quitinete infecta, no centro da cidade. Tudo bem… Ainda tinha esperanças de que sua sorte mudaria e que em algum momento sua vida daria uma guinada para melhor. De qualquer forma, aquele era seu “lar”, o único que possuía, e era nele que andava agora, a passos pesados: se arrastava. Cheiro de tabaco na roupa; a barba por fazer, como sempre; e a cabeça… girava e girava, talvez por ter fumado demais durante todo o dia. Quatro pacotes inteiros, da marca mais vagabunda! Isso não é coisa para amadores! Tinha de dar um tempo no seu vício. Tossia. [leia mais]

O sapo Gonzalo vai ao Rio | 17 de junho de 2011

Chutou uma lata jogada na rua e machucou o pé… Acordara tarde e de mau humor naquele dia nublado: a cara amassada era a evidência irrefutável de horas e horas mal dormidas na noite anterior. E da ressaca fenomenal que o atingira como um soco no plexo solar.  A cabeça doía. É verdade que fora à “Cidade Maravilhosa” para descansar, tirar uns dois ou três dias de folga, quem sabe pegar uma praia. Afinal, ninguém é de ferro. Mas a gastrite e a esofagite não davam trégua. Nem o mormaço cinzento e úmido que parecia aplastar os cidadãos que iam e vinham naquela avenida, no centro da antiga capital. [leia mais]

O encontro do sapo Gonzalo com Butch Cassidy | 22 de julho de 2011

Era o quinto copo de Guiness que tomava aquela noite. Não sabia há quanto tempo estava sentado naquele banco de madeira, diante do balcão, noFinnegan’s Pub, nem quanto tempo mais ficaria ali. O que mais o incomodava naquele momento, na verdade, era não poder fumar. Como sempre. Lembrava-se que no começo dos anos noventa, nos Estados Unidos, queriam retirar “digitalmente”, por meio de programas de computador, os cigarros até dos clássicos do cinema. Não haviam chegado a tanto. Mas Gonzalo ficara sabendo que em Nova Iorque, nos dias de hoje, as autoridades locais estavam proibindo que se fumasse também nos parques e praças da cidade. Ao ar livre! Era muito para ele… [leia mais]

O sapo Gonzalo visita a Austrália | 19 de agosto de 2011

Ao passar diante da vitrine de uma agência de viagens, na Avenida São Luiz, viu um pôster da ensolarada Austrália e decidiu que era para lá mesmo que iria. A ópera de Sydney e a Costa Dourada eram motivos suficientes para tirá-lo da letargia dos últimos tempos e estimulá-lo a partir rumo ao outro lado do planeta.  [leia mais]

O sapo Gonzalo e Corto Maltese nos mares do sul | 16 de setembro de 2011

Navegavam pelo Mar de Salomão em velocidade constante de oito nós.  Já haviam passado pelo Arquipélago de Louisiade e agora roçavam a costa da Nova Bretanha.  Corto Maltese conhecia como ninguém cada palmo da distante e isolada região, desde quando aquela ilha vulcânica, terra dos temíveis Duk-Duk, no Arquipélago de Bismarck, ainda se chamava Nova Pomerânia.  Kandrian, Gasmata e Totongpal haviam ficado para trás.  Na mesma linha geográfica de Sampun, se dirigiam agora para a parte sul da Nova Irlanda, e de lá, para o vasto oceano. [leia mais]

O sapo Gonzalo em: Brutti, Sporchi e Cattivi | 07 de outubro de 2011

O sapo Gonzalo já começava a se arrepender de ter ido àquela festa… Eu havia sido convidado pelo desembargador Peixoto para um cocktail em homenagem a uma fuinha conhecida, a professora Lívia Weiss, que acabara de se tornar professora emetretriz da Universidade de São Priápico. Perguntei ao anfitrião se podia levar um amigo, e ele concordou. Agora estávamos naquela mansão no bairro do Surumby (um dos mais chiques da cidade), com a nata da pseudo-intelectualidade local e a crème de la crème do meio político e artístico da República do Repolho. [leia mais]

Gonzalo, Malcolm e Fidel | 11 de novembro de 2011

O Hotel Theresa foi o mais alto, belo e imponente edifício do Harlem durante seis décadas.  Com seu estilo neorrenascentista, onze andares e trezentos quartos, destacava-se das construções à sua volta e chegou a ser comparado até mesmo ao Waldorf Astoria.  Ainda que durante um bom tempo a gerência só aceitasse hóspedes brancos e algumas poucas celebridades negras, a partir dos anos quarenta os novos donos, desta vez afro-americanos, mudaram a cara do lugar.  O fato é que o Harlem entrou num processo de decadência e empobrecimento paulatinos, especialmente nos anos vinte, levando boa parte dos moradores endinheirados a se transferir para bairros distantes dali.  Por outro lado, enquanto ocorria esse processo de pauperização e depreciação imobiliária, a população negra começava a afluir em grande número para os prédios residenciais e negócios locais, e tomou conta da área.  Eram trabalhadores, migrantes, em sua maioria da Virgínia, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Geórgia.  Entre 1920 e 1930, em torno de 118. 792 moradores brancos se mudaram de lá, enquanto, no mesmo período, 87. 417 negros chegaram para viver naquele bairro.  Foi então que o Harlem tornou-se, de fato, a “capital” da Black America.  Entre seus mais emblemáticos landmarks, como o Cotton Club, o Savoy Ballroom e o Apollo Theater, o Theresa certamente também deve ser incluído. [leia mais]

O sapo Gonzalo no zoológico humano | 16 de dezembro de 2011

Todos diziam que aquela era a época mais feliz do ano. Mas ele desconfiava que isso não fosse verdade. Por trás da opulência, havia lama. As ruas iluminadas, lojas enfeitadas com adereços verdes e vermelhos, bolas de porcelana dourada, cintilantes; pinheiros de plástico importados do Paraguai; pessoas indo e vindo, carregando presentes. O ritmo alucinado de dezembro.  No tórrido verão tropical, fingiam estar em algum país escandinavo, as decorações em cada canto da cidade lembrando as terras geladas do norte europeu. O Bom Velhinho, de longas barbas brancas, pesadas botas de couro, luvas de pelica e gorro de lã, parecia que ia derreter. Quase desmaiava de calor. [leia mais]

O sapo Gonzalo em: Touradas, budismo e religião | 20 de janeiro de 2012

A noite havia chegado, e com ela, a calmaria do mar. O dia fora cansativo e o calor, sufocante. Agora, descansavam. Corto apoiava a nuca com as mãos trançadas atrás da cabeça. Deitado, controlava sem dificuldades o leme do barco com os dedos do pé direito. Podia navegar até dormindo! Vez ou outra abria um olho apenas, checava, lá no alto, a posição do Cruzeiro do Sul, e voltava a cochilar. O veleiro estava em boas mãos! Gonzalo, por seu lado, observava as águas escuras à sua volta, com os dois braços levemente encostados no parapeito da popa. Apenas uma lâmpada iluminava a embarcação: um pequeno ponto de luz amarelada no oceano infinito. [leia mais]

O sapo Gonzalo foge do Carnaval | 17 de fevereiro de 2012

Barulho, confusão, multidões, ziriguidum, balacobaco, telecoteco, confete, serpentina, marchinhas, rei momo, escolas de samba, mestre-sala, porta-bandeira, reco-reco, cuíca, charangas e agogôs. Que horror! O sapo Gonzalo sempre detestara o Carnaval, e com o passar dos anos sua rabugice aumentara o suficiente para lhe causar uma úlcera no estômago só de pensar na possibilidade de ter de esbarrar no meio da rua com centenas de bêbados desocupados usando fantasias exóticas e dançando como pavões em frente a loiras siliconadas, tão inteligentes quanto orangotangos. Ao primeiro som dos tamborins, nosso contestador e mal-humorado sapo argentino sempre fugia para algum lugar isolado, para não precisar encontrar uma pessoa sequer durante vários dias. Nunca tivera um celular na vida, muito menos Twitter, Blackberry, iPod, iPad, iPhone ou Facebook. Odiava todas as bugigangas e novidades tecnológicas. Não tinha ideia como funcionavam, nem tinha vontade de aprender. Tudo bem… Se pudesse, seria como um de seus ídolos literários, J. D. Salinger. Ou o escritor Dalton Trevisan. Sumiria de uma vez por todas das vistas do público. Ninguém o encontraria. Sua vontade era passar o dia inteiro deitado numa rede entre dois coqueiros, numa ilha paradisíaca perdida em algum canto mundo. Ou, quem sabe, ficar sentado sobre a areia branca e fina de alguma praia longínqua, sozinho, apenas olhando para o mar.   [leia mais]

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Já está à venda em versão eletrônica (ebook) o livro de Luiz Bernardo Pericás publicado pela Boitempo Editorial, Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica, disponível no Gato Sabido e na Livraria Cultura.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

O sapo Gonzalo foge do Carnaval

Por Luiz Bernardo Pericás.

Barulho, confusão, multidões, ziriguidum, balacobaco, telecoteco, confete, serpentina, marchinhas, rei momo, escolas de samba, mestre-sala, porta-bandeira, reco-reco, cuíca, charangas e agogôs. Que horror! O sapo Gonzalo sempre detestara o Carnaval, e com o passar dos anos sua rabugice aumentara o suficiente para lhe causar uma úlcera no estômago só de pensar na possibilidade de ter de esbarrar no meio da rua com centenas de bêbados desocupados usando fantasias exóticas e dançando como pavões em frente a loiras siliconadas, tão inteligentes quanto orangotangos. Ao primeiro som dos tamborins, nosso contestador e mal-humorado sapo argentino sempre fugia para algum lugar isolado, para não precisar encontrar uma pessoa sequer durante vários dias. Nunca tivera um celular na vida, muito menos Twitter, Blackberry, iPod, iPad, iPhone ou Facebook. Odiava todas as bugigangas e novidades tecnológicas. Não tinha ideia como funcionavam, nem tinha vontade de aprender. Tudo bem… Se pudesse, seria como um de seus ídolos literários, J. D. Salinger. Ou o escritor Dalton Trevisan. Sumiria de uma vez por todas das vistas do público. Ninguém o encontraria. Sua vontade era passar o dia inteiro deitado numa rede entre dois coqueiros, numa ilha paradisíaca perdida em algum canto mundo. Ou, quem sabe, ficar sentado sobre a areia branca e fina de alguma praia longínqua, sozinho, apenas olhando para o mar.   

Gonzalo sabia que, em breve, dezenas de blocos de foliões transpirando estupidez ocupariam as calçadas e avenidas. E repórteres de programas de televisão iriam a bailes de travestis em clubes privados ou a festas em hotéis de luxo, e entrevistariam diversos “atores”, “atrizes”, “modelos” e “manequins”, pseudocelebridades cheias de “glamour” e de projetos “importantíssimos” para o resto do ano, dando declarações “exclusivas” e emanando dos semblantes excessivamente maquiados uma alegria falsa e esfuziante. Não dava!!! A pressão sanguínea do batráquio esverdeado subia só de imaginar isso tudo… Sua cor até mudava nessas horas: já estava ficando vermelho! Como sempre, precisava de várias doses de uísque para se acalmar. 

É verdade que as notícias não eram animadoras: enchentes, calamidades naturais, desabamento de encostas, de barrancos, de barracos e até de prédios inteiros… Tudo podre. Na TV, desocupação agressiva de moradores de favelas, famílias pobres sendo escorraçadas de suas casas, gás lacrimogêneo, cassetetes e tiroteios. Mas a miséria humana não interessava a ninguém. Afinal, nativos e estrangeiros adoravam a República do Repolho, o lugar onde a populaça, a elite e até mesmo os supostos “intelectuais” exaltavam (com rompantes de entusiasmo intoxicante) imbecis como o Chacrinha e toda a “cultura” balangandãnica similar a ele! Pandeiros e batucadas! “Que mierda!”, pensava o sapo. 

Gonzalo não suportava mais aquilo. Por isso, resolveu arrumar correndo as malas e viajar para bem longe. Mas antes me pediu para postar vídeos de algumas músicas para aqueles que, como ele, também não gostam do fuzuê de lança-perfumes, carros-alegóricos e sprays de espuma. O anuro platino, contudo, não selecionou nenhum tango, apesar de adorar as canções dramáticas de seus compatrícios. Achou melhor fazer uma set list recheada especialmente com o bom e velho rock’n’roll. Só para animar o feriado. Eis aqui, portanto, a lista musical de Gonzalo, um presente para os leitores fiéis. 

John Lennon, “Power to the People”. Lennon havia acabado de chegar de viagem à Inglaterra com sua esposa Yoko, vindo do Japão, em 21 de janeiro de 1971, e mesmo bastante cansado e sofrendo com o fuso horário, daria uma longa entrevista em Ascot, Berkshire, poucas horas mais tarde, para os intelectuais de esquerda Tariq Ali e Robin Blackburn. Boa parte da conversa foi sobre política e revolução. Diz a lenda que naquela mesma noite, influenciado pela intensa discussão, iria escrever “Power to the People”. A canção seria gravada em sua mansão de Tittenhurst Park, em fevereiro daquele ano e produzida por Phil Spector. E entraria logo em seguida nas Top 20 dos Estados Unidos. 

 Richie Havens, “High Flying Bird”. Havens ficou mundialmente famoso após tocar na abertura do Festival de Woodstock. “High Flying Bird” é uma de suas músicas mais conhecidas. Composta por Billy Edd Wheeler, está incluída em Mixed Bag, de 1967, considerado por alguns como seu melhor álbum. Neste vídeo de 1969, o cantor se apresenta pela primeira vez num programa de TV britânico. 

Jello Biafra, “Love Me, I’m a Liberal”. Biafra, talvez a figura mais icônica da cena punk californiana dos anos oitenta, canta um clássico de Phil Ochs, um dos maiores compositores norte-americanos da década de sessenta e símbolo da música folk daquela época. Biafra chegaria a se candidatar a prefeito de San Francisco, com uma plataforma política cheia de provocações, sarcasmo e bom humor, e ficaria em quarto lugar! “Love me, I’m a Liberal”, lançada originalmente no álbum Phil Ochs in Concert, de 1966, foi modificada e adaptada por Biafra para fazer a crítica aos “liberais” de alguns anos atrás. E por que não dizer, dos atuais também. 

Johnny Cash, “Heart of Gold”. Johnny Cash é unanimidade. O homem de preto possui uma discografia enorme e dezenas de sucessos inesquecíveis que vão do country e folk ao gospel e rock.  “Heart of Gold”, interpretada por Cash no final da vida, foi escrita pelo lendário roqueiro canadense Neil Young, gravada originalmente por ele no Quadrofonic Studios em Nashville, Tennessee, e lançada pela primeira vez no álbum Harvest, de 1972. É a única canção de Young a alcançar o número um nas paradas musicais dos Estados Unidos.     

Gaslight Anthem, “Bring It On”. O sapo Gonzalo andava desanimado com os grupos de rock há pelo menos vinte anos, até que descobriu, sem querer, o Gaslight Anthem, para ele, a melhor banda da atualidade. “Bring It On” é uma das faixas de American Slang, o excelente álbum desses “filhos favoritos de Nova Jersey”. Gonzalo também recomenda as canções “59 Sound”, “Great Expectations” e “American Slang”, que dá o título do CD mais recente. 

The Pogues, “Streams of Whiskey”. Shane MacGowan, compositor e vocalista dos Pogues, é considerado um dos principais poetas populares contemporâneos da Irlanda.  “Streams of Whiskey” é um clássico absoluto da maior banda de celtic folk punk rock que se tem notícia. Escrita por MacGowan, foi lançada no álbum Red Roses for Me, de 1984. E como diziam os Pogues: “I’m going/I’m going/Any which way the wind may be blowing/I’m going/I’m going/Where streams of whiskey are flowing!” 

Bob Dylan, “Hurricane”. Um dos maiores sucessos de Dylan nos anos setenta, “Hurricane”, composta em parceria com Jacques Levy, foi incluída no álbum Desire (gravado entre julho e outubro de 1975; lançado em janeiro de 1976) e conta a trajetória do pugilista Rubin “Hurricane” Carter, um dos mais famosos pesos-médios de sua época, preso injustamente em Paterson, Nova Jersey, em 1966, acusado de ter participado do assassinato de três pessoas. Na cadeia, Carter escreveu The Sixteenth Round, lançado em 1974 e que se tornou imediatamente um enorme sucesso editorial. Ao ler o livro, durante uma viagem pela França, em 1975, Dylan decidiu visitar o lutador na penitenciária, para conhecer melhor sua história. Impressionado com o drama do atleta, o cantor iria escrever sua conhecida canção e depois liderar uma campanha com o intuito de conseguir um novo (e quem sabe, mais justo) julgamento ao boxeador. Os esforços de Dylan culminaram no concerto beneficente “Night of the Hurricane”, no Madison Square Garden, Nova Iorque, em 8 de dezembro de 1975. Em 1988, após ser novamente julgado e inocentado, Rubin Carter foi finalmente libertado. 

Elvis Presley, “If I Can Dream”. Em 1968 a juventude se levantou nos Estados Unidos para protestar contra a guerra do Vietnã e em favor dos direitos civis. Naquele ano, Martin Luther King e Bobby Hutton, o “ministro da Defesa” dos Panteras Negras, foram assassinados; Eldridge Cleaver, o “ministro da Informação” do BPP, ferido num tiroteio com a polícia; milhares de pessoas participaram de ocupações e protestos em universidades e praças públicas; a população negra se mobilizou em várias cidades; e ainda ocorreram batalhas campais entre multidões de ativistas e a polícia durante a Convenção Nacional do Partido Democrata em Chicago. O ano de 1968 também foi extremamente emblemático no meio musical. Bob Dylan lançaria John Wesley Harding; os Beatles, Magical Mystery Tour; os Rolling Stones, Beggars Banquet; The Who, Magic Bus, The Who on Tour; os Yardbirds, Little Games; Jimi Hendrix, Electric Ladyland; The Doors, Waiting for the Sun; The Animals, três discos, The Twain Shall Meet, Everyone of Us e Love Is; The Byrds, dois álbuns, The Notorious Byrd Brothers e Sweetheart of the Rodeo; e os Beach Boys, Friends; só para citar alguns. Aquele também seria o ano da famosa volta de Elvis Presley aos palcos. O rei certamente não ficaria imune aos acontecimentos de sua época. No final de 1968, ele faria um programa especial para a rede de TV NBC, e terminaria sua apresentação com “If I Can Dream”, canção composta às pressas por Earl Brown a pedido do diretor Steve Binder, que refletia bem o clima geral, os protestos e os eventos dramáticos daquela época.  Gravada em 23 de junho, nos estúdios Western Recorders, em Burbank, Califórnia, seria apresentada no programa em 3 de dezembro daquele ano.  Um grande clássico de Elvis Presley que Gonzalo também recomenda. 

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Já está à venda em versão eletrônica (ebook) o livro de Luiz Bernardo Pericás publicado pela Boitempo Editorial, Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica, disponível no Gato Sabido e na Livraria Cultura.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

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Será lançado, no próximo dia 06 de março de 2012, o novo livro de Luiz Bernardo Pericás, Cansaço, a longa estação. Confira o convite abaixo:

O sapo Gonzalo em: Touradas, budismo e religião

Por Luiz Bernardo Pericás.

A noite havia chegado, e com ela, a calmaria do mar. O dia fora cansativo e o calor, sufocante. Agora, descansavam. Corto apoiava a nuca com as mãos trançadas atrás da cabeça. Deitado, controlava sem dificuldades o leme do barco com os dedos do pé direito. Podia navegar até dormindo! Vez ou outra abria um olho apenas, checava, lá no alto, a posição do Cruzeiro do Sul, e voltava a cochilar. O veleiro estava em boas mãos! Gonzalo, por seu lado, observava as águas escuras à sua volta, com os dois braços levemente encostados no parapeito da popa. Apenas uma lâmpada iluminava a embarcação: um pequeno ponto de luz amarelada no oceano infinito. 

O sapo terminava de fumar mais um cigarro. Gosto amargo na boca. Jogou fora a guimba, que foi rapidamente levada pela correnteza. O pucho se distanciou, boiando junto de algumas garrafas pet e sacos plásticos, que haviam chegado até ali sabe-se lá como. Mas o batráquio continuou sem falar. Afinal de contas, não queria interromper o sono do amigo. 

Foi quando viu, ao lado de Maltese, um livreto bastante amassado, com um pequeno rasgo no canto da capa. Era um panfleto apócrifo, de tiragem limitada, publicado pela Editorial Siqueo, no México, na década de setenta, sobre o único toureiro budista de que se tinha notícia. O sapo argentino sabia que o colega maltês estivera havia muito tempo no porto de Veracruz, e que provavelmente teria sido lá que o marujo conseguira aquele texto raríssimo. Gonzalo achou o tema tão exótico e fascinante, que abriu as páginas do livro na mesma hora. E esta é, portanto, a história que ele leu naquela noite solitária…     

As narrativas que descrevem a relação entre as touradas e a religião são numerosas e podem ser encontradas nos principais tratados de tauromaquia, que relatam especialmente a ligação histórica entre a fiesta brava e o catolicismo ao longo dos tempos. São muitos os exemplos. Quem quisesse ingressar em uma congregação mariana, no século XV, era obrigado a cumprir com seu oitavo estatuto, que proibia receber em suas fileiras qualquer sacerdote que não fosse também um cavaleiro de touradas. Em Tudela, não se podia tourear sem que antes um frade capuchinho fizesse um pedido para que os touros fossem “bons”, ou seja, bravos. Quando as corridas eram celebradas em algum cabido da catedral de León, os padres eram obrigados a benzer os matadores. Era comum presenciar em Granada, no século XIX, a imagem da Virgem das Angústias presidindo as faenas, assim como os toureiros pedindo permissão a ela para lutar com os animais na arena. Naquela época quase nenhum lidiador entrava na arena sem levar em volta do pescoço um escapulário com a imagem da Virgem de Carmem, a padroeira dos vagabundos e pícaros espanhóis. Ao lado das praças de touros, encontrava-se, sempre de portas abertas, uma capela, em geral de são José, a quem os matadores pediam proteção. 

Pode-se ir mais longe. Casamentos reais e populares eram realizados durante as corridas, conhecidos como “touro nupcial”. Este foi o caso do casamento de Felipe II e Ana da Áustria, assim como também das bodas do imperador Alfonso VII em Saldaña, em 1124 ou de sua filha com García Ramírez de Navarra, em León, em 1144. Muitas vezes, quando os estudantes se doutoravam ou quando se ganhava uma guerra, ocorriam faenas. As touradas também se celebravam quando se cortejava alguma mulher, como fazia Henrique IV; em missas; ou durante um ato de canonização ou beatificação. Na santificação de santa Teresa de Ávila, em 1614, por exemplo, foram sacrificados mais de duzentos touros em trintas corridas. Os espetáculos taurinos também ocorreram quando foram canonizados santo Isidro, são Francisco Xavier, são Luiz Gonzaga, santo Inácio de Loyola e são João Sahagún. No século XVII era comum matar centenas de reses enquanto se evocavam mártires da Igreja. A carne dos bovinos era, então, guardada como relíquia e como remédio contra a febre. Nessa mesma época, era costume entre a nobreza também realizar touradas para celebrar nascimentos no seio de famílias influentes. Por isso, em 1658, para comemorar o nascimento de Felipe Próspero, foram sacrificados 24 touros. 

A Igreja católica possivelmente se apropriou das touradas como forma de controlar o paganismo e difundir os ensinamentos bíblicos na península ibérica, da mesma forma que os padres se “apropriaram” de santuários celtas na Galícia ou de mesquitas árabes em Córdoba e erigiram, sobre aquelas construções, seus próprios templos cristãos. A influência muçulmana na região, como se sabe, sempre foi grande. Muitas pinturas com cenas de touros, nas paredes de algumas igrejas de Castela, por exemplo, em realidade se referiam à liberação dos tributos das “cem donzelas”, que devia ser pago pelos árabes da região e que foi suprimido depois que um rebanho de touros botou os cobradores de impostos para correr. Era comum que se celebrassem as faenas nas cerimônias de circuncisão dos príncipes mouros, no século XIV, ou quando as damas locais davam à luz. Por isso, não é de estranhar que a fé cristã tenha utilizado muito da simbologia e das tradições taurinas islâmicas naquela região.   

Na própria praça de são Pedro, em Roma, no dia 4 de fevereiro de 1492, em comemoração pela retomada de Granada dos muçulmanos, se realizaram corridas, promovidas pelo cardeal Rodrigo Borgia, que pouco tempo depois se tornaria o papa Alexandre VI, e que contou com a presença de seu filho César, que chegou a matar dois touros. Nessa ocasião, o dignitário também organizou massacres de idosos, judeus e prostitutas em praça pública. Tudo como parte da festa. A Igreja sempre foi mais propensa a matar índios, negros, “bruxas” e judeus do que touros…   

Mas também havia aqueles que combatiam a fiesta brava. Em 1567, o papa Pio V, na bula De salutis gregis dominici, condenava as touradas, punindo com a excomunhão os “contraventores” da sua lei. Exigiu que o governador de Roma impusesse a pena capital àqueles que participassem dos combates, que haviam se estendido no século XVI à Itália. Apesar disso, nem mesmo um católico fervoroso como Felipe II da Espanha reconheceu a bula, já que havia os interesses da nobreza e a pressão popular envolvidos no assunto. O próprio clero participava sem problemas da festa. Assim, quando o bispo de Salamanca foi nomeado delegado papal para perseguir todos aqueles que não seguiam os ditados do Vaticano, não teve sucesso. O papa Gregório XIII relaxou a imposição a pedido de Felipe II, em sua Exponis Nobis, mas os problemas voltaram com o papa Sixto V, o que obrigou o rei a enviar um recurso através do frei Luis de León, o qual afirmava que a proibição não surtiria efeito, considerando que as touradas faziam parte da vida e das tradições do povo de seu país. Finalmente, em 1596, uma nova bula, desta vez do papa Clemente VIII, acabava com quaisquer excomunhões a quem estivesse envolvido na festa taurina, com exceção dos clérigos. Mesmo assim, os religiosos continuaram desobedecendo as ordens do Sumo Pontífice. Todos os padres que gostavam das touradas, para fugir das punições da Igreja, tiravam seus trajes de religiosos e se disfarçavam para poder lutar contra as feras. Até mesmo o cardeal Barberini, em 1625, se fantasiou e participou de touradas. Um dos mais ferrenhos opositores das faenas foi são Tomás de Villanueva, que considerava as touradas bestiais e diabólicas. Mas no dia de sua canonização, em 1658, paradoxalmente ocorreram várias festas com touros para celebrar o acontecimento. 

O mais interessante é que, mesmo havendo significativos setores da Igreja contra as corridas, muitas ganaderias foram propriedade de religiosos, como as dos cartuxos e dos dominicanos de Jerez de la Frontera. Os padres da região, no final do século XVII, recebiam os bois não castrados como parte do dízimo e gradualmente começaram a escolher os melhores espécimes para a criação de touros de lidia. Mais tarde, os dominicanos de são Domingo de Jerez e são Jacinto de Sevilha, inspirados nos padres da Companhia de Jesus de Sevilha, decidiram promover touradas entre os religiosos. Já no século XVIII, o Convento de santo Agostinho era um dos principais criadores destes animais na Espanha, assim como o sacerdote de Rota, Marcelino Bernardo Quiróz e anos depois o padre Francisco Tejero. No século XIX, os mais importantes criadouros encontravam-se nas mãos do clero, como os de Diego Zapata, Manuel Rodríguez e Trujillo Agustín Solís, que contava com 352 reses bravas. 

Entre as comemorações católicas relacionadas aos touros na Espanha, é possível destacar a Festa de são Marcos. Nessas celebrações, que se iniciaram em Baeza, Andaluzia, os camponeses originalmente pediam ao santo padroeiro que expulsasse os bandidos e os mouros da região. Mais tarde, a população solicitava proteção durante a safra e a colheita de trigo. A maioria das feiras de gado em todo o país ainda ocorre em dias santos, como o da Virgem da Merced, em Barcelona; santa Madalena, em Castellón; são Pedro e são Paulo, em Burgos; são Fermín, em Pamplona; santo Isidro, em Madri; assim como o Corpus Christi em Toledo e Granada. Em Arnedo, a festa de Nossa Senhora de Hontanar, que se celebra no mesmo dia da Festa de são Marcos, começa com um ritual religioso e termina com touradas. O fato é que esta festividade já havia sido descrita pelo frei Francisco de Coria, em sua Descripción general de Extremadura; pelo frei Juan de la Trinidad, na Crónica de la provincia de San Gabriel; e pelo frei Juan de San Antonio, em seu San Marcos, defendido en el milagro que Dios obra todos los años en amansar un toro por sus méritos, publicado no final do século XVII. 

A tradição supostamente começou a partir da lenda que dizia que Jesus, ao descobrir que são Marcos havia traído a própria esposa, decidiu punir o apóstolo, transformando sua mulher em touro, para que o marido pudesse ver sempre seus chifres e se recordar que nunca deveria ter sido infiel. O culto a são Marcos tornou-se ao longo do tempo extremamente popular em toda a Espanha. De acordo com a tradição, na véspera das celebrações, os mayordomos de uma congregação com o nome do santo se dirigem a um campo aberto onde se encontra o gado, escolhem um touro entre vários e o chamam pelo nome do discípulo de Cristo. Aparentemente o animal, naturalmente agressivo, misteriosamente se desgarra dos outros e acompanha os religiosos calmamente até a igreja, onde assiste a missa e a procissão, até que, ao final das festividades, torna-se novamente feroz e sai correndo de volta ao pasto. Enquanto está entre as pessoas, contudo, permite ser tocado e acariciado pelos fiéis. Se por acaso o touro não seguisse o padre que o chamasse pelo nome do apóstolo e ainda continuasse agressivo, isso seria sinal de que o religioso havia pecado…

Muitos milagres também foram atribuídos aos touros. Esse foi o caso quando Ordonho I condenou o bispo Ataulfo, acusado de sodomia, a ser estraçalhado por uma destas feras. No momento em que o sacerdote foi jogado na arena, em trajes de religioso, e foi atacado agressivamente pelo animal, segurou seus chifres e os arrancou de sua cabeça: ficou com os cornos na mão. Algo similar ocorreu com são Pedro Regalado, em Valladolid, e com são Juan de Sahagún, em Salamanca, em ocasiões distintas. Esses homens aparentemente foram salvos enquanto enfrentavam touros bravos e servem como exemplo da relação entre a tauromaquia e a religião naquele país. 

No México não foi diferente. Como se sabe, os touros chegaram ao continente americano no começo do século XVI, trazidos pelos espanhóis. As primeiras corridas informais ocorreram no dia 24 de junho de 1526, no Convento de são Francisco, promovidas pelo próprio Hernán Cortés, que naquela época também começou a criar gado na região. As primeiras festas oficiais com touros foram realizadas a partir do dia 31 de julho de 1528, para homenagear vários santos católicos, como são João, são Tiago e Nossa Senhora de Agosto. Em 1529, foi decidido que todos os anos, no dia de são Hipólito – data em que a principal cidade asteca foi conquistada –, sete touros participariam das corridas, dos quais dois seriam sacrificados e doados, “por amor a Deus”, aos mosteiros e hospitais locais. 

Quando foi confirmado pelo rei Felipe III como vice-rei das Índias Ocidentais, em 31 de março de 1611, o arcebispo Pedro García Guerra decretou que a partir de então, em todas as sextas-feiras daquele ano, deveriam ocorrer corridas na praça de touros que ele mesmo havia mandado construir no Palácio Arcebispal, para recordar sua nomeação ao cargo. Ao se iniciar a primeira tourada, a terra subitamente começou a tremer. Muitos acharam que o terremoto fosse um castigo por se realizarem festas no dia da Paixão de Cristo. Uma semana mais tarde, tentaram novamente dar continuidade às celebrações e mais uma vez um forte sismo abalou a cidade. Depois disso, o governante decidiu interromper as festividades. 

Como na Espanha, os touros corriam em datas religiosas. No dia 12 de maio de 1680, na consagração da igreja de Guadalupe, em Querétaro, vários destes animais foram sacrificados, enquanto em junho de 1734, outros foram enfrentados em público na recepção do arcebispo e vice-rei Juan Antonio de Vizarrón y Eguiarreta. 

No século XIX, as touradas se tornam cada vez mais uma expressão da identidade nacional mexicana. Até mesmo os “pais” da independência tinham vínculos com a tauromaquia. O padre Miguel Hidalgo era dono de várias fazendas que criavam gado e touros bravos; já Morelos gostava de laçar reses; e Ignácio Allende, militar e charro, durante festas religiosas também lidiava touros. 

Naquele período as corridas mexicanas já possuíam características próprias, muitas das quais adaptações de modalidades espanholas. As festas incluíam os “loucos”, personagens caricaturais que provocavam os touros; cegos, que tinham de laçar porcos soltos no picadeiro; cachorros perseguindo coelhos jogados na arena ou caçando veados; balões aerostáticos; fogos de artifício; e até mesmo pau de sebo, para o entusiasmo do público que frequentava o espetáculo. Com o tempo, se desenvolveram outras atrações exóticas, como saltar com uma vara comprida sobre um touro; colocar bandarilhas no animal, equilibrando-se sobre um barril; e fincar flores de papel no dorso do bicho com as mãos, para depois retirá-las, quase como um contorcionista, apenas com os pés. 

Como na Espanha, sempre havia quem não gostasse da fiesta brava. Em 28 de novembro de 1867, as touradas foram banidas por vinte anos na capital e somente ocorreram no interior do país. Depois da liberação, contudo, as festas não duraram muito, já que em 1890 uma nova proibição na Cidade do México impediu que a população local pudesse apreciar a arte por quase um lustro. Quando as corridas voltaram a ser celebradas em 1895 já haviam perdido popularidade. Ou seja, no final do século XIX poucos se interessavam pela tauromaquia. 

Somente no começo do século XX é que as touradas trariam um enorme público para as praças novamente. Em grande parte, os responsáveis por isso foram três grandes toureiros, Arcadio Ramírez, Juan Silveti e Rodolfo Gaona, que com seu estilo e coragem levaram as faenas a ter, ao longo dos anos, o prestígio e respeito de toureiros de nível internacional. É importante recordar especialmente a Rodolfo Gaona, “o índio grande”, considerado possivelmente como o maior espada de sua época. Mas estes não foram os únicos toureiros de importância que lidiaram naquele país. Entre os mais interessantes estão o espanhol Luis Mazzantini y Eguía, “o rei do volapié”, que foi também ator, cantor de ópera e político; o sevilhano Antonio Montes, surdo desde a infância, coroinha e carpinteiro, que depois se tornou um grande matador; e Vicente Segura, o “toureiro milionário”, filho de uma família rica, que estudou nas melhores escolas e universidades do México, Bélgica e Nova Jersey (Estados Unidos) e que mais tarde abandonou o Colégio Militar para atuar nas arenas. Durante a revolução mexicana, deixou a fiesta brava e tornou-se comandante da “Brigada Hidalgo”, lutando ao lado do general Lucio Blanco. Chegou a coronel. 

E há outros exemplos. Luis Freg, “Don Valor”, indivíduo de coragem impressionante, que mesmo tendo recebido ao longo dos anos em torno de oitenta cornadas, foi perder a vida afogado, quando o navio em que se encontrava afundou; ou Pepe Ortiz, “El Orfebre Tapatío”, ator de cinema, cantor e roteirista, que atuou em longas como El tigre de Yautepec (1933), Seda, sangre y sol (1941) e Maravillas del toreo (1942), considerado um artista das arenas; e Alfonso Ramírez, “El Calesero”, um poeta do redondel, que se destacou ao longo de quarenta anos de vida profissional. 

Como todos estes, Pablo Almeyra foi também um dos grandes toureiros que se apresentaram no México na primeira metade do século XX, mesmo que não seja conhecido pelo grande público da atualidade. Este interessante matador, que combateu nas tropas de Pancho Villa por dois anos na revolução mexicana, foi talvez aquele que combinou de maneira mais exótica a tauromaquia com a religião. Mesmo assim, os aficionados da nova geração ainda não estão cientes de sua trajetória nas arenas do país. Os poucos registros sobre Almeyra podem ser encontrados em algumas edições do El Universal Taurino, dos anos vinte, época de seu auge como matador, e também o período em que abandonou a fiesta brava por completo. Como se sabe, alguns consideram as touradas um esporte; outros, uma arte; e há ainda aqueles que a descrevem principalmente como uma experiência religiosa. Era assim que Pablo Almeyra interpretava as faenas. Mas este excelente diestro não ficou conhecido necessariamente por inovar na técnica de lidiar  touros, mas por ser talvez o primeiro e único toureiro budista que se tem notícia. 

Nascido no final do século XIX, Almeyra passou a infância na pobreza. Não chegou a frequentar a escola, mas aprendeu a ler, ensinado por um vizinho da família, um velho professor aposentado que tomara afeição pelo menino. 

Sua inteligência pôde ser percebida desde cedo, assim como sua aguda percepção de tudo a sua volta. Aprendia rapidamente qualquer ofício após observar atentamente do que se tratava. Quando ainda era pequeno, podia ser visto entregando jornais pelas ruas da capital. Foi olhando como os outros agiam que começou a trabalhar, na adolescência, como padeiro. De ajudante, em poucos meses tornou-se o chefe da cozinha de um restaurante de Coyoacán, o que significou um salário maior do que havia recebido até aquele momento. 

Durante a revolução, entusiasmado com os combates no campo militar e ansioso por participar, largou tudo e se uniu às tropas de Pancho Villa. A maior parte do tempo ficou na retaguarda, preparando refeições para os soldados. Teria participado de alguns combates com a Divisão do Norte. Não há, contudo, nenhum documento ou evidência que possa garantir que isso tenha ocorrido, com exceção de relatos duvidosos do próprio Almeyra, em entrevista para a imprensa mexicana, anos mais tarde, quando já era um toureiro relativamente conhecido. De qualquer forma, ao terminar os anos mais sangrentos da revolução, retornou à capital, onde reencontrou a família e voltou a trabalhar. Mas foi nesse momento que sua vida iria mudar. Nesta época começaria a lidiar touros e em seguida se converteria ao budismo. 

Quando criança, nunca demonstrara interesse especial pelas corridas. Com a proibição das touradas entre 1916 e 1920, não chegou a ter acesso ao espetáculo taurino. Preocupado por um lado com os problemas resultantes da guerra que terminara recentemente, e por outro, com a difícil situação econômica de sua família, não tinha tempo para diversão nem para conhecer a tauromaquia. Mas ao assistir uma lidia de touros, no final de 1922, se impressionou tanto com o espetáculo que se tornou um assíduo espectador. Podia ser visto todas as semanas da temporada assistindo seus novos ídolos enfrentando as feras. Mesmo sendo adulto e nunca tendo toureado anteriormente, decidiu começar a treinar para se tornar um matador. Seu pai, já idoso, achou a ideia um absurdo e tentou dissuadi-lo. Alguns amigos também fizeram o possível para que desistisse. Mas ele estava determinado. Queria ser um diestro!   

Sua capacidade de observação continuava tão aguda quanto antes e em poucos meses, podia ser considerado um dos mais destacados “novilheiros” do país. Ao se doutorar, na Cidade do México, foi aclamado pelo público e exaltado pela imprensa especializada. Os anos como padeiro, cozinheiro e soldado haviam passado. Almeyra agora só se preocupava com as corridas. Em breve, contudo, ele teria outra grande mudança em sua vida. 

A conversão ao budismo ocorreu naquela mesma época. Em meados de 1925, conheceu Toshiro Okinawa, um velho japonês, dono de uma loja de tecidos. Foi Okinawa que pela primeira vez apresentou o budismo ao toureiro mexicano. 

A história deste vendedor nipônico ainda é pouco conhecida e repleta de controvérsias. Não há registros de sua chegada ao México nem dos motivos que o teriam levado ao continente americano. Novamente é necessário aqui recorrer ao testemunho de Almeyra, em uma de suas poucas entrevistas para El Universal Taurino. Aparentemente Okinawa chegara ao México antes da revolução e começara desde então o negócio de tecidos. Deixara a família no Japão e por isso, vivia completamente só em seu novo país. Como não tinha interesse por política, não teve qualquer participação nos eventos revolucionários. Sua loja permaneceu intacta e ele pôde continuar seu trabalho sem interrupções, apesar de sua clientela diminuir consideravelmente durante alguns anos. Dizem que chegou a fornecer tecidos para membros do governo e até mesmo para alguns líderes militares de diferentes facções da guerra. 

Depois da revolução, a quantidade de clientes aumentou, mas não o suficiente para garantir grandes lucros. Após anos no México, continuava basicamente na mesma situação de antes.   

Certo dia, Pablo Almeyra entrou na loja de Okinawa para consultar o velho sobre o melhor tecido para um paletó que estava querendo encomendar a um amigo alfaiate. Percebeu, no mesmo momento, uma enorme imagem dourada de Buda no fundo do local e perguntou do que se tratava. Okinawa explicou rapidamente alguns detalhes da vida de Siddharta e depois foi buscar o tecido pedido por Almeyra. Mas a imagem plácida e tranquila daquele homem gordo e sorridente, de pernas cruzadas e braços encostados nos joelhos, a própria versão japonesa do iluminado príncipe indiano, continuou a intrigar o matador, que depois de acariciar o pano indagou novamente sobre a estátua e a religião do velho a sua frente. 

Esta havia sido a primeira vez que um mexicano demonstrara tanto interesse em suas crenças. É bem verdade que outros clientes já haviam percebido a estátua no fundo da loja e perguntado do que se tratava. Muitas pessoas pensavam que aquilo era apenas um enfeite qualquer. Outras, que era um objeto pagão: eram devotos da Virgem de Guadalupe, tinham fé em Jesus Cristo e rezavam para os santos católicos. Aquela imagem oriental, na opinião de muita gente, não estava de acordo com os preceitos cristãos. Mas Pablo Almeyra tinha uma ideia distinta. Aquele Buda, de alguma forma, parecia simbolizar paz interior e espiritualidade. Ficou admirando o objeto por vários minutos, fascinado com a beleza do trabalho do escultor e com o seu misterioso significado. 

O velho japonês percebeu o interesse do diestro, que já conhecia de nome e fama, e o convidou a ir no próximo dia à sua loja para prosear com mais calma sobre o budismo. Almeyra aceitou. 

A conversa foi longa e aparentemente mudou a vida daquele toureiro. Okinawa chamou Almeyra para tomar um chá em sua casa, após fechar a loja, e permaneceu horas com o matador. Falou calmamente sobre a trajetória de Gautama, da infância até a velhice, explicou sua filosofia de vida e suas ideias. E Almeyra ouviu tudo, impressionado. Nunca tivera interesse em nenhuma religião. Quando criança, ia à missa com os pais, devotos de São Francisco, mas nunca se envolvera com a fé cristã como o resto de sua família. Sempre tivera um distanciamento com a Igreja, assim como não lhe agradavam os padres e sacerdotes em geral. Como muitos mexicanos, sentia certo anticlericalismo e desprezo pela hierarquia católica, apesar de demonstrar em diversas ocasiões respeito pelos santos. Algumas vezes fazia o sinal da cruz ao entrar na arena, talvez por temor ao touro, talvez por costume de família. Mas aquilo era algo quase mecânico. Poucas vezes realmente pedira proteção divina antes de entrar numa praça para lidiar um touro. Tinha excessiva confiança em si mesmo e não acreditava que pudesse ser ajudado por nenhum santo. Havia lutado com Villa e visto balas voando sobre sua cabeça durante a revolução: se podia enfrentar homens armados, podia também lidar touros. E tinha a convicção que mataria as feras. Mas agora, parecia que algo estava mudando sua maneira de ver o mundo. Okinawa começou a lhe emprestar vários livros, que Almeyra lia vorazmente e poucos dias depois devolvia, para então pedir mais material sobre o assunto. 

Quase todos os dias visitava Okinawa, com quem ficava horas conversando e ouvindo conselhos, depois que este fechava as portas da loja. Já o considerava seu novo mestre. 

Em poucos meses Almeyra raspou a cabeça e se acostumou a tomar chá todos os dias, um hábito de Okinawa que começava a copiar. Os amigos acharam estranho, especialmente porque o toureiro sempre fora adepto ao café forte de Oaxaca, que antes tomava cotidianamente. O espada mexicano certamente parecia outra pessoa. E todos percebiam a transformação. 

A temporada ainda não havia iniciado e Almeyra dava a impressão de estar mais interessado em suas meditações do que nas corridas. Alguns parentes mostravam-se claramente preocupados com suas estranhas atitudes, que destoavam do resto da população. Foi nessa época que o lidador começou a ter dúvidas de seu ofício de matador. Mas o amor às touradas ainda era forte. Queria conciliar as fainas com sua nova espiritualidade, procurando justificativas que permitissem ao mesmo tempo acabar com a vida de um animal na arena sem contradizer sua “religião”. Ele sabia da importância das cinco regras proferidas por Gautama, inclusive a de ser compassivo e respeitar todo o tipo de vida no planeta. Por isso, perguntava por noites inteiras a Okinawa o que devia fazer: o velho japonês apenas retrucava que esta resposta ele teria de encontrar por si só. Seria apenas questão de tempo. 

Almeyra, considerado pela crítica especializada como uma das maiores promessas do mundo taurino, um dos lidadores mais ágeis e habilidosos do país, comparado aos melhores matadores espanhóis, agora era alvo de piadas da população. Ninguém acreditava que ele poderia triunfar nas arenas mexicanas na temporada que se aproximava. Mas todos queriam assistir a sua estreia. Seu desempenho seria analisado por aficionados, leigos e jornalistas da mesma maneira. Alguns chegavam a dizer que tudo não passava de uma estratégia de marketing, uma forma de se autopromover, de ganhar adeptos e garantir novos contratos. Mesmo assim, poucos levavam a sério sua conversão ao budismo. Era comum ouvir comentários sobre seus hábitos pessoais e sua rotina diária. Apesar de cada vez mais se tornar um recluso e manter sua vida privada longe dos olhos do público, crescia a lenda sobre as excentricidades de Almeyra e sua relação com o velho japonês. Mas não era a grande massa que Almeyra queria iluminar. Como o Arahat, não se iludia com a ideia de que o populacho fosse compreender sua escolha. Seguindo os ensinamentos milenares do Tathagata, do Saccanama, sabia que seu caminho era solitário e a descoberta do conhecimento verdadeiro deveria ser feita buscando a verdade numa viagem interior. A conquista da salvação ocorreria sem a intervenção de uma divindade. Mas também, como o Baghavat, tinha ciência de que, mesmo vivendo em condição de pobreza e longe das multidões por algum tempo, era também importante estar perto das pessoas, inclusive dos ricos, que poderiam se interessar em financiar um mosteiro que planejava construir no futuro. E, como se sabe, a fiesta brava no México é um evento extremamente apreciado principalmente pelas classes mais abastadas do país. 

Certamente, a maior parte dos boatos era mentira. Os cronistas taurinos tinham o prazer em criar e destruir mitos das arenas, e muito do que foi dito sobre o toureiro budista foi difundido com o objetivo explícito de acabar com sua imagem. De qualquer forma, Almeyra aparentemente não se importava com isso. Cada vez mais centrado em si mesmo, passava várias horas por dia meditando em sua casa ou em companhia de seu mestre Okinawa. Aquele que antes supostamente havia sido um feroz combatente na revolução agora parecia calmo, relaxado e extremamente concentrado. Sabia que a nova temporada taurina estava próxima, mas preferia ficar em seu costumeiro estado de meditação, de pernas cruzadas no chão, com os olhos fechados e com os indicadores e os polegares se tocando levemente, enquanto emitia um som gutural que saía da garganta sem que precisasse abrir a boca. Não parecia nem de longe com o treinamento normal de um toureiro. Mas achava que era como deveria se preparar. 

Foi nessa época que começou a desenvolver sua própria interpretação das touradas. Almeyra, em realidade, sentia a necessidade de explicar os motivos pelos quais participava das corridas, assim como queria expor sua forma de se relacionar com sua religiosidade. Sua teoria foi divulgada em uma de suas raras entrevistas, antes de sua estreia na nova temporada.   

De acordo com ele, seria importante um enfoque direto entre a experiência vivida e a realidade objetiva, sem qualquer mediação, fosse de palavras ou ideias. Para se atingir um estado transcendental, uma consciência limpa, que permitisse ao indivíduo perceber os mistérios e as belezas de cada momento preciso, seria fundamental que a mente estivesse completamente aberta, sem reflexões de qualquer tipo. Só assim a pessoa poderia vivenciar e compreender simultaneamente a relação entre o mundo real e espiritual. Seria nesse estado de ânimo que o espada deveria lidar. Por isso, Almeyra afirmou que conhecia os dhyana budistas (os oito graus de meditação), o exercício dos “Quatro Ilimitados” da seita Mahayana e até mesmo alguns poderes ocultos, tomados emprestados do lamaísmo. Todas essas técnicas permitiriam transcender as impressões sensoriais; superar o mundo concreto, expandindo os limites da consciência, pela amizade, compaixão e sentimento de igualdade em relação aos outros; e desenvolver todas suas capacidades psíquicas. 

A técnica do Mahamuda também não lhe passou despercebida. Almeyra incorporou o budismo tântrico ao seu processo de meditação, se esforçando, como os iogues, em manter as pernas flexivelmente cruzadas, jogando em seguida uma corda por trás das costas para depois suspender seus joelhos, com o intuito de impedir que seu torso se envergasse; e então, a língua curvada para trás, tocando o palato e os olhos mirando fixamente a ponta do próprio nariz. Almejava, em algum momento no futuro, conseguir a independência dos dois pulmões, assim como poder controlar as “679 fibras lisas” de seus músculos. 

O processo para alcançar os mundos do karma (desejos), do Rupa (formas) e Arupa (imaterial), se daria pela concentração de um ponto físico qualquer, para, a partir daí, ser abandonado ao movimento e seguir por conta própria, usando a imaginação para desvencilhar o espírito de seu conteúdo. Seria aí, então, que a verdade surgiria. E se poderia sentir o universo. O matador, portanto, teria de estar em estado de transe completo, sem nenhuma outra preocupação que não fosse o momento da tourada. Nessa meditação, ele se moveria leve e instintivamente e investiria em seguida no animal, deixando de lado o público, o barulho, o dinheiro e a glória. O sangue correria em suas veias, a adrenalina cada vez em níveis mais altos, cada poro respirando, cada músculo sendo sentido, cada movimento realizado por instinto. Então haveria a conexão necessária entre o matador e o touro a sua frente. Os dois seriam parte de um mesmo processo, de uma mesma aventura no planeta. Isso estaria de acordo com a doutrina difundida pelo Anoma, ou seja, “considerar a igualdade de toda a criação”. O homem e o touro, durante a fiesta brava, seriam um só. 

O “conhecimento” estaria ligado a uma prática mística, e a arena seria o lugar ideal para que, num estado quase hipnótico, se pudesse, subitamente, descobrir a estrutura dos mundos invisíveis, e consequentemente, dominar a natureza. Isso seria equivalente a uma libertação e ao mesmo tempo a capacidade de exercer a magia sobre os outros, neste caso, o público. 

Esses preceitos de certa forma aliviavam Almeyra moralmente, já que ele sabia que um dos maiores “pecados” no budismo era incontestavelmente o sacrifício de animais. O toureiro mexicano estava ciente das dificuldades em se interpretar livremente a doutrina de Buda, e tentava se adaptar da melhor maneira possível às suas regras práticas. 

Somente seguindo essas normas da vida o indivíduo conseguiria aliviar seu karma. Ou seja, o toureiro que abraçasse o budismo poderia estender seus princípios para o meio social. Se a moral budista é estritamente pessoal e justa, decorrente do nível espiritual de cada um, ela também, ao mesmo tempo, influenciaria o karma coletivo. Almeyra parecia estar imbuído da percepção do sacríficio bramânico, já que de alguma forma acreditava que o próprio sacrificador iria ao Paraíso, retornando às origens e tornando-se parte do divino. Isso se estenderia ao público na praça de touros, fazendo com que o espetáculo fosse uma impressionante experiência mística coletiva. Só com sacrifícios deste tipo é que os espadas e o público poderiam lapidar a alma e desfrutar o oceano perene de felicidade. Para tentar ganhar adeptos católicos no México para o budismo, Almeyra gostava de recordar que a Igreja chegou a canonizar Siddharta Gautama com o nome de são Josafá, mostrando como até os mais altos dignitários de Roma o respeitavam. 

A iluminação só poderia ser alcançada se o espada estivesse num estado profundo de consciência, um transe ativo que lhe permitisse praticar todas as suas intuições. Só assim pode-se explicar que alguns toureiros idosos continuaram a lidiar como na juventude. Mesmo com o corpo envelhecido, conseguiam se superar porque tinham uma espiritualidade e capacidade de concentração especiais. Isso tudo ocorreria dentro do redondel, na praça de touros, que representaria a própria Dharmaçakra, a Roda da Vida.   

Cada lidador que seguiu os ensinamentos de Almeyra aprendia, portanto, como controlar sua respiração, dominar o medo e meditar profundamente enquanto toureavam. Muitas vezes o público não percebia isso, já que o toureiro lutava de olhos abertos, gritando e matando o touro aparentemente sem piedade. Em realidade, estes homens entravam no picadeiro em estado de transe profundo e se exibiam sem perceber ninguém por perto. Apenas sentiam o que estava ocorrendo e reagiam por instinto. Quando a faina terminava, acordavam do torpor e sentiam-se aliviados. Era uma verdadeira experiência religiosa!

Para o zen-budismo é necessário liberar energia acumulada. O centro desta energia estaria supostamente localizado no ventre, perto do umbigo, num ponto conhecido como hara. Seria nesse ponto que se concentrariam todas as forças do homem, assim como nas costas, especificamente entre a terceira e quarta vértebras, região onde o corpo e a mente se fundiriam e se conectariam com a terra. Em teoria, com uma técnica correta de respiração, qualquer ação humana ganharia muito mais força e precisão. O abdômen, assim, seria tão importante quanto a cabeça ou o coração. As posturas do corpo, portanto, refletiriam o estado de consciência no zen. 

De acordo com Almeyra, como para muitos diestros, ao se tourear, seria fundamental colocar a barriga adiante, com o intuito de provocar o touro. Ao mostrar seu hara para o oponente, o matador estaria ao mesmo tempo expondo sua essência humana e ganhando certa invulnerabilidade, pois concentraria toda sua força vital naquele ponto diante de um perigo iminente. Todos os sentimentos convergiriam para o abdômen naquela hora. 

Quando o espada começasse a caminhar lentamente em direção ao animal, apoiado apenas na ponta dos dedões, na prática estaria realizando o kin-hin, ou meditação a pé. Desta forma conseguiria manter o queixo e a nuca eretos, permitindo o correto posicionamento da coluna vertebral, postura fundamental para estar num estado completamente alerta para a luta. 

O grito do espada e o mugido dos touros também fariam parte da meditação, pois não apenas remeteriam aos velhos templos budistas japoneses, como ajudariam a aguçar o estado de alerta do matador. Em seguida, haveria um grande silêncio, quando o diestro e o animal olhariam um ao outro, como se pudessem se comunicar. Esse seria o momento do sacrifício, quando os dois pareceriam compreender o que estaria para ocorrer. O respeito seria mútuo. Cada qual saberia o seu papel. O toureiro então enfiaria a espada, como extensão de seu braço, no dorso do bovino. E, como já foi dito anteriormente, seria como se ele e o touro então se tornassem um só. Neste momento, supostamente, ambos transcenderiam aquele evento trágico. Aí não haveria lugar para personalismos nem egoísmo. Apenas um ato de desapego pessoal, uma forma de se desinvestir de sua própria identidade no tempo e metamorfosear-se em uma entidade única dentro da natureza. 

É claro que Almeyra sabia que a doutrina não era um dogma, mas um caminho que o levaria para o conhecimento. Era uma atitude pessoal que exigiria uma estrita disciplina para chegar à salvação. Mas não seria preciso conhecer a fundo nenhuma grande obra filosófica para se atingir a iluminação, mesmo sabendo que o espada budista tenha lido diversas obras emprestadas de seu mestre, inclusive os sete volumes do Abhi dharma, entre outras. Em realidade, o mais importante seria meditar, se concentrar e se envolver inteiramente na prática de tourear. Os homens não poderiam estar condicionados pelo passado, mas sim, pela percepção atual. E deveriam sempre se recordar que a sabedoria consistiria em renunciar às falsas dependências do mundo exterior. Ou seja, um desapego da matéria, sensação e sentimento. 

Durante vários meses, Almeyra se preparou para a nova temporada apenas com técnicas de meditação. Alguns boatos diziam que ele inclusive havia sido visto mendigando pelas ruas da capital, com uma tigela para esmolas na mão. Seu empresário, José Mallorquín, entretanto, aproveitou o interesse do público pela estranha conversão do toureiro e divulgou como pôde sua futura apresentação. Acreditava que os cartazes colados nas ruas da cidade e a intensa propaganda que fazia na imprensa especializada criariam um enorme entusiasmo entre a população, ávida por ver um grande espetáculo taurino. Até que chegou o momento. 

Entrou na arena junto com dois outros matadores, assim como vários assistentes, picadores e bandarilheiros, enquanto escutava o som da banda que anunciava o início das festividades. Sua aparência certamente impressionou o público que lotava aquela arena. Completamente calvo, alguns quilos mais magro, trazia a imagem cintilante do Buda bordada nas costas. Os diestros saudaram os aficionados, o presidente e as autoridades presentes e se retiraram. Mais uma vez se escutou o som dos clarins. A festa estava para começar. E Almeyra seria o primeiro toureiro a se apresentar. 

A porta do touril se abriu, e uma fera de 604 quilos saiu a toda velocidade, investindo brutalmente sobre a amurada e os quatro subalternos inexperientes que tentavam distrair o animal com o capote. Os picadores foram mais duros e afundaram as lanças no dorso do animal, que sangrava em profusão. Mas este não parava de atacar. Quase derrubou um cavalo e seu obeso cavaleiro em uma de suas mais violentas investidas. No momento em que os bandarilheiros chegaram, a fera parecia tão desesperada como no início. Aqueles homens, em geral tão corajosos, tremiam diante do enorme touro. 

As bandarilhas penetravam com dificuldade na pele profunda e calejada do bicho, que, com a língua para fora, bufava e atacava de baixo para cima, tentando perfurar o inimigo. Um dos bandarilheiros saiu com ferimentos leves, enquanto outro evitou o confronto. Sentiam como se realmente houvesse algo de demoníaco naquele pesado animal. Nunca haviam visto um touro tão furioso como aquele. 

O som metálico dos clarins foi ouvido mais uma vez e Almeyra entrou no picadeiro. Estava tão tranquilo como no momento de sua apresentação, alguns minutos antes. O touro, até então extremamente agitado, subitamente parou e olhou para ele. Os dois pareciam se transfigurar, mudando a postura dos corpos e as expressões faciais. Daí em diante o público presenciou o que foi considerada a maior lide de touros de 1926 em todo o México. Os cronistas da época foram unânimes em apontar aquela apresentação de Almeyra como a mais formidável que haviam visto em muito tempo. Certamente foi uma luta impressionante. E também, a última participação de Almeyra na fiesta brava. 

Todos os meses de meditação proporcionaram ao espada mexicano um maior conhecimento e controle de seu corpo e mente. Agora se sentia flutuando na arena. O animal já não era seu rival. Fazia parte de seu destino, havia sido escolhido entre outros touros para viver com intensidade aqueles momentos trágicos de luta, na qual o sangue e o suor dos dois iriam se mesclar, no qual seriam parte do mesmo drama pela sobrevivência e no qual compartilhariam todos os seus sofrimentos. 

Almeyra subitamente se tornou extremamente agressivo e correu em direção ao touro, como se estivesse em transe. Os olhos abertos pareciam indicar ódio, mas em realidade apenas refletiam o estado alterado de sua mente. Com a muleta, provocou o monstro, que tentava estraçalhá-lo com seus chifres. Almeyra, contudo, desviava-se com leveza de cada ataque. Ainda chegava a brincar com bicho, dando tapas em sua cabeça. Destronques contínuos. A cada provocação, o lidiador gritava e então voltava a atiçar a fera. Mesmo começando a apresentar sinais de fadiga e muito sangramento, o touro ainda assim mantinha o mesmo ritmo de investidas. 

A multidão, extasiada, parecia não acreditar no que presenciava. A energia e vigor dos dois protagonistas eram evidentes. Havia algo que parecia transcender o mundo físico ali, e alguns podiam sentir a energia emanada dos contendores. Em algumas ocasiões, todos ali presentes ficavam calados, silenciosos, os músculos em estado de tensão pela ferocidade da batalha. Alguns segundos depois, contudo, a multidão repentinamente, em êxtase, irrompia em gritos de júbilo. Tudo era eletrizante. Até os vendedores e guardas pararam de trabalhar para ver o que acontecia no picadeiro. Muitas vezes os chifres do animal pareciam raspar no traje de luzes de Almeyra, que aparentemente não percebia. A destreza e agilidade do matador eram impressionantes: conseguia se desviar de cada feroz investida. Tinha tanta confiança em si que não sentia nenhum temor diante daquele adversário. 

Até que chegou o momento do sacrifício. O touro dava a impressão de saber que aquele seria o final de seus dias. Diante do diestro, abaixou a cabeça, como se aceitasse seu destino. Almeyra empunhou com firmeza a espada e apontou delicadamente em direção à corcova da fera. Penetrou a lâmina inteira, de forma rápida e certeira, uma única vez, dentro do corpo do oponente. Quando os ajudantes se aproximaram para distrair o bicho, Almeyra pediu para que se afastassem. Queria ficar a sós com seu amigo e contendor. Colocou sua mão aberta em cima da cabeça do adversário, enquanto este tentava a todo custo permanecer de pé. Até que o touro tombou sobre suas quatro patas e colocou a língua para fora da boca. O combate havia terminado. 

Subitamente, o matador acordou de seu transe. Ouviu gritos ensurdecedores do público e viu milhares de mãos que agitavam panos brancos. Pediam que tivesse o direito de cortar as duas orelhas e o rabo, a maior honra que um toureiro pode ter. O presidente concedeu a exigência da multidão. Almeyra começou a caminhar lentamente, só então percebendo que sua roupa estava rasgada, repleta de manchas de sangue daquele enorme touro. Sentia dores em todos os músculos de seu corpo. Mas não demonstrava estar contente. Pelo contrário, por algum motivo, sentia uma tristeza profunda. Todas as suas teorias e justificativas já não pareciam mais satisfazê-lo. Queria apenas sair dali o quanto antes. 

Ainda se aproximou mais uma vez do touro estendido no chão. Colocou a mão no rosto e chorou. Mas a multidão parecia não perceber isso e continuava a gritar freneticamente, jogando flores e chapéus no picadeiro. 

Alguns fanáticos entraram no redondel e tentaram carregá-lo nas costas. Mas ele se recusou energicamente. Saiu sem falar com ninguém. 

Nunca mais se teve notícias de Almeyra nas corridas de touros. Algumas pessoas chegaram a afirmar que ainda viram o toureiro, logo após aquela famosa lide, saindo do estádio correndo, com lágrimas no rosto, sozinho, pelas avenidas barulhentas da capital. Até que entrou numa rua estreita e nunca mais foi encontrado. 

Gonzalo terminou de ler a última página e fechou o livreto. A história o havia impressionado. O amigo Corto ainda estava na mesma posição. Até roncava! Coçou a barriga, inconscientemente, virou-se de lado e continuou em sono profundo. O sapo, por sua vez, melancólico, com os pensamentos distantes, acendeu mais um cigarro e apenas olhou para o céu iluminado, repleto de estrelas. 

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Já está à venda em versão eletrônica (ebook) o livro de Luiz Bernardo Pericás publicado pela Boitempo Editorial, Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica, disponível no Gato Sabido e na Livraria Cultura.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

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Está previsto para o mês que vem o novo livro de Luiz Bernardo Pericás, Cansaço, a longa estação. Confira uma prévia do romance:

“Em um sertão imaginário, mágico, mitológico, em algum momento entre o final do século XIX e começo do XX, dois rapazes e uma moça se encontram uma única vez na Fazenda Alvorada.A partir daí, suas vidas irão mudar radicalmente e nada mais será como antes. Cansados do calor sufocante, da rotina de imobilidade, da falta de perspectivas, da opressão e do ambiente à sua volta (o próprio inferno), só lhes restava a fuga e a busca por uma vida melhor.”

O sapo Gonzalo no zoológico humano

Por Luiz Bernardo Pericás.

Todos diziam que aquela era a época mais feliz do ano. Mas ele desconfiava que isso não fosse verdade. Por trás da opulência, havia lama. As ruas iluminadas, lojas enfeitadas com adereços verdes e vermelhos, bolas de porcelana dourada, cintilantes; pinheiros de plástico importados do Paraguai; pessoas indo e vindo, carregando presentes. O ritmo alucinado de dezembro.  No tórrido verão tropical, fingiam estar em algum país escandinavo, as decorações em cada canto da cidade lembrando as terras geladas do norte europeu. O Bom Velhinho, de longas barbas brancas, pesadas botas de couro, luvas de pelica e gorro de lã, parecia que ia derreter. Quase desmaiava de calor. 

Na televisão de marca japonesa, exposta na vitrine de uma loja de eletrodomésticos, o noticiário anunciava que Mickey Mouse, Donald e Pluto, desempregados, junto com Michael Moore, organizavam o movimento “Occupy Disneyworld”. Já haviam incendiado o Castelo da Cinderela, totalmente em chamas, e saqueado o Epcot Center. Lutavam raivosamente contra a polícia da Flórida, que tentava conter os tumultos. 

E num aparelho de TV fabricado na Coreia, na prateleira justo ao lado, uma apresentadora catagenética comentava, num programa matinal, a beleza da Catedral de Nostradamus, em Paris, e, em seguida, mudava de assunto, garantindo que o homem não havia ido à lua.  Afinal, nenhuma missão espacial encontrara são Jorge ou o Dragão por lá.  As imagens na internet mostravam, indubitavelmente, que as sombras e a iluminação dos astronautas e da bandeira fincada no solo do satélite natural não eram reais. Aquelas cenas só podiam ter sido feitas num estúdio pelo Stanley Kubrick!

Na esquina da rua, uma família inteira de migrantes miseráveis e piolhentos pedia esmolas, de mãos esticadas, sem receber a atenção de ninguém, enquanto uma senhora obesa desfilava com seu afghan hound, que acabara de sair do cabelereiro. Havia feito escova progressiva e clareado os pelos sedosos! Mais adiante, um guarda de trânsito recebia, sem qualquer problema, o suborno de um motorista, que estacionara em local proibido. Era só uma “caixinha”. Ele haveria de quebrar esse galho… Ao mesmo tempo, ali perto, um policial militar ia recolher as “contribuições” e “taxas” dos camelôs para deixar que continuassem trabalhando naquele bairro. 

A multidão andava com quinquilharias produzidas por mão-de-obra infantil de algum país asiático. Mas isso não importava. Afinal, aquelas crianças amarelas, semiescravizadas em sweat shops infectos, viviam do outro lado do mundo. O problema era delas. De qualquer forma, o preço dos produtos era bom. Uma pechincha! Ninguém seria louco de perder aquelas ofertas!

E no meio das massas que corriam para fazer suas compras natalinas, lá estava Gonzalo, o querido sapo argentino, de mau humor, como sempre. Acabara de ler um livro que o impressionara, No zoológico de Berlim, do escritor curitibano Guido Viaro (neto do famoso pintor paranaense de mesmo nome).  O romance contava a história de M’ba Nkrumah, retirado de sua vila africana e enviado para viver, aprisionado, num parque alemão. Esta, uma narrativa ficcional. Mas os zoológicos humanos de fato existiram. Quem viajasse para a França, Alemanha, Holanda, Espanha, Inglaterra, Itália e Estados Unidos no final do século dezenove e boa parte do século passado, poderia encontrar seres humanos sendo exibidos como animais em feiras ou zoos. Eram homens, mulheres e crianças, trazidos de lugares tão distantes como as ilhas do Pacífico Sul, a África e a América Latina. Assim, samoanos, núbios e aimarás bolivianos eram levados para Londres ou Nova Iorque, e nessas cidades, expostos ao grande público, que pagava para ver o que consideravam “seres inferiores” e “aberrações” da natureza. Tudo para mostrar uma suposta superioridade do homem branco e da civilização ocidental. E justificar as abomináveis políticas coloniais das grandes potências. 

O mais famoso deles talvez tenha sido o pigmeu Ota Benga, um jovem trazido do Congo em 1904 e, dois anos mais tarde, jogado na jaula dos macacos, no zoológico do Bronx, onde era “visitado” por quarenta mil pessoas todos os domingos. Era divulgado como o “elo perdido”. O mbuti havia sido convencido pelo “explorador” Samuel Phillips Verner (contratado pelo “antropólogo” William McGee para trazer pigmeus africanos para os Estados Unidos), a ir com ele para Nova Iorque, onde estaria mais seguro. Afinal de contas, Verner chegou justo a tempo de salvar a vida de Ota, que estava para ser comido por uma tribo inimiga de canibais, que o havia aprisionado após uma batalha. Com bastante dinheiro no bolso, o “aventureiro” norte-americano “comprou” o pigmeu e mais cinco colegas dos rivais antropófagos e os levou para a “América”. 

A ideia original de McGee (autor de um livro racista, The Trend of Human Progress, publicado em 1899) era construir um zoológico humano em St. Louis, e para isso, trazer, dos quatro cantos do planeta, tipos que ele considerava “estranhos” e “exóticos”: os homens mais altos do mundo, diretamente da Patagônia; os mais peludos, os ainus do Japão; também igorrotes filipinos, cocopahs (indígenas mexicanos), esquimós… e os pigmeus do Congo. Tudo parecia estar indo de acordo com seus planos. 

Benga e seus companheiros chegaram de navio em Nova Orleans e de lá, seguiram de trem para a Feira Mundial de St. Louis. Ota ficou no Missouri por quase um ano, mostrando ao público seus dentes serrados, pontudos, e posando para fotos por vinte e cinco centavos de dólar cada. Em 1905, vinte milhões de espectadores já haviam visto o pequeno africano. Até que ele se cansou e conseguiu retornar ao Congo, onde descobriu que sua aldeia havia sido completamente devastada por soldados belgas. Logo depois, perdeu sua esposa, mordida por uma cobra. Desiludido, pediu a Verner que o levasse de volta aos Estados Unidos. E assim, Ota iria parar novamente numa jaula, desta vez no zoológico de Nova Iorque. 

Apesar do “êxito” da exibição, uma consternação e indignação geral tomaram conta do grande público, que pressionou pela libertação do rapaz. Benga, agora um fumante inveterado e amante da bebida, foi mandado, por insistência de pastores batistas, para um orfanato de crianças negras, onde deveria ser “civilizado”. Lá começou a se vestir com roupas ocidentais, teve aulas de como usar talheres, como se comportar à mesa, como comer e beber, teve seus dentes em forma de flechas “consertados” e foi obrigado a frequentar aulas de religião. 

Alguns anos mais tarde, depois de passar por esse humilhante processo “civilizatório”, foi morar numa cidadezinha da Virgínia, onde trabalhou numa fábrica de cigarros. Mas estava triste, desconsolado. Aquele não era seu mundo. Queria voltar para sua terra, mas nunca conseguiu. Passou seus últimos dias gritando a todos: “Sou um homem! Sou um homem!” Certo dia, desanimado, entrou num celeiro, tirou as capas dos dentes (deixando-os pontiagudos novamente), acendeu uma fogueira cerimonial e deu um tiro na cabeça. Ele tinha apenas 32 anos de idade. 

Mas havia outros casos. Em 1876, por exemplo, o alemão Carl Hagenbeck encomendou a um colaborador vários núbios, que foram apresentados em tournée ao público parisiense, londrino e berlinense com grande sucesso. Depois foi a vez de exibir esquimós em Hamburgo, com igual êxito. 

Na França e Holanda esse tipo de show atraía multidões. Foi assim na Exposição Colonial Internacional de Amsterdã, em 1883, nas Feiras Mundiais de Paris em 1889, 1900, 1907 e 1931, e nas exposições coloniais de Marselha em 1906 e 1922. Na Exposição Colonial de 1907, em Vincennes, nos arredores da capital francesa, era possível visitar um “monumento à glória da expansão colonial” e o Pavilhão do Benim, assim como outros com “amostras” dos territórios controlados pelos franceses. Eram canacas da Nova Caledônia e famílias inteiras do Senegal, Niger, Guiné e Daomé, expostas em réplicas de seus vilarejos originais. Homens e mulheres ficavam em jaulas, seminus. E por causa das duras condições de vida (frio e doenças), muitos não iriam sobreviver. Pelo menos um milhão de pessoas visitaram aquela feira. 

Há quem diga que entre 1870 e 1930, um bilhão e meio de pessoas frequentaram esse tipo de evento ou zoos em todo o mundo. E que mais ou menos no mesmo período, em torno de vinte e cinco mil indivíduos foram levados para serem exibidos naqueles lugares. 

Nos Estados Unidos, como já se percebeu, não foi diferente. O Zoológico de Cincinnatti, por exemplo, expôs cem índios sioux por três meses, em 1896, para o deleite do público pagante. E outros povos indígenas também foram engaiolados em locais similares… 

Gonzalo olhava em volta e achava que as coisas não haviam mudado muito. Todos ali estavam num zoológico humano e não se davam conta disso, sendo expostos constantemente em redes sociais, câmeras de segurança, celulares, imagens da televisão, máquinas fotográficas de transeuntes. E todos sendo vendidos, sem perceber: comprem, comprem, comprem… Roupas de marca, produtos supérfluos, propagandas nas paredes. Consumismo por todos os lados. Emissoras de televisão e computadores controlando as mentes. As grandes corporações tomando conta de tudo. Vendidos! Mas seu valor, em geral, era baixo. Quem sabe, as pessoas quisessem mesmo ser produtos, ou então, animais numa grande jaula. Seriam compradas por quem desse a melhor oferta. E embrulhadas para presente. Ou então, exibidas como macacos no zoológico. Todos tinham seu preço… 

Já Santa Claus, com esclerose múltipla, cirrose hepática e uma úlcera perfurada, badalava o sino enferrujado em sua mão e gritava “ho, ho, ho” (mas, neste caso, não se tratava de Ho Chi Minh), em meio a acessos de tosse e uma terrível dor nas costas, de tanto carregar o saco cheio de dívidas que acumulara ao longo do ano. Iria ganhar uns míseros trocados por seu trabalho. Sua roupa vermelha puída já estava, àquela altura, bem desbotava, amassada e cheirando a suor… mas as crianças gorduchas e endinheiradas que o cercavam pedindo presentes não reparavam nisso. O velho Noel ria. Mas no fundo queria chorar. 

Aquela era a época mais feliz do ano, pelo menos para alguns. Mas Gonzalo desconfiava. O único conforto ali era a presença do saxofonista Kalaparusha Maurice McIntyre e do jazzman Alípio Carvalho Neto, que tocavam seus instrumentos no meio da rua em troca de algumas moedas. E também de Bob Dylan em outra esquina, maltrapilho, irreconhecível, violão em punho e cabelos desgrenhados, que cantava um de seus clássicos sem que ninguém percebesse de quem se tratava. O público só queria o grande espetáculo midiático, e o valor do artista era apenas medido pelas capas de revista, manchetes dos jornais, aplausos dos fãs e palcos iluminados. Sem o suposto “glamour”, não eram nada aos olhos da gentalha. Mas isso não interessava ao trio: o mais importante era a “música”. Seu repertório talvez salvasse a alma de alguns incautos a caminhar por aqueles lados. O resto era lama. 

Então, uma câmera se aproximou de Gonzalo, desavisado. Ela chegou cada vez mais perto de seu rosto. E agora, neste exato momento, está focando os olhos amarelados do batráquio. Ele está olhando fixamente para a lente. E, consequentemente, para você. Sim, para você, caro leitor. O anfíbio esverdeado e tenso está com os olhos bastante inchados. Anda cansado. Ainda assim, o sapo argentino, com um grosso cigarro entre os lábios, aproveita esta oportunidade para desejar um Feliz Natal a todos vocês. 

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Já está à venda em versão eletrônica (ebook) o livro de Luiz Bernardo Pericás publicado pela Boitempo Editorial, Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica, disponível no Gato Sabido e na Livraria Cultura.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Gonzalo, Malcolm e Fidel

Por Luiz Bernardo Pericás.

O Hotel Theresa foi o mais alto, belo e imponente edifício do Harlem durante seis décadas.  Com seu estilo neorrenascentista, onze andares e trezentos quartos, destacava-se das construções à sua volta e chegou a ser comparado até mesmo ao Waldorf Astoria.  Ainda que durante um bom tempo a gerência só aceitasse hóspedes brancos e algumas poucas celebridades negras, a partir dos anos quarenta os novos donos, desta vez afro-americanos, mudaram a cara do lugar.  O fato é que o Harlem entrou num processo de decadência e empobrecimento paulatinos, especialmente nos anos vinte, levando boa parte dos moradores endinheirados a se transferir para bairros distantes dali.  Por outro lado, enquanto ocorria esse processo de pauperização e depreciação imobiliária, a população negra começava a afluir em grande número para os prédios residenciais e negócios locais, e tomou conta da área.  Eram trabalhadores, migrantes, em sua maioria da Virgínia, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Geórgia.  Entre 1920 e 1930, em torno de 118. 792 moradores brancos se mudaram de lá, enquanto, no mesmo período, 87. 417 negros chegaram para viver naquele bairro.  Foi então que o Harlem tornou-se, de fato, a “capital” da Black America.  Entre seus mais emblemáticos landmarks, como o Cotton Club, o Savoy Ballroom e o Apollo Theater, o Theresa certamente também deve ser incluído. 

Projetado pelos arquitetos George e Edward Blum, e construído pelo alemão Gustavus Sidenberg, um pouco antes da Primeira Guerra Mundial, mais tarde, depois de ser “dessegregado”, teve como hóspedes ilustres, artistas como Louis Armstrong, Lena Horne, Josephine Baker, Duke Ellington, Jimi Hendrix, e muitos outros.  Velhos tempos… De lá para cá, muita coisa havia mudado… 

Na esquina da Adam Clayton Powell Jr. Boulevard e Martin Luther King Jr. Boulevard (anteriormente, a 7ª Avenida com a rua 125), um vulto pequeno e magro se misturava à massa anônima que transitava de um lado ao outro, apressada.  Pernas finas, levemente arqueadas, repletas de estrias; os braços delgados, elásticos, pendendo displicentemente nos ombros; a singela barriga flácida despontando do tronco pouco desenvolvido; uma boca grande, rasgada, escondendo a comprida língua negra e enrolada; a pele musguenta e pegajosa, com as rugas de sempre; e os olhos, dilatados, de cor amarelada, enfeitados por pés de galinha nas laterais e duas olheiras que mais pareciam sacos de areia.  Sim, leitor, você já sabe de quem se tratava: era Gonzalo, o polêmico sapo argentino, de visita à terra do Tio Sam, numa quentíssima tarde de verão. 

Dava para ver que precisava de mais uma grande xícara de café amargo.  E logo.  As duas canecas do Java aguado que tomara depois do almoço numa lanchonete pulguenta nas imediações não haviam sido suficientes.  Queria algo mais a seu gosto.  “Café de hombre”, pensava sempre em momentos como aquele. 

Pelo menos estava num país onde muitas pessoas falavam espanhol.  Afinal, boa parte do território dos Estados Unidos havia sido do México.  A população hispânica, e principalmente a mexicana, era enorme e cada vez mais crescia e retomava, paulatinamente, o que antes havia sido seu. Gonzalo, portanto, podia se comunicar em castelhano com garçons, taxistas e atendentes, o que certamente ajudava.  Como preferia ficar sempre do lado dos underdogs, estava bem acompanhado. 

O café não saía de sua cabeça e ele cogitava ir para alguma Deli logo, logo.  O clima excruciante (principalmente com a barriga cheia após uma “refeição” composta de corantes, aditivos químicos e gordura saturada) lhe dava tonturas.  Mas antes de entrar em qualquer recinto com o ar-condicionado ligado na potência máxima e que tivesse um letreiro de neon em cima de sua porta principal, o batráquio queria tirar uns minutos para apreciar, diante de si, aquele que fora o antigo e clássico “monumento” do bairro.  Afinal de contas, se até 1967 (ano em que foi fechado) aquele era um hotel de renome internacional, desde 1971 havia se transformado no “Theresa Towers” e usado como espaço para salas, escritórios comerciais e apêndice de algumas universidades.  Ah, o bom e velho Theresa… Quantas mudanças!

O anuro argentino olhava para as janelas cintilantes da ampla fachada, que refletia a luz do sol.  Em total silêncio, não emitia palavra, um grunhido sequer, permanecendo estático, enquanto os pedestres esbarravam vez por outra em seus ombros, aos encontrões, ou então cruzavam por ele, sem sequer notá-lo. 

Passou um lenço na testa; quase cambaleou.  O calor era tanto que dava para fritar um pedaço de bacon no asfalto. 

Tirou um maço de American Spirit do bolso e colocou um cigarro amassado entre os lábios.  Como não tinha isqueiro, e não queria parar ninguém na calçada para pedir um fósforo que fosse, decidiu encostar a ponta do palheiro “totalmente orgânico” num poste de luz, pelando, e deu uma tragada.  Estava tão quente que acendeu o fumo na hora!

Um vapor escaldante subia do chão de concreto; algumas figuras ao longe pareciam se liquifazer, suas silhuetas dançando como se pulverizassem no ar, à semelhança de miragens no deserto.  Um senhor, idoso, abriu um hidrante, e crianças brincavam com os jatos d’água.  Calor insuportável! As solas dos pés do hermano já ganhavam as primeiras bolhas; a cachola parecia ferver; e os lábios, ardiam como carvão em brasa.  Mas ele, apesar de tudo isso, aguentava… 

Até que sentiu um toque gelado no ombro, como se um pé-de-vento acabasse de cutucá-lo.  Estranhamente, parecia até que era alguém tentando chamar sua atenção.  Quando virou o rosto para ver do que se tratava, levou um susto; um arrepio percorreu sua espinha inteira, de baixo para cima.  Os olhos arregalados de Gonzalo, saltados para fora do rosto, pareciam dois ovos de avestruz; as pupilas tremelicavam; pequeninas artérias, como relâmpagos escarlates, se irradiavam da íris irritada. 

“Boa tarde”, disse o estranho. 

Gonzalo não sabia o que falar. 

O homem continuou:

“Belo edifício, não? Já esteve dentro dele?”

O mutismo do batráquio prosseguia.   

“Você pelo jeito não é de falar muito…”

Foi então que Gonzalo balbuciou:

“É que estou um pouco surpreso…”

“Já sei, você está me achando um pouco estranho…”

“Não foi isso que eu quis dizer…”

“Tudo bem, compreendo.  É sempre assim da primeira vez…”

“Você é, por acaso…”

“Sugar Ray Robinson.  Ou melhor, o que restou dele”. 

O homem esticou as mãos calejadas, putrefatas, as unhas sujas e levemente compridas, os nódulos dos dedos ossudos, ainda bastante inchados.  Cumprimentou Gonzalo, que tentou apertar a mão do interlocutor, mas só encontrou o ar. 

“E-e-eu m-m-me chamo Gonzalo… Estou aqui de férias…”, respondeu, gaguejando, tentando se recompor.  

Percebendo o desconforto do sapo, Sugar Ray tentou tranquilizá-lo. 

“Você deve ter notado que estou um pouco pálido… É que desde que fiquei neste estado lastimável, perdi aquelas bochechas coradas.  Acho que é algo transitório… Pelo menos, é o que eu espero…” 

“Você está dizendo…”

“Sim, ser um ectoplasma nos dias de hoje não é coisa fácil…”

“Um fantasma!”

“Não gosto muito desta palavra.  Mas, tecnicamente, você está certo… O mais estranho é poder ver através do seu próprio corpo.  Really weird… A gente se toca, mas não sente nada… Uma sensação bem esquisita mesmo…”

“É verdade”, respondeu o jia riplantense, já mais calmo.  “Posso imaginar pelo que você está passando.  Mas não desanime.  Olhe só, você está igualzinho à imagem que tenho de seus tempos de boxeur na ativa.  Vi muitas fotos e filmagens de suas lutas, na época em que você estava no auge.  A cara é a mesma! Talvez só um pouquinho caquético, mas isso passa… Ainda tem a talha do velho campeão!” 

“Obrigado, você é muito gentil.  Se você visse a aparência do Rocky Graziano e do Jack Dempsey nos dias de hoje, me acharia um galã! Aqueles branquelos estão horríveis, as fuças mais amassadas do que se tivessem levado umas pancadas do Mike Tyson depois de doze rounds! Parece que foram atropelados por um caminhão! Lembra daquele cantor, o Michael Jackson?  Andava um pouco estranho nos últimos tempos, não acha? Pois Graziano e Dempsey estão com um aspecto pior do que o dele… E olha que isso é bem difícil… Já eu… A mulherada aqui da outra dimensão até que me elogia bastante… Mas o que o traz aqui? Digo, ao Harlem.  Por acaso conhece a história do Theresa?”

“Um pouco.  É, de fato, um belíssimo edifício”. 

“É mais do que isso.  Cada um de seus quartos e corredores traz a memória viva deste bairro.  Eu mesmo me hospedei muito aqui.  Foi construído um ano antes de eu nascer.  É um lugar especial para mim…” 

“Parece que Joe Louis vinha sempre comemorar suas vitórias no restaurante do hotel.  Dizem que quando ganhou o campeonato mundial de pesos pesados pela primeira vez, superlotou o lugar com milhares de fãs negros”. 

“Isso.  E Muhammad Ali também vinha muito aqui”. 

O ectoplasma brilhoso de Sugar Ray meneava a cabeça, sorrindo com as lembranças dos velhos tempos. 

Robinson continuou: 

“Ali que, por sinal, virou as costas para Malcolm X, o homem que mais o apoiou quando ainda era Cassius Clay, em sua busca para conquistar o cinturão dos pesos pesados.  O líder muçulmano esteve sempre a seu lado, dando total apoio, lhe injetando ânimo e insistindo que venceria a luta contra Sonny Liston, algo que ninguém acreditava.  Clay se tornou campeão mundial e, no dia seguinte, se converteu ao islamismo e ingressou na Nação do Islã.  Tudo isso por causa de Malcolm, seu principal mentor no momento”. 

“É verdade.  E depois de tudo isso, Clay, mesmo assim, preferiu ficar do lado de Elijah Muhammad, o líder da NOI, que lhe deu o novo nome de Muhammad Ali.  Por falar nisso, Malcolm também tem sua história ligada ao velho Theresa.  Pois foi aqui que ele manteve a sede da Organization of Afro-American Unity”. 

“Isso! A primeira vez que Malcolm esteve diante do Theresa, em 1942, provavelmente não imaginou o papel que a hospedaria teria em sua vida.  Bem aqui onde estamos, em frente ao prédio, ele fez vários discursos em manifestações públicas, com centenas e centenas de pessoas a sua volta, e no interior do edifício, deu diversas conferências para a imprensa.  O Theresa se tornaria o headquarter da OAAU… Mais especificamente, a suíte 128, na prática, um enorme aposento no mezanino do hotel.  Você vê como as histórias de todos nós, músicos, artistas, políticos, atletas, se cruzam aqui! O Theresa era onde a nata da cultura negra norte-americana se encontrava! Mas talvez o auge do velho hotel tenha sido em 1960, quando nosso querido Fidel e sua comitiva se hospedaram nele”. 

“Já ouvi sobre esse episódio.  Aquele deve ter sido um evento inesquecível”. 

E foi.  A visita de Fidel, de fato, foi um grande acontecimento… 

Em outubro de 1995, Fidel Castro era recebido por quase 1. 600 moradores do Harlem, que lotaram entusiasticamente a Igreja Batista Abissínia para ouvi-lo discursar.  Aquela era a volta triunfal do presidente de Cuba, que três décadas e meia antes, ainda como primeiro-ministro, fora recebido de braços abertos pela população daquele bairro pobre de Nova Iorque. 

No dia 18 de setembro de 1960, Castro chegou aos Estados Unidos para participar das comemorações dos quinze anos da fundação das Nações Unidas e discursar na Assembléia Geral da ONU.  Não é preciso dizer que ele era a principal estrela do evento. 

Um dia antes de sua viagem, ele havia assinado decretos nacionalizando três subsidiárias de bancos norte-americanos na ilha, e a esta altura, já era visto como uma pedra no sapato de Washington, que cada vez mais o considerava um inimigo.  A CIA, como se pode imaginar, já andava elaborando planos mirabolantes para assassiná-lo, sem êxito. 

Nos dez dias que permaneceriam na cidade, Fidel e sua entourage de cinquenta pessoas (o historiador Manning Marable nos conta que eram “oitenta e cinco”) seriam supostamente “protegidos” por 258 homens do Departamento de Polícia de Nova Iorque.  A delegação cubana inicialmente ficou hospedada em vinte suítes no caro e confortável Shelburne Hotel, na Avenida Lexington com a Rua 37, perto da ONU.  Fidel, contudo, estava extremamente incomodado com o tratamento dado pelo hotel: não concordava que a gerência exigisse dos cubanos um depósito prévio de dez mil dólares em dinheiro vivo.  Por seu lado, o hotel não queria a presença daquela comitiva, e só aceitou recebê-la por insistência do Departamento de Estado.  O pessoal do Shelbourne alegava que os cubanos fritavam galinhas nos aposentos e teriam causado estragos nas instalações que acarretavam em prejuízos no valor de ten grand.  Por isso, a exigência daquele depósito. 

A situação tornou-se desagradável o suficiente para que o Comandante, irritado, decidisse abandonar o local, indo, em procissão, por oito quadras, até o edifício da Secretaria Geral da ONU, na Primeira Avenida, para fazer um protesto formal ao próprio secretário Dag Hammarskjöld.  Fidel e mais sete companheiros seguiram num Oldsmobile preto, acompanhados de outros automóveis, membros da delegação a pé, policiais e jornalistas. 

O líder cubano chegou a dizer que, se fosse o caso, levaria sua comitiva inteira para acampar no Central Park.  Afinal de contas, eram todos guerrilheiros, haviam lutado na Sierra Maestra e podiam muito bem montar barracas e levantar um acampamento completo no gramado do maior parque de Manhattan.  Quando o governo norte-americano, preocupado com a repercussão negativa dos fatos, ofereceu à delegação aposentos “de graça” no luxuoso Commodore Hotel, a três quadras da ONU, o barbudo recusou. 

Pois foi neste exato momento que um grupo ligado ao Fair Play for Cuba Committee (vários deles militantes do Socialist Workers Party), propôs aos cubanos que fossem para o Harlem.  O gesto de Fidel de levar, pela primeira vez na história, uma comitiva diplomática estrangeira para o famoso bairro negro nova-iorquino, seria simbólico e certamente apreciado e admirado pelos afro-americanos de todos os Estados Unidos.  O Jefe Máximo imediatamente aceitou o convite e reservas foram feitas para quarenta quartos no histórico Hotel Theresa (há quem diga que foram oitenta aposentos, por oitocentos dólares por dia). 

Ao chegar lá, Fidel seria recepcionado pelos membros do Fair Play, que ficariam no sétimo piso e colocariam vários de seus militantes em frente de cada elevador e saídas do prédio, para garantir a segurança.  Os cubanos, assim, estariam “protegidos”!

No Harlem, Fidel teve uma recepção calorosa.  Junto com o Comandante Juan Almeida (o Chief of Staff das Forças Armadas Revolucionárias, que fora trazido às pressas para a ocasião, por ser negro e simbolicamente mostrar a inclusão racial e oportunidades para todos em Cuba) e outros delegados, Castro caminhou pelas ruas do bairro, cumprimentando moradores, tomando suco de laranja e comendo cachorros-quentes, em clima festivo.  O dirigente histórico do Partido Comunista dos Estados Unidos, Benjamin J. Davis, também negro, ainda organizou uma manifestação a favor de Fidel, que contou com a presença de grande público. 

Em sua suíte, no nono andar do Theresa, o Jefe Máximo receberia a visita de importantes líderes mundiais, como Gamal Abdel Nasser, do Egito, Jawaharlal Nehru, da Índia, Antonin Novotny, da Tchecoslováquia, Kwame Nkrumah, de Ghana e Nikita Kruschev, da União Soviética.  No dia 19, também conversou com Malcolm X, que anos mais tarde chegaria a conhecer e se tornar amigo e admirador de Che Guevara.  Um dos membros da Nação do Islã presentes na reunião com Fidel, Benjamin 2X Goodman, afirmou que Malcolm tentou convencer Castro a se unir aos Black Muslims (algo que parece duvidoso).  O que foi discutido, de fato, entre os dois naquele dia, contudo, ainda é algo bastante difuso.  O que se sabe é que Malcolm foi convidado várias vezes a visitar Cuba (mas nunca aceitou) e que deu ordens, num discurso no Mosque No. 7, em 21 de setembro, para que os homens da Nação do Islã ali presentes ficassem em estado de alerta 24 horas por dia, enquanto Fidel permanecesse no Harlem, já que o revolucionário era, de acordo com ele, um amigo dos muçulmanos. 

Do lado de fora do hotel, todas as noites, centenas de pessoas olhavam para as janelas lá no alto, tentando receber um aceno que fosse de Fidel.  O frenesi era tanto que o New York Times chegou a dizer que aquele era o maior evento na rua 125 desde o funeral do famoso bluesman W. C. Handy, em 1958. 

Desde a chegada da comitiva, entretanto, a mídia local não cansou de atacar a delegação da ilha caribenha com todo tipo de acusações e falsificações.  Jornalistas até mesmo afirmaram que os cubanos, “barbudos de uniforme verde-oliva, coturnos e boina na cabeça”, convidavam prostitutas para seus quartos e corriam atrás de galinhas nos corredores do hotel, para agarrá-las e cozinhá-las em seus aposentos.  Notícias sensacionalistas e preconceituosas… Na verdade, nem o discurso de quatro horas e meia que Castro proferiu nas Nações Unidas, no dia 26, teve tanta repercussão quanto sua presença no Harlem. 

O Comandante não deixava de trabalhar naqueles dias.  Era comum que participasse de conferências telefônicas com seu gabinete em Havana (para estreitar laços diplomáticos com a China e a Coreia do Norte) e que se reunisse com Célia Sánchez e o capitão Nuñez Jiménez para discutir questões de Estado. 

Certa noite, porém, num momento de folga, convidou o staff do Theresa para jantar com ele e Almeida, como agradecimento pela forma carinhosa pela qual haviam sido tratados pelos funcionários do hotel.  Como prato principal, arroz e frango, trazidos de um restaurante da esquina… Em outra ocasião, recebeu os poetas Langston Hughes e Allen Ginsberg para um bate-papo informal. 

No dia 29 de setembro, Fidel finalmente partiu de volta a Havana, num turbohélice soviético Ilyushin 18, para não arriscar que alguma aeronave da Cubana de Aviación fosse confiscada pelas autoridades norte-americanas como parte das indenizações que os cubanos supostamente lhes deviam.  De volta à capital do país, ele seria recebido com entusiasmo por 150. 000 pessoas nas ruas.  Já os moradores do Harlem daquela época, e boa parte da comunidade negra dos Estados Unidos, nunca se esqueceriam de sua visita e sempre se lembrariam dele como um irmão. 

O sapo ouvia a história, emocionado.  A maioria dos transeúntes mal notava que ele estava ali.  Alguns poucos, porém, ao ver o pequenino batráquio, achavam que se tratava de um louco, falando sozinho.  É que ninguém conseguia ver Sugar Ray Robinson.  Só Gonzalo. 

Sem se dar conta disso, ele gesticulava para o velho lutador.  E Robinson continuava a falar.   

“Bem, acho que chegou a hora de ir… Estão me chamando…”

“É São Pedro que te chama, Sugar? Ou quem sabe outro santo?”

“Que nada! É minha esposa que me aporrinha o tempo todo, dizendo que nem no além eu fico em casa! Pode uma coisa dessas?! Você consegue entender isso?! Achei que ia ter um pouco de paz na outra dimensão, mas nem assim a velha para de gritar nos meus ouvidos! Ora essa! Vai dizer que estive bebendo com meu treinador, que saí com mulheres, que meus amigos são todos uns vagabundos! Vou te contar!”

“Parece que as coisas não mudam…”

“Pois é, Gonzalucho! A gente se vê por aí! Uma hora dessas apareço e conversamos um pouco mais.  Agora vou embora, senão terei problemas”. 

“Até mais, mi querido.  Foi um prazer conhecê-lo.  E muito obrigado pelas histórias!”

Sugar Ray, acenando com uma mão, lentamente foi se tornando cada vez mais etéreo, transparente, sua silhueta desaparecendo na frente do sapo.  Até que sumiu de vez.  E Gonzalo, finalmente, foi tomar seu café.  Sem açúcar!  

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Já está à venda em versão eletrônica (ebook) o livro de Luiz Bernardo Pericás publicado pela Boitempo Editorial, Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica, disponível no Gato Sabido.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

O sapo Gonzalo em: Brutti, Sporchi e Cattivi

Por Luiz Bernardo Pericás.

O sapo Gonzalo já começava a se arrepender de ter ido àquela festa… 

Eu havia sido convidado pelo desembargador Peixoto para um cocktail em homenagem a uma fuinha conhecida, a professora Lívia Weiss, que acabara de se tornar professora emetretriz da Universidade de São Priápico. Perguntei ao anfitrião se podia levar um amigo, e ele concordou. Agora estávamos naquela mansão no bairro do Surumby (um dos mais chiques da cidade), com a nata da pseudo-intelectualidade local e a crème de la crème do meio político e artístico da República do Repolho. 

Ao entrarmos no enorme salão daquele château caipira (um tributo ao mau gosto arquitetônico da era moderna), pudemos perceber, imediatamente, um caríssimo quadro, original, de Van Gogh na parede. O dono da casa, gargalhando, dizia que havia arrematado a obra-prima num leilão por uma bagatela de poucos milhões de dólares. O ruído das pedras de gelo em seu copo de cristal ressoava junto com seu vozeirão de foca circense. 

O batráquio argentino, já de mau humor, ficando mais verde do que de costume, sabia que se o senhor Peixoto tivesse conhecido Vincent pessoalmente, nunca deixaria o artista holandês entrarem sua casa. Provavelmente teria nojo até mesmo de apertar sua mão. Mas lá estava a pintura milionária na parede em tom salmão…

O contraste em pessoa estava ali mesmo, a alguns passos do retrato oitocentista. Era o picareta artístico mais celebrado da República do Repolho, o “multitalentoso” Mic Vuniz, que tentava (usando seu suposto “charme pessoal”) garantir um belo financiamento para sua nova obra, algo “inédito” e “sensacional”: pretendia fazer um desenho com mostarda e quetchup, que seriam espirrados aleatoriamente em cima de uma tela em branco. Em seguida, o pernóstico Vuniz iria fotografá-la com sua pequena câmera digital. E a foto, depois de ampliada o suficiente para cobrir um muro inteiro, seria então exibida na Bienal de Veneza! Um gênio, por certo!

O tal “artista” flertava com uma bela socialite, filha de um dos maiores banqueiros do país, na tentativa de, quiçá, conseguir uns tostões para sua empreitada. Estava no caminho certo… Pior do que ele, só o pintor Rameiro Brota, o rei do kitsch, o favorito dos consultórios médicos e escritórios de advocacia de Miami e outras metrópoles tropicais…

A corja presente na função dava goles generosos nos copos cheios até a boca de um blue label importado especialmente para aquela ocasião. Os garçons não paravam um minuto. Tudo isso para homenagear a grande zoóloga. Afinal de contas, Lívia Weiss era uma fuinha admirada por muitos. Mascando continuamente um chiclete sabor tutti frutti, pressionava com cuidado a taça de champagne em suas mãos, exibindo estranhas e mal cuidadas unhas azuis, uma excentricidade, provavelmente. Tinha dois carrapatos gorduchos grudados em sua cabeça, estudantes fiéis, seus orientandos de pós-graduação, que não se desgarravam dela por um minuto sequer. Engordavam, engordavam, chupando seu sangue…

Os docentes e editores ali presentes não cansavam de lamber seus sapatos. Um deles, admirador do Dalai Lama, defendia a volta da teocracia feudal ao Tibet, para instaurar o que chamava de “reino da liberdade”. Outro, vegetariano e ecologista, insistia que só comprava produtos naturais, sacolas feitas de cipó e sucos de frutas amazônicas. Era antitabagista ferrenho, ainda puxasse um fumo “alternativo” de vez em quando. Havia quem comentasse sobre ioga e budismo, descrevendo as novas técnicas de respiração e meditação tântrica que aprendera com seu personal guru, um sósia do Maharish. Ali perto, um acólito, sem papas na língua, incensava todas as porcarias do cinema nacional desde a “retomada”, dando a entender que os filmes, atores e diretores de quinta categoria da República do Repolho eram “geniais”… Já outro convidado elogiava Brad Pitt e Angelina Jolie por adotarem tantas crianças esquálidas da África e Ásia. E finalmente um professor titular, cataglótico notório e colega da fuinha, exaltava desmedidamente o Bono Vox, por seu trabalho “árduo” para salvar da miséria e opressão os povos do Terceiro Mundo, eternamente nas mãos de políticos corruptos e dos interesses dos imperialistas.  Ah, que horror! Ali fazia falta alguém como John Lydon! Se ele estivesse lá, daria um chute no traseiro de toda essa gente…   

Ao fundo, saindo de uma caixa de som, a voz da estrábica Maria Irrita, filha e imitadora de uma grande intérprete da MPB. Os convidados, animados, de vez em quando levantavam os dedinhos indicadores, em direção ao teto, como se furassem, de forma imaginária, o ar asséptico da mansão. Esse era o jeito que a elite branca e obesa daquela metrópole dançava o samba. Coisa de gente com estilo…

Alguém chegou a pedir que colocassem na vitrola algo do Chico, quem sabe do Caetano, e até mesmo, do João Gilberto. Tinham “bom” gosto. Mal ouviam, porém, a canção que tocava no momento. As bocarras gigantescas, com dentes cavalares cobertos por jaquetas de porcelana, soltavam pérolas sobre seriados de TV, a Fashion Week e os melhores hotéis da Côte d’azur ou de alguma ilha do Caribe. Estavam adorando o escroquetel. 

Gonzalo se irritava (como sempre) com aquela fauna, e com a impossibilidade de fumar ali. Nem na casa do desembargador podia acender um cigarro! O jeito era beber. Nunca havia tomado um blue label na vida, e apesar de detestar naturalmente todos os convidados, e de querer fugir da festa o quanto antes, achou por bem enxugar algumas doses do uísque escocês de vinte e um anos antes de finalmente partir. Tinha de aproveitar alguma coisa no evento, afinal de contas! Já começava a se embriagar. 

Havia várias rodinhas de conversas. Numa delas, o ministro da Educação, o senhor Ferdinando Rashid, comendo um canapé de alfafa, revelava para os colegas seus futuros planos políticos:

“Estou pensano seramente em sê candidato a prefeto. Chegando lá, vô acabá com toda essa gênti com preconceito linguistico. Eu e a senadora Márcia estamo de acordo. Nós três vai propor minha candidatura”. 

A platinada senadora Márcia, rainha das colunas sociais e “revolucionária” desde criancinha, interrompeu, mal conseguindo mover os lábios pela quantidade excessiva de botox, que quase petrificava seu rosto:

“O ministro quis dizer nós dois, não é? Você e eu somos duas pessoas. Não é isso?”

O quadrúpede, terminando de mastigar o canapé de alfafa, retrucou:

“Que nada! Você e eu juntos somos três! Márcia, minha quirida, você num sabe contá! Vou te passar um livro publicado pelo ministéro para você aprendê!” 

A colunável ria aos borbotões do comentário do colega ruminante, fazendo tremer todas as dobras de sua barriga. Quase que a pele de sua cara, esticadíssima pelas numerosas plásticas, se rasgou ali mesmo. 

Naquele grupo também estava Brutus, um ceratophrys ornata típico, puxa-saco profissional e assessor do ministro nas horas vagas, que concordava com a cabeça, coaxando. Já havia tomado cinco doses do blue label, e queria mais. Desde o governo do ex-presidente Borbulha que seu sindicato havia sido privilegiado. O antigo chefe de Estado era como um pai para ele. Ao longo dos anos, fora lotado em diferentes ministérios, e agora, mesmo sem nenhum preparo técnico ou intelectual, “assessorava” Rashid e entupia a pança com patês, caviar e a indispensável cervejinha nos finais de semana. Estava aprendendo a se “refinar”. Por isso, nunca deixava de comprar todo mês um legítimo Scotch dezoito anos, que não podia faltar na sua lista semanal de supermercado. 

Também batiam um papo descontraído o pagodeiro Tiozinho (outro que pretendia ser candidato a prefeito) e o ministro Tapioca, do Ministério das Bolinhas de Gude, ambos “comunistas” até o osso, grandes estudiosos da vida e obra de Gramsci e Lukács e profundos conhecedores dos discursos de Enver Hoxha, líder “iluminado” que haviam estudado durante anos e anos na escola de quadros de seu partido. Eram famosos também por embolsar muito dinheiro público e privado…

Do outro lado da sala, o deputado Talita (autor de 560 livrinhos açucarados, sem qualquer profundidade ou sofisticação) soltava um lero despretensioso com seu namorado, o padreco pop Flávio de Melo. Talita era outro que também queria ser prefeito! Mesmo que de partidos diferentes, todos ali conviviam bem…   

Ainda havia um bagre, um tal Claudemir Safári (um nome propício, considerando que aquilo parecia um zoológico), que se dizia “filósofo”. O jovem e careca doutor Safári, com seu jeito delicado e polido, era professor universitário e colunista da Rolha de S. Priápico, um jornal de grande circulação. Era constantemente convidado para fazer comentários nos noticiários da TV Costura, um canal público de televisão.  Nas legendas de seu nome, aparecia sempre o rótulo “filósofo”. E, como tal, discorria sobre temas tão variados quanto a gripe no Rio Grande do Sul e a guerra na Líbia. Assuntos propícios para alguém com seus conhecimentos. Não dava para saber ao certo se o bagre era um Tachysurus, Genidens ou Felichthys. Quem sabe era um bagre-cachola, Netuma barba, ou um bagre-cabeçudo, Pimelodus ornatus, ou outro tipo qualquer. Também não dava para saber exatamente que linha filosófica seguia. Mas Gonzalo desconfiava que o tal garoto, o professor Safári, na verdade, tinha mais propensão a ser, de fato, um bagrídeo “falófilo”. De qualquer forma, o dedão do pé direito de Aristóteles “filosofava” melhor do que ele. 

Isso para não falar de outros dois comentaristas televisivos que estavam por lá, Carlos Blindi e Diego Manada, ambos do New Jersey Connection, um programeco da TV a cabo. Blindi, sexista e racista notório (que não tinha nível intelectual sequer para debater com um chimpanzé), criticava com veemência os governos árabes para seu colega bovino Manada, que acabara de ganhar o prêmio de “Cretino do Ano” da revista Olhe, na qual publicava artigos insípidos e insignificantes todas as semanas. 

E então, last but not least, já bastante bêbado, um Jabuti gorducho e asqueroso, representante oficial do establishment literário da República do Repolho. Não tinha nome, mas era conhecido por todos por seu apelido, CaBraL. Gordo, curvado, com um monóculo embaçado, barba branca e uma bengala de madeira na mão, tossia sem parar, enquanto conversava com seus colegas. Grande amigo de Lívia Weiss e sua turma, nunca deixava de frequentar as festinhas dos ricos e famosos da cidade. Já havia até sido entrevistado pelo Amaury Júnior, o que para ele era um orgulho! Aquele Jabuti esclerosado gostava de distribuir prêmios todos os anos para figuras menores, desde que fossem bem relacionadas consigo e com editores com quem tinha afinidade. O conhecimento que possuía do mundo literário, porém, era muitíssimo limitado. Afinal, o Jabuti usava os livros como assento (preferia sentar-se em livros do que em cadeiras) ou como apoio de objetos em estantes. Achava que estas eram as duas principais funções da “literatura”. Ah, Jabuti… Ele era mais um “sujo, feio e malvado” que combinava com toda a caterva presente. Como se pode imaginar, bebericava também seu blue label, combinando com os editores na festa quais seriam os autores agraciados na próxima edição de seu concurso.  Este ano, os finalistas eram nulidades como Laudelino Gomes, Danny Pizza, Tony Silver, entre outras aberrações. Até Gilberto Freyre estava na lista! Quem sabe se ganhasse, iria pessoalmente pegar o troféu! Era preciso muita paciência mesmo para aguentar todos aqueles animais…

No piso superior da mansão, isolado em seu quarto, trancafiado no cafofo escuro e poeirento, estava o filho do desembargador Peixoto. O jovem estudante universitário era militante da LUR (Liga Ultra-Revolucionária), uma minúscula organização de esquerda, inimiga figadal da LMR (Liga Muitíssimo Revolucionária) e do PSROCTU (Partido Super-Revolucionário dos Operários e Camponeses de Todo o Universo), um partido da mesma tendência. 

De cabelos rastafári, aparelho nos dentes e a acne cobrindo cada centímetro de sua face, o rapaz, aluno da Universidade de São Priápico e fã de Manu Chao, estava há várias horas diante da tela do computador, se comunicando em seu Facebook com “correligionários” para organizar a próxima manifestação numa importante avenida da cidade. Planejavam a Marcha das Baleias, a Marcha dos Golfinhos e a Marcha dos Atuns. Seriam convocadas centenas de pessoas para levantar uma bandeira fundamental: o direito de as baleias, golfinhos e atuns poderem cheirar rapé sem serem incomodados por ninguém. Já preparavam os cartazes e centenas de estandartes vermelhos, que iriam distribuir nas ruas para dar a impressão de que as massas estavam a seu lado. 

De vez em quando, o rapaz tirava os olhos da tela do computador e observava por alguns minutos, pensativo, seu velho Autoramas, seu novíssimo PlayStation e um charango que comprara numa excursão recente à Bolívia, com sua turma da faculdade, todos numa prateleira da estante entulhada de objetos que guardava com o maior carinho. Nessa hora, ele se convencia de que não era mais um garoto: já era um homenzinho!

Mas o filho de Peixoto também era ambicioso. Queria seguir carreira acadêmica, e para ter êxito na empreitada, mesmo estando ainda no começo da graduação, fazia de tudo para agradar seu professor favorito e assim, garantir um lugar no mestrado e doutorado. Chegara até a recusar publicar um artiguete (que havia escrito recentemente) numa revista editada por um docente da mesma instituição, que o convidara a colaborar com o periódico. É que a publicação daquele professor não estava avaliada na categoria “A Maior Revista de Nossa Galáxia” no Qualis da Capes, e por isso, o espinhento rapaz guardaria sua “obra-prima” para algum journal de maior qualidade. O pimpolho do desembargador ainda era um garoto, mas já se transformara num carreirista, politiqueiro, oportunista… Como muitos de seus colegas universitários… Novos tempos…  

Enquanto isso, Gonzalo bebia. E pensava seriamente em ir embora dali. No íntimo, queria acabar com todos naquela festa. Se pudesse, colocaria fogo em tudo, incineraria todos os móveis e objetos, arrasaria a casa inteira… Não sobraria nada de pé. Sentia ânsias no estômago só de ver e ouvir as conversas dos convidados. Mas sabia que não podia eliminar aquela fauna da face da Terra. Lá no fundo, ainda que fosse um sapo, Gonzalo era um humanista! A única solução imediata seria ignorar os animais presentes, fingir que não existiam, que eram apenas um pesadelo passageiro, um fruto de sua imaginação. Mas eles existiam, e inchavam, inchavam, inchavam, a cada mordida nos canapés, a cada gole no uísque importado, a cada vez que o contracheque era depositado em suas contas, no final do mês… 

 “Farsantes!”, pensava o batráquio, espumando, quase tendo uma convulsão. 

O fato é que o anfitrião e os convidados mal haviam notado a presença do sapo, e em nenhum momento haviam conversado com ele. Nem comigo. Gonzalo, por sua vez, queria partir o quanto antes. 

“Vamos embora, pibe.  Não aguento mais esse lugar”. 

Ele estava certo. Talvez o jeito fosse tomar umas e outras no Bar do Joaquim. 

Sequer nos despedimos. Já na rua, cambaleando, Gonzalo, desafinado, cantava em alto e bom som: “Esta noche me emborracho…” Alguém, incomodado, gritou de uma casa nos arredores, com a cabeça para fora da janela: ia chamar a polícia.  Contrariado, Gonzalo apenas grunhiu algo incompreensível e acenou para a silhueta distante do homem que reclamava. Deixamos todos aqueles animais para trás e fomos beber bem longe dali.  

***

Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

O sapo Gonzalo e Corto Maltese nos mares do sul

Por Luiz Bernardo Pericás.

Navegavam pelo Mar de Salomão em velocidade constante de oito nós.  Já haviam passado pelo Arquipélago de Louisiade e agora roçavam a costa da Nova Bretanha.  Corto Maltese conhecia como ninguém cada palmo da distante e isolada região, desde quando aquela ilha vulcânica, terra dos temíveis Duk-Duk, no Arquipélago de Bismarck, ainda se chamava Nova Pomerânia.  Kandrian, Gasmata e Totongpal haviam ficado para trás.  Na mesma linha geográfica de Sampun, se dirigiam agora para a parte sul da Nova Irlanda, e de lá, para o vasto oceano. 

Conduzia seu primeiro barco desde que o Maria Muito Santa havia afundado no Pacífico, um bom tempo atrás.  Desde então, sempre fora um marinheiro sem embarcação, um homem livre, que percorreu o mundo em iates ou balsas de outrem, em cargueiros ou em naves emprestadas.  Agora tinha um veleiro só seu, ainda que bastante velho, por certo, um modelo antigo e mal restaurado, repleto de remendos aqui e ali.  Não sabia quanto tempo mais iria durar.  Naquela tarde quente de verão, entretanto, parecia até um barco novo, recém-saído do estaleiro: um amigo da maior confiança. 

A vela principal, completamente aberta… As lufadas do vento forte e úmido que cortava aquelas ilhas impulsionavam o veleiro, enquanto as águas salgadas do mar borrifavam o rosto do experiente marujo e molhavam o convés. 

Naquele momento, Gonzalo, sentado na popa, apenas olhava a paisagem.  Há muito andava cansado de todos à sua volta, dos aborrecimentos, do barulho da cidade grande, das aporrinhações do cotidiano, das conversas inúteis, dos indivíduos que o cercavam.  E ali, finalmente, depois de anos, a paz de espírito que tanto buscava parecia invadir todos os seus poros.  Lá estava ele, o reumático sapo argentino, cheio de dores no corpo, perdido na imensidão do oceano sem fim.  A viagem à Austrália só o deixara mais revoltado.  E as sonhadas férias, numa rede balançando entre coqueiros, não haviam se concretizado. 

A presença de Corto, contudo, era um alento.  Ele não tinha amarras, nem país, nem documentos.  O aventureiro maltês talvez fosse o exemplo a ser seguido.  Quem sabe ele pudesse dizer algo que tocasse as profundezas mais recônditas da alma do batráquio. 

Gonzalo sabia que era difícil encontrar alguém com quem compartilhar suas histórias.  Sentia-se só na República do Repolho, o país do Carnaval, da pedofilia e dos feriados prolongados.  Não tinha interlocutores, uma pessoa que tivesse vivido o que viveu, que tivesse passado pelo que passou, que tivesse lido o que havia lido, ao longo de tantos anos.  A cretinice por toda parte, na televisão, nos outdoors, nas conversas de bar, nas discussões sobre futebol ou política, no Congresso Nacional, nas universidades, nas revistas, nos jornais.  Não havia escapatória.  Ou quem sabe houvesse.  Talvez ela estivesse lá, na imensidão silenciosa dos Mares do Sul.  Corto e Gonzalo tinham muito a conversar. 

“Você parece desanimado, Gonzalucho”. 

“É verdade…”

“Está pensativo…”

“Sim…”

As folhas amareladas de um livro de Kurt Vonnegut, esquecido num canto do convés, iam se dobrando paulatinamente, por causa da umidade e do sol implacável, que enrugavam o papel e deixavam a obra com um aspecto envelhecido.  Parecia o rosto de Gonzalo, que não conseguia esconder as marcas do tempo. 

Pelo menos, podia fumar ali, sem ser incomodado por ninguém.  Corto chupava uma cigarrilha baiana, que guardara desde que estivera pela última vez em Salvador.  Gonzalo, por seu lado, tragava o fumo negro de um Gaulois, presenteado pelo amigo marujo. 

“Imagino o que você está passando… Todos nós procuramos nosso lugar no mundo”. 

Un lugar en el mundo… Até me lembro de um belíssimo filme argentino com esse título…”

“Sim, Gonzalucho, um lugar no mundo”. 

“Tenho a sensação de que tudo em volta é uma grande farsa.  Veja a República do Repolho.  Lá só valorizam os cargos, as posições, os títulos… A primeira pergunta que fazem ao conhecer alguém é: ‘onde você está?’ Ou então: ‘qual cargo você ocupa?’ E também: ‘em que empresa ou ministério ou universidade você trabalha?’ Por fim, a indagação que serve como desfecho: ‘quanto você ganha?’ O indivíduo é definido e, quiçá respeitado, pela instituição da qual supostamente faz parte.  E pelo valor do salário que recebe… Mas veja o meu caso, um ex-exilado político, fugitivo, combatente… Meu histórico é feito apenas de lutas inglórias, de sofrimento, de cansaço… Um garoto espinhento e imberbe de vinte anos de idade pode passar na minha frente numa fila de emprego, só porque tem as indicações corretas, o currículo que mais agrada, os cursos que o contratante pede… Mas não tem um décimo de minha cultura, de minha vivência, de minha experiência…”

“Não se desespere, Gonzalucho.  Veja o velho Marx, por exemplo.  Teve uma vida de privações constantes, problemas de saúde, dificuldades financeiras… Ele nunca ocupou altos postos no aparelho de Estado nem teve posição social privilegiada.  Mas está aí, até hoje; criou algo que nenhum de seus contemporâneos conseguiu.  A grandeza está na obra, meu amigo”. 

“Mas a solidão…”

“Você está em boa companhia.  Tantos passaram por isso… Jack London, um conhecido meu de longa data, na juventude foi explorado, desprezado, escorraçado… Viu que a única forma de se salvar seria através da arte, sua arte… E se tornou livre por causa dela.  Era um excelente escritor, mas nunca foi ‘senador’, ‘ministro’, ‘presidente’… A sua arte, a sua personalidade e as suas ideias o definiam”. 

“Talvez você esteja certo…”

“O diretor do Guggenheim e o reitor da mais prestigiada academia de arte do planeta nunca pintarão como Modigliani.  Estas ‘autoridades’ se escondem atrás de seus cargos, vão a congressos e seminários, apresentam papers, fazem parte de comissões, dizem a todos que são importantes, que são profundos conhecedores da vida e obra deste ou daquele artista… mas nunca, nunca, nunca chegarão aos pés de Modi.  Nem de Chagall, Matisse, Pollock ou tantos outros.  Ao lado dessa gente, são formigas.  O tempo dá razão aos criadores e elimina os farsantes e os burocratas.  Você tem de ter paciência, companheiro”. 

As pessoas que Gonzalo mais detestava no mundo eram, de fato, os burocratas.  Por isso, as palavras de Maltese pareciam música para seus ouvidos. 

“Pense bem, Gonzalucho.  Há outros que, como você, tiveram de optar pelo caminho mais difícil, e eles também teriam dificuldades em se adaptar a uma vida mesquinha, comum, convencional.  Veja o Sup Marcos, por exemplo, o guerrilheiro zapatista.  Você acha que ele conseguiria largar tudo, tirar o capuz, encostar o fuzil e ir trabalhar numa repartição qualquer na Cidade do México? O que ele faria lá? Assinaria papelada num escritório? Passaria seus dias carimbando documentos? Não, Gonzalucho.  Ele fez sua escolha, talvez a mais difícil, e tem de conviver com ela.  Mas pelo menos foi capaz de tocar os corações e mentes de muitos, de mobilizar ideias, de estimular ações e pensamentos.  Se está certo ou equivocado, não vem ao caso aqui.  Ele, pelo menos, está lutando o bom combate e é um homem digno.  O que é mais do que se pode esperar da maioria dos imbecis e canalhas que conhecemos, e que se proliferam em todas as partes”. 

“Acho que você está certo, Corto.  É sempre bom ouvir sua opinião…” 

“É só você ver a lista de traidores de ‘esquerda’ que andam por aí, de sindicalistas a ex-guerrilheiros, de artistas a intelectuais, de gente que se dizia ‘revolucionária’ e que hoje está ganhando polpudos salários e ocupando altos cargos na administração pública, só preocupada com dinheiro e poder”. 

“E eu, que nunca quis isso…” 

“Vou lhe dizer uma coisa.  Talvez uma das melhores metáforas para o mundo em que vivemos é a primeira corrida de volta ao mundo em veleiros (sem paradas para consertos, reparos ou reabastecimentos), em solitário, a Golden Globe Race, que começou em 1968, uma competição de circunavegação da Terra solo, praticamente sem instrumentos ou equipamentos (nem barcos de apoio), numa distância de 27. 000 milhas, no total.  Se hoje uma volta ao mundo em veleiro parece relativamente fácil e rápida (na atualidade, o recorde é de 71 dias para realizar a façanha), naquela época os aventureiros ainda dependiam de sextantes e da posição das estrelas.  Não havia computadores de bordo, nem equipes de suporte ao longo do trajeto, apenas aparelhos de rádio precários ou de código morse, que eles utilizavam, de vez em quando, para se comunicar.  Em outras palavras, essa era uma odisséia de homens românticos, valentes, corajosos, de espírito livre, que, apesar do prêmio em dinheiro que receberiam se ganhassem, viam no desafio em si e na própria saga marítima os principais motivos para ir ao mar.  Essa corrida ficou na história principalmente por causa de dois competidores, Donald Crowhurst e Bernard Moitessier.  Mas tudo em torno dela é interessante”. 

Os olhos de Gonzalo já estavam brilhando de curiosidade. 

“Por favor, conte mais, che”. 

Essa foi a deixa para que o marinheiro começasse a relatar a incrível aventura. 

Era o final da década de sessenta, e o jornal britânico Sunday Times decidiu propor a corrida de volta ao mundo.  Os concorrentes teriam de sair da Inglaterra, seguir pelo Atlântico, dobrar o Cabo da Boa Esperança, percorrer os oceanos Índico e Pacífico, passando, é claro, pelo sul da Tasmânia e da Nova Zelândia, para então cruzar o Cabo Horn, na América do Sul e finalmente, retornar pelo Atlântico até a cidade de onde iniciara a jornada.  Qualquer pessoa poderia participar da competição.  E qualquer tipo de barco também.  O vencedor receberia um troféu e cinco mil libras.  Nove velejadores resolveram participar, mas apenas um chegou ao final. 

A disputa seria mais dura do que imaginavam.  Lá estavam John Ridgway, com seu English Rose IV, de 30 pés (9, 1 metros); Chay Blyth e o Dysticus III, com as mesmas dimensões; Robin Knox-Johnston, velejando o Suhaili, com seus 32 pés de comprimento (9, 8 metros); Loïck Fougeron, comandando o Captain Browne, também com 30 pés; o francês Bernard Moitessier, em cima de seu Joshua, de 39 pés (12 metros); Bill King no Galway Blazer II (42 pés ou 13 metros); Nigel Tetley no Victress, de 40 pés; o italiano Alex Carozzo, no Gancia Americano, o maior de todos os barcos, com 66 pés (ou 20 metros); e finalmente, o inexperiente Donald Crowhurst, no trimarã Teignmouth Electron, de 40 pés de comprimento. 

A corrida foi uma confusão.  Chay Blyth, por exemplo, um sargento do exército de 27 anos de idade, nunca havia velejado antes, apenas remado no Atlântico.  Mesmo assim, quis participar.  Como se pode imaginar, não foi longe.  Saiu de Hamble e permaneceu apenas três meses dentro da competição, até acabar sua jornada em East London, África do Sul.  Loïck Fougeron, Bill King e Nigel Tetley partiram de Plymouth.  Os dois primeiros também deixaram o evento depois de três meses navegando, Fougeron em Santa Helena e King, na Cidade do Cabo.  Já Tetley, um veterano da Marinha Real, após oito meses de corrida, foi resgatado após seu trimarã afundar perto dos Açores, no Atlântico Norte.  Ele iria se suicidar pouco tempo depois.  John Ridgway, que começou sua viagem em Inishmore, durou menos ainda: um mês e meio depois da partida, terminou sua corrida no Recife, Pernambuco.  O italiano Carozzo, por seu lado, zarparia de Cowes, e ao término de duas semanas navegando, veria o fim de sua participação no Porto.  O grande vencedor foi Robin Knox-Johnston, com 29 anos na época, que saiu de Falmouth, e retornou à mesma localidade após dez meses de volta ao mundo, em primeiro lugar.  Ele diria mais tarde que o único equipamento “avançado” para avaliar as condições climáticas que levava em seu barco era um barômetro retirado da parede de um pub! Mas os dois personagens mais excêntricos e marcantes desta história são Crowhurst e Moitessier… 

Em anos recentes, o documentário Deep Water narrou com detalhes a vida trágica de Donald Crowhurst.  E publicações como The Independent, The Times of London, Sports Illustrated e The Guardian iriam dar mais informações sobre aquele navegador britânico… 

Quando partiu de Teignmouth, Devon, em 31 de outubro de 1968, Donald Crowhurst, de 35 anos de idade, sabia que teria muita dificuldade em ganhar a corrida de volta ao mundo.  Mas era um obstinado.  Desde criança, leitor voraz de Rudyard Kipling, sonhava com aventuras.  Depois de voltar da Índia, onde passara a infância (o pai era funcionário das ferrovias lá), trabalhou em Londres numa fábrica de produtos eletrônicos e mais tarde, se casou e teve quatro filhos.  Expulso da RAF, onde fora piloto, criou uma pequena empresa em Somerset, a Electron Utilisation, e inventou o Navicator, um novo aparelho de navegação marítima.  Na mesma época, comprou uma chalupa, na qual velejava nos finais de semana.  Nunca chegou mais longe do que a Baía de Biscaia.  Sua inexperiência era patente.  Isso, contudo, não o intimidou de início.  Ao saber da Golden Globe Race, esse marujo amador, impulsivamente, decidiu participar.  Seria a oportunidade de mostrar a todos a eficiência de seu Navicator, que provavelmente (pensava ele) seria vendido mundo afora após ser testado e aprovado em alto mar.  Crowhurst também realizaria o sonho de aventuras no vasto oceano e demonstraria a todos sua bravura.  Um grande entusiasmo tomou conta da Inglaterra, já que um homem comum, como qualquer outro no Reino Unido, sem grande técnica e com pouco dinheiro no bolso (porém com muita coragem), iria se arriscar em ambientes inóspitos e climas bravios, contra todas as expectativas e contra vários marinheiros mais preparados. 

Para conseguir realizar a façanha improvável, Crowhurst pegou um empréstimo de um businessman pouco confiável, Stanley Best, para desenvolver e construir seu barco.  Mas Best exigiu que o dinheiro gasto na embarcação teria de ser todo devolvido caso o competidor não conseguisse completar a prova.  Donald aceitou. 

Por outro lado, o jornalista e assessor de imprensa da prefeitura de Teignmouth, Rodney Hallworth, depois de fechar um negócio com o velejador (ele intermediaria contratos de publicação e divulgação da “aventura” caso o competidor desse o nome de seu barco em homenagem àquela cidade), começou a vender a imagem para o grande público de que Crowhurst era o típico representante do povo lutando contra gigantes, e que teria reais possibilidades de vencer.  Tudo uma ilusão.  Crowhurst, que já se via às voltas com problemas financeiros, estava agora mais do que endividado.  E sentia que não poderia mais abandonar a competição no último minuto.  A pressão de Best, seu patrocinador, e do grande público (que o via como uma celebridade e herói nacional); o medo do fracasso e da desonra; a preocupação em ter de devolver uma quantia que não poderia pagar, de perder sua casa (usada como garantia caso desistisse da empreitada antes do início da competição ou durante a corrida) e, consequentemente, de deixar sua família completamente desamparada; o temor de ir à falência… tudo isso era um peso demasiado para ele. 

A situação se complicava.  No dia anterior à sua partida, ele chorou muito junto com sua esposa, num quarto do Royal Hotel.  Era tarde demais para desistir.  E ele sabia que teria de escolher entre perder todo seu dinheiro e sua morada caso ficasse, ou a própria vida, caso seguisse em frente.  Decidiu continuar. 

Crowhurst havia encomendado a construção de um trimarã a uma firma de Norwich, mas o barco não era bom, e uma jornada que deveria levar três dias, daquela cidade até Teignmouth (de onde partiria oficialmente), durou duas semanas.  O trimarã havia sido mal construído, tinha infiltrações, fazia água.  Na hora da largada, teve de voltar, “guinchado” para o porto, por causa de problemas com as velas, que travaram. 

Finalmente partiu, porém um mês mais tarde Crowhurst já se dera conta de que não conseguiria completar a jornada.   O fato é que não conseguia sequer percorrer o Atlântico.  Enquanto outros competidores já estavam longe, o aventureiro amador mal saía do lugar.  Foi então que cortou toda a comunicação com terra firme.  Ficaria onze semanas sem dar notícias, e todos temiam pelo pior.  Até que reapareceu, mandando mensagens de que já havia praticamente dado toda a volta ao mundo e que estava novamente no Atlântico, a caminho de vencer a competição.  Tudo mentira. 

Com o Electron em condições precárias, sem possibilidades de ir para o Cabo da Boa Esperança (podia afundar a qualquer momento), ele optara por ficar meses e meses próximo da costa do Brasil e Argentina, inventando posições, fazendo anotações falsas em seus diários de bordo e relatando uma viagem imaginária para seus apoiadores na Inglaterra.  Chegou até a ancorar rapidamente num porto de pescadores argentinos para fazer reparos na frágil embarcação.  De acordo com os relatórios de Crowhurst transmitidos por rádio, ele havia batido todos os recordes de velocidade e tinha tudo para ganhar.  Mas ele também guardava um logbook verdadeiro, com suas posições reais no mapa, suas angústias e aflições.  Esse seria o testamento.  Ao que tudo indica, Crowhurst se deu conta de que estaria em maus lençóis se vencesse.  Os juízes e velejadores profissionais iriam passar um pente fino em todas as anotações, mapas, diários de bordo, e descobririam a farsa.  Saberiam que ele nunca havia ido além do Atlântico, ou seja, que nunca havia circunavegado o planeta. 

Apoderado pelo pânico, diminuiu a velocidade, e avisou aos amigos, em radiotransmissões, que não conseguiria alcançar Tetley, que seguia em alta velocidade em direção à vitória.  Se Crowhurst chegasse em segundo lugar, provavelmente ninguém esquadrinharia seus diários com tanto rigor.  Mas Tetley, preocupado com a aproximação de Donald, forçou seu barco até o limite e afundou.  Crowhurst, assim, estava a caminho de ganhar! E isso era tudo o que ele não queria naquele momento.  Entrou em profunda depressão.  Não sabia mais o que fazer… 

Seu barco foi encontrado abandonado, no dia 10 de julho de 1969, sem nenhum sinal do capitão.  O corpo de marujo nunca foi encontrado.  Muitos acreditam que ele, envergonhado com suas mentiras e atemorizado de ter de enfrentar a família e o grande público, se suicidou, levando consigo seu diário de bordo falso.  A esposa, contudo, contesta, e acha que ele, em estado mental alterado devido à solidão, escorregou do convés e se afogou no mar.  Nunca se saberá, de fato, a verdade sobre o ocorrido. 

Crowhurst entrou para a história como um mentiroso, um homem que faria de tudo para ganhar um bom punhado de libras, até mesmo forjar uma situação falsa numa competição e passar a perna nos outros contendores.  Foi desta forma que jornalistas, escritores e documentaristas o retrataram ao longo das décadas.  Mas um cineasta soviético que realizou um filme sobre o velejador inglês mostrou uma faceta distinta, apresentando uma interpretação mais realista e decente do inexperiente marujo.  Para o diretor russo, Crowhurst seria o símbolo de um homem comum, decente, que lutava para garantir uma vida digna para a família e que tentava ganhar um senso de honra para si, mas que foi esmagado pelo sistema capitalista, que o obrigou a seguir adiante, mesmo sabendo que a competição poderia matá-lo; um indivíduo cercado por gente gananciosa, que só queria patrociná-lo e divulgá-lo enquanto ele interessava economicamente, mas que o desprezou assim que não tinha mais serventia; que poderia tirar seu orgulho e a casa de sua família num estalo de dedos, sem a menor piedade; e que o forçou a tomar uma decisão equivocada porque só se preocupava pelo dinheiro que poderia ganhar com sua aventura.  No final, Robin Knox-Johnston iria se sagrar o campeão e doaria todo o prêmio para a família de Crowhurst.  Uma história trágica… 

“Fico com a versão do cineasta soviético, Gonzalucho”, disse Corto. 

“Eu também, mi querido”. 

“Já não há o mesmo romantismo nos dias de hoje.  É difícil achar homens desta estirpe”. 

“Você está certo, compañero…

“Por outro lado, isso tudo mostra como é difícil escapar deste mundo de predadores, ganaciosos, sanguessugas, parasitas, aproveitadores, que só querem saber de dinheiro.  Por isso, temos de criar um mundo paralelo, mágico, e nele transitar.  Se você descobre e vivencia esse outro mundo, acaba encontrando muita gente que pensa e age como você.  Mas que está ‘escondida’, pouco visível, no mundo supostamente real”.   

“Interessante o que você está dizendo… Mas ainda falta outro competidor, se não me engano, um francês…”

“Isso mesmo.  Trata-se de Bernard Moitessier, talvez o maior de todos…” 

“Então fale, che! Já estou curioso…”  

“Pois bem… Vou lhe contar sua história”. 

Entre todos os competidores, Bernard Moitessier era, provavelmente, o mais interessante.  Ele nasceu em 1925, em Hanoi, na Indochina (ainda colônia francesa), onde seu pai trabalhava.  Diz a lenda que durante a Segunda Guerra Mundial chegou até mesmo a ser preso pelas autoridades japonesas, por ter colocado a bandeira tricolor na varanda de sua casa.  Pois bem, ele partiu do Vietnã alguns anos mais tarde, entre outros motivos, por não querer integrar as tropas do exército do seu país que iniciava a luta contra o povo local.  Afinal de contas, ele não tinha nenhuma vocação para soldado.  A última coisa que passaria por sua cabeça seria matar outro ser humano…

Os relatos sobre sua biografia, que estão difundidos por toda parte, em artigos e livros, e que são bem conhecidos do público, informam que quando jovem, velejava com pescadores da região, e depois, em juncos.  Foi justamente como membro de tripulação de uma dessas balsas chinesas usadas no comércio de mercadorias que partiu rumo à sua vida de aventuras.  Seu primeiro barco, um velho queche de 12 metros, durou pouco.  Depois de afundar, comprou o Marie Thérese na Indonésia, com o qual navegou, sozinho, até a França.  A viagem foi uma loucura.  Até chegar à Europa, passou por muitos percalços.  Na altura das Seicheles, no Oceano Índico, teve de consertar, sozinho e na marra, o fundo do queche, com profundas rachaduras e fendas que andavam causando sérias infiltrações de água e ameaçando que o barco fosse a pique; depois, sem instrumentos de navegação, entrou numa violenta tempestade e foi jogado nas costas de Diego Garcia; deportado logo em seguida, foi parar nas Ilhas Maurício, onde trabalhou por alguns anos, até poder velejar novamente em um barco que fosse seu.  Seguiu para o Caribe, com escalas na África do Sul e Santa Helena.  Mas quando estava no caminho entre Trinidad e Santa Lucia, naufragou.  Acabou chegando a Trinidad; pouco depois, atravessou o oceano, trabalhando num navio cargueiro, até a cidade alemã de Hamburgo; e então, finalmente, acabou seu périplo na França.  Lá se casou e escreveu seu primeiro livro, Vagabond des Mers du Sud, um grande sucesso de público e de crítica. 

Naquela época, Moitessier construiria o seu lendário Joshua, um queche de aço, vermelho e preto, com o deck branco, que recebeu seu nome em homenagem ao eminente e intrépido capitão nascido na Nova Escócia, Joshua Slocum, o primeiro homem a dar a volta ao mundo sozinho.  Um detalhe vale a pena ser mencionado: os mastros da embarcação eram, na verdade, postes telegráficos adaptados! Pois bem, Moitessier viajou pelos quatro cantos do mundo com sua esposa no Joshua, passando pelo Marrocos, Canárias, Trinidad, Canal do Panamá, Galápagos, Taiti, Cabo Horn, até retornar para Marselha.  Essa jornada com sua mulher iria torná-lo famoso mundialmente.  E dela surgiria o best-seller Cap Horn à la voile: 14. 216 milles sans escales, de 1967.  Até que, em 1968, decidiu participar, mesmo que relutante, da Golden Globe Race.  Afinal de contas, ele tinha prazer em velejar sem obrigações, e não gostava da ideia de competir. 

Moitessier levou o Joshua até Plymouth (tinha de partir de um porto inglês) e no dia 23 de agosto de 1968, levantou âncora como um dos favoritos a ganhar a corrida.  No Cabo da Boa Esperança, colidiu com um cargueiro, e pouco depois, foi atingindo por uma onda enorme.  Mas conseguiu se safar das duas situações de risco.  No Oceano Índico, deprimido, utilizou técnicas de meditação e ioga para conseguir seguir adiante! Afinal de contas, sentia-se mal, desconfortável consigo mesmo, achando aquilo tudo uma farsa.  Estava supostamente competindo por glória, fama e carcanhóis.  Mas, no fundo, não queria nada daquilo. 

Ao cruzar o Cabo Horn, sua saúde psicológica já estava em frangalhos.  Meses de solidão e a perspectiva de voltar à Inglaterra, de ser cercado por multidões de fãs, de fotógrafos e de repórteres, de flashes e holofotes, de entrevistas e adulações… tudo isso o corroía por dentro.  Moitessier costumava comentar que partir de Plymouth e voltar para a mesma localidade, seria o mesmo que sair do nada e chegar a lugar nenhum.  Justamente ele, que dizia se considerar um cidadão da mais bela nação do planeta, uma nação imensa, sem fronteiras nem limites, feita de vento, luz e paz, e que só tinha como governante o mar! Um homem que pensava desta forma não podia se vender por um troféu e uma conta bancária recheada de baguines. 

Moitessier agora se encontrava no Atlântico Sul, a pleno vapor.  Até que tomou a decisão mais radical e intrigante para todo o público que acompanhava a Golden Globe Race.  Mandou uma mensagem para os organizadores da competição: havia decidido abandonar a corrida! O fato é que o velejador francês estava indo bem, e tudo indicava que ele tinha boas chances de vencer.  Mesmo assim, largou tudo e tirou aquele peso das costas.  Não gostava da civilização e queria ficar longe dela.  Como ele mesmo disse, para justificar sua decisão, “vou seguir em frente, sem escalas até as ilhas do Pacífico, porque me sinto feliz no mar; e também para salvar minha alma”.  Ele então mudou de rumo e continuou sua aventura marítima em direção, mais uma vez, ao Cabo da Boa Esperança, e de lá, para o Taiti.  Em outras palavras, deu uma volta e meia ao mundo, sozinho, num total de 37. 455 milhas, durante 10 meses, batendo todos os recordes.  Mas tudo isso por puro prazer! A única companhia que tinha era a de um corvo, com o qual conversava em alto mar.  Ele terminou essa que foi considerada por ele como um “jornada espiritual”, no Taiti, em 21 de junho de 1969, e iria escrever mais um livro, o seu La longue route, seul entre mers et ciels, lançado em 1971, considerado outro clássico do gênero.  Foi, sem dúvida, um dos maiores marinheiros de nosso tempo. 

“Você vê, Gonzalucho.  Ainda há homens como Moitessier.  São poucos, é verdade, mas eles nos dão alento e nos mostram que é possível viver com dignidade”. 

O sapo argentino ouvia tudo, sem dizer uma palavra sequer.  Apenas concordava com a cabeça.  E fumava.  Tudo em volta agora era silêncio.   

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.