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O enigma do precariado e a nova temporalidade histórica do capital – Parte 1

Por Giovanni Alves.

Na medida em que incorpora o fetichismo da mercadoria, o capital como modo estranhado de controle do metabolismo social, permeia o mundo social com enigmas e mistificações que nos provocam. Por isso, a necessidade hoje, mais do que nunca, da consciência crítica capaz de apreender, com radicalidade dialética, processos sociais que surgem na nova temporalidade histórica do capital. Na verdade, no decorrer dos “trinta anos perversos” (1980-2010) de capitalismo global, o neopositivismo e o pós-modernismo debilitaram a consciência crítica dos intelectuais, principalmente nos países capitalistas mais desenvovidos, onde o poder da ideologia tendeu a ser maior, impedindo, deste modo, a percepção clara do significado radical de enigmas que permeiam o capitalismo global. Um deles é o enigma do precariado, a nova camada social da classe do proletariado que se manifesta hoje, com intensidade e amplitude, nos países capitalistas centrais.

Deve-se entender primeiro o precariado como sendo uma camada social da classe do proletariado tardio. Trata-se, portanto, de uma camada social e não de uma classe social, como alguns autores parecem sugerir (por exemplo, Guy Standing, autor de The precariat – The new dangerous class, Bloomsbury Academic, 2011). O surgimento e ampliação do precariado nos países capitalistas mais desenvolvidos (União Europeia, EUA e Japão), dá visibilidade à explicitação universal da condição de proletariedade como condição existencial de homens e mulheres que vivem sob a ordem burguesa tardia.

A “condição de proletariedade” designa a condição existencial objetiva historicamente constituída pelo modo de produção do capital e no interior da qual pode (ou não) se constituir o sujeito histórico de classe. A condição de proletariedade é uma categoria social descritiva dos atributos existenciais das individualidades pessoais de “classe” subsumidas ao modo de produção capitalista. A condição de proletariedade é constituida por uma série de atributos histórico-existenciais que se disseminam pela sociedade burguesa: subalternidade, acaso e contingência, insegurança e descontrole existencial, incomunicabilidade, corrosão do caráter, deriva pessoal e sofrimento. Podemos destacar ainda outros traços histórico-existenciais como risco e periculosidade, invisibilidade social, experimentação e manipulação, prosaísmo e desencantamento.

Estar imerso na condição existencial de proletariedade não significa necessariamente pertencer à classe social do proletariado, mas apenas ser proletário, ou seja, ser homem e mulher da “multidão” que pertence à “classe” do proletariado (com aspas). A “multidão” designa o contingente de individualidades pessoais imersas na condição de proletariedade. A “multidão” expressa o ser-aí (dasein) de homens e mulheres reduzidos objetivamente à condição de alienação/estranhamento social. A “multidão” se constitui como classe “em-si” ou “para si” quando se organiza, resiste e luta, em si e para si, como sujeito histórico de classe capaz de mudança social contra a condição de proletariedade. A constituição do “em-si” e “para-si” da classe percorre um longo (e complexo) continuum que vai da contingência à necessidade histórica.

Além de dar visibilidade candente à condição de proletariedade como condição existencial universal no mundo social do capital em sua fase de crise estrutural, o surgimento e ampliação do precariado expõe a verdadeira natureza da crise estrutural do capital, isto é, a contradição radical entre desenvolvimneto das forças produtivas e irrealização estrutural das promessas civilizatórias do capital. O que significa que o precariado é a expressão social suprema do fenomêno do “estranhamento” (na acepção de Lukács). Para o filosófo húngaro o “estranhamento” ocorre na medida em que o desenvolvimento das forças produtivas sociais do trabalho, ou da capacidade humana em reduzir as barreiras naturais, não propiciam o desenvolvimento da personalidade humana, mas sim, pelo contrário, seu aviltamento e dilaceração em virtude da manipulação de alta intensidade e amplitude que caracteriza o capitalismo tardio.

O precariado é a “multidão” da era do capitalismo pós-moderno que incomoda as classes dominantes do Primeiro Mundo. Sob a crise do capitalismo global, a “multidão” do precariado surge com mais intensidade e amplitude na semi-periferia do núcleo orgânico do sistema mundial do capital (por exemplo, Portugal, Espanha, Itália e Grécia, onde se explicitam com vigor as contradições mais candentes da ordem burguesa). Na verdade, poderiamos dizer que em países como Portugal e Espanha, encontramos os casos mais extremos de manifestação social do precariado na década de 2000. Por exemplo, a manifestação da “geração à rasca” ocorrida em Lisboa em 12 de março de 2011, reuniu cerca de 300.000 jovens, homens e mulheres protestando contra a precariedade social. A manifestação da “geração à rasca” nos idos de março de 2011 tornou-se um momento exemplar, fugaz e precioso, de desvelamento da “multidão” do precariado português. Assim, em Portugal, ao mesmo tempo em que aumentou, na década de 2000, o contingente de jovens altamente escolarizados, cresceu pari pasu, a camada social de trabalhadores precários (em 2010 cerca de 54, 6% dos trabalhadores assalariados na faixa etária dos 15 a 24 anos, possuíam vinculo laboral precário, isto é, contratos de trabalho a termo, trabalho temporário ou ainda “falsos” recibos verdes, uma modalidade de contratação laboral como “autônomo”, só que sem nenhum direito trabalhista). A “flexibilização” do emprego nestes países da semi-periferia europeia visa reduzir os custos do fator trabalho, o que é visivel nas diferenças de rendimento entre trabalhadores sob contrato permanente, não permanente e temporário. A crise financeira de 2008 e as políticas de austeridade neoliberal só aceleraram o declínio da “classe média” assalariada, expondo a proletariedade extrema de jovens-adultos homens e mulheres inseridos na nova precariedade salarial.

O precariado é constituído por jovens-adultos altamente escolarizados, desempregados ou possuindo vínculos de trabalho precários. Ele se distingue de outras camadas sociais da classe do proletariado como, por exemplo, a camada dos trabalhadores assalariados “estáveis”, em sua maioria organizado em sindicato ou organizações profissionais e que têm acesso a benefícios e direitos trabalhistas, além de perspectiva de carreira e consumo. O precariado se distingue também da camada social dos trabalhadores assalariados precários de baixa escolaridade e pouca qualificação profissional que caracterizou amplamente o proletariado industrial e de serviços no século XX. Finalmente, podemos dizer que o precariado se distingue também da camada social dos trabalhadores assalariados adultos com mais de 40 anos, com alta qualificação profissional, desempregados ou inseridos em vínculos de trabalho precários.

Deste modo, o precariado possui uma delimitação precisa, isto é, são constituidos por jovens-adultos – na faixa etária dos 20-40 anos – altamente escolarizados e “pobres” na acepção convencional, isto é, objetivamente inseridos em estatutos salariais precários. Portanto, eles são jovens-adultos, cultos e pobres: eis os traços distintivos dos homens e mulheres assalariados que constituem a camada social do precariado. Por serem jovens-adultos altamente escolarizados, eles possuem uma carga de expectativas, aspirações e sonhos de realização profissional e vida plena de sentido.

Preferimos utilizar o conceito de “precariado” ao invés do conceito de “infoproletários” para caracterizar a nova camada social do proletariado tardio que se amplia nas condições da precarização estrutural do trabalho que caracteriza o capitalismo global. Consideramos que o termo “infoproletários” possui viés tecnologista na medida em que tende a demarcar (pelo prefixo “info-”) a inserção de classe do novo (e precário) mundo do trabalho pela organização tecnológica do trabalho. Ao contrário, preferimos demarcar as novas camadas proletárias pelas relações de trabalho baseadas em contratos salariais precários. As novas relações de trabalho que surgem no capitalismo global sob a vigência do trabalho flexível, caracterizam-se por formas de contratos salariais precários, modos de remuneração e jornada de trabalho flexíveis que alteram o metabolismo social de homens-e-mulheres-que-trabalham. É o sociometabolismo do trabalho precário de cariz flexível que constitui a natureza da nova camada social do proletariado: o precariado.

Na medida em que os ditos “precários” são filhos da “classe média”, vindo, em sua maioria, de ambientes familiares cujos pais eram ou são trabalhadores assalariados estáveis do setor público ou privado, ativos ou aposentados; ou mesmo profissionais liberais e pequenos proprietários, o precariado expressa, em si e para si, a crise e decomposição da “classe média” considerada, outrora, lastro social e político do capitalismo social-democrata. Por outro lado, enquanto filhos da “classe média”, o precariado encontra-se “protegido” das intempéries da precariedade salarial, constituindo a “geração casinha dos pais”, como diz a canção “Parva Que Eu Sou”, dos Diolinda (“Se já tenho tudo, para que querer mais?”). O que significa que, muitos dos “precários” vivem até os 30 ou 40 anos na casa dos pais tendo em vista que, em sua maioria, não possuem autonomia financeira para terem sua casa própria e constituir familia (“Filhos, maridos, estou sempre a adiar”, como diz a canção). Ao serem amparados pelos pais, os ditos “precários” são beneficiários da dita “sociedade-providência”. Para o sociologo Boaventura de Sousa Santos, “sociedade-providência” é uma forma de capital relacional constituído pelas redes de relações de interconhecimento, de reconhecimento mútuo e de entreajuda baseadas em laços de parentesco e de vizinhança. Utilizando dados do European Social Survey de 2008, Boaventura de Sousa Santos observa que, de 110 inquiridos em Portugal que estavam desempregados e ativamente à procura de emprego, 62% tinham nos salários dos outros membros do agregado ou noutros rendimentos familiares a sua fonte de subsistência, contra 22% que viviam do subsídio de desemprego, 10% de pensões e 5% de outras prestações sociais.

Na medida em que são a “geração casinha dos pais”, os ditos “precários” não conseguem completar o ciclo de socialização da vida adulta tendo em vista que mantém laços de dependência familiares. A incompletude da socialização adulta dos “jovens-adultos flexíveis”, com o prolongamento do tempo de juventude, tende a ter implicações sociais, culturais e psicológicas sobre o modo de ser/estar “precário”. Na verdade, a perda da cidadania salarial fordista para amplos contingentes do mundo do trabalho sob o capitalismo global significou talvez a última etapa do processo de erosão do ideal de família burguesa constituído no pós-guerra. A erosão do ideal de familia “Papai Sabe Tudo” (Fathers Knows Best) – familia de “classe média” retratada na série homônima de TV norte-americana dos anos 1950, onde o homem era o provedor em torno do qual se organizava o núcleo familiar – começou efetivamente na década de 1960 com a entrada da mulher no mercado de trabalho. Ao tornar-se provedora, a mulher passou a disputar com o homem o papel hegemônico no espaço do lar. Mais tarde, com a expansão do precariado e a dificuldade de inserção no mercado de trabalho estável dos jovens-adultos filhos de “classe média”, aprofundou-se a crise do modelo familiar originário da civilização burguesa fordista.

Na medida em que são trabalhadores assalariados precários, isto é, não têm acesso a cidadania salarial, isto é, aos benefícios e direitos trabalhistas que caracterizaram o Estado de Bem-Estar Social do pós-guerra, os ditos “precários” encontram-se deslocados objetivamente – embora não subjetivamente – do horizonte de expectativas criado pela “miragem” social-democrata, isto é, a ideologia política sedimentada na ideia de conciliar capitalismo e bem-estar social. O precariado vive a experiencia do mal-estar da pós-modernidade (como diria Zygmunt Bauman).

Primeiro, a socialização pela educação como capital humano incutiu-lhe um horizonte de expectativas baseado na obtenção do diploma de curso superior, construção de carreira profissional a partir de emprego estável, com um rol de benefícios e direitos trabalhistas. Inclusive, a passagem para a vida adulta era alcançada com a obtenção do estatauto salarial formalizado pelo Estado social-democrata que garantia direitos trabalhistas e identidade de cidadania social e política. Portanto, a equação social que legitimava a democracia social burguesa no pós-guerra nos polos mais desenvolvidos do sistema mundial do capital era constituída pelo trinômio (1) educação superior (2) emprego/carreira profissional e, last but not the least, (3) consumo como ethos consumista.

Interessa-nos salientar como um aspecto importante da consciência social do precariado, a subjetivação de vínculo mercantil. Eles representam, em si e para si, a condição de “sujeitos monetários sem dinheiro”. O que significa que, no plano da consciência de classe contingente, a “multidão” do precariado tende a possuir uma consciência liberal – à esquerda ou à direita. Um detalhe: segmentos minoritários da camada social do precariado podem tornar-se, nas condições da crise estrutural do capital, esteios do “fascismo social”.

Na medida em que a “multidão” do precariado, em si e para si, encontra dificuldades objetivas para constituir o em-si da classe, tendo em vista que falta-lhes organização sindical capaz de representá-los nas instâncias políticas do sistema, diluindo portanto seu poder de barganha no plano corporativo, a própria classe social do proleteriado tende a se enfraquecer no plano social da luta de classes. Nas condições da metrópole capitalista, as dificuldades de passagem da “multidão” para “classe social” tornam-se candentes. Portanto, a ampliação da camada social do precariado nos países do capitalismo mais desenvolvido hoje, é sintoma do debilitamento radical da classe social do proletariado como sujeito histórico capaz de “negação da negação”. Por isso, a organização social e política do precariado constitui hoje tarefa fundamental para a formação da classe e luta de classes nas condições de crise do capitalismo global em seus polos mais desenvolvidos.

O caráter de subjetivação mercantil que caracteriza a camada social do precariado, com seus vínculos atávicos com a formação ideológica da “classe média” e sua “consciência tranquila” (como diria Marcuse), permite-lhes serem considerados efetivamente “sujeitos monetários sem dinheiro”. Por um lado têm a perspectiva da boa vida, que só o dinheiro pode permitir; por outro lado, não possuem capacidade aquisitiva suficiente capaz para realizar o ethos consumista disseminado na sociedade burguesa. Portanto, são demasiadamente suscetíveis à frustração com todas as implicações que isso possa acarretar. A “consciência tranquila” que caracterizou a “classe média” assalariada ou pequeno-burguesa do capitalismo fordista-keynesiano, interverte-se, no caso do precariado, na “consciência intranquila” de jovens-adultos frustrados com o sistema social da ordem burguesa neoliberal que não os reconhece como “cidadãos salariais”.

Na verdade, o crescimento da camada social do precariado nas condições da crise estrutural do capital expõe, de modo particular, a crise de reprodução social do capitalismo global no seu polo mais desenvolvido. É importante salientar que a crise estrutural do capital não se reduz à crise do modo de produção/acumulação de capital, mas significa também – e principalmente – crise estrutural do modo de controle estranhado do metabolismo social do capital, isto é, crise de sociabilidade que expõe os rompimentos dos laços de socialização constituído em cima das expectativas e sentidos da ação dos indivíduos sociais.

Portanto, o que a ampliação da camada social do precariado nos países capitalistas mais desenvolvidos explicita com vigor é que a crise capitalista é uma crise do capitalismo como horizonte de reprodução social, ou ainda, crise dos valores-fetiches que constituíram a ordem burguesa fordista-keunesiana. A ampliação da camada social do precariado expõe, deste modo, rupturas na estrutura ideológica (e política) de reprodução social da ordem burguesa. Constitui-se um horizonte de percepção crítica da ordem do capital que abala a coesão social que caracterizou as sociedades do Welfare State. O precariado como a “classe perigosa” que inquieta a ordem burguesa, expõe a seu modo, o horror da proletariedade que caracterizou outrora o surgimento do capitalismo industrial (com a diferença de que, por exemplo, o proletariado industrial de origem agrária que viveu a Primeira Revolução Industrial, não expressava sentimento de frustração ou indignação diante do “moinho satânico” do capitalismo industrial com seu factory system – o que ocorre hoje com o precariado).

Entretanto, por outro lado, o surgimento da camada social do precariado, a “classe perigosa” na acepção de Guy Standing, repõem, noutro patamar sociometabólico, a efetividade do fetichismo da mercadoria. No plano contingente, o precariado possui afinidades eletivas com a nova ordem do capitalismo manipulatório. Diante das rupturas (ou rachaduras) do metabolismo social da ordem burguesa tardia, surgem novos mecanismos de manipulação e reposição de “experiências expectantes” e valores-fetiches capazes de permitir a reprodução do capital em escala global. Ora, a crise de reprodução social é momento histórico de afirmação de novos valores-fetiches, sonhos e expectativas de mercado capazes de resignificar o controle estranhado do metabolismo social do capital. Deste modo, sob o capitalismo manipulatório com sua “sociedade em rede”, dissemina, numa proporção inaudita na história humana, o tráfico de sonhos e expectativas de mercados capazes de criar um novo horizonte de realização pessoal estranhado.

Nos últimos “trinta anos perversos” de capitalismo global, sob a nova temporalidade histórica do capital, ocorreu a troca espúria dos sonhos coletivos e utopias sociais que caracterizaram o movimento juvenil da contracultura nos anos 1960 no período de crise do fordismo-taylorismo, pelas utopias pessoais, expectativas e valores-fetiches de mercado disseminados pela ordem burguesa neoliberal. Nos locais de trabalho, a ideologia do taylorismo-fordismo deu lugar ao espírito do toyotismo como nova implicação subjetiva da manipulação do capital (manipulação de cariz efetivamente moral tendo em vista que se trata de elaborar implicações consensuais mediada por valores – os valores-fetiches).

Nas condições do capitalismo global, a garantia do emprego interverteu-se na mera empregabilidade. O precariado vive na era do neodarwinismo, ideologia tardo-burguesa que instiga, no plano social, o espírito de concorrência individual. A palavra de ordem no mundo neoliberal é competitividade. É pela concorrência no mercado que o homem burguês tardio, como autoempreendedor, se afirma como individualidade pessoal de classe.

Entretanto, o surgimento e afirmação dos valores-fetiches de mercado, que ocorreu sob o capitalismo global, com a hegemonia social do espírito do toyotismo, não derivou apenas do débacle do movimento social e político da contracultura com suas utopias coletivas ou derrota dos movimentos radicais de contestação da ordem burguesa nas lutas de classes dos anos 1960 e 1970, mas sim da crise estrutural do capital com a falência do modelo fordista-keynesiano de desenvolvimento capitalista e a erosão das promessas de realização pessoal das individualidades de classe por meio da equação educação-como-capital-humano, emprego-como-carreira-profissional e consumo-como-ethos-consumista.

Com a crise profunda da civilização burguesa fordista-keynesiana, colocou-se a necessidade sistêmica, no plano ideológico, de restaurar a eficácia do fetichismo da mercadoria. Deste modo, ocorreu a reposição do fetichismo da mercadoria e seu segredo. O espírito do toyotismo – que dissecamos no livro Trabalho e Subjetividade (Boitempo Editorial, 2011) – tornou-se hegemônico nos corações e mentes da geração do precariado. A geração Y tendeu a incorporar, em sua maioria, os valores-fetiches do individualismo liberal.

O poder da ideologia assumiu proporções inauditas na ordem burguesa tardia, operando principalmente no espectro moral-intelectual. É na frequência da moralidade (Sittlichkeit) que o capital como modo de controle do metabolismo social estranhado opera os consentimentos espúrios à ordem burguesa global (o que não significa que não haja reações contra-hegemônicas como, por exemplo, os movimentos sociais do precariado que, mesmo com seus limites ideológicos irremediáveis, buscam criticar, de modo coletivo, a ordem da precariedade salarial).

Nas condições da reposição do fetiche salarial, o discurso da empregabilidade e competitividade é disseminado. Na medida em que, no plano da consciência social contingente, a “geração precária” possui uma consciência liberal, tendo em vista que são plenamente “sujeitos monetários” que habitam a metrópole com seus templos de consumismo, a manipulação intensiva e extensiva na “sociedade em rede” e a própria condição salarial com seus vínculos empregatícios intermitentes, tornam-se obstáculos à formação em-si e para-si, da classe social do proletariado.

Deste modo, o precariado torna-se alvo privilegiado da manipulação insana e sutil que visa reciclar expectativas frustradas de carreira profissional. Na verdade, os trabalhadores precários de “classe média”, a “multidão” do precariado, é tendencialmente mais suscetíveis à manipulação do espírito do toyotismo. Eles nasceram na era da globalização neoliberal incorporando como horizonte de conduta moral, os valores da concorrência de mercado. Na medida em que são “sujeitos-mercadoria” da sociedade de serviços – o que explica a ideologia do autoempreendedorismo – e não propriamente “sujeitos-que-produzem-mercadorias”, no sentido dos proletários das sociedades industriais clássicas, o fetiche da mercadoria tende a aderir contingência de classe contingente. O homo precarius como “sujeitos monetários” tem aderido a si o fetiche da mercadoria com toda sua carga de intransparência social. Na ótica da “multidão” do precariado, o ideal da boa vida, que expressa o carecimento íntimo de vida plena de sentido, aparece não como projeto social de construção política, mas sim como construção individualista.

Portanto, eis um primeiro elemento do enigma do precariado: ele expõe o apodrecimento da ordem burguesa social-democrata. Com a crise estrutural do capital, o movimento de fetichização da ordem burguesa assumiu dimensões qualitativamente novas. Na medida em que surgem “rachaduras” no edifício da ordem burguesa, coloca-se com vigor, ao mesmo tempo, novos modos de implicação manipulatório no interior da própria subjetivação de cariz mercantil que caracterizou a formação do homem burguês. Nessas condições de socialização mercantil complexa, como salientamos acima, o poder da ideologia torna-se efetivamente voraz.

A crise da forma-mercadoria é, ao mesmo tempo, a necessidade da sua (re)afirmação como forma social no interior da qual ocorre, não apenas o desenvolvimento da produção/acumulação do capital, mas também o desenvolvimento do próprio metabolismo social como horizonte de possibilidades efetivas da práxis humana (a reafirmação da forma-mercadoria que ocorre a partir de sua crise estrutural, reforça, por exemplo, a ideologia liberal da presentificação histórica do capitalismo, isto é, na perspectiva da economia política do homem burguês, não existe nada para além – ou antes – do capitalismo; inclusive na ótica liberal, capitalismo tende a ser identificado com a ideia de mercado e, por derivação simbólica, com os ideias de liberdade individual).

Na ótica liberal, não existe nada para além do capitalismo, a não ser o próprio capital em sua forma arcaica (as experiências pós-capitalistas do século XX). No princípio, era o homem burguês – eis o diz o livro dos Gênesis do capital. Esta é a perspectiva epistemológica e moral da economia política tão criticada por Marx. A presentificação histórica do capitalismo tal como operava a economia política é a versão clássica (e elegante) da presentificação crônica que entorpece o precariado sob o capitalismo manipulatório.

No caso dos ditos “precários”, a percepção estranhada de perda do futuro os projeta, no plano da contingência, na “presentificação crônica” do metabolismo social do capital. Ideologicamente, na sua consciência contingente, incorporam a presentificação histórica do capitalismo posta pela consciência liberal.

Na verdade, nas condições do poder da ideologia e da constituição da “multiudão” do precariado, coloca-se hoje, mais do que nunca, a necessidade radical da luta ideológica que, num mundo social do trabalho precário, torna-se mais candente tendo em vista a exacerbação da manipulação como modo de afirmação do capital como sociometabolismo estranhado.

A “carência de futuridade” expressa por muitos jovens-adultos “precários” no documentário Precários Inflexivéis (praxis video, 2012) [veja o trailer abaixo], expõe, com vigor, um elemento de desefetivação do ser genérico do homem, ou seja, uma das principais características do fenômeno do estranhamento. Nossa hipótese é que, sob a nova ordem burguesa tardia, diminuiu a composição organica do ser genérico do homem na mesma medida em que aumentou a composição orgânica do capital. Este é um aspecto candente do sociometaboismo da barbárie que tratamos em artigos anteriores. É o que trataremos no próximo artigo, buscando desvelar as dimensões do enigma do precariado e a nova temporalidade histórica do capital.

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O livro mais recente de Giovanni Alves, Trabalho e subjetividade (Boitempo, 2011) já está à venda também em formato eletrônico (ebook) nas lojas da Gato Sabido e Livraria Cultura.

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Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Marília. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET) e do Projeto Tela Crítica. É autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000) e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo Editorial, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

Em 2012, dirigiu o curta-metragem Precários inflexíveis. Confira abaixo uma prévia do filme:

Capitalismo global, proletariedade e os limites da indignação

Por Giovanni Alves.

Nos primórdios do século XXI, torna-se cada vez mais visível, numa perspectiva histórico-mundial, o que Karl Marx e Friedrich Engels salientaram em A ideologia alemã, como sendo a grande massa da humanidade “destituída de propriedade” que está em contradição (e não apenas em contraste) com um mundo existente de riqueza e cultura, o que pressupõe, portanto, um grande aumento da força produtiva e um grau elevado do seu desenvolvimento. É por isso que, nas condições do capitalismo global e da crise estrutural do capital, coloca-se, objetivamente, de modo mais pleno, a necessidade histórica do comunismo como condição irremediável da emancipação de indivíduos histórico-mundiais de sua alienação radical das condições da vida social.

A grande massa da humanidade “destituída de propriedade” é constituída hoje pela multidão de proletários. Como diz o lema do movimento social Occupy nos EUA, “we are the 99%”. No plano categorial, a grande massa da humanidade alienada do controle social representa hoje a “classe” social do proletariado: “classe” com aspas tendo em vista que, apesar de estarem subsumidos à condição de proletariedade, só tornam-se efetivamente classe social – sem aspas – na medida em que aparecem, com maior ou menor efetividade, como sujeito histórico em si/para si.

Portanto, no sentido radical, “proletário” é o homem ou mulher destituído da propriedade dos meios de produção da vida social, isto é, alienados do controle social e imersos na condição existencial de proletariedade e não apenas o pauper ou trabalhadores assalariados miseráveis com ampla prole. Por exemplo, o conceito de proletariado abrange hoje as camadas médias assalariadas que podem ser consideradas proletários de “classe média”. Deste modo, a dita crise da “classe média” que ocorre no capitalismo global expressa tão somente hoje, no plano contingente, a ampliação e explicitação, no plano da percepção social, da condição de proletariedade das camadas médias assalariadas (o que não significa que tenham se tornado membros da classe social do proletariado tendo em vista os obstáculos efetivos à constituição da consciência de classe nos segmentos médios do proletariado).

O crescimento das novas camadas médias de jovens proletários assalariados mais qualificados, desempregados ou inseridos em contratos de trabalho atípicos ou precários e que compõem hoje, principalmente nos países capitalistas mais desenvolvidos, o mundo do trabalho do século XXI – o dito “precariado” – é expressão suprema, no plano histórico-mundial, da explicitação da condição de proletariedade. Ela representa hoje a contradição candente do capital em sua etapa de crise estrutural. De fato, os jovens proletários carregam, em si, inscritos no seu ser, como estigma geracional, as desmedidas negativas do sistema produtor de mercadorias, que, por um lado, destitui homens e mulheres de propriedade e controle da vida social, e, por outro lado, ao mesmo tempo, acumula e concentra imensa riqueza e cultura.

A ampliação da condição de proletariedade do “precariato” ocorre, pari passu, com o incremento da manipulação que nega, no plano da percepção e do entendimento dos indivíduos históricos mundiais, a auto-consciência de classe. A invisibilidade social da natureza de classe do “precariato” é o processo ideológico supremo do capitalismo manipulatório. Na medida em que se ampliam as contradições vivas do capital, impulsiona-se com intensidade, a desefetivação humano-genérica, isto é, a precarização dos sentidos humanos capazes de “negação da negação”. Um dos alvos privilegiados da manipulação social são hoje, os jovens proletários mais qualificados que carregam em si e para si, a contradição suprema do capital em sua fase de crise estrutural.

A problemática geracional dos jovens proletários diz respeito não apenas a delimitações etárias, mas ao modo de controle do metabolismo social do novo proletariado hipertardio nas condições do capitalismo manipulatório com seu complexo de obstáculos efetivos à constituição da consciência de classe e, portanto, à constituição da classe social do proletariado como sujeito histórico efetivo capaz de “negação da negação”.

Nos países do capitalismo central, a temporalidade histórica dos “trinta anos perversos” (1980-2010) provocou cortes geracionais significativos no plano sociometabolico da “classe” do proletariado. Aceleração da mudança tecnológica na produção e no consumo, reação política neoconservadora e precariedade laboral com implosão dos laços de solidariedade de classe, projetaram as novas gerações de homens e mulheres proletários noutra dimensão sócio-histórica. A nova dinâmica sociometabolica do capital provocou segmentações inter-geracionais caracterizadas por clivagens na experiência vivida e experiência percebida de formações etárias da classe trabalhadora.

Na verdade, o novo modo de controle sociometabolico do capital operou fraturas salientes na experiência do tempo social. Eric Hobsbawn, no livro A era dos extremos, observou o fenômeno da “presentificação crônica”. Diz ele: “A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem.” Por exemplo, as mutações sociometabolicas no seio do jovem proletariado é perceptivel no movimento estudantil dos países capitalistas mais desenvolvidos cuja tradição da contestação social não é reconhecida hoje pelos próprios estudantes. Na verdade, a falta de informação e de diálogo com gerações anteriores é hoje caracteristica comum a movimentos estudantis de todo o mundo.

Os fenômenos sociais da destruição do passado, presentificação crônica e falta de informação e de diálogo com gerações anteriores, isto é, alienação do passado público da época em que vivem – que se torna mais perceptivel com vigor, por exemplo, nas experiências dos movimentos estudantis – constituem expressões candentes do novo modo de controle sociometabolico do capital baseado  na precarização dos sentidos humanos capazes de “negação da negação”. Trata-se de um modo de dessubjetivação de classe que opera a obstaculização à formação da consciência de classe e por conseguintes, da própria classe social do proletariado como sujeito histórico efetivo capaz de “negação da negação”.  

Nos primórdios do século XXI, o novo (e precário) mundo do trabalho é constituído pelo amplo contingente de “jovens adulto-flexíveis”, conceito utilizado por Renan Araújo para denominar o contingente dos novos trabalhadores assalariados que ingressam nos novos locais de trabalho reestruturados na década de 2000. No plano da consciência contingente de classe, os jovens adulto-flexíveis (ou melhor, jovens-adultos toyotizados), empregados ou desempregados, estáveis ou precários, são portadores do que podemos denominar o “paradoxo de Ícaro”: 

Por um lado, enquanto jovem operário ou empregado inserido na relação de contrato de emprego estável, sente-se insatisfeito com a pressão do ambiente do trabalho flexível e suas contrapartidas salariais; sente-se frustrado com a realização profissional e insegurança laboral marcada pela pressão do capital pelo cumprimento de metas e desempenho (o ideal de ganhar a vida para perde-la repõem-se no patamar do toyotismo). Como observa Renan Araújo, “após anos de dedicação aos estudos e de profissionalização permanente, para a maioria a profecia não se cumpriu. Assim, deparamos-nos com engenheiros apertando parafusos, operários formados em Administração de Empresas operando torno CNC e outros que, mesmo tendo cursado Ciências da Informática, passam o dia clicando em softwares que, previamente programados, esvaziam o conteúdo do trabalho, deixando-o sem sentido, repetitivo e enfadonho. Por todos os ângulos em que se observa, a fábrica aqui pesquisada representa o mundo contraditório da promessa e da negação”. 

Por outro lado, enquanto jovem operário ou empregado inserido em contratos de trabalhos precários ou desempregados, sente-se insatisfeito pela exclusão do universo do emprego estável e flexível no sentido do que ele representa para as individualidades pessoais de classe: primeiro, capacidade aquisitiva para consumir e tornar-se “cidadão do mundo das mercadorias”. Segundo, carreira profissional com perspectiva de futuridade (ele sente profunda angústia pela desrealização do valor corporificado na força de trabalho como mercadoria e talento singular). Terceiro, capacidade de organização da vida pessoal, constituindo família e tendo seu próprio território de desenvolvimento humano.

Na medida em que a nova geração de empregados e operários mais qualificados, jovens proletários estáveis ou precários nasceram “órfãos” das utopias coletivas do sindicalismo de classe ou da adesão à militância política socialista, tornaram-se mais dispostos a concertação social, com atitudes pró-ativas de cariz liberal. Foram produzidos no horizonte do mercado, pré-dispostos em si e para si, a colaborarem com o capital. Por isso, trata-se de pessoas humanas com um acervo de sonhos, expectativas e utopias de mercado avantajadas, mas irremediavelmente frustradas pela dinâmica férrea da relação-capital que perpetua a precariedade laboral quase como “destino”. A ambiguidade e ambivalência diante dos valores burgueses são marcas pessoais indeléveis destes jovens proletários imersos no paradoxos de Ícaro (o sentimento de ansiedade e frustração traduz no plano pessoal, a imagem mitológica da derrelição de Ícaro).               

Nesse caso, temos a clara percepção da dialética do processo de subsunção do trabalho ao capital que “captura”, não apenas para controlar, mas para expropriar/espoliar o talento singular da nova geração de empregados e operários. Na medida em que o desenvolvimento do processo de acumulação do capital ocorre pari pasu ao processo de desenvolvimento civilizatório como pressuposto negado, ele explicita a operação de espoliação de riqueza intangível dos novos talentos humanos empregados na produção do capital.

Ora, temos, deste modo, ao mesmo tempo, espoliação e desperdício, tendo em vista que a relação-capital não desenvolve (e nem pode desenvolver) de forma integral, as possibilidades criativas da nova força de trabalho complexa. Trata-se de segmento da força de trabalho como trabalho vivo altamente qualificada no plano da competência técnico-científica, cuja frustração decorre da irrealização profissional e desperdício existencial de suas possibilidades humano-genéricas.

Estas novas gerações de proletários vivem à exaustão, a disjunção pessoa-classe que caracteriza o modo de controle sociometabolico do capital. Portanto, eis a problemática do estranhamento que assume hoje dimensões cruciais sob o capitalismo global. Para György Lukács, o fenômeno do estranhamento, ocorre na medida em que o desenvolvimento das forças produtivas sociais do trabalho ou da capacidade humana em reduzir as barreiras naturais, não significa o desenvolvimento da personalidade humana, mas pelo contrário, seu aviltamento e dilaceração em virtude da manipulação de alta intensidade e amplitude que caracteriza o capitalismo tardio.

Sob o capitalismo global, os jovens proletários mais qualificados, empregados ou desempregados, estáveis ou precários, tornam-se hoje objetos privilegiados de “captura” da subjetividade do trabalho pelo capital, sendo expostos de modo candente à manipulação pelo capital no plano das experiências expectantes, isto é, experiências que organizam (ou manipulam) anseios, expectativas e utopias pessoais.  

O traço estrutural do capitalismo global é a manipulação da subjetividade do homem-que-trabalha. Por isso, o capitalismo global, ou seja, o capitalismo histórico na fase de crise estrutural do capital, é essencialmente o capitalismo manipulatório. A exacerbação da dimensão manipulatória do capital decorre da própria natureza da dinâmica de acumulação capitalista.

No século XX, a produção de mais-valia relativa assumiu dimensões alucinadas. Por exemplo, com o fordismo-taylorismo, a produção em massa, que caracterizou o capitalismo monopolista do século passado, significou a necessidade candente do capital de realização da massa de mais-valia acumulada. Tornou-se crucial, mais do que nunca, vender as mercadorias produzidas pela grande indústria. Por isso, impõe-se a centralidade da manipulação, não apenas do trabalhador assalariado na produção, mas do consumidor na esfera do mercado. É necessário manipular à exaustão a subjetividade do trabalhador assalariado como produtor e consumidor.

É claro que, desde as suas origens históricas, o capitalismo industrial buscou realizar, por meio da venda das mercadorias, a mais-valia extraída nas fábricas. Para isso, constituiu-se, como necessidade íntima do capital em processo, o mercado mundial. Mas, na medida em que se desenvolveu a grande indústria, a necessidade de realização da massa de mais-valia relativa extraída na produção do capital, a venda dos produtos-mercadorias no mercado mundial, tornou-se uma estranha obsessão que delineou o sociometabolismo do capital do século XX e XXI.

O mandamento supremo do capital como “sujeito automático” de autovalorização do valor é acumular, acumular e acumular. Com a grande indústria e a produção da mais-valia relativa, para que o capital possa acumular, acumular e acumular cada vez mais, tornou-se, mais do que nunca, imperativo vender, vender e vender. A ânsia da vendabilidade universal elevou-se à enésima potência com a produção em massa e a constituição plena do mercado mundial no sentido da intromissão da forma-mercadoria na vida cotidiana da sociedade burguesa. A vigência da produção da mais-valia relativa colocou como pressuposto da própria realização do valor, o imperativo da venda no centro dinâmico da vida social.

A ampliação do círculo da vendabilidade universal significou no século XX, o domínio crucial do fetichismo da mercadoria no plano das relações humanas e sociais. David Harvey, em seu livro O enigma do capital, recém-publicado pela Boitempo Editorial no Brasil, observou que a obsessão do capital é saber onde aplicar o excedente de capital-dinheiro. É a volúpia do excedente disponível para valorização que caracterizará o metabolismo social do capital no século XX. A obsessão do possuídor da massa de capital-dinheiro imprimirá a sua marca na dinâmica social. Aliás, os fenômenos históricos cruciais do século passado – imperialismo e globalismo, ou ainda, a hipertrofia do sistema de crédito e financeirização – originam-se, em última instância, da volúpia de vendabilidade universal tendo em vista a realização da massa crescente de mais-valia relativa extraída na produção do capital.

O desenvolvimento das forças produtivas sociais do trabalho no século XX, com a vigência da lógica produtivista do taylorismo, fordismo e toyotismo, significou a elevação à enésima potência, da ânsia de realização da massa de mais-valia contida na imensa quantidade de mercadorias que compõem a sociedade burguesa, principalmente com o surgimento da produção em massa. A obsessão pelo consumo oculta, não apenas a obsessão pela absorção do excedente, como salientou Harvey, mas a obsessão pela realização do valor nas condições do mercado mundial constrangido.

Portanto, a contradição suprema do capitalismo histórico não é apenas produzir mercadorias, mas sim, realizar o valor contido nelas. That´s the problem! Por isso, as estratégias orgânicas do sistema mundial do capital no século XX buscaram administrar a contradição crucial, inovando na capacidade de prolongar à exaustão, as alucinações da forma-mercadoria, seja em torno da mercadoria propriamente dita, com a aceleração do circuito de valorização (produção, circulação e consumo, afirmando-se o que István Mészáros denominou “lei tendencial de decrescimento da utilização do valor de uso”); seja em torno da “mercadoria das mercadorias” (o Dinheiro), com a hipertrofia do sistema de crédito e a constituição do circuito da valorização fictícia (a financeirização da riqueza capitalista).

Uma das estratégias de administração da crise orgânica da forma-mercadoria, com impacto direto na morfologia social da sociedade burguesa e na subjetividade do homem-que-trabalha, é a manipulação do consumo. A manipulação da produção que caracteriza a grande indústria desdobra-se em produção da manipulação no plano da totalidade social. Eis um traço de alteração da alienação capitalista que caracterizará a “captura” da subjetividade do homem que trabalha pelo capital. Trabalhador assalariado é consumidor, onde o “é” acusa um juízo de devir (Trabalhador assalariado “torna-se”/interverte-se em consumidor). Na verdade, a vigência da manipulação sistêmica põe efetivamente o problema do estranhamento.

Sob o capitalismo, o problema da alienação é reposto, de forma ampla e candente, noutro patamar existencial, através do problema do estranhamento. Um mundo pleno de mercadorias é, segundo György Lukács, um mundo pleno de manipulação, que penetra não apenas os poros da produção, mas também do consumo e da reprodução social.

Se, por um lado, com a elevação do padrão de vida e consumo da classe trabalhadora no século XX, a percepção da exploração capitalista e o problema da alienação no sentido originário tendem a se esmaecer, por outro lado, põem-se, de modo incisivo, segundo Lukács, o problema do estranhamento propriamente dito, que, para ele, é o problema da vida plena de sentido (o psicanalista austriaco Viktor Frankl salienta que o problema crucial do nosso tempo é o problema da busca de sentido da vida).

Lukács observou, em 1968, que a mudança estrutural no caráter da alienação coloca, de forma candente, no auge do capitalismo afluente (o capitalismo fordista-keynesiano),  novas exigências no plano da luta de classes. Ou ainda, novas exigências no plano da consciência contingente de classe, expressa pela nova geração de empregados e operários mais qualificados (por exemplo, os “jovens adulto-flexíveis” ou toyotizados) que cresceram no interior do mundo de mercadorias e que possuem outras exigências, no plano do carecimento, comparados, por exemplo, com a geração anterior de operários e empregados. Diz Lukács:

“A luta de clas­ses no tempo da mais-valia absoluta estava voltada para a criação das condições objetivas indispensáveis a uma vida deste gênero. Hoje, com uma semana de cinco dias e um salário adequado, podem já existir as condições indispensáveis para uma vida cheia de sentido. Mas surge um novo problema: aquela manipulação que vai da compra do cigarro às eleições presidenciais ergue uma barreira no interior dos indivíduos entre a sua existência e uma vida rica de sentido. Com efeito, a manipulação do consumo não consiste, como se pretende oficialmente, no fato de querer informar exaustivamente os consumidores sobre qual é o melhor frigorífico ou a melhor lâmina de barbear; o que está em jogo é a questão do controle da consciência. Dou apenas um exemplo, o ‘tipo’ Gauloises: apresenta-se um homem de aspecto ativo e másculo, que se distingue porque fuma os cigarros Gauloises. Ou ainda, vejo numa foto de publicidade, não sei se de um sabonete ou de um creme de barbear, um jovem assediado por duas belas garotas, por causa da atração erótica que determinado perfume exerce sobre elas”.

Vimos que Lukács, adotando uma perspectiva histórico-ontológica, faz a conexão íntima entre mais-valia relativa e manipulação, no sentido de que a exploração pela mais-valia relativa propiciou, a um contingente organizado da classe trabalhadora, semana de cinco dias e salário adequado, isto é, condições objetivas indispensáveis para uma vida cheia de sentido. Segundo Lukács, objetivamente o proletariado possui hoje, pelo menos o proletariado estável, condições materiais para uma vida plena de sentido que entretanto, não se realiza, por conta da manipulação social que impregna a vida burguesa. O capitalismo da grande indústria de produção em massa tende, nas palavras dele, a erguer no interior desses individuos, “uma barreira entre a sua existência e uma vida rica de sentido”. Diz ele que a fruição da vida é reduzida ao gozo do consumo alienado. A ânsia fugaz pelo consumo de mercadoria é incapaz de dar um sentido à vida. Eis o sentido do estranhamento na ótica lukacsiana: o descompasso entre a existência dos indivíduos e uma vida plena de sentido

Portanto, para Lukács, o problema do estranhamento diz respeito em grande medida, à questão do controle da consciência, alvo-chave da manipulação do consumo visando a venda das mercadorias e a realização da mais-valia. A manipulação se ergue no interior dos indivíduos, cuja ânsia pelo consumo é instilada pelos aparatos de marketing e propaganda, como uma finalidade em si mesma. Diz ele:

“Por causa desta manipulação, o operário, o homem-que-trabalha, é afastado do problema de como poderia transformar seu tempo livre em otium, porque o consumo lhe é instilado sob a forma de uma superabundância de vida com finalidade em si mesma, assim como na jornada de trabalho de doze horas a vida era ditatorialmente dominada pelo trabalho”.

A perspectiva de Lukács prende-se à produção capitalista fordista-taylorista quando o controle da consciência de classe, inclusive na construção do consentimento à produção rígida da linha de montagem acoplada a esteira mecânica, tinha no consumo, pelo menos para a classe operária organizada, seu lastro de legitimidade. O compromisso fordista-keynesiano, que caracterizou, nos países capitalistas centrais, os “trinta anos dourados” do capitalismo histórico do século XX (1945-1975), eram baseado na capacidade do capital em promover a “cidadania do consumo” em torno do ideal do emprego. A própria formação das individualidades pessoais de classe ocorriam com a elaboração de expectativas, anseios e utopias da carreira profissional e inserção laboral capazes de permitir a obtenção de capacidade aquisitiva, não apenas para satisfazer as necessidades básicas, mas os carecimentos sociais do admirável mundo novo das mercadorias.

Sob o capitalismo fordista-keynesiano nas condições da sociedade industrial afluente do pós-guerra, a fruição da vida era reduzida ao gozo do consumo de mercadorias. Nesse caso, a auto-consciência da alienação não se manifestava efetivamente, tendo em vista a vigência da “consciência tranquila” do operário ou empregado, que fruia a sua vida pessoal como individualidade de classe por meio do consumo estranhado. Na verdade, o trabalhador assalariado não se sentia insatisfeito no consumo, mas sim, na produção, tendo em vista a vigência do fordismo-taylorismo com a linha de montagem acoplada a esteira mecânica (a crise da organização do trabalho taylorista-fordista).

Com o capitalismo global de cariz neoliberal e a crise estrutural do capital, ocorreu a implosão do compromisso fordista-keynesiano baseado no crescimento com indexação de salários a produtividade. Nos “trinta anos perversos” (1980-2010), a crise do Estado de Bem-estar social, a crise do emprego e a ampliação da precariedade salarial ameaçou e frustrou as expectativas de consumo dos trabalhadores assalariados, principalmente das camadas médias asssalariadas que construíram suas expêriencias expectantes na perspectiva da fruição do consumo estranhado (eis uma dimensão da crise da “classe média”). Deste modo, percebe-se de modo claro, a corrosão do lastro de compatibilidade entre capitalismo e bem-estar social no núcleo orgânico do sistema mundial do capital. Ao mesmo tempo, intensificou-se e ampliou-se, de modo exacerbado, a manipulação da vida social, tanto no consumo, quanto na produção de mercadorias com a vigência do espírito do toyotismo.

Portanto, a crise do capital, que se instaurou em meados da década de 1970, opera descontinuidades/continuidades na dinâmica da manipulação sistêmica, repondo o círculo da alienação/estranhamento do homem-que-trabalha. A “captura” da subjetividade do trabalho pelo capital assume novas dimensões no sentido da constituição/explicitação de novos fenômenos da alienação/estranhamento. O “paradoxo de Ícaro” que atormenta os “jovens adultos-flexiveis” do mundo social do capital pode ser expresso do seguinte modo:

Por um lado, para os jovens trabalhadores assalariados do novo mundo do trabalho inseridos em contratos de emprego estável, a auto-consciência da alienação e insatisfação que caracterizava a organização fordista-taylorista do processo de trabalho, interverteu-se, com a organização toyotista, em estranhamento no sentido da fruição perversa e opaca que a condição de empregado estável na empresa flexível imputa aos homens e mulheres que trabalham submetidos ao cumprimento de metas desumanas e pressões contínuas por mais produtividade. Nesse caso, a carga de ansiedade e depressão deriva da realização profissional estranhada que dilacera seu ser humano-genérico.

Por outro lado, para jovens trabalhadores assalariados precários e desempregados, o dito “precariato”, “órfãos” da cidadania salarial, o sentimento de insatisfação e a auto-consciência da alienação se tornou crucial (alienação como perda/frustração). Nesse caso, existe uma sutil distinção categorial entre alienação e estranhamento. No plano da consciência contingente, o dito “precariato” sente-se alienado da “cidadania do consumo” e portanto, alienados de si mesmos como consumidores ou individualidades de classe constituídos no interior do mundo das mercadorias (nesse sentido, a alienação no sentido categorial tem uma intensa carga de insatisfação e deriva pessoal). Nesse caso, a carga de ansiedade, depressão e frustração compõem um quadro de desrealização íntima em si e para si que deriva da sua precariedade salarial no mundo das mercadorias.

Portanto, jovens-adultos assalariados, empregados e desempregados, estáveis e precários, representam dimensões paradoxais da classe-que-vive-do-trabalho com seus respectivos pressupostos sociometabólicos: por um lado, uma parte da classe que tem condições objetivas para uma vida plena de sentido, não consegue tê-la, tendo em vista o trabalho estranhado (a fruição perversa não está apenas no consumo, mas também no trabalho flexível). Mas na medida em que se constitui o círculo do estranhamento (consumo e trabalho estranhado), implode-se a “consciência tranquila” observada por Herbert Marcuse na época do capitalismo afluente. Na verdade, a exacerbação do estranhamento que assistimos no capitalismo toyotista constitui uma “consciência intranquila”, opaca e intransparente da sua condição de proletariedade. 

Por outro lado, outra parte da classe, constituída pelos trabalhadores assalariados precários (precários no sentido de alienada da “cidadania salarial”), sentem-se afligidos por não terem condições objetivas para uma vida plena de sentido. Eles representam a nova pobreza do capitalismo global de cariz neoliberal. No plano contingente, anseiam (e lutam) pela “cidadania salarial” nos marcos da ordem da mercadoria. Entretanto, as condições de luta e organização sindical, no plano do em-si da classe, são adversas para eles.

A “consciência intranquila” dos precários “indignados” do século XXI se distingue radicalmente da “consciência intranquila” dos proletários da Primeira Revolução Industrial que enfrentaram a experiência do factory system inseridos ainda em modos de sociabilidades tradicionais e valores de cunho comunitário (como observou E.P. Thompson). Ora, os proletários precários pós-modernos nasceram e cresceram no interior da ordem social da mercadoria. Eles próprios sentem-se, no plano da consciência contingente, como mercadorias vivas. É o que explica, por exemplo, a incapacidade dos precários indignados traduzirem o sentimento de indignação numa perspectiva crítica para além da ordem burguesa. Na verdade, a indignação do “precariato” é a indignação reativa que decorre da frustração das expectativas, anseios e utopias de mercado (diferentemente, por exemplo, dos sonhos, expectativas e utopias das primeiras gerações de operários que possuíam sentido comunitário exterior à ordem industrial originária. De certo modo, eles ansiavam tornarem-se “produtores autonomos”, voltar a terra etc).

Na medida em que o capitalismo global não consegue repor a perspectiva de emprego digno para todos, os jovens “precários” alienados do sonho do emprego estável tendem a serem manipulados com o ideal da empregabilidade no sentido de construírem a identidade do “trabalho autônomo” ou “trabalho por conta própria de segunda geração” (como diria Sergio Bologna). Deste modo, a intranquilidade da descartabilidade se interverte na intranquilidade da fluidez, eufemismo para inseguraça, expondo, com vigor, a sua condição de proletariedade.  

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O livro mais recente de Giovanni Alves, Trabalho e subjetividade (Boitempo, 2011) já está à venda também em formato eletrônico (ebook) nas lojas da Gato Sabido e Livraria Cultura.

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Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Marília. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET) e do Projeto Tela Crítica. É autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000) e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo Editorial, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

Crise europeia e resgate da utopia social

Por Giovanni Alves.

A crise europeia, tal como a esfinge grega, provoca-nos com seu enigma: “decifra-me ou devoro-te!” Não se trata de mais uma crise europeia, mas sim, expressão mais plena da crise de civilização que atinge o sistema mundial do capital. O que se expõe na primeira década do século XXI é o desmonte do “modelo social” de civilização do capital que continha as mais candentes ilusões sobre a possibilidade de conciliar capitalismo e bem-estar social no bojo da União Europeia como modelo histórico de integração econômica bem-sucedida. Portanto, a crise do Euro é expressão-mor da crise da civilização do capital.

Em pouco mais de uma década do novo milênio, o capitalismo global expôs a sua dimensão de barbárie histórica. Primeiro, com os atentados terroristas ao World Trade Center, em Nova York, no dia 11 de setembro de 2001; e depois, como crônica de uma morte anunciada, com a crise financeira de 2008, que se origina nos EUA com a crise do subprime e dissemina-se, mais tarde, em 2011, para os países da Zona do Euro, com a crise das dívidas soberanas, ameaçando implodir a partir da semi-periferia europeia as promessas de unificação europeia.

No caso da crise europeia, não podemos vê-la tão-somente como crise financeira. A interpretação de direita sobre a crise europeia, interpretação hegemônica que seduz a opinião pública, inclusive de esquerda, é que ela se reduz ao problema de déficits orçamentários e da elevação da dívida pública. Imputa-se, deste modo, a crise à incapacidade de gestão dos Estados da semi-periferia europeia (os PIGS – Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha). Essa perspectiva analítica conduz à receita da austeridade orçamentária que, além da transferência do peso da dívida para as classes populares, levará, num segundo momento da crise (como se vislumbra em 2012), os países europeus (inclusive Alemanha e França), a mergulharem na recessão. Mais uma vez, as classes populares – incluindo a “classe média” assalariada – serão penalizadas.

A crise europeia é manifestação contingente da crise do capitalismo global com dominância financeira. Ela expõe a dimensão de crise estrutural do capital no sentido de crise de civilização. A crise financeira apenas aprofunda e expõe com intensidade as contradições estruturais da ordem burguesa hipertardia no núcleo orgânico do sistema mundial do capital.

A crise europeia não se trata apenas da crise do neoliberalismo, como se pudessemos imaginar que outro capitalismo seria possível nas condições históricas da crise estrutural do capital, isto é, um capitalismo regulado de cariz pós-neoliberal que resgate o ideário fordista-keynesiano, conciliando crescimento da economia e bem-estar social. Mesmo experiências de crescimento da economia capitalista de viés pós-neoliberal que ocorreram na última década, por exemplo, no Brasil e na China, apesar do sucesso relativo no combate à pobreza absoluta, são experiências de modernização capitalista hipertardia incapazes de resgatarem historicamente as promessas de cidadania salarial e bem-estar social constituídas nas primeiras décadas do pós-guerra nos países capitalistas centrais.

No plano midiático, existe um movimento de claro-escuro que oculta da percepção de homens e mulheres, o verdadeiro significado histórico da crise europeia. Não apenas a direita conservadora, mas a esquerda social-democrata e socialista e seus intelectuais orgânicos, não expõem (nem podem expor) no plano do discurso político, a crise estrutural do capital, tanto na personificação do mercado deformado pelos interesses do capital especulativo-parasitário; quanto na personificação do Estado político e sua democracia liberal corroída pelos interesses da privataria financeira. Existe no debate político (e inclusive, acadêmico) uma densa névoa ideológica que oculta a natureza da nossa crise histórica. Por exemplo, na academia, o espírito do pós-modernismo e o neopositivismo contribuíram para a cegueira ideológica que impede a percepção crítica do mundo histórico.

Na verdade, mais do que nunca, explicita-se como efetivamente atual, a denominação do capitalismo histórico do século XXI como “capitalismo manipulatório”. O adjetivo “manipulatório” não é apenas uma qualificação contingente, mas um traço essencial para a reprodução sistêmica da civilização do capital. Na medida em que agudizam-se as contradições sociais no plano mundial, impõe-se com vigor, no estágio avançado de dominância do fetichismo da mercadoria, a manipulação da subjetividade humana de acordo com os interesses da classe do capital. 

É provável que as sociedades europeias retomem, daqui a alguns anos, a trajetória de crescimento do PIB depois da profunda recessão da economia da Zona do Euro, pelo menos em sua semi-periferia devorada pelas políticas de austeridade neoliberal (Portugal, Espanha, Itália e Grécia). Como temos salientado, crise estrutural do capital não significa irremediavelmente estagnação da economia capitalista. Entretanto, o que preocupa os analistas sociais é o novo “modelo social” que nasce da Europa pós-crise, isto é, uma Europa clivada de desigualdades sociais e concentração de renda, muito distante do Welfare State festejado pela social-democracia com sua ideologia da concertação social. Deve-se aprofundar a precariedade laboral, principalmente entre os jovens trabalhadores, ameaçados pelo desemprego de longa duração e pelo trabalho precário. Como Kronos, deus grego do tempo cronológico, o capitalismo devora seus próprios filhos.

David Harvey observa em seu último livro, O enigma do capital e as crises do capitalismo (recém-publicado no Brasil pela Boitempo [à venda em ebook na Gato Sabido e Livraria Cultura]) que as crises no capitalismo são, não apenas inevitáveis, mas também necessárias, pois, diz ele, “constituem a única maneira de restaurar o equilíbrio e de resolver, pelo menos temporariamente, as contradições internas da acumulação do capital.” E conclui: “As crises são os racionalizadores irracionais de um capitalismo sempre instável”.

Ora, se as crises são os “racionalizadores irracionais de um capitalismo sempre instável”, como tem sido o capitalismo global em sua fase de dominância financeira, o que temos que nos interrogar é o que está a ser racionalizado aqui e que direções estão a tomar essas racionalizações perversas do capital, pois serão elas que definirão nossa maneira de sair da crise como o caráter futuro do capitalismo.  

Na verdade, ocorre hoje o esgotamento de um ciclo histórico civilizacional. O que se observa é que a crise europeia expõe, com vigor, aquilo que István Meszáros indicou em Para além do Capital [à venda em ebook na Gato Sabido e Livraria Cultura], como sendo a vigência da equalização descendente das taxas de exploração diferencial no plano do mercado mundial, que impulsiona a corrosão irremediável, lenta e persistente, dos pilares sociais do capitalismo europeu, principalmente nos países da Europa mediterrânea, com posição em desvantagem no plano da concorrência internacional. Trata-se de uma lei tendencial imposta pelo capitalismo global sob dominância financeira, conduzido pelas políticas neoliberais. É claro que a operação da lei histórica depende das opções políticas em disputa e da luta de classes que ocorrerão na Europa na década de 2010. Entretanto, o aumento da desigualdade social nas últimas décadas de capitalismo neoliberal no pólo desenvolvido do capitalismo global (EUA, União Européia e Japão), expressa com clareza inaudita, o movimento de equalização descendente das taxas de exploração diferencial. Portanto, com a crise europeia, a precariedade laboral e o desemprego estrutural devem se ampliar, mesmo que as economias capitalistas consigam retomar o crescimento do PIB. O que significa que a crise europeia é tão-somente o momento mais candente de um processo de longa duração de desmonte do Estado social europeu que ocorre nos “trinta anos perversos” de capitalismo neoliberal – desmonte social, diga-se de passagem, levado a cabo tanto pelos partidos de direita, quanto pelos partidos da esquerda social-democrata e socialista.

A crise europeia possui um valor heurístico: ela expõe, com vigor, os traços essenciais da miséria do capitalismo global com dominância financeira. Na verdade, crise não significa tão-somente riscos, mas pode significar também oportunidades de percepção cognitiva dos elementos compositivos da tragédia histórica da civilização do capital. Podemos salientar como traços históricos essenciais do metabolismo social do capital nos “trinta anos perversos” (1980-2010) os seguintes elementos compositivos:

1. A deformação intelectual-moral das forças políticas das classes populares, o que significa que a crise europeia é não apenas crise financeira ou crise da economia capitalista, mas crise moral-intelectual das forças de esquerda socialista. É crise política irremediável da social-democracia, na medida em que se explicita, com vigor, a perda de credibilidade política de lideranças socialistas que aplicaram, ao lado da direita conservadora, medidas de austeridade neoliberal contra as classes populares. Contra a crise de credibilidade política, a social-democracia e seus intelectuais orgânicos incrementam o jogo do ilusionismo política, imputando tão-somente à direita a responsabilidade pelo “inferno social” criado pelas políticas de austeridade. Eles tentam ser a alternativa credível nas próximas eleições democráticas. Enfim, a deformação intelectual-moral das forças políticas ativa o pêndulo perverso dos operadores da política do capital, que oscila entre a direita conservadora e a esquerda social-democrata. Todos eles pertencem ao espectro do neoliberalismo hegemônico.

No plano do metabolismo social, a deformação intelectual-moral das forças políticas das classes populares alimenta (e tende a reforçar) dois processos sociais lúgubres do movimento do capital no século XX. Primeiro, o processo de imbecilização das massas populares pela indústria cultural – incluindo a classe média assalariada. Segundo, a “presentificação crônica” na qual vivem imersos os jovens e o rompimento dos laços geracionais com o passado histórico. Diz-nos Eric Hobsbawn no livro A era dos extremos (de 2001): “A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem”.

Portanto, a crise europeia não é apenas crise da política social-democrata e socialista, como salientamos acima, mas também crise irremediável do pensamento europeu hegemônico que legitimou, no plano epistemológico, a ordem social-democrata. Nos “trinta anos perversos”, incapazes de fazer a crítica radical do capitalismo, uma série de autores legitimaram direta ou indiretamente, a ideologia da concertação social (como por exemplo, Jürgen Habermas e Anthony Giddens). O esclerosamento do pensamento crítico europeu impediu a percepção lúcida do significado da crise europeia. Gerações e gerações de jovens licenciados foram educados nas universidades europeias na visão de mundo neopositivista e pós-modernista e encontram-se hoje desarmados para efetuarem, no plano do pensamento, a crítica da ordem burguesa senil. Trata-se da miséria espiritual que aflige a “geração à rasca” (como se diz em Portugal).  De fato, esses jovens, homens e mulheres, licenciados, com títulos de mestres e doutores, encontram-se órfãos não apenas das promessas do Estado de Bem-estar social, mas da visão crítica de mundo, incapazes de perceberem o sentido radical da crise europeia. Sob as condições da miséria espiritual das massas, o capitalismo manipultaório tende a reforçar novas dimensões do irracionalismo social.

2. Nos “trinta anos perversos” sob hegemonia neoliberal, as políticas de privatizações contribuíram para que o Estado político do capital se reduzisse cada vez mais ao mercado. A redução do seu tamanho na economia nacional, criando espaços de produção de valor, ocorre pari passu com a redução do Estado social. As políticas neoconservadoras hegemônicas tendem a abolir a universalização de direitos sociais, adotando-se a focalização de políticas sociais nos segmentos mais candentes da população. Não se trata de “Estado mínimo” para o capital, mas sim “Estado mínimo” para o trabalho. Os grupos capitalistas continuam a aproveitar-se do fundo público com as transferências de riqueza da sociedade para o mercado por meio do aumento de impostos (bancos e corporações industriais e financeiras, como se comprovam pelos juros pagos a título de pagamento da dívida pública). Enquanto isso, cortam-se direitos sociais dos trabalhadores e reduzem-se investimentos na saúde, educação e serviços públicos em geral.

3. A democracia política se reduz a “democracia representativa” moldada por leis eleitorais que deformam a vontade popular. Mais do que nunca, torna-se impossível conciliar verdadeira democracia e capitalismo histórico. As democracias ocidentais reduzem-se àquilo que o sociólogo Boaventura de Sousa Santos denominou de “democracia de baixa intensidade”. Nos últimos trinta anos aprofundou-se a crise de legitimidade das democracias europeias. Na verdade, com a crise europeia, os impasses políticos sob determinadas circunstâncias, como ocorreu na Grécia e Itália, impõe a própria abolição efetiva da democracia representativa e a instauração da “democracia dos mercados” com a indicação pelos mercados de tecnocratas para conduzirem governos de maioria parlamentar. Mais um elemento heurístico da crise que desvela a farsa da democracia no capitalismo. Ao mesmo tempo, apela-se, com uma intensidade diretamente proporcional à dimensão da crise de legitimidade democrática, para o ilusionismo político visando ocultar a situação farsesca, pois a farsa pressupõe manipulação de alta intensidade que caracteriza o capitalismo manipulatório nos últimos trinta anos.

A crise estrutural do capital possui um valor heurístico. Ela nos obriga a colocar, como pressuposto da crítica radical, a interrogação sobre as alternativas necessárias capazes de resgatar as esperanças no futuro da civilização humana. A crise do capitalismo global sob dominância financeira e a barbárie social como modo de sociometabolismo dominante colocam cada vez mais a necessidade candente do controle social, caso queiramos resgatar os valores da civilização humana vilipendiados pelo movimento do capital. Na verdade, torna-se urgente, no plano do pensamento e da atividade política, a reposição da utopia socialista radical como controle social. Isto é, coloca-se como necessidade social a democratização radical da sociedade, o que conduziria efetivamente à abolição do capital como modo estranhado de metabolismo social.

A ideia de socialismo no século XX foi degradada no sentido da sua deformação tanto pela social-democracia, quanto pelo stalinismo. A utopia socialista pode ser traduzida tão somente na ideia do controle social ou democratização radical da sociedade. Portanto, põe-se como tarefa histórica necessária e urgente a luta pela democratização radical com tudo aquilo que isto implica, tanto no plano do Estado político, quanto do trabalho e na vida cotidiana ou espaços de sociabilidade e relações sociais.

Deste modo, podemos salientar como tarefas históricas necessárias, cada vez mais auto-evidente no século XXI para o resgate da utopia social:

1. A formação de sujeitos humanos capazes de intervenção coletiva social e política. Eis o maior desafio da esquerda radical: resgatar homens e mulheres da imbecilização de massa produzido pelo capitalismo manipulatorio do século XX sob as condições históricas do fetichismo da mercadoria. Trata-se de construir por meio das lutas sociais e da reflexão crítica, um pensamento e subjetividade contra-hegemônicos, um processo de formação moral-intelectual das massas que não se confunde com doutrinação política. Esta é a tarefa histórico-política mais difícil, tendo em vista que exige uma nova metodologia social capaz de formar os sentidos humanos numa época de barbárie social.

Os “trinta anos perversos” de neoliberalismo foram anos de revolução cultural conservadora e a esquerda histórica comunista ou trotskistas não conseguiu se contrapor efetivamente à cultura neoliberal hegemônica com seus valores-fetiches de mercado (individualismo e consumismo). Pelo contrário, a esquerda comunista ou trotskista reduziu a sua intervenção prático-sensível à luta política e ao sindicalismo propriamente dito. A esfera cultural onde se opera a formação humana ainda é, hoje, um campo exclusivo de intervenção hegemônica inovadora do capital.

2. A luta política pela “estatização” das instâncias estratégicas de produção e reprodução da sociedade, ou seja, impulsionar o movimento reverso das políticas de privatizações que caracterizaram o movimento do capital nas últimas décadas, inclusive sobre governos ditos de esquerda. Eis o momento tático das alianças com forças políticas pós-neoliberais.

Mas é importante salientar que colocamos “estatização” entre aspas, tendo em vista que o Estado que diz respeito ao movimento de emancipação social não é o Estado político do capital. Eis o momento de divergência política radical com as forças políticas pós-neoliberais: o movimento de “estatização” necessário implica irremediavelmente, ao mesmo tempo, caso queira aparecer como movimento emancipatório, a terceira tarefa histórica: a democratização radical do Estado político.

3. A democratização radical do Estado político significa, no limite, a sua irremediável extinção no sentido processual. Resgata-se, deste modo, o ideal comunista clássico. Enfim, a vigência da democratização radical é, nada mais e nada menos, que o socialismo na sua acepção verdadeira. Não se trata de proclamar tão-somente o valor da “democracia de alta intensidade”, como diz Boaventura de Sousa Santos, mas sim, de re-afirmá-la na perspectiva da classe social do proletariado (o pós-modernismo de Boaventura de Souza Santos perde substância crítica na medida em que tende a ocultar o conteúdo de classe do processo de democratização radical). Enfim, é preciso qualificar o processo de democratização radical como re-apropriação do poder social pela classe-que-vive-do-trabalho, a imensa maioria da população humana alienada do poder decisório sobre as instâncias estratégicas da vida social.

Entretanto, a democratização radical pressupõe homens e mulheres capazes de auto-apropriação das objetivações sócio-técnicas constituídas no decorrer do processo civilizatório do capital. Entretanto, na medida em que o processo de desenvolvimento sócio-técnico até o presente tem se caracterizado pela alienação, o sociometabolismo do capital tem (de)formado e incapacitado homens e mulheres para o processo de auto-apropriação autônoma e criativa do mundo social. O modo de produção capitalista não é apenas um modo de produção de mercadorias, mas modo de produção (e reprodução) de homens e mulheres deformados em suas capacidades humano-genéricas. Por isso, uma das maiores tarefas históricas do processo de emancipação social é formar sujeitos humanos coletivamente autônomos, criativos e inovadores, capazes de constituírem a troca orgânica emancipada entre si e a natureza. Por isso, a terceira tarefa histórica – a democratização radical – pressupõe irremediavelmente a primeira tarefa política como movimento histórico de luta de classes: a centralidade da atividade de formação humano-genérica.

Eis, portanto, um breve esboço das linhas estratégicas de intervenção prático-sensível que a intelectualidade política radical comprometida com a emancipação social é levada necessariamente a adotar sob pena de reiterar tão-somente a miséria do capital no século XXI. O papel (e a responsabilidade política) do cientista social é tornar claro as possibilidades efetivas do desenvolvimento humano-social nas condições históricas da crise estrutural do capital como sistema estranhado de controle sociometabólico. Para se contrapor ao neoliberalismo de mercado não podemos adotar, numa perspectiva estratégica, tão-somente a ideologia do pós-neoliberalismo que propugna, em última instância, o fortalecimento do Estado político do capital a título de garantir a acumulação privada e a concorrência (o pós-neoliberalismo como neoliberalismo restringido) visando conciliá-la com um programa mínimo de bem-estar social. Na verdade, a lei do valor afetada de negação, não dá margens à concessões civilizatórias no âmbito das relações sociais baseadas na propriedade privada e na divisão hierárquica do trabalho.

O desenvolvimento histórico explicita, no plano da percepção do bom senso, que cada vez mais Estado político e mercado se confundem, diferenciando-se tão-somente pelas margens de ação política e intervenção social minimalista que permitem políticas sociais compensatórias, principalmente nos países com “carecimento de modernidade” (como o Brasil). É claro que, no plano tático-político, não podemos desprezar as diferenças de espaço de ação política como espaço de acumulação de força, ou melhor, espaços de formação de classe como sujeito histórico. Mas, na medida em que existem espaços de formação, coloca-se a necessidade ineliminável da direção política consciente capaz de hegemonia estratégica no sentido de alargar as possibilidades da intervenção social intervertendo o pós-neoliberalismo como campo de transição para a democratização radical da sociedade, o verdadeiro sentido do socialismo do século XXI, que não deve se confundir com as experiências pós-capitalistas do dito “socialismo real”, prisioneiro das determinações negativas do capital. Eis o verdadeiro sentido da arte da política que o mercado concentrado sob dominância do capital financeiro busca eliminar.

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O livro mais recente de Giovanni Alves, Trabalho e subjetividade (Boitempo, 2011) já está à venda também em formato eletrônico (ebook) nas lojas da Gato Sabido e Livraria Cultura.

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Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Marília. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET) e do Projeto Tela Crítica. É autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000) e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo Editorial, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

O enigma da crise europeia e o sócio-metabolismo da barbárie

"Ocell de foc", de Max Ernst

Por Giovanni Alves.

A crise financeira de 2008 e seus desdobramentos nas crises das dívidas soberanas dos EUA e União Européia em 2011, tornaram-se meio privilegiado de afirmação daquilo que István Meszáros denominou a “grave tendência socioeconômica da equalização descendente da taxa de exploração diferencial”. Na verdade, a crise das dívidas soberanas tornou-se o “cavalo de Tróia” capaz de destruir efetivamente o Estado social no núcleo orgânico do pólo desenvolvido do capitalismo global. Os mercados financeiros impõem o ajuste neoliberal na União Européia. O Estado de Bem-estar social deve se transformar em Estado de Austeridade Social sob direção da disciplina fiscal a serviço dos interesses do capital financeiro globalizado.

Na verdade, sob pressão da concorrência internacional, principalmente com a entrada da China no mercado mundial, e da massa de capital concentrado liberalizado pelas políticas de desregulamentação financeira, operou-se o movimento de redução dos direitos dos trabalhadores assalariados conquistados na era de ouro do capitalismo.

A tendência geral de equalização descendente da taxa de exploração diferencial é um dos traços estruturais da nova dinâmica da economia global nas condições da crise estrutural do capital. As políticas neoliberais, conduzidas tanto por governos da esquerda social-democrata, quanto governos da direita neoliberal no começo da década de 1980, contribuíram para a dominância do capital financeiro no centro orgânico do sistema mundial do capital nos últimos trinta anos – os “trinta anos perversos” em contraposição aos “trinta gloriosos” do pós-guerra.

Ao desmontarem as estruturas sociais e políticas do anti-valor, construídas no pós-guerra sob o nome de Welfare State, o neoliberalismo ativou a lei do valor no plano do mercado mundial. A dominância do capital financeiro e seus espasmos especulativos tornou-se o veículo propício para a afirmação da tendência geral de equalização descendente da taxa de exploração diferencial, impulsionando, deste modo, com vigor, a precarização estrutural do trabalho sob o mito da flexibilidade.

As crises financeiras que ocorrem, principalmente a partir de 1990, por conta da financeirizaçõa da riqueza capitalista e da hegemonia do capital financeiro no processo de acumulação de riqueza fictícia, e as políticas de austeridade neoliberal baseadas na flexibilização do estatuto salarial e desmonte do Estado social, tornaram-se meios privilegiados para afirmar, no plano do mercado mundial, a grave tendência de equalização descendente da taxa de exploração diferencial. É a vigência desta tendência estrutural que explica, portanto, a ampliação do desemprego de massa e a precariedade laboral nos EUA e na União Européia, pelo menos nos últimos trinta anos.

Como tendência estrutural do sistema global do capital, a equalização descendente das taxas de exploração diferencial impulsiona a corrosão irremediável, lenta e persistente, dos pilares sociais do capitalismo europeu, principalmente nos países da Europa mediterrânea, com posição em desvantagem no plano da concorrência mundial. Ela tende a acelerar, por exemplo, o débâcle do Estado social europeu que inspirou no pós-guerra, as forças políticas e sociais que cultivam o ideal da social-democracia baseada na crença de conciliação entre capitalismo e bem-estar social.

O débâcle do capitalismo social-democrata com a crença ilusória do capitalismo ético ou capitalismo social capaz de realizar as promessas civilizatórias, tornou-se cada vez mais explícito na medida em que o movimento do capital sob hegemonia financeira corroeu as bases materiais que sustentaram a ilusão social-democrata e corrompeu os próprios partidos socialistas e sociais-democratas e sua intelectualidade orgânica, inseridos na defesa intransigente da ordem burguesa liberal-democrática.  

Podemos discriminar como pilares do modelo social europeu construído na etapa de ascensão histórica do capital (1) a disseminação do consumo de massa; (2) a presença do sistema de seguridade social e (3) a democracia representativa como sistema (e ideologia) de legitimidade política da ordem burguesa.

O tripé do capitalismo social se constituiu na Europa Ocidental no período imediato do pós-guerra nas condições de ascensão histórica do capital sob a vigência de um determinado “equilíbrio de força entre as classes”, baseado, por um lado, na presença de sindicatos de massa e partidos social-democratas e comunistas com base operária e de “classe média” assalariada, legitimando as “regras do jogo” democrático liberal; e, por outro lado, a conjuntura geopolítica singular da “guerra fria” entre EUA e URSS com ameaça perene do comunismo soviético.

Deste modo, a ordem burguesa hegemônica na Europa Ocidental do pós-guerra se constituiu como Estado do bem-estar social no interior do “círculo virtuoso” da acumulação de capital baseado no compromisso fordista-keynesiano, com a presença de organizações sindicais e políticas da esquerda social-democrata e comunista organizadas na defesa do consumo de massa e do sistema de seguridade social, aceitando as regras do jogo democrático representativo sob o contra-peso da ordem internacional bipolar sob ameaça do poder soviético.

Este “equilíbrio de forças de classe” consolidou na Europa Ocidental, de 1946 a 1976, os pilares da ilusão social-democrata baseado na crença da sustentabilidade civilizatória do capitalismo. Ao mesmo tempo, contribuiu para a ascensão da social-democracia como força política hegemônica baseada numa perspectiva de “classe média” assalariada. Na verdade, o projeto de construção social europeu paralisou-se na perspectiva do em-si da classe, seduzida pelo consumo de massa e fetichismo da mercadoria.

O modelo social europeu tornou-se modelo político da ideologia da concertação social disseminada nos países do capitalismo em desenvolvimento. A elevação do padrão de vida social europeu no pós-guerra sob os auspícios do capitalismo social-democrata tornou-se a prova irrefutável da possibilidade histórica de conciliar capitalismo e bem-estar social, levando, deste modo, a maior parte da intelectualidade europeia de “classe média” a renunciar à perspectiva crítica do capitalismo e a necessidade histórica da luta de classes.  

Entretanto, na medida em que as contradições internas da acumulação fordista-keynesiana conduziram à crise estrutural do capital em meados da década de 1970, e ocorreu o desenvolvimento da mundialização do capital predominantemente financeirizada, ocorreu, no plano da objetividade do capital, um processo de corrosão paulatina dos pilares da ordem burguesa social-democrata europeia (consumo, seguridade social e democracia). 

Com a crise estrutural do capital em 1973, emerge a mundialização do capital sob dominância financeira. De 1973 a 1980 temos um período de intensa luta de classe no centro orgânico do sistema mundial do capital. A década de 1970 caracteriza-se pela ruptura do equilíbrio de forças entre as classes no interior dos países capitalistas que garantiram o compromisso social-democrata. Intensifica-se a ofensiva do capital na produção visando destruir as bases sindicais operárias e a vitória das forças políticas conservadoras, primeiro na Inglaterra (com Margareth Thatcher) e depois nos EUA (com Ronald Reagan), impulsionam a adoção de políticas neoliberais que iriam se consolidar no decorrer da década de 1980.

A hegemonia neoliberal na década de 1980 produziu irremediavelmente a corrupção e declínio da social-democracia europeia, lastro político do capitalismo social. Ele iria se intensificar a partir de 1990 com o débâcle do arco geopolítico constituído no pós-guerra imediato: a queda do Muro de Berlim em 1989 e a implosão da URSS em 1991 aprofundariam os impasses estruturais da ordem burguesa europeia constituída sob o Estado social.

Se, de 1946 a 1973, com a etapa de ascensão histórica do capital, presenciamos a metamorfose da social-democracia, transformando-se numa força política de preservação da ordem burguesa imperial com hegemonia na “classe média” assalariada, a partir de 1980, na etapa de crise estrutural do capital, assistimos à corrupção e declínio ideológico dos partidos social-democratas que, nas condições da acumulação fordista exerciam o contrapeso à voracidade do capital no pólo europeu mais desenvolvido. Por outro lado, os partidos comunistas vêem a corrosão das bases operárias e da identidade de classe por conta da ofensiva do capital na produção e o poder da ideologia com a vigência do capitalismo manipulatário.

Deste modo, presenciamos com vigor, principalmente a partir de 1980, a intensificação e amplitude, na Europa Ocidental, da ofensiva do capital nas várias instâncias da economia (financeirização), política (neoliberalismo) e ideologia (pós-modernismo e neopositivismo), conduzindo a corrosão das bases sociais e políticas de defesa dos interesses da classe operária em-si.

A corrupção ideológica (e política) dos partidos socialistas e social-democratas inseridos na ordem burguesa sob crise estrutural foi tão-somente um dos elementos compositivos do processo mais amplo de reestruturação capitalista conservadora que ocorreu a partir de 1980. Por exemplo, no plano social, a ideologia do consumo de massa com o fetichismo da mercadoria, sedimentado na expansão capitalista do pós-guerra, contribuiu para a cegueira ideológica dos “estratos médios” do proletariado organizado – a “classe média” assalariada – e seus intelectuais orgânicos comprometidos com os ideais social-democratas.

Na medida em que se opera, no plano do pensamento, a disseminação da ideologia do pós-modernismo e do neopositivismo, assiste-se, no pólo intelectual mais desenvolvido do Ocidente, a perda da capacidade crítica de amplos estratos da intelectualidade europeia, que incorporam como horizonte estratégico único, a defesa da ordem burguesa europeia baseada nos pilares de consumo de massa, seguridade social e democracia representativa de cariz liberal.

Finalmente, com a queda do Muro de Berlim em 1989 e a implosão da URSS em 1991, assistimos à derrocada do arco geopolítico que propiciou, como contrapeso à voracidade do capital no plano das relações internacionais, a construção do Estado social social europeu. Alterou-se efetivamente o equilíbrio de forças de classe que garantiu o compromisso fordista do pós-guerra na Europa Ocidental e a construção do capitalismo social-democrata. Eliminou-se o contrapeso ideológico que operava como legitimador geopolítico do Estado social europeu. Por outro lado, impulsionou-se, para um novo patamar – com a unificação alemã – a construção da União Europeia sob hegemonia neoliberal.

Portanto, a partir de 1990, com o fim da Guerra fria, surgem novas oportunidades para a absorção do capital monetário excedentário. Por conta da queda da lucratividade das corporações industriais, acirra-se, naquele momento, a concorrência no plano mundial. Ao mesmo tempo, aumenta a instabilidade sistêmica da economia global em virtude da financeirização da riqueza capitalista. A mundialização financeira origina-se do crescimento da liquidez excedentária no centro capitalista onde se constata uma massa monetária cada vez maior a procura de algo lucrativo em que investir. 

A tendência para a financeirização, que se põe com vigor na década de 1980, expõe de forma candente, o problema da absorção de excedentes de capital como o problema crucial do capitalismo global (como salientou David Harvey no seu livro O enigma do capital, que a Boitempo acaba de lançar no Brasil). A aceleração histórica da integração europeia sob dominância neoliberal na década de 1990, com a vigência da União Européia com uma moeda única (o Euro), ocorre no interior do capitalismo global com dominância financeira, visando reconfigurar territórios de investimentos sob hegemonia do capital franco-alemão. Na verdade, a aceleração histórica das políticas de integração regional a partir de 1990 – União Européia, Nafta, MERCOSUL etc. – visam criar escoadouros lucrativos para a operação das massas monetária excedentária do capital financeiro global.

No caso da União Européia ela tornou-se projeto do protagonismo da burguesia financeira europeia sob hegemonia franco-alemã num cenário de reconfiguração radical da concorrência intercapitalista global com a entrada da China no mercado mundial. Na verdade, a ascensão do China no cenário da concorrência capitalista promoveu alterações tectônicas da concorrência capitalista global com impactos na divisão internacional do trabalho. Ela alterou o mapa da atividade produtiva e da acumulação de riqueza mundial.

Deste modo, de 1991 a 2011, em virtude da reconfiguração do capitalismo global sob dominância neoliberal, assistimos no núcleo orgânico do sistema mundial do capital, uma nova escalada de ofensiva do capital que – no plano do capitalismo europeu – conduziu a corrosão irremediável dos pilares do modelo social europeu construídos no período de ascensão histórica do capital.

A mundialização do capital sob dominância financeira e o novo cenário geopolítico a partir do débâcle do sistema soviético, corroeu irremediavlemente a materialidade do anti-valor, com a social-democracia, por exemplo, aproximando-se cada vez mais do centro conservador neoliberal, visando disputar com ele, o eleitorado de “classe média” assalariada “capturado” pelos valores-fetiches e expectativas de mercado da ordem burguesa hipertardia.

Na medida em que alterou-se, a favor do capital, o equilíbrio de forças entre as classes, tanto no plano nacional, quanto no plano internacional, opera-se com vigor a tendência de equalização descendente das taxas de exploração diferencial.  De 1991 a 2011, mesmo nos breves períodos de crescimento das economias capitalistas europeias, conduzido pela indústria do endividamento público, torna-se perceptível a persistência da mancha de precarização do trabalho, não apenas com taxas inerciais de desemprego total, mas com o surgimento da nova precariedade salarial.

A introdução da moeda única (o Euro) sob a dominância neoliberal contribuiu para acelerar a derrocada do modelo social europeu, principalmente nos países da Europa mediterrânea com economias frágeis no cenário de competitividade interna da União Europeia.  A crise financeira de 2008 que se origina dos EUA – o pólo mais desenvolvido do capitalismo neoliberal e seu desdobramento com a crise das dividas soberanas europeias, cumpre a função histórica de realizar por meio da austeridade neoliberal imposta pela troika – FMI, BCE e Comissão Européia – a necessária equalização descendente das taxas de exploração diferencial no plano do mercado mundial, preservando, deste modo, o projeto da União Européia como construção hegemônica da grande burguesia financeira franco-alemã.

Eis portanto, o desvelamento do enigma da crise europeia: a crise financeira da Zona do Euro e as medidas de austeridade neoliberal impostas pela troika (BCE, CE e FMI) na borda periférica da União Europeia possuem como função histórica, a reprodução da ordem burguesa europeia sob dominância financeira no plano mundial, sepultando de vez as promessas civilizatórias oriundas da fase de ascensão histórica do capital.   

Na crise financeira de 2008, tanto nos EUA, quanto na União Europeia, os governos conservadores ou socialistas, correram para socorrer os bancos, mesmo que isso significasse comprometer o fundo público. Na verdade, ocorreu, neste momento, uma das mais impressionantes transferências de riquezas do fundo público para o capital financeiro. O colapso do mercado de crédito expôs a derrocada dos fundos públicos nos países capitalistas europeus mais frágeis no plano da competitividade internacional. A crise da dívida soberana sob a gestão das agências de rating, acelerou na borda periférica da União Europeia, o programa de desmonte irremediável do Estado social por meio da austeridade neoliberal.

A derrocada do consumo de massa atingiu, nesses países, o amplo contingente de desempregados e trabalhadores assalariados precários, conjunto social que cresceu nos últimos vinte anos, e principalmente amplos contingentes da “classe média” assalariada vinculada a função pública sob ameaça da programática neoliberal; a corrosão da seguridade social em virtude da restrição orçamentária a título de pagamento da impagável dívida pública expõe a ampla parcela de trabalhadores assalariados desempregados – e precários – a nova pobreza urbana; e a desmistificação da democracia representativa como ditadura do capital.

É no contexto de crise social e crise de legitimidade política da democracia liberal representativa, com altos índices de abstenções nas eleições parlamentares, que surgem movimentos sociais de “indignados” que contestam a nova ordem burguesa hipertardia. Deste modo, as políticas de austeridade neoliberal é o canto de cisne dos pilares do modelo social europeu, com a derrocada do tripé consumo de massa, seguridade social e democracia representativa.

Eis o cenário da barbárie social que caracteriza o capitalismo histórico em sua fase de crise estrutural do capital. A barbárie social caracteriza-se pela vigência candente das contradições sociais do sistema mundial do capital com a intensificação e ampliação do estranhamento social, isto é, a contradição insana entre o desenvolvimento das forças produtivas e, portanto, o desenvolvimento da capacidade humana, e o desenvolvimento da personalidade humana.

Na época da barbárie social, o desenvolvimento da capacidade humana que se manifesta no desenvolvimento espetacular das forças produtivas do trabalho social, tende a potencializar tão-somente capacidades singulares, desfigurando, aviltando etc. a personalidade do homem-que-trabalha.

A restrição do consumo, com a crise da “classe média” assalariada, o corte da seguridade social e crise da democracia representativa apontam para limites estruturais da ordem social-democrata europeia. A crise de credibilidade da democracia política burguesa aprofunda-se na medida em que não força alternativas ao esvaziamento do projeto reformista.

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Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Marília. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET) e do Projeto Tela Crítica. É autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000) e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo Editorial, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

Barbárie social e devir humano dos homens

Por Giovanni Alves.

O que consideramos “barbárie social” é uma dimensão da barbárie histórica que se constitui como metabolismo social nas condições do capitalismo global em sua etapa de hipertrofia financeira. Ela é um elemento compositivo da era histórica de declínio estrutural do capital caracterizado pela constituição do capitalismo global. É a terceira modernidade do capital em sua etapa senil capaz de colocar, no plano global, impasses civilizatórios inéditos na história humana.  

A nova era de barbárie social se caracteriza, por um lado, pela crise de valorização e a financeirização da riqueza capitalista, que provocaram alterações estruturais na dinâmica da acumulação de valor, com impactos diruptivos no padrão de concorrência intracapitalista e no processo de desenvolvimento e organização das políticas públicas e estruturação do mercado de trabalho, com a crise do emprego e a disseminação da nova precariedade salarial no núcleo orgânico mais desenvolvido do sistema mundial do capital.

Por isso, a ideologia do neoliberalismo se impõe como ideologia orgânica da ordem política do capital. Mesmo partidos de “esquerda” assumem hoje nos países capitalistas mais desenvolvidos plataformas políticas neoliberais. A lógica férrea da ordem burguesa senil constrange cada vez mais os partidos políticos que optaram por permanecer no interior do jogo democrático representativo de cariz liberal.

Por exemplo, torna-se cada vez mais perceptível a crise estrutural da social-democracia e partidos socialistas europeus cada vez mais incapazes de conciliar crescimento econômico e desenvolvimento social, ou ainda, conciliar Estado de bem-estar social e Estado político do capital a serviço dos interesses do capital financeiro (o que explica o crescimento da concentração de riqueza e desigualdade social nos países capitalistas europeus, berço histórico da social-democracia européia).

Por outro lado, a nova era de barbárie social se caracteriza pela reestruturação produtiva do capital sob o espírito do toyotismo. Exacerba-se o contraste entre racionalização intraempresa capitalista sob a lógica do trabalho flexível e irracionalidade social com a disseminação do desemprego de longa duração e a precarização estrutural do trabalho. Na medida em que o capitalismo global é a etapa superior do capitalismo manipulatório, acirra-se o processo de dessocialização do proletariado desterritorializado pela nova precariedade salarial com impactos importantes na consciência necessária de classe. Nesse caso, o poder da ideologia e a intensificação do fetichismo da mercadoria devido a vigência do mercado na estruturação social, compôs um cenário qualitivamente novo de desefetivação do ser genérico do homem.

Estas são as novas condições sócio-históricas no interior das quais se desenvolvem as contradições do modo de produção social de mercadorias no plano global e, portanto, as novas condições da luta de classes no século XXI. É com a terceira modernidade do capital que a barbárie se instaura como metabolismo social, isto é, constitui-se como “barbárie social”, a nova dimensão da barbárie histórica dentro do capitalismo. Ela altera os referentes histórico-epistemológicos da luta de classes, colocando novas tarefas políticas para a luta anticapitalista e para o pensamento radical comprometido com a critica do capital (o que veremos mais adiante).

Mas, como podemos caracterizar efetivamente o conceito de “barbárie social”?

Em primeiro lugar, trata-se de um conceito sociológico que diz respeito a uma forma histórica de metabolismo social – um modo social de troca orgânica entre o homem e a natureza – que se constitui na etapa histórica da crise estrutural do capital.

Metabolismo social significa a ineliminável troca orgânica entre homem e natureza onde a natureza implica tanto a (1) “natura naturans”, como diria Spinoza, isto é, o mundo do ecossistema natural ou meio-ambiente que abriga a espécie humana, quanto (2) a “natura naturata”, ou seja, o mundo social dos homens, as relações sociais dos homens com outros homens e também as relações sociais dos homens consigo mesmo, ou seja,  o homem em sua auto-referencia pessoal. Deste modo, o modo de produção capitalista não é apenas um modo de produção de mercadorias, mas também modo de reprodução social ou modo de controle do metabolismo social ou troca orgânica historicamente determinado.

Na fase histórica da crise estrutural do capital desenvolve-se com intensidade e amplitude, o sociometabolismo da barbárie que possui como traço histórico-ontológico, a degradação estrutural da troca orgânica entre homem e natureza no sentido amplo de “natura naturans” e “natura naturata”. Por isso, temos por um lado, a crise ecológica; e por outro lado, a crise do humano. A dinâmica histórica posta pelo novo metabolismo social do trabalho com a nova precariedade salarial instaura o que podemos considerar como sendo a crise do humano como crise do trabalho vivo. Ela se compõe do complexo de crises que decorrem do processo de precarização-do-homem-que-trabalha: crise da vida pessoal; crise de sociabilidade; crise de auto-referência humano-pessoal.

A vigência plena do capitalismo manipulatório sob a dominância do capital financeiro, com a precarização estrutural do trabalho, caracterizada pela presença do desemprego de massa e a nova precariedade salarial compõem o cenário de barbárie como metabolismo social, isto é, processo cotidiano de desefetivação do ser genérico do homem. Deste modo, dessocialização e manipulação reflexiva dilaceram o devir humano dos homens, obliterando tendencialmente sua capacidade de “negação da negação” – eis o sentido da barbárie social.

O estado de barbárie social é a nova condição histórica no interior da qual os homens e mulheres fazem a história. É uma etapa de crise social irremediável contínua e persistente que afeta a ordem burguesa global. Contra o estado de barbárie social, as multidões se insurgem. Mas trata-se ainda de multidões com insurgências contingentes que expressam, com seu movimento de rebeldia, a presença efetiva e ampliada da condição de proletariedade. Não se trata da classe do proletariado, apesar da multidão estar imersa na condição de proletariedade.

A presença da desefetivação humano-genérica que caracteriza o sociometabolismo da barbárie não implica anulação da capacidade de resposta e a dessocialização e manipulação reflexiva que caracteriza o sistema do capitalismo manipulatório não conduz irremediavelmente à inércia coletiva. O estado de barbárie social não significa o colapso da história, mas sim, pelo contrário, a necessidade radical de fazer história. Entretanto, os obstáculos objetivos para a “negação da negação” na perspectiva da consciência de classe se colocam tendo em vista o estado de barbárie social.

A etapa histórica de crise do capitalismo global que assistimos hoje põe com intensa candência a contradição radical entre a necessidade do controle social – isto é, o socialismo – e os obstáculos efetivos à democratização radical das sociedades humanas postos pelo estado de barbárie social. O controle social e a democratização radical das sociedades humanas implica a formação efetiva da classe social do proletariado como sujeito histórico-coletivo constituído por individualidades pessoais humano-genéricas capazes de “negação da negação” da ordem sociometabólica do capital.

Com a nova etapa de crise do capitalismo global surge nos países capitalistas mais desenvolvidos – como EUA e Europa – os movimentos sociais das multidões imersas na condição de proletariedade que expressam em si e para si, carecimentos radicais de democratização efetiva da vida social num cenário de barbárie histórica de alta intensidade. Na verdade, as multidões de “indignados”, compostos em sua maioria por jovens e adultos precários, desempregados, sem perspectiva de futuro no interior da ordem burguesa. Trata-se de multidões de proletários histórico-mundiais, como diria Marx e Engels (inclusive proletários de “classe média”, órfãos do Estado de bem-estar social). Entretanto, os “indignados” não são capazes de expressar em si e para si, a “negação da negação” no sentido de ser o sujeito histórico-político de classe capaz de operar o salto qualitivamente novo no plano sócio-político e inclusive sociometabólico. Os “indignados”, como o espectro de Hamlet, clamam nas praças que há algo de podre no reino do capitalismo desenvolvido (o dito “Primeiro Mundo”). Ou como o menino da fábula de Hans Christian Andersen, exclama que o rei está nu. É a resposta humana possível – hoje – à ordem da barbárie social.    

Desde as suas origens como modo de produção social, a barbárie histórica tem caracterizado o capitalismo. Massacres, genocídios e múltiplas formas de degradação humana caracterizam a civilização do capital em seu desenvolvimento histórico como traço indelével da história das sociedades de classes, caracterizada pela divisão entre explorados e explorados, oprimidos e opressores. A barbárie histórica dentro da civilização do capital é um traço ineliminável do desenvolvimento contraditório do capitalismo histórico. Entretanto, o que salientamos é que, em sua etapa de crise estrutural, o capital explicita outra dimensão particular-concreta de barbárie histórica: o que denominamos de “barbárie social”, a barbárie como metabolismo social, que emerge, com vigor, na época da decadência histórica do capitalismo mundial e que se caracteriza pela desefetivação do ser genérico do homem.

Como Karl Marx e Friedrich Engels, concebemos a barbárie como dizendo respeito, por um lado, a uma temporalidade histórica da evolução cultural da espécie humana (a barbárie é uma etapa do desenvolvimento histórico que antecede a civilização); e por outro lado, como uma dimensão intrínseca do modo de produção capitalista, sendo ela, deste modo, um traço compositivo essencial do capitalismo industrial como modo de produção de mercadorias (é o que Marx observou como sendo a “barbárie dentro da civilização”). Portanto, buscamos salientar a percepção da barbárie como traço histórico compositivo da civilização do capital. Ao invés de serem antípodas, para Marx, a barbárie é determinação reflexiva da forma histórica de civilização do capital.

Deste modo, podemos distinguir a “barbárie exterior a civilização” e a “barbárie interior a civilização” ou “barbárie histórica” propriamente dita. Um detalhe: a “barbárie social” que temos salientado acima seria uma dimensão compositiva da barbárie histórica na etapa da crise estrutural do capital e vigência do capitalismo manipulatório.

1. A“barbárie exterior a civilização” é identificada como etapa do desenvolvimento histórico da espécie humana (por exemplo, a barbárie dos povos primitivos). Deste modo, Marx concebeu a barbárie como estágio de desenvolvimento histórico quando, por exemplo, nas suas notas etnológicas (“Ethnological Notebooks”), assumiu o conceito de barbárie como estágio do desenvolvimento com base no trabalho de Lewis Henry Morgan (na sua “Ancient Society”, Morgan identificou a Barbárie Inferior com a manufatura da cerâmica; a Barbárie Média com a domesticação de animais no hemisfério oriental, a irrigação e a utilização do tijolo de adobe e da pedra na arquitetura do hemisfério ocidental, e Barbárie Superior com a manufatura do ferro e a invenção do alfabeto fonético). Em “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”, Friedrich Engels assumiu grande parte do esquema antropológico de Morgan, incluindo o seu tratamento da barbárie como um estágio entre a Selvajaria e a Civilização.

2. A“barbárie interior a civilização do capital” ou barbárie histórica pode ser identificada com os modos de brutalidades que vigoram nas sociedades de classes (guerras, massacres, degradação humana e destruiçãoem massa). Ocapitalismo histórico como a sociedade de classes mais desenvolvida, reiterou, em escala planetária, brutalidades terríveis a serviço da expansão do capital. Por exemplo, nas etapas do colonialismo e imperialismo, os atos de brutalidades são inomináveis, expondo com vigor a concepção de Marx da “barbárie interior a civilização do capital”. Deste modo, a barbárie que ressurge no interior da civilização burguesa aparece como “barbárie histórica”.

É interessante observar que ao criticar o colonialismo, Marx trata não os povos colonizados como bárbaros, mas o contrário – os burgueses como aqueles que levam a barbárie interior da civilização do capital, para a periferia capitalista. A burguesia exporta barbárie na medida em que “…podem modelar o mundo conforme a sua própria imagem sem qualquer interferência”. Diz Marx, em 1853, no artigo “Os futuros resultados do domínio britânico na Índia”: “A profunda hipocrisia e a barbárie inerente da civilização burguesa jazem desvelados diante dos nossos olhos, quando os desviamos do seu lar, onde ela assume formas respeitáveis, para as colônias, onde ela está nua”.

Para Marx, o colonialismo inglês na Índia expunha, derrubando a máscara de hipocrisia burguesa, a barbárie inerente a civilização do capital. Seria na periferia capitalista que a burguesia metropolitana liberal e democrática, exporia sua face bárbara, criando aquilo que Mike Davis iria denominar de “holocaustos vitorianos”, tendo em vista a expropriação imperialista do excedente da sociedade indiana, provocando ondas massivas de fome e a imposição de salários miseráveis aos trabalhadores indianos. Por exemplo, no livro “Holocaustos coloniais”, Davis observa que as rações que os britânicos proporcionavam a trabalhadores ocupados em trabalhos árduos em Madras, na Índia, em 1877, tinham um valor calórico inferior àquele que os nazistas vieram a proporcionar aos prisioneiros forçados a trabalho árduo no campo de concentração de Buchenwald em 1944.

Portanto, o colonialismo inglês na Índia devastou a indústria daquele país, difundindo a miséria e a degradação, enquanto transformava a Índia num simples produtor de matérias-primas agrícolas para a Grã-Bretanha. De fato, o imperialismo britânico serviu como força de destruição, demolindo as forças produtivas da Índia e provocando subdesenvolvimento mesmo quando introduzia as forças da indústria moderna dentro da sociedade indiana.

Ao discorrer sobre “A gênese do capitalista industrial (no livro I de “O Capital”), Marx citou a obra “Colonisation and Christianity”, de William Howitt, que escrevera: “As barbaridades e as atrocidades desesperadas da assim chamada raça cristã, em toda a parte do mundo, e sobre todos os povos que foram capazes de subjugar, não têm paralelo em outros de qualquer outra raça, mesmo feroz, mesmo analfabeta, e mesmo despida de compaixão e de vergonha, em qualquer era da Terra”.

Entretanto, a “barbárie histórica dentro da civilização do capital” se expressa também por meio da exploração e espoliação vinculada diretamente ao modo de produção de mercadorias nos primórdios da Revolução Industrial.  Por exemplo, nos “Manuscritos Econômico-Filosóficos” (de 1844), Marx, referindo-se à degradação do trabalho vivo que sobreveio com a ascensão do capitalismo nos primórdios da Revolução Industrial, observou: “As formas (e instrumentos ) mais brutais de trabalho humano reaparecem [sob o capitalismo]; por exemplo, o moinho de castigo (tread-mill) utilizado pelos escravos romanos tornou-se o modo de produção e o modo de existência de muitos trabalhadores ingleses”. Mais tarde, em 1847, num discurso sobre “Salários”, Marx referiu-se metaforicamente à utilização do moinho de castigo na moderna produção capitalista (e nos sistemas prisionais) como uma doença. Diz ele: “O moinho de castigos re-emergiu outra vez dentro da civilização. A barbárie reaparece, mas criada no regaço da própria civilização e pertencendo-lhe, portanto barbárie leprosa, uma barbárie que é a lepra da civilização”. No “Manuscrito econômico de 1861-3”, Marx citou uma passagem do economista russo Heinrich Friedrich von Storch que denunciava a degradação das condições de trabalho e o enfraquecimento da saúde dos trabalhadores assalariados como um reflexo do retorno à barbárie que freqüentemente acompanhou o crescimento da civilização burguesa.

Na medida em que a civilização burguesa possui a barbárie inerente a si, ela – a barbárie – tende sempre a reaparecer no interior do desenvolvimento critico do capitalismo histórico. Nossa hipótese é que a crise estrutural do capital alterou o espaço-tempo da barbárie histórica. Ela não se restringe tão-somente aos movimentos territoriais do neocolonialismo e imperialismo que acompanham a nova ordem global do capital sob a hegemonia político-militar dos Estados Unidos da América; nem ao “momentum” de interregno da acumulação de capital e crises de superprodução que caracterizaram o capitalismo histórico; nem apenas a exploração e espoliação vinculada diretamente ao trabalho estranhado e a produção de mercadorias. Os territórios da barbárie histórica – a barbárie inerente a civilização burguesa – extrapolam os registros sócio-territoriais originais.

Na verdade, a barbárie histórica permeia hoje, com a crise do capitalismo global, a totalidade do metabolismo social do sistema produtor de mercadorias. Com a crise estrutural do capital, o sociometabolismo da barbárie assume uma dimensão global, instalando-se no próprio núcleo territorial orgânico do sistema mundial do capital e centro dinâmico de acumulação de valor.

Com a precarização estrutural do trabalho, que se torna traço ineliminável e recorrente da dinâmica social capitalista, a barbárie histórica em sua dimensão de barbárie social, aparece como crise da vida pessoal das individualidades de classe cada vez mais imersas na condição de proletariedade. É a crise pessoal que, nos marcos da nova precariedade salarial, decorre da insegurança social para adultos e corrosão da futuridade e frustração irremediável para jovens licenciados.

Com a precarização do homem-que-trabalha, a barbárie social aparece como barbárie interior, corroendo, como “lepra”, a percepção lúcida e o entendimento racional de homens e mulheres sobre os outros (crise de sociabilidade) e sobre si mesmo (crise de auto-referencia pessoal). Na verdade, explicita-se com vigor o estranhamento caracterizado por Georg Lukács como sendo a contradição insana entre o desenvolvimento das forças produtivas e, portanto, o desenvolvimento da capacidade humana, e o desenvolvimento da personalidade humana. Na época da barbárie social, o desenvolvimento da capacidade humana que se manifesta no desenvolvimento espetacular das forças produtivas do trabalho social, tende a potencializar tão-somente capacidades singulares, desfigurarando, aviltando, etc, a personalidade do homem.

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Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Marília. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET) e do Projeto Tela Crítica. É autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000) e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo Editorial, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

Terceira modernidade do capital, crise de civilização e barbárie social

Por Giovanni Alves.

O sentido radical da crise do nosso tempo histórico diz respeito a incapacidade da forma social do capital em conter (e realizar) as possibilidades de desenvolvimento do ser genérico do homem pressupostas pela nova materialidade sócio-técnica em virtude da degradação das condições materiais de reprodução humana, inclusive no pólo desenvolvido do capitalismo global. Este é um traço indelével do esgotamento histórico de um modo planetário de controle do metabolismo social baseado na propriedade privada dos meios de produção social e divisão hierárquica do trabalho.

O que consideramos como crise estrutural do capital possui as caracteristicas de uma “sindrome” social, isto é, de um “estado mórbido” caracterizado por um conjunto de sinais e sintomas associados a uma “condição social crítica”, suscetível de despertar reações de temor e insegurança global. É o que temos denominado de sociometabolismo da da barbárie ou barbárie social.

Na verdade, vivemos uma nova era civilizatória que inaugura a terceira modernidade do capital. Sob as condições da barbárie social, o capitalismo histórico altera qualitativamente a dinâmica da luta de classes, que se contrasta, por exemplo, com a dinâmica histórica inscrita na segunda modernidade do capital, caracterizada pela lógica cultural do modernismo.

O capital adquire sua dimensão real tão-somente a partir da segunda modernidade, ou seja, a instauração do modo de produção capitalista propriamente dito. Constitui-se a grandeindústria com o sistema de máquinas que põe a subsunção real do trabalho ao capital. Esta importante inflexão histórica propiciou um salto qualitativamente novo na dinâmica civilizatória do capital. É possível dizer que, com a segunda modernidade do capital, que tem inicio com a Primeira Revolução Industrial, a partir do século XIX, e que prossegue até a última metade do século XX, o capital se consolida como sistema planetário, ou seja, sistema de controle do metabolismo social global. É nesse período histórico que se constitui o mercado mundial e todas as determinações sociais descritas num impressionante vigor literário por Karl Marx e Friedrich Engels n´O Manifesto Comunista, de 1848.

A segunda modernidade do capital é a modernidade-máquina, temporalidade histórica em que se constituiu um estilo de pensamento, de política e de sensibilidade estética que poderíamos caracterizar como modernista. Foi nessa etapa de desenvolvimento do capitalismo ocidental, no bojo do qual se desenvolveu o processo de modernização que constituiu-se a classe social (burguesia e proletariado) e o Estado nacional em torno da qual se consolida o território propriamente dito da Nação e da Cidade. São tais determinações essenciais que irão compor a identidade social de homens e mulheres da segunda modernidade. Enfim, a segunda modernidade é a modernidade propriamente dita.

Por modernidade entendemos um conjunto de experiências de vida: experiência do espaço e do tempo, de si mesmo e dos outros, das possibilidades e perigos da vida, que é hoje em dia compartilhado por homens e mulheres em toda parte do mundo. Assim, desde o século XVI, constitui-se no Ocidente a modernidade do capital, que assume diversas formas histórico-temporais, por conta do desenvolvimento do modo de produção capitalista.

Diremos com Marshall Berman, no seu livro clássico “Tudo que é sólido se desmancha no Ar”, que “ser moderno é encontrarmo-nos em um meio-ambiente que nos promete aventura, poder, alegria, crescimento, transformação de nós mesmos e do mundo – e que, ao mesmo tempo, ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que conhecemos, tudo o que somos. Ambientes e experiências modernos atravessam todas as fronteiras de geografia e de etnias, de classe e nacionalidade, de religião e ideologia; neste sentido, pode-se dizer que a modernidade une todo o gênero humano. Mas é uma unidade paradoxal, uma unidade de desunidade: envolve-nos a todos num redemoinho perpétuo de desintegração e renovação, de luta e contradição, de ambigüidade e angústia. Ser moderno é ser parte de um universo em que, como disse Marx, ´tudo o que é sólido se desmancha no ar´”. Esta percepção de Marshal Berman é a percepção aguda da modernidade clássica, a segunda modernidade do capital, a modernidade da grande indústria e do modernismo, que irá expor a forma essencial deste processo de modernização do capital.

Por “modernismo”, que se vincula a esta segunda modernidade, entendemos como sendo, de acordo com Perry Anderson (no livro “As origens da pós-modernidade”), “a espantosa variedade de visões e idéias que visam a fazer de homens e mulheres os sujeitos, ao mesmo tempo que os objetos, da modernização, a dar-lhe o poder de mudar o mundo que os está mudando, a abrir-lhes caminho em meio ao turbilhão e apropriar-se dele”. Deste modo, o modernismo como lógica cultural da segunda modernidade do capital, são visões e valores carentes de utopia social. Enfim, são visões culturais e políticas que emergem no período de ascensão histórica do capital. O modernismo é o espírito político-cultural da segunda modernidade do capital.

Deste modo, podemos distinguir a primeira modernidade do capital, que transcorreria do século XVI à última metade do século XVIII e seria caracterizada pela ascensão histórica do capitalismo comercial e capitalismo manufatureiro. Neste período de constituição do capitalismo moderno, as sociedades européias ainda estavam imersas em relações sociais tradicionais, marcadas pela dominação de classe aristocráticas e agrárias, ainda não subsumidas à lógica do capital industrial, mas apenas à lógica do capital mercantil.

A segunda modernidade do capital seria a modernidade da Primeira e Segunda Revolução Industrial, do surgimento da grande indústria, do modo de produção capitalista propriamente dito, da subsunção real do trabalho ao capital, da transição dolorosa e luminosa para a última modernidade do capital, a terceira modernidade.

A terceira modernidade do capital seria a modernidade tardia, a modernidade sem modernismo, ou a modernidade pós-modernista. É a modernidade do espírito do toyotismo que explicita um nova implicação sociometabólica da produção social: a maquinofatura em contraste com a manufatura ea grandeindústria. A terceira modernidade é a modernidade do capitalismo manipulatório e da crise estrutural do capital. É a modernidade da predominância do capital financeiro sobre as demais frações do capital. A terceira modernidade seria a modernidade do precário mundo do trabalho e da barbárie social. Enfim, com a terceira modernidade nos inserimos noutra temporalidade histórica do capital, com impactos decisivos na objetividade e subjetividade da classe dos trabalhadores assalariados e do trabalho vivo. Com a terceira modernidade altera-se a dinâmica histórica da luta de classes na medida em que está posta a precarização do homem-que-trabalha como um traço indelével da nova precariedade salarial.

Apesar de estarmos inseridos na temporalidade histórica da terceira modernidade do capital, somos constrangidos ainda, no plano da memória histórica e da imagem social, pela segunda modernidade do capital, a modernidade do modernismo, a modernidade da forma cultural prenhe de projetos de utopias concretas (como diria Ernst Bloch).

Enquanto a primeira modernidade do capital era prenhe de utopias abstratas, como a de Thomas Morus (“A Utopia”) ou de Tomazo di Campanella (“Cidade do Sol”); ou mesmo de Charles Fourier e Robert Owen; a segunda modernidade do capital nasce com o proletariado industrial e os projetos sociais do comunismo político em meados do século XIX no bojo da crise de 1848, aprimeira grande crise do capitalismo ocidental. Seu marco histórico maduro são as revoluções sociais de 1848, evento crucial que inspirou o Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels. As revoluções sociais de 1848 abrem um novo período histórico da luta de classes.

O processo social da segunda modernidade do capital é caracterizado pelo espírito do modernismo, isto é, o conjunto de doutrinas e práticas estéticas e políticas amplamente heteróclitas, assincrônicas e intrinsecamente contraditórias, como a própria modernização do capital no período de sua ascensão histórica. Neste período, temos a ascensão e crise do Estado social, com seus partidos e sindicatos de classe e com os projetos de utopias sociais caracterizados pelo comunismo histórico e pela social-democracia clássica. Constituiu-se o mundo do trabalho organizado cuja dinâmica da luta de classes propiciou uma precariedade salarial caracterizada pelo emprego estável dos trabalhadores assalariados organizados. É o período histórico das conquistas sociais do trabalhismo organizado, da legislação do trabalho e do Welfare State. Nele vigoram como estilo cultural e político da subjetivação de classe, tanto o reformismo social-democrata, quanto o comunismo político como forças estruturantes da defensividade do trabalho.

Na temporalidade histórica da segunda modernidade do capital ocorre o surgimento e desenvolvimento dos Estados nacionais, com destaque para a constituição hegemônica dos Estados Unidos como nação moderna, de crise européia, dos conflitos imperialistas, da Primeira e Segunda Guerra Mundial, da colonização, descolonização e ocidentalização do Terceiro Mundo, da indústria cultural, da modernização avassaladora em todas as instâncias da vida social (o que só ocorreria após a Segunda Guerra Mundial). Enfim, é um período de intensa “destruição criativa”, último período histórico de ascensão do capital, uma ascensão de destruição de modos de vida tradicionais vinculados à dominação de classes aristocráticas e agrárias, que só ocorreriam de vez após as duas guerras mundiais que atingiram o Continente Europeu (é tal transição do tradicional para o moderno que iria dar aquela sensação de ambigüidade típica do modernismo – euforia e rebeldia, tão típica dos movimentos culturais modernistas, do surrealismo ao rock and roll dos The Beatles).

A crise da segunda modernidade do capital ocorre em meados da década de 1960, década de transição, que anunciaria, no centro do sistema do capital, a passagem para a terceira modernidade, modernidade tardia ou modernidade sem modernismo. Ela irá se compor na medida em que se dissolvem as coordenadas históricas compositivas do modernismo.

Nos primórdios do século XXI vivemos sob a terceira modernidade que inaugura a temporalidade histórica da crise estrutural do capital com implicações qualitativamente novas na dinâmica da luta de classes, na medida em que se altera o processo social de subjetivação de classe.

A mundialização do capital e a vigência do regime de acumulação predominantemente financeirizado; as políticas neoliberais, a acumulação flexível e o espírito do toyotismo; e a instauração da sociedade em rede a partir da revolução informacional no bojo do capitalismo manipulatório, colocam novas determinações concretas no processo de formação (e luta) da classe social do proletariado.

Por um lado, amplia-se a condição de proletariedade que, com a nova precariedade salarial, incorpora as camadas sociais ditas de “classe média”. A nova precariedade salarial que inaugura a “nova questão social” (Robert Castel), explicita a precarização estrutural do trabalho como um traço compositivo ineliminável da npva dinâmica do capitalismo global. Por outro lado, a precarização do homem-que-trabalha, traço indelével da nova precariedade salarial, com a dessubjetivação de classe, “captura” da subjetividade e redução do trabalho vivo a força de trabalho, colocam obstáculos efetivos à formação da consciência de classe e, portanto, à formação do sujeito histórico do proletariado como classe social.

Deste modo, o nosso conceito de barbárie social diz respeito a condição social crítica qualitativamente nova que surge na terceira modernidade do capital e que coloca obstáculos efetivos à formação do sujeito histórico de classe. Na verdade, ocorre um processo de deformação da classe pari pasu à crise de formação contraditória do valor no bojo da crise estrutural do capital (formação contraditória no sentido de que a crise de formação do valor se põe no bojo da disseminação da forma-valor pela vida social).

Com a nova precariedade salarial, que contém no seu bojo o estado de barbárie social, inaugura-se, deste modo, a era de crise social como crise de civilização, caracterizada, no plano sociometabolico, pela crise da vida pessoal, crise de sociabilidade e crise de auto-referencia pessoal. A terceira modernidade, com o sociometabolismo da barbárie, que reduz tempo de vida a tempo de trabalho, coloca em questão, de modo qualitativamente novo, o devir humano dos homens.

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Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Marília. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET) e do Projeto Tela Crítica. É autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000) e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo Editorial, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

Crise estrutural do capital e precarização do homem-que-trabalha

Por Giovanni Alves.

A verdadeira crise do nosso tempo histórico não é a crise das economias capitalistas, mas sim a crise do homem como sujeito histórico de classe, isto é, ser humano-genérico capaz de dar respostas radicais à crise estrutural do sociometabolismo do capital em suas múltiplas dimensões.  É importante salientar que crise não significa morte do sujeito histórico de classe, muito menos sua supressão irremediável, mas tão–somente a explicitação plena da ameaça insuportável à perspectiva de futuro, risco de desefetivação plena do ser genérico do homem e, ao mesmo tempo, oportunidade histórica para a formação da consciência de classe e, portanto, para a emergência da classe social de homens e mulheres que vivem da venda de sua força de trabalho e estão imersos na condição de proletariedade.

A crise é o momento em que se explicita, em sua dramaticidade histórica (e diriamos hoje, midiática), a “alienação” como um poder “insuportável”, isto é, um poder contra o qual homens e mulheres enquanto individualidades pessoais e sob determinadas condições, se insurgem ou se indignam na medida em que se torna perceptível, mesmo no plano da consciência contingente de classe, a sua condição de proletariedade.

Na Ideologia Alemã, de 1847, Karl Marx e Friedrich Engels, conseguiram apreender, com genialidade visionária, o que torna-se hoje cada vez mais perceptível no capitalismo global do século XXI:  a constituição de uma massa da humanidade como massa totalmente “destituída de propriedade” e que se encontra, ao mesmo tempo, em contradição com um mundo de riquezas e de cultura existente de fato. 

Para Marx e Engels, a explicitação plena da condição de proletariedade – e que está na raiz dos movimentos de jovens precários no mundo do capitalismo mais desenvolvido – pressupõem um alto grau de seu desenvolvimento das forças produtivas, que segundo eles, “con­tém simultaneamente uma verdadeira existência hu­mana empírica, dada num plano histórico-mundial e não na vida puramente local dos homens”.  E salientam: “Apenas com este desenvolvimento universal das forças produtivas dá-se um intercâmbio universal dos homens, em virtude do qual, de um lado, o fenômeno da massa ‘destituída de propriedade’ se produz simultaneamente em todos os povos (concorrência universal), fazendo com que cada um deles dependa das revoluções dos outros; e, finalmente, coloca indivíduos empiricamente univer­sais, histórico-mundiais, no lugar de indivíduos locais”.

Deste modo, é sob as condições históricas da crise do sujeito de classe que se coloca a oportunidade radical de sua afirmação objetiva e subjetiva, seja enquanto massa “destituida de propriedade”, seja enquanto indivíduos empiricamente universais, histórico-mundiais, no lugar de indivíduos locais” (não é desprezivel o papel da Internet com seus blogs alternativos e redes sociais – como facebook e twitter – na construção das individualidades histórico-mundiais).

Por outro lado, é importante salientar também que a crise estrutural do capital não significa incapacidade de crescimento (e expansão) da economia capitalista. Crise estrutural do capital não significa estagnação e colapso da economia capitalista mundial. Apesar da sua crise estrutural, o capital como sistema de acumulação de valor e modo estranhado de metabolismo social, tem-se expandido nos últimos trinta anos, apresentando, por exemplo, na passagem para o século XXI, índices exuberantes de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) nas fronteiras da modernização do capital (como Índia, China e Sudeste Asiático).

Apesar da crise financeira e crise das dívidas soberanas nos EUA e União Européia, em 2008 e 2011, é provável que, a curto ou médio prazo, as economias norte-americanas e europeias possam retomar, a duras custas, o crescimento do PIB. Entretanto, percebe-se cada vez mais que o crescimento do PIB não se traduz em bem-estar social. Pelo contrário, nas últimas décadas aumentou nos países ricos a precariedade do trabalho, a contenção dos gastos públicos, corte de direitos sociais e a corrosão do Estado-Providência. Portanto, torna-se visível, cada vez mais, a incapacidade estrutural do capital como modo de controle estranhado do metabolismo social e sistema produtor de mercadorias, em realizar suas promessas civilizatórias de desenvolvimento e bem-estar social, inclusive no núcleo orgânico mais desenvolvido do capitalismo histórico.

Portanto, o sentido radical da crise do nosso tempo histórico diz respeito à incapacidade da forma social do capital em conter (e realizar) as possibilidades de desenvolvimento do ser genérico do homem pressupostas pela nova materialidade sócio-técnica em virtude da degradação das condições materiais de reprodução humana, inclusive no pólo desenvolvido do capitalismo global. Este é mais um elemento compositivo do esgotamento histórico de um modo de controle do metabolismo social baseado na propriedade privada dos meios de produção social e divisão hierárquica do trabalho.

Na verdade, a crise estrutural do capital possui as características de uma “síndrome” social, isto é, de um “estado mórbido” caracterizado por um conjunto de sinais e sintomas associados a uma “condição social crítica”, suscetível de despertar reações de temor e insegurança global. Como salientou Antonio Gramsci em seus Cadernos do Cárcere, “a crise consiste no fato que o velho morre e o novo não pode nascer: neste interregno verificam-se os mais variados fenômenos mórbidos” (é o que iremos tratar nos próximos artigos como sendo a barbárie social).

 A “condição crítica” da síndrome do capital é a convergência histórica de um conjunto de crescentes contradições sociometabólicas do sistema mundial do capital, principalmente a partir de meados da década de 1970. A principal delas diz respeito à contradição capital-trabalho, na medida em que é através do trabalho que o sociometabolismo do capital vincula os seres humanos à natureza: a aguda elevação da produtividade do trabalho em virtude do processo cumulativo do progresso técnico, tende a explodir a materialidade do valor-trabalho, uma “implosão” contínua e permanente no espaço-tempo comprimido do novo tempo histórico do capitalismo global. É por isso que o consumo de trabalho vivo de uma parte da força de trabalho torna-se irrelevante para o sistema do capital. (José Nun, um dos teóricos da CEPAL, irá chama-las de “massa marginal” e Robert Kurz, de “sujeitos monetários sem dinheiro”). Eis a raiz da ampliação persistente da precariedade social do trabalho no plano histórico-mundial.

Em 1863, nos Grundrisse, Karl Marx conseguiu apreender o traço radical do nosso tempo histórico, ao observar que, sob o capitalismo,  “o tempo é tudo, o homem já não é nada; é, quando muito, a carcaça do tempo”. Na verdade, são as “massas marginais”, os “sujeitos monetários sem dinheiro” ou ainda os homem-carcaças – a massa da humanidade “destituída de propriedade” – que estão se insurgindo nos riots dos bairros pobres de Londres ou nos movimentos sociais do precariato indignado que ocupa as praças de Lisboa e Madri.

Enfim, a crescente redundância do trabalho vivo e da força de trabalho é a “ponta do iceberg” de um sistema de metabolismo social baseado na precariedade social do trabalho e que expõe cada vez mais seus limites estruturais, demonstrando ser incapaz de conter o processo civilizatório humano-genérico.

Deste modo, podemos caracterizar a crise estrutural do capital como sendo, por um lado, no plano da objetividade social, pela (1) crise de formação (produção/realização) de valor, onde a crise capitalista aparece, cada vez mais, como sendo crise de abundância exacerbada de riqueza abstrata. Entretanto, temos salientado que o caráter radical da crise estrutural do capital, diz respeito a (2) crise de (de)formação do sujeito histórico de classe instaurado pelo estado de barbárie social. A crise de (de)formação do sujeito de classe é uma determinação tendencial do processo de precarização estrutural do trabalho que, nesse caso, aparece como precarização do homem-que-trabalha.

A precarização do trabalho não se resume àquilo que pensa a sociologia do trabalho, isto é, a mera precarização social do trabalho ou precarização dos direitos sociais e direitos do trabalho de homens e mulheres proletários. A precarização do trabalho implica também a precarização-do-homem-que-trabalha como ser humano-genérico (o que explica a pandemia de depressão e transtornos psicológicos do homem-que-vive-do-trabalho).

Sob o capitalismo global, a manipulação (ou “captura” da subjetividade do trabalho pelo capital) assume proporções inéditas, inclusive na corrosão político-organizativa dos intelectuais orgânicos da classe do proletariado.  Com a disseminação intensa e ampliada de formas derivadas de valor na sociedade burguesa hipertardia, agudiza-se o fetichismo da mercadoria e as múltiplas formas de fetichismo social, que tendem a impregnar as relações humano-sociais, colocando obstáculos efetivos à formação da consciência de classe necessária e, portanto, à formação da classe social do proletariado.

O processo de dessocialização do proletariado, com impactos na consciência de classe e o poder da ideologia no bojo do capitalismo manipulatório com a intensificação do fetichismo da mercadoria devido a vigência do mercado na estruturação social, compôs um cenário qualitativamente novo de riscos de desefetivação do homem como ser capaz de dar respostas radicais à crise estrutural do sociometabolismo do capital em suas múltiplas dimensões. Deste modo, a barbárie se instaura como metabolismo social, isto é, constitui-se a barbárie social, uma nova dimensão da barbárie histórica dentro do capitalismo. 

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Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Marília. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET) e do Projeto Tela Crítica. É autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000) e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo Editorial, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.