Arquivo da categoria: Francisco de Oliveira

A crise na USP

Estudantes da USP votam sobre destino da greve durante a ocupação da Reitoria em 2007

Por Francisco de Oliveira.

Há mais de um quinquênio, nossa principal universidade permanece imersa numa crise, que se está tornando permanente. Especifique-se: desde a reitoria Suely Vilela, e prosseguindo com o atual, Prof. João Grandino Rodas. Não devemos absolver as responsabilidades daqueles que ocuparam ou estão ocupando o cargo máximo da instituição, mas a rigor a crise na USP é mais profunda, e supera as diversas gestões, que aliás se comportam apenas como gestores: o qualificativo de “reitores” é demais para eles.

Em tempo: o reitor Rodas foi o segundo da lista tríplice que o Conselho Universitário submeteu ao então governadorJosé Serra, e este, quebrando a tradição e repetindo Paulo Maluf, não escolheu o primeiro colocado, mas o segundo. Isto é um indicativo da inadequação, para dizer o mínimo, dos procedimentos estatutários e legais que regem a USP, e para o que a chamada “comunidade uspiana” não dispõe de nenhum remédio. O governador faz o que quer com a vontade manifesta dos docentes, alunos e funcionários, pois Gláucio Oliva, o primeiro colocado, havia sido preferido numa primeira consulta, que a ADUSP [Associação dos Docentes da Universidadede São Paulo] se esforçou para fazer da forma mais democrática, ainda que sem valor legal, e o CO [Conselho Universitário] ratificou a preferência que a eleição direta havia indicado. Mas o governador deu as costas à universidade. Diga-se de passagem que o governo Serra foi dos mais desastrados na relação com a USP, o que é incompreensível, pois havia sido aluno dela na Politécnica, antes que o golpe de 1964 o afastasse da presidência da UNE.

Faz parte dos malabarismos políticos nacionais essa contradição: enquanto o Congresso Nacional pode decretar o impedimento do presidente da República, como ocorreu com o super-marajá Collor de Mello, nos estatutos e procedimentos que governam a USP não existe nada parecido, salvo se o CO num gesto pra lá de improvável resolver pedir sua renúncia. Mesmo o CO não tem poderes para depor o reitor. Isto quer dizer que tais procedimentos e estatutos estão pra lá de Marrakech, isto é, nem no Marrocos têm alguma utilidade. A crise da USP se explica, assim, pelo anacronismo de suas regras estatutárias e legais, e menos pela má qualidade de seus gestores. Ninguém espera que os mais brilhantes cérebros – que existem às centenas em nossas melhores universidades – sejam também bons reitores; assim, não é a qualidade acadêmica que está tornando a USP ingovernável, mas seu anacronismo estatutário e legal e o uso que as autoridades estaduais fazem dele.

Desde a gestão Suely Vilela, a reitoria vem se empenhando em perseguir funcionários e estudantes, mas sobretudo os primeiros. O atual Grandino Rodas, numa só tacada demitiu 270 funcionários, sem lhes dar a menor satisfação. A reitoria Vilela já havia demitido um diretor do SINTUSP [Sindicato dos Trabalhadores da Universidadede São Paulo] em pleno exercício de suas funções, ao arrepio da legislação que assegura a estabilidade dos representantes sindicais, salvo se tiverem cometido algum crime e condenadoem tribunal. Nema Constituição, um reitor que é formadoem direito respeita. Eo Conselho Universitário não faz nada, e estudantes, funcionários e docentes não podem fazer nada. Entre os entulhos autoritários que a ditadura nos deixou, talvez alguns estatutos e regulamentos que determinam as regras para a gestão pública de algumas importantes instituições republicanas estejam entre os mais repelentes, inadequados e anti-democráticos.

Mas a Universidade pode viver sob esses ataques porque a sociedade permite, e em alguns casos, engrossa a onda anti-pública característica dos tempos neoliberais. Os órgãos de imprensa não dão nem bola:a Folhade S. Paulo, antigamente nosso refúgio em meio às privações da liberdade, tornou-se um jornal que faz campanha anti-pública, em nome de uma difusa preocupação com a moralidade; o Estadão, que se considerava padrinho da USP, devido ao papel protagônico que o jornal desempenhou nos idos dos Trinta, quando a USP foi fundada, mudou para uma posição de permanente crítica, quase sempre infundadas; os dois grandes órgãos da imprensa escritade São Paulofazem uma péssima cobertura dos assuntos das universidades e têm desempenhado um papel retrógrado. A universidade pública é o único lugar onde se faz pesquisa de ponta no Brasil, já que grandes empresas estatais, como a Petrobrás, a Eletrobrás, patrocinam pesquisas sobretudo de natureza aplicada. Assim, não pode surpreender que o Brasil, já a 5ª economia capitalista do mundo, apresente alguns indicadores pra lá de péssimos nos quesitos fundamentais da pesquisa científica. Não à toa, a Finlândia, o pequenino país nórdico, lidera as pesquisas no ramos dos celulares, e certamente a Finlândia não utiliza seus recursos naturais – muito frio, muita água, florestas de clima frio – mas sim conhecimento e educação. Queremos ficar com o Amazonas como o mais importante rio do mundo, e isso basta?

A crise da USP, que já se estende sob outras formas para a Unicamp, somente poderá ser encaminhada para lograr-se algumas resoluções, mediante a convocação de uma estatuinte, uma constituinte para a universidade, que reforme seus estatutos, melhore a representatividade, amplie os poderes legais das três categorias básicas que formam a universidade, invente outras formas de ingresso que não seja apenas um vestibular que privilegia os que provêm de boas escolas, institua um amplo programa de bolsas para superar a barreira econômica de classe, absorva os cursinhos “caça-níqueis” (como o tentou o ex-reitor José Goldemberg), enfim, refaça de alto a baixo as formas institucionais de decisão e direção da universidade. O leitor não conhece como se elege o reitor da USP? Então prepare-se para uma surpresa: é a mesma fórmula que a Revolução Francesa, em 1789, derrocou: são os Estados Gerais, com uma minúscula representação dos estudantes e dos funcionários no Conselho Universitário, cuja maioria absoluta é de docentes e dirigentes das faculdades, que indica três nomes para apreciação do governador do Estado. Este não necessita obedecer à ordem indicada pelo chamado CO, como a última nomeação de Grandino Rodas confirmou: pode ser um dos três. Essa fórmula é a dos Estados Gerais, portanto, velha de quase 400 anos. Está na hora da Universidadede São Paulofazer a Revolução Francesa, até para ser coerente com seus cursos de História, onde se ensina que a referida revolução é a fundadora da modernidade. Ou preferimos regimes disfarçados de aiatolás?

***

Francisco de Oliveira, professor titular aposentado de Sociologia da USP, é autor de extensa obra, da qual destacamos Noiva da revolução: elegia para uma re(li)gião (São Paulo, Boitempo, 2008), Crítica à razão dualista: o ornitorrinco (São Paulo, Boitempo, 2003) e Os direitos do antivalor: a economia política da hegemonia imperfeita (Petrópolis, Vozes, 1998).  Em 2010, coorganizou a coletânea de ensaios sobre a hegemonia lulista, Hegemonia às avessas (Boitempo), com Ruy Braga e Cibele Rizek. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas-feiras.

A prisioneira

Por Francisco de Oliveira.

Dilma Roussef paga o preço de praticamente ter sido tirada do bolso do colete de Lula da Silva, então em pleno auge de popularidade, sem ter feito o longo e quase sempre desgastante trajeto de militância no PT. Embora eleita sem dificuldades, sua autonomia no governo é precária. Cem dias já decorreram da posse da presidente e ela ainda não conseguiu completar o segundo escalão; o próprio PT e os partidos “aliados” – diga-se empoleirados nos galhos da ampla coalizão que Lula forjou, – se esfalfam para conseguir os disputados lugares, e a presidente titubeia.. Para os áulicos, trata-se de cautela, já que ela mesma declarou que não nomearia ninguém que não tivesse competência técnica, apoiada pela política, para nenhum cargo. Sabe-se agora que Garibaldi Alves é um “notável” especialista em previdência social e Lobão, honrando o nome, “morde” tudo de energia, como mostrou quando ministro da pasta com Lula da Silva.

Ainda por cima, teve que engolir os nomes que Lula da Silva impôs. Dilma se vê às voltas com o chamado “fogo amigo”: seu gabinete dá a impressão de que é a “casa da Mãe Joana”, ou uma novela noir de baixas intrigas. Mantega, mantido no cargo devido aos serviços prestados a Lula da Silva quando este estava no ostracismo, depois de três derrotas para a presidência, e diga-se sem ambigüidades, um raro quadro de caráter dentro do PT, na verdade não formula a política econômica: desde Lula da Silva, são economistas-estrelas do firmamento da especialidade que são convocados periodicamente para orientar a política econômica. Os nomes são bastante conhecidos, e poupo-me de citá-los. Alguns estão no pedaço há mais de 30 anos! Mas Palocci, que não conseguiu voltar à Fazenda, conspira quase abertamente contra o ministro e teve agora a inusitada adesão de Luciano Coutinho, até então discreto à frente dos bilhões que administra autonomamente, e criticou a política cambial nada menos que em reunião com os mais altos membros da plutocracia capitalista no país.

Tanto a incompletude quanto as intrigas são produto e herança de Lula da Silva, que fez a proeza de transformar pobreza em ativo financeiro, isto é, em termos clássicos, vendeu a luta de classes no balcão dos negócios: o fiador dos bilhões transferidos aos detentores dos títulos da dívida pública interna é o Bolsa-Família. A velha fórmula romana do “pão e circo” se atualiza: LCDs das Casas Bahia para o “povão” – foi FHC que disse – e quase 300 bilhões para quem tem títulos da dívida pública interna. Quem vai fazer oposição a essa fórmula mágica?

Do outro lado, na oposição, a confusão não é menor: Aécio, tentando repetir as proezas do seu avô, um político conservador cuja morte o transformou em herói popular, morde e sopra. Prometeu um furacão no discurso inaugural do Senado e saiu uma espécie de “muito pelo contrário”, ou o conhecido “a montanha pariu um rato”. Serra debate-se num eterno “ser ou não ser”, sem nenhuma das qualidades shakesperianas para manter a chamada patuléia (o termo é de Elio Gaspari)em suspense. FHC voltou à carga na semana que passou, com um montão de platitudes, reconhecendo, só agora, passados quase vinte anos de fundação do PSDB, que ele é uma UDN reeditada, agora sem nenhuma chance de voltar ao poder. A velha UDN, desde o início já sabia de seu destino, e logo começou a chamar os militares para lhe darem o poder que os votos lhe negavam. Começou mesmo com o BeloAntonio Eduardo Gomese terminou com o Corcunda do Nosso Drama, chamado também de Castelo Branco que por Ato Institucional cassou a existência da própria UDN e dos outros partidos políticos. Brincar com fogo queima, menino, dizia minha saudosa mãe há décadas.

Nada desse quadro se resolverá com a tão badalada reforma política. A questão é outra: é o tipo de crescimento econômico do nosso capitalismo periférico que colonizou inteiramente a política. Os partidos são a agonia dessa colonização. Não sem base popular: o crescimento econômico acelerado está levando a uma exasperação da luta entre os pobres, que lutam, depois de quatro séculos de abandono, por um lugar ao sol, isto é, por um LCD das Casas Bahia. Há uma degradação imensurável da luta de classes: de um lado, a burguesia transformou-se em gangues, e de outro os pobres, de classe regrediram para a pobreza mesmo; de São Marx para São Francisco. Há uma espécie de fascismo societal no ar. Oito milhões de espectadores assistiram ao Tropa de Elite 2, para se compensarem da frustração de que as Forças Armadas, subindo os morros do Rio, não cumpriram a promessa de liquidar com o crime organizado. Quer dizer, não cumpriram a promessa de acabar com a pobreza liquidando os pobres.

Wellington de Oliveira entrou em sua antiga escola e atirou, não a esmo, como ele já confessou através de vídeos previamente gravados, mas em membros de sua classe social, e, sobretudo, em garotas (é evidente o componente sado-masoquista que Freud explica). Ele não atirouem escolas do Leblon, mas em Realengo.

Viva o Brasil! Deve gritar Lula da Silva agora do alto dos milhares que cobra de empresas que sabem o que estão comprando, que não são as platitudes de Lula, mas o caminho dos fundos públicos.

***

Francisco de Oliveira, professor titular aposentado de Sociologia da USP, é autor de extensa obra, da qual destacamos Noiva da revolução: elegia para uma re(li)gião (São Paulo, Boitempo, 2008), Crítica à razão dualista: o ornitorrinco (São Paulo, Boitempo, 2003) e Os direitos do antivalor: a economia política da hegemonia imperfeita (Petrópolis, Vozes, 1998).  Em 2010, coorganizou a coletânea de ensaios sobre a hegemonia lulista, Hegemonia às avessas (Boitempo), com Ruy Braga e Cibele Rizek. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas-feiras.