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Edgard Carone: Bibliófilo Marxista

Edgard Carone fotografado por Nellie Solitrenick

Por Lincoln Secco.

Entre os historiadores marxistas, o mais citado e menos reconhecido pela Academia talvez seja Edgard Carone.

Sua  origem não lhe denunciava a adesão ao comunismo. Carone nasceu em 14 de setembro de 1923 na cidade de São Paulo. Cresceu na Rua Florêncio de Abreu. Naquelas imediações, sua  família de origem libanesa mantinha  comércio.

Nos anos de 1940, como vários de sua geração, recebeu influência da vitória da União Soviética contra a vertente militarista do fascismo, assistiu ao ressurgimento do Partido Comunista do Brasil (PCB), à organização dos intelectuais junto ao Congresso Brasileiro de Escritores e ao desenvolvimento da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), onde estudou História e Geografia.

Reprovado em Tupi, Carone abandonou o curso, assumiu a fazenda Bela Aliança em Bofete e, depois, estabeleceu-se em Botucatu. Nos anos de 1960 concluiu o  curso e iniciou carreira docente na Fundação Getúlio Vargas, Unesp e, finalmente, na sua própria universidade, a USP, onde foi professor titular de História do Brasil.

Historiador dedicado ao período republicano, ao movimento operário e à história do marxismo no Brasil, Carone era marcado principalmente pela  recusa de participação em falsos debates acadêmicos. Expunha seu trabalho através dos livros e não comentava os ataques velados que começaram a surgir depois de 1980, quando nova vertente historiográfica procurou outras abordagens do movimento operário.

Sua obra é essencialmente narrativa. Ele primeiro coletava e publicava os documentos, narrava a evolução política e analisava as classes sociais, sua posição econômica e as ideologias. O estilo era seco, direto, sem rodeios até surpreender o leitor com uma frase  dura que sintetizava a condição trágica de nossa história. Seu método foi apreendido em obras anteriores ao marxismo ocidental e na convivência com seus amigos Caio Prado Junior, Aziz Simão e Antonio Candido. Assim, o método só se desvenda dentro da própria narrativa. Carone era avesso a  introduções teóricas.

Ele foi acima de tudo bibliófilo de esquerda e, com Astrojildo Pereira, um dos primeiros historiadores das edições socialistas e comunistas. Manteve coleção de mais de 30 mil volumes sobre o movimento operário num apartamento na Vila Romana em São Paulo. Não gostava de emprestar livros e nem que algum visitante lhes tocasse muito. Por vezes, dava livros sem anúncios ou esperar agradecimento. Dava e pronto.

Edgard Carone faleceu em São Paulo, em 31 de Janeiro de 2003. O corpo, velado no Cemitério do Araçá e sepultado na Consolação, recebeu a homenagem do Núcleo de Estudos de O Capital – PT / SP, do PC do B e de seus familiares e amigos. A Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas deu seu nome a uma de suas salas de aula.

Ele nunca foi filiado ao Partido Comunista. Seu irmão, Maxim Tolstoi Carone liderou a juventude comunista nos anos de 1930. Mas aceitava as missões “intelectuais” que os comunistas solicitavam. Numa ocasião, participou de um debate sobre o Primeiro de Maio juntamente com Paula Beiguelman. Ambos deram verdadeiras aulas de história para os “alunos” apinhados no Sindicato dos Condutores, à Rua Pirapitingui. Terminada a conversa, foi Carone embora com suas sacolas na direção dos sebos da Praça da Sé.

As obras de Edgar Carone

Esta pequena bibliografia não inclui os inúmeros artigos publicados em revistas e jornais. Edgard Carone escreveu resenhas, críticas de cinema e artigos políticos e acadêmicos.

 Livros

A II Internacional pelos seus congressos (1889-1914). São Paulo: Edusp – Anita Garibaldi, 1993, 128 p.

O PCB. 1922 a 1943. São Paulo: DIFEL, 1982, 350 p. (Vol. 1).

O PCB. 1943 a 1964. São Paulo: DIFEL, 1982, 325 p. (Vol. 2).

O PCB. 1964 a 1982. São Paulo: DIFEL, 1982, 400 p. (Vol. 3).

Da esquerda à direita. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991, 230 p.

Socialismo e anarquismo no início do século. Petrópolis:  Vozes, 1996, 173 p.

O movimento operário no Brasil (1877-1944). São Paulo: DIFEL, 1979, 578 p. 2 edição: 1984, 486 p.

O movimento operário no Brasil (1945-1964). São Paulo: DIFEL, 1981, 276 p.

O movimento operário no Brasil (1964-1984). São Paulo: DIFEL, 1984, 314 p.

Classes sociais e movimento operário. São Paulo: Ática, 1989, 309 p.

O Marxismo no Brasil (das origens a 1964). Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986, 264 p.

Memória da Fazenda Bela Aliança. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991, 155 p.

Brasil: Anos de Crise. 1930 – 1945. São Paulo: Ática, 1991, 336 p.

O pensamento industrial no Brasil (1880-1945). São Paulo: DIFEL, 1977, 582 p.

Centro Industrial do Rio de Janeiro e sua importante participação na economia nacional (1827-1977). Rio de Janeiro: Cátedra, 1978,  196 p.

A  Evolução industrial de São Paulo (1889-1930). São Paulo: Ed. Senac, 2000, 198 p.

Revoluções do Brasil Contemporâneo (1922-1938). São Paulo: Desa editora, 1965, 174 p (Coleção Buriti, 11). 2 edição revista: São Paulo: DIFEL, 1975, 141 p. 3 edição, 1977, 141 p.

A República Velha. Instituições e classes sociais (1889-1930). São Paulo: DIFEL, 1970, 392 p. (Coleção Corpo e Alma do Brasil,  XXXI). 2 edição, revista e aumentada, 1972, 390 p. 3 edição,  com  apêndice, 1975, 390 p. 4 edição, 1978, 390 p.

A primeira república (1889-1930). Texto e contexto. São Paulo: DIFEL, 1969, 303 p. (Corpo e Alma do Brasil, XXIX). 2 edição revista e aumentada, 1973. 3 edição, com  apêndice, 1976. 4 edição, 1988.

A República Velha II. Evolução política (1889-1930). São Paulo: DIFEL, 1971, 483 p. (Corpo e Alma do Brasil, XXXIV). 2 edição, 1974. 3 edição revista e acrescida de índice onomástico, 1977. 4 edição, 1983.

A segunda república (1930-1937). São Paulo: DIFEL, 1973, 452 p. (Corpo e Alma do Brasil, XXXVII). 2 edição, 1974, 452 p. 3 edição, 1978, 452 p.

A república nova (1930-1937). São Paulo: DIFEL, 1974, 414 p. (Coleção Corpo e Alma do Brasil, XL). 2 edição, s.d.p. [1976]. 3 edição, 1982.

O Estado Novo. São Paulo: DIFEL, 1976, 387 p. (Coleção Corpo e Alma do Brasil, LI). Primeira reimpressão, 1977. 5 edição, 1988.

A terceira república (1937-1945). São Paulo: DIFEL, 1976, 585 p. (Coleção Corpo e Alma do Brasil, XLIV).

A república liberal I. Instituições e classes sociais (1945-1964). São Paulo: DIFEL, 1985, 390 p.

A república liberal II. Evolução política (1945-1964). São Paulo: DIFEL, 1985, 257 p.

A Quarta república. São Paulo: DIFEL, 1980, 587 p.

O tenentismo. São Paulo: DIFEL, 1975, 518 p.

Tese 

União e estados na vida política da Primeira república. Tese de Doutoramento apresentada ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidadede São Paulo(USP), 1971, 483 p.

Artigos em Livros, prefácios, separatas, coordenações etc

“A trajetória do manifesto Comunista no Brasil”, in: Marx, K. e Engels, F. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Novos Rumos, 1986, pp. 9-36.

“Bibliografia”, in: Gomes, Paulo Emílio Salles. Vigo, Almereida. São Paulo: Edusp, Companhia das Letras, pp. 167-170.

“Coleção azul, crítica pequeno burguesa à crise brasileira de1930”. Separata da Revista Brasileira de Estudos Políticos,  números 25/26, 1968-1969.

“Coordenação”,  in: Mussolini, Gioconda. Ensaios de antropologia indígena e caiçara. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980, 290 p.

“Os primórdios do movimento operário no Brasil (1820-1914). Caderno especial das  revistas Princípios e Debate Sindical. São Paulo, 1996, 31 p.

“Prefácio”, in: Deaecto, Marisa M. Comércio e Vida urbana na cidade de São Paulo (1889-1930). São Paulo: Senac,  2002, 235 p.

“Seleção, notas e bibliografia”, in: Simonsen, Roberto. Evolução industrial do Brasil  e outros estudos. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1973, 479 p. (Coleção Brasiliana, vol. 349).

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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. Colaborou para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras, durante o ano de 2011. Com esta coluna, o autor se despede temporariamente de seus leitores aqui no Blog.

Marighella

Por Lincoln Secco.

Como filmar a biografia de alguém que não deixou rastros nem imagens? O revolucionário brasileiro Carlos Marighella esteve quase sempre mergulhado na luta clandestina contra as ditaduras brasileiras.

A diretora do filme Marighella, Isa Grinspum Ferraz, logrou definir o herói que também é o seu tio, apanhando a dimensão política filtrada pelo cotidiano. Seu filme é montado em torno de pistas. A diretora concatena entrevistas, músicas, fotografias e cenas de época sem uma narrativa didática de nossa história. Ao contrário, a totalidade das contradições da sociedade brasileira se forma nos olhos do espectador a partir de uma bela colagem em que as fases de uma história de opressão e busca da liberdade são mediadas pela biografia de um personagem que foi capaz de expressar o seu tempo.

Poucos revolucionários brasileiros encarnaram ideologica e “biologicamente” o nosso povo, como acentua Antonio Candido em depoimento no filme. Carlos Marighella era italiano, negro, baiano, comunista e poeta. Homem de tantas dimensões já seria em si e por si mesmo difícil defini-lo. Como falar do revolucionário cuja maior parte da vida se passou na prisão ou na clandestinidade?

Entre tantos méritos, o filme tem o de mostrar Marighella como um quadro político de primeira ordem e não como um aventureiro.

Em suas análises, ele nos deixou um legado teórico de coragem, pois chamava a Ditadura pelo seu nome e não pelos eufemismos tão comuns na vida acadêmica de ontem e de hoje. Para ele, havia no Brasil uma tirania fascista. É claro que faltava ao Brasil uma mobilização de massa para sustentar tal análise. Como dizia Florestan Fernandes, nem isso as elites das classes dominantes tiveram capacidade de fazer. No entanto, quando Marighella usava a expressão “fascismo militar” estava optando por um “conceito forte”, capaz de mobilizar simultaneamente a leitura que desvenda a natureza do regime e a a prática que o denuncia.

Carlos Marighella, como os depoimentos do filme mostram, também cometeu erros de avaliação da conjuntura. Mas mesmo assim, sua opção pela tática da guerrilha urbana demonstrou-se essencialmente certa. Ele percebeu que o fascismo militar, ao impor-se pela violência e pelo terror, produzia o seu contrário: a violência revolucionária. No entanto, a violência dos guerrilheiros era, nos termos de Mao Tse-tung, justa, pois visava eliminar uma tirania.

Sem a luta dos guerrilheiros no Brasil, a ditadura poderia ter se estendido no tempo e restringido ainda mais suas opções de abertura controlada. É verdade que a Ditadura se utilizou da guerrilha como pretexto para recrudescer sua violência. Contudo, ela também usou o simples movimento pacífico de massas para isto. A guerrilha foi necessária acima de tudo para o povo. Com ela, os brasileiros mostraram que não sofreriam calados e que a coragem naquela altura tinha um nome: Carlos Marighella. 

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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Jacob Gorender

Por Lincoln Secco.

Poucos países têm uma tradição historiográfica marxista como o Brasil. Nelson Werneck  Sodré, Caio  Prado Junior, Edgard Carone, Emilia Viotti  da Costa, Alberto Passos Guimarães, Wilson do Nascimento  Barbosa,  Heitor Ferreira Lima e Leoncio Basbaum foram, em diferentes gerações, intérpretes que cultivaram a história numa perspectiva dialética e vinculada direta ou indiretamente a uma prática política.

Jacob Gorender é um exemplo tardio daquela “escola” tão variegada e até contraditória. Foi membro do PCB, integrou a Força Expedicionária Brasileira, foi dirigente comunista, esteve na URSS por ocasião do XX Congresso do  PCUS e, de volta ao Brasil, foi  um  dos redatores  da Declaração  de Março  de 1958,  a qual mudou a orientação revolucionária do partido no sentido de um caminho parlamentar  e reformista.

Depois do Golpe de 1964, Gorender dirigiu o PCBR, ao lado de Mario Alves. Preso, ele reinventou-se como intelectual. Não era um escritor. Seus artigos na Revista Fundamentos eram carregados da linguagem stalinista e caracterizavam o existencialismo, por exemplo, como filosofia de “degenerados e homossexuais”. Estudou a História do Brasil colonial e escreveu  uma obra polêmica e original: O escravismo colonial. Neste  livro, ele visava elevar a  historiografia marxista a  um novo patamar categorial e sistemático.

Criticou de maneira acerba a obra de Werneck Sodré e dele  recebeu  resposta  não menos dura  num  artigo  chamado “As  Desventuras da Marxologia”. Também  questionou as ideias de Caio  Prado Junior.

Embora sua obra seja polêmica, foi fruto de pesquisa  solitária e de ideias amadurecidas no cárcere com um objetivo claramente político: entender o  fracasso da estratégia dos comunistas brasileiros a partir da sua inadequada leitura de nossa história. Mas Gorender não rompeu ao menos com  uma linha de pesquisa dos comunistas brasileiros (excetuado Caio Prado): o estudo e a classificação das relações de produção internas.

Assim, Gorender se coloca no  interior da mesma problemática de Werneck Sodré,  Passos Guimarães e tantos outros, embora veja  com mais  simpatia o  único que, de  fato,  polarizou o debate com  aqueles autores: Caio Prado Junior.

Gorender ainda retornaria à polêmica com seu livro A escravidão reabilitada, a partir do qual teria como alvo  não mais o PCB e sim historiadores acadêmicos. A tese central do livro, no entanto, é a do abolicionismo como a expressão política da Revolução Burguesa no Brasil.

Sua obra mais importante, contudo, talvez seja Combate nas trevas. Livro escrito de maneira romanesca, mas sem  faltar com  a  verdade  histórica. Ainda  que  marcado pelas antipatias do autor (como é o caso  de sua crítica a Luiz Carlos Prestes) é uma obra difícil de ser igualada, pois combina a  testemunha ocular da história e o historiador dotado de um método analítico insuperável.

Em 1990 ele ensaiava novos passos. Escreveu Marxismo sem utopia e Marcino e Liberatore,  acompanhou a queda da  URSS quando viajava  por lá. Para  obter apoio diplomático brasileiro, obteve intermediação do então Deputado Federal Florestan Fernandes. Gorender filiou-se depois ao Partido dos Trabalhadores, com o qual já colaborava antes e deu respaldo às tendências da esquerda petista, escrevendo para  suas revistas e jornais. Ele participou de muitos  debates do  Núcleo de Estudos de O  Capital e da  Revista Práxis.  Gorender telefonava solicitando livros, referências, mas era generoso em suas preocupações com os jovens militantes. Mais recentemente, ele se dedica a compreender o Brasil numa  perspectiva crítica dos anos Lula.

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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Centenário de Nelson Werneck Sodré

"Se as Forças Armadas quiserem se reconciliar com a nação, deveriam começar por editar as Memórias do Soldado Nelson Werneck Sodré"

Por Lincoln Secco.

Cem anos depois, Nelson Werneck Sodré começa a ser resgatado do esquecimento a que a universidade brasileira o havia condenado. A USP, que tanto dissabor causava ao velho General, recentemente nomeou uma sala do seu Departamento de História com o nome dele, por iniciativa do Professor Marcos Silva, também organizador do Dicionário Crítico Nelson Werneck Sodré.

Para conhecer a trajetória de Sodré nada melhor do que ler o seu melhor livro: Memórias de um Soldado. Por ele observa-se o impacto da Revolução de 1922-1930 sobre a formação de toda uma geração de militares e civis que expressavam a rebeldia das classes médias.

Sodré assistiu à Revolução de 1932, a qual apoiou e depois criticou. Teve a experiência com a fascistização militar pós-1930, revoltou-se contra o racismo imperante no Colégio militar que seria erguido em São Paulo, ascendeu à Escola de Comando Militar por mérito nos anos de 1940, associou-se à chapa nacionalista ao Clube Militar nos anos de 1950 e seria por isso desterrado para Cruz Alta (RS).

Ali deu aulas de História Militar, comandou tropa e conquistou até mesmo a simpatia de um comandante conservador. Calou-se contrariado diante de uma ou outra injustiça do Exército contra pessoas pobres – o Major que já era engolia a seco aquilo que o jovem tenente teria questionado nos anos de rebeldia.

Werneck Sodré tinha simplesmente descoberto a necessidade de amparo político para fazer política, o que faltava aos nacionalistas, comunistas e ao próprio Getúlio Vargas! Ou seja, Vargas demonstrara que tinha radicalizado sua política sem um dispositivo militar correspondente.

Afastado no Governo Jango, passa à reserva como General de Brigada e dedica-se à Escola Nova de História no  ISEB.  Sofre o Golpe de 1964: o fascismo cotidiano, a humilhação de oficiais nacionalistas, a quebra da hierarquia e da disciplina pelos golpistas, a desonra das Forças Armadas, a submissão aos Estados Unidos e a ruptura com sua tradição supostamente democrática.

Se as Forças Armadas quiserem se reconciliar com a nação, deveriam começar por editar as Memórias do Soldado Nelson Werneck Sodré, um patrimônio da cultura brasileira.

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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

A edição brasileira dos Grundrisse

Por Lincoln Secco.

A tradução brasileira dos Grundrisse (Esboços da crítica da economia política) confere ao leitor a oportunidade única de adentrar a oficina do Mouro (apelido pelo qual Marx era chamado em seu círculo íntimo). Em nenhum outro escrito dele são tão perceptíveis a nudez dialética dos conceitos, seus sinuosos caminhos metodológicos e as abstrações mais elevadas.

Os Grundrisse foram escritos em 1857-1858 e editados na União Soviética em 1939-1941 (dois volumes). Depois da II Guerra Mundial saiu a edição alemã (Dietz Verlag, 1953). Com a emergência dos “vários marxismos” nos tumultuados anos sessenta vieram à lume a edição francesa (Anthropos, 1967-1968), italiana (La Nuova Italia Editrice, 1968-69), nova edição russa revisada (1968-69), inglesa (1971), norte-americana (1973) e espanhola (1971). Boa parte do material também saiu em francês nas Oeuvres (dois volumes) na majestosa edição Pleiade e aos cuidados de Maximilien Rubel.

A escolha da simples manutenção do título em alemão na capa da edição brasileira, sozinho, foi feliz, devido à dificuldade de encontrar um único vocábulo português equivalente ao termo alemão Grundrisse. Além disso, a obra assim ficou conhecida entre estudantes e estudiosos do marxismo.

A edição francesa de Roger Dangeville, por exemplo, recebeu o título de Fondements de La critique de l´economie politique e a italiana chamou-se Lineamenti Fondamentali della Critica dell´Economia Política. A edição espanhola da Siglo XXI, traduzida por Pedro Scaron, tinha como título Elementos Fundamentales para La Crítica de La Economia Política e ficou muito conhecida entre os marxistas brasileiros pelo seu subtítulo: “borrador”. Palavras, todas elas, que mostram a dificuldade acima citada de tradução dos rascunhos que compunham os manuscritos de Marx, isto porque não eram apenas “esboços”, mas o desenho de base de uma arquitetura nunca terminada e que daria origem ao empreendimento de O Capital.

Os Grundrisse permaneceram inéditos em português, salvo trechos publicados ao acaso, como a tradução das Formen (Formações que precedem a produção capitalista), a partir da versão inglesa de Eric Hobsbawm. Nesta edição brasileira o trecho se inicia na página 388, mas contrariamente à da Siglo XXI, as subdivisões editoriais do manuscrito não estão no sumário. Em compensação, há um índice onomástico.

A edição brasileira foi cuidada com esmero pela equipe da editora Ivana Jinkings e integra uma coleção que resgata, em traduções novas e diretamente do original, as obras mais importantes de Marx e Engels. Pode-se dizer que somente agora o leitor brasileiro começa a superar aquela longa fase de pobreza editorial que marcou o marxismo no Brasil.

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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Os Cadernos de Gramsci ou Pequena história acerca de como se salva um Livro

Manuscrito dos "Grundrisse", de Karl Marx

Por Lincoln Secco.

Ao ver a edição brasileira de um manuscrito de Marx que ficou tanto tempo oculto (Grundrisse) lembrei-me do caso igualmente notório de Antonio Gramsci, mas cuja obra foi rapidamente publicada. Não sem passar por desventuras. Afinal, quantos livros não se perderam para sempre e deixaram de mudar a visão que temos da história?

Conta-se que um homem carregava consigo os diários de guerra de Jean-Paul Sartre. Ele embarcou num trem e, ao descer, os esqueceu. Só uma parte dos mesmos havia sido conservada e foi publicada uns 40 anos depois. O que teria acontecido àqueles diários? Destruídos ao acaso? Quem os encontrou nunca desejou mostrá-los? A História está plena de livros que se perderam pelos mais variados motivos (veja-se Arlette Elkaim-Sartre. Nota prévia em: J.P. Sartre. Diário de uma guerra estranha. Novembro de 1939-março de 1940. São Paulo: Círculo do Livro, 1987).

Felizmente, os Cadernos do Cárcere, de Antonio Gramsci, tiveram outra sorte.

No dia 7 de dezembro de 1933, depois de pedidos insistentes e uma campanha internacional a respeito de suas precárias condições de saúde, Antonio Gramsci foi finalmente transferido da prisão de Turi para uma clínica em Formia. A preocupação do detento era com seus livros. Especialmente com seus cadernos manuscritos. Temia que a direção do cárcere lhe confiscasse tudo o que havia escrito ou lido. Preparou uma operação: enquanto ele mesmo distraía seus carcereiros, um jovem amigo de cela, Gustavo Trombetti, enfiava os cadernos embaixo das roupas, no fundo da mala.

Quando Antonio morreu em 27 de abril de 1937, ele deixou na clínica onde passou os últimos dias lancinantes da vida, os seus livros. Livros lidos e escritos. Livros do presente e do passado. E aqueles do futuro, de sua lavra, os cadernos que viriam a ser publicados. Piero Sraffa, seu amigo e correspondente, interpelou o centro exterior do Partido Comunista da Itália sobre o que fazer com os manuscritos gramscianos. Palmiro Togliatti (cujo pseudônimo era Ercoli) escreveu-lhe falando com veemência da herança política e literária de Antonio. Decidiu-se enviá-los a Giulia, esposa de Antonio, em Moscou (o que significava, em verdade, fazê-los chegar a Ercoli). Escrevendo a Tatiana, cunhada de Antonio, Piero a aconselhou a cuidar muito da segurança do transporte dos manuscritos. Seria preciso um transporte “seguríssimo”. Quando Piero chegou à Itália, em junho, ele cuidou para que os cadernos do cárcere ficassem sob custódia no cofre de um banco (Banca commerciale). O presidente do banco era um antifascista e amigo de Piero Sraffa.

Segundo um notável historiador italiano (Paolo Spriano. Gramsci in carcere e il partito. Roma: L’Unità, 1988, pp.104-5), os cadernos permaneceram no cofre por um ano. Neste período Tatiana fez várias instâncias a fim de tomar posse também dos livros que Antonio possuía na prisão. Depois disso, providenciou um baú no qual os cadernos chegaram a Moscou. Lá, Vincenzo Bianco, representante italiano na Internacional Comunista, retirou pessoalmente os escritos e os entregou a Ercoli. Foi assim que os cadernos de Antonio Gramsci foram salvos.

No entanto, a forma de sua edição até hoje causa polêmicas, pois sabemos que a mediação editorial nunca é inocente. Os livros de Gramsci foram agrupados por temas (Edição Togliatti – Platone), colocados na ordem espacial dos cadernos originais (edição Gerratana), assim como se tenta ainda hoje estabelecer a ordem cronológica em que foram escritos (veja-se a pesquisa de G. Francioni na Itália). Até mesmo a nova edição brasileira aproveitou parte da temática de Togliatti e combinou-a com a edição crítica.

De toda maneira, ter os livros editados em qualquer forma é sempre melhor do que não tê-los, mas num momento editorial especial como este, em que a Boitempo e outras editoras buscam editar Marx a partir de traduções  do  original alemão, seria bem-vinda uma edição crítica dos Cadernos do Cárcere, ou seja, a tradução do majestoso trabalho de Valentino Gerratana e de seu aparato crítico.

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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

A crise do livro

"Torre de Babel" construída com livros, em Buenos Aires, pela artista Marta Minujin

Por Lincoln Secco.

Para Ivana Jinkings, editora marxista.

Nada inquieta mais um leitor contumaz e bibliófilo pobre do que a perspectiva da leitura digital. É bem verdade que o advento da Televisão já prognosticava o fim do livro com suporte de papel. E é certo que a invenção da imprensa destronou para sempre o manuscrito (embora não com a rapidez que se imagina).

A produção do livro atingiu alturas inimagináveis com a III Revolução Industrial. O barateamento e a diminuição do ciclo de rotação do capital fixo e circulante invertido na edição e, por fim, o livro eletrônico ou disponível virtualmente on demand mimetizaram processos que ocorrem na indústria em geral: Just in time, salário por peça (terceirização) etc.

O ramo livreiro, no entanto, ainda guarda muito espaço para o artesanato e a atividade do escritor não se submete realmente ao capital. Daí por que é difícil prefigurar o fim do livro em papel.

Como disse recentemente Gunther Grass, muito provavelmente o livro voltará a ser o que era até o século XIX e um pouco depois: um bem valioso que se coleciona e se deixa como herança aos filhos. Um livro assim voltará a ser belamente encadernado. O prazer de ler também voltará a ser estético e físico.

Quanto ao conteúdo, é possível que só autores clássicos ou pensadores críticos e profundos venham a ter livros em papel. O livro virtual viverá muito bem nos futuros meios de informação que ainda sequer imaginamos. Hoje já se pode dizer que a maior parte das teses acadêmicas que são “publicadas” on line não precisam ser editadas em papel. Algumas o são por pura vaidade do autor ou porque as bancas de concurso de docentes talvez ainda valorizem edições tradicionais. Mas isto vai mudar e o autor não precisará pagar editoras ruins para lançar obras previsivelmente encalhadas. O que não implica que sejam inúteis. Elas serão mais pesquisadas através de programas “varredores” especializados da internet em busca de dados precisos.

Da mesma maneira, os Best Sellers dirigidos a públicos que lêem obras que são produtos de campanhas publicitárias e pesquisas de mercado, terão mais abrigo na internet e a razão é simples: ninguém relê Sidney Sheldon hoje em dia, assim como ninguém sabe quem foi Otavio de Feuillet ou Humberto de Campos, palavrosos e bem sucedidos escritores de suas épocas. Mas todos precisam retomar Dom Quixote ou Macunaíma. Estes viverão virtualmente para os leitores que quiserem fazer deles o uso prático (o mais conhecido é o resumo para vestibulares), mas serão lidos e relidos em papel pelos que preferirem refletir sobre a literatura.

O e-book é uma benção, pois vai diminuir o custo ecológico do livro, salvando árvores que eram consumidas por livros de consumo rápido e frenético. Afinal, na rede (virtual) tudo se faz com rapidez. Na rede (real) tudo se faz com prazer.

Sebos

O maior exemplo da pletora inútil de livros que se excederam no século XX são os sebos paulistanos. Acúmulos notáveis de obras magníficas ao lado de outras que nunca deveriam ocupar tanto espaço.

É provável, portanto, que na nova era do livro, os sebos se tornem de novo antiquários de belas encadernações e raridades recônditas. Seus desvãos voltarão a ser motivos de encontros inesperados.

Um exemplo era o sebo Lisboa, o mais barato de São Paulo, porém com obras seletas. Situava-se na Rua José Bonifácio, na ladeira que desaguava numa solitária entrada do metrô Anhangabaú. Lettres de Marx e Engels a preço de banana, coleção paulística e livros da José Olympio estavam sempre por lá.Antonio Lisboa, o dono pernambucano, tinha um cortiço na Vila Mariana. Era dono do local onde seu sebo se instalara. Esse era o segredo para vender barato, dizia ele. Tinha começado como simples vendedor de enciclopédias de portaem porta. Em fins dos anos sessenta criou o seu sebo. Era conservador politicamente e fingia não se interessar pelos títulos. Mas seus preços baixos selaram para sempre a sorte do local. Saiu sem fazer alarde e desapareceu. Depois, o Brandão tentou abrir ali uma filial, mas como os preços do Brandão são famosos pela altitude inatingível, ninguém mais freqüentou o lugar e aquilo virou depósito.

Os depósitos de livros, estes sim desaparecerão. Os livros do futuro, estes serão eternos.

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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Política sans phrase

Por Lincoln Secco.

Uma das descobertas de Karl Marx é que a política se desenrola no  palco da igualdade jurídica. Mas a esfera celestial do Direito vela o mundo terreno das desigualdades materiais.

Palco é a palavra certa para a política, esta representação alienada da vida como ela é. Daí porque Marx utiliza uma linguagem teatral em sua obra recém lançada pela Boitempo Editorial (O 18 de brumário de Luís Bonaparte). Ele se refere ao pano de fundo da cena, à caricatura, à tragédia, à farsa, à comédia parlamentar e até ao bufão. A cena oficial burguesa se opõe à intriga real dos bastidores. Ela é a frase.

Assim, o Velho Mundo dos espíritos europeu acostumou-se à fraseologia parlamentar e à sua ficção de direitos humanos. Bem, não era mera ficção para os que os desfrutavam de fato. Acontece que o antípoda daqueles direitos, ao  contrário do que Marx imaginava, não estava mais na classe operária europeia, mas na periferia mundial.

Nesta, a política esteve aquém da frase. A burguesia do “Novo Mundo” simplesmente não disfarçou. Ela assassinava, torturava e rasgava periodicamente sua própria Constituição.

Os cândidos daqui e do lado de lá afirmavam que o futuro da periferia era se igualar ao centro, como se este fosse o destino daquela. Especialmente se ela adotasse eleições livres e seguisse as receitas do livre comércio…

Recentemente, o Governo dos EUA assassinou Osama Bin Laden e alguns incautos que conviviam com ele. Violou a soberania do Paquistão, fuzilou o alvo e, como todos os criminosos bem sucedidos, sumiu com o corpo. Técnica diferente foi usada dias antes pela OTAN na tentativa de matar Muammar Khadafi: conseguiu tirar a vida de seus netos. A política sem mais (sans phrase), reduzida à atividade mafiosa, promove de vez em quando suas queimas de arquivo. E não se importa com inocentes.

Para os candidos, talvez o mais curioso seja o abandono da frase também no centro. O deputado republicano Peter King afirmou que foi a técnica do afogamento (Waterboarding) que “nos levou a Bin Laden”. E o diretor da CIA, Leo Panetta, afirmou candidamente que torturou no passado recente, embora não saiba se há uma conexão entre a tortura e as informações obtidas agora.

Aprendemos assim que as ditaduras da América Latina ou do Oriente Médio apoiadas pelos EUA não são o passado de barbárie a ser superado, mas o futuro das próprias “democracias” do hemisfério norte.

Sem a resistência do sul, a sofisticada barbárie de europeus e estadunidenses persistirá. Para salvá-los deles mesmos, aqui o conteúdo terá que, finalmente, ir além da frase.

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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Les Luttes de Classes dans Les Toilettes

Na primeira quinzena de abril, funcionários de empresa de limpeza terceirizada protestaram na USP contra a falta de pagamento de seus salários, revirando as latas de lixo no chão da Universidade. (Fotografia: Rodrigo Paiva/UOL)

Por Lincoln Secco.

Podemos agora reler cuidadosamente O 18 de brumário de Luís Bonaparte que aeditora Boitempo acaba de lançarem nova tradução. Mas não podemos deixar de dizer que, apesar de sua genialidade, Karl Marx não imaginou até onde chegariam as lutas de classes em França ou fora dela.

Bem, elas simplesmente chegam aonde é necessário.

Recentemente, a Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP foi palco de um protesto “sujo”. As funcionárias de uma empresa terceirizada de limpeza estavam sem receber seu salário. Diante disso, juntamente com alguns estudantes elas viraram os cestos de lixo e inundaram o prédio de História com os rejeitos que raramente aparecem aos olhos de quem os produz.

Todos ficaram justamente indignados quando viram o que havia dentro da lata de lixo da história.

Não é preciso dissertar sobre qual seria a responsabilidade jurídica do Estado perante funcionários terceirizados que trabalham em suas dependências e nem mesmo sobre a legalidade do ato para reconhecer sua legitimidade. Talvez errado na forma, ele foi certo no conteúdo. Afinal, não é tolerável fazer um trabalho degradante e nem receber por isso.

Longe do lixo, seria mais aprazível retomar um “antípoda” de Karl Marx: Alexis De Tocqueville em suas Lembranças de 1848. Tanto quanto Marx, ele narrou vivamente alguns episódios da Primavera dos Povos. Mas de uma perspectiva política contrária.

Naqueles dias tempestuosos ele encontrou seu amigo Adolphe Blanqui, então um próspero economista. Adolphe era irmão do revolucionário permanente Auguste Blanqui, descrito pelo próprio Tocqueville no dia da tomada do parlamento como uma figura horrenda sob todos os aspectos.

Mas Adolphe também tinha coração. Certo dia, ele viu um jovem provinciano vivendo em extrema miséria e resolveu “adotá-lo” como parte da criadagem de sua residência em Paris.

Quando começou a insurreição de junho de 1848, era uma quinta feira. Esgueirando-se pelos meandros da casa, Adolphe ouviu um diálogo na cozinha entre aquele rapaz e uma de suas jovens empregadas. Dizia o jovem desaforado: “No domingo que vem, seremos nós que comeremos as asas do frango”. Ao que a moça retrucou: “E seremos nós que usaremos belos vestidos de seda”.

Para Tocqueville o que havia de mais surpreendente na história não era a insolência daquele par, mas o fato de que Adolphe não tivesse coragem de surpreendê-los e expulsá-los naquele momento. Eles o atemorizavam. Só depois quea classe operáriaparisiense foi esmagada nas ruas é que o respeitável economista teve a “coragem” de botá-los para fora de sua casa.

A luta de classes não é algo tão abstrato que habite apenas os discursos e os livros. Às vezes, ela se insinua no mais inesperado cotidiano. Ettore Scola em seu filme La Cena (“O jantar”) teve o mesmo bom gosto de Tocqueville ao situá-la na cozinha onde um velho chef comunista lançava seus impropérios.

Na Universidade, as lutas de classes, expulsas das salas de aula, resolveram voltar de forma mais incômoda: pelo banheiro.

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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP.

Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.