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O direito à literatura no século XXI: uma homenagem a Antonio Candido

Confira abaixo homenagem de Flávio Aguiar a Antonio Candido, apresentada durante a programação da VIII Semana de Ciências Sociais da USP, evento apoiado pela Boitempo Editorial.

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No dia 10 de maio passado, houve uma tocante cerimônia na Bebelplatz, em Berlim.  A cerimônia, organizada pelo partido Die Linke, A Esquerda, consistiu numa leitura de trechos de livros. Uma instalação especial recebia quem chegava à praça: cadeiras espalhadas com livros sobre elas, alguns em edições antigas. A brisa da manhã folheava distraída os volumes, dando um toque algo telúrico, ao mesmo tempo brejeiro e melancólico à cena.

Quem abriu a série de leituras foi uma simpática senhora de 101 anos de idade. Antes de ler a passagem do livro que escolhera, ela recordou o motivo da comemoração, que testemunhara, aos 22 anos de idade. Tratava-se das sinistras cerimônias de queima de livros considerados decadentes, subversivos, inadequados ao “caráter alemão”, que se realizaram em rituais macabros, de maio a junho de 1933.

A inauguração desse verdadeiro holocausto da inteligência dera-se naquela mesma praça, 79 anos antes, à noite. Existem registros cinematográficos do evento. A praça, então denominada Praça da Ópera, ficava e fica entre o prédio da Ópera Municipal e a Faculdade de Direito, em frente da Universidade Humboldt, que então se chamava Universidade Friedrich Wilhelm, todos eles testemunhas mudas desse ato de barbárie no coração da civilização.

70 mil pessoas, na maioria jovens estudantes, participaram do ato. Os livros vieram de toda Berlim, não apenas da Universidade e da Faculdade próximas. Vinham em carroças carregadas, acompanhadas por milhares de jovens, muitos fardados com os uniformes pardos das SA ou negros das SS hitleristas, e por professores em vestes talares. Na própria praça estiveram 40 mil. Foram incinerados 25 mil livros de diversa procedência: Bertolt Brecht, Heinrich Mann, Franz Kafka, Stefan Zweig, Erich Maria Remarque, Walter Benjamin, Ernest Hemingway, John Dos Passos, Rosa Luxemburgo, Sigmund Freud, Karl Marx, e muitos e muitos outros. Uns foram trazidos à pira por serem autores judeus, outros, comunistas, outros social-democratas, ou ainda liberais, alguns por algumas dessas razões acumuladas. O nome da praça homenageia hoje um dos autores condenados, o militante socialista August Bebel.

Esteve presente o Ministro da Propaganda do regime nazista, Joseph Goebbels. Em seu discurso, proclamou que daquelas cinzas renasceria o “novo homem germânico, livre do intelectualismo judaico”.

Hoje, na praça há um monumento planejado pelo artista israelense Micha Ullman: sob uma placa transparente, estantes álgidas e vazias lembram o acontecido. Ao lado, uma placa de bronze traz esta frase de uma das peças de teatro do poeta, dramaturgo, jornalista  alemão Heinrich Heine, uma das vítimas do zelo nazista: “Isto foi só um prelúdio: ali onde se queimaram livros, se termina por queimar seres humanos”.

A evocação destes fatos passados e recentes me veio junto com a releitura do ensaio/conferência de Antonio Candido, “O direito à literatura”, que dá nome a este evento e a que e a quem nele homenageamos. A certa altura do ensaio, o professor Candido assinala o que entende por “traços essenciais da humanidade”, a que a fruição da literatura e o direito a ela estão ligados. São eles:

1)      O exercício da reflexão;

2)      A aquisição do saber;

3)      A boa disposição para com o próximo;

4)      O afinamento das emoções;

5)      A capacidade de penetrar nos problemas da vida;

6)      O senso da beleza;

7)      A percepção da complexidade do mundo e dos seres;

8)      Last, but not least, o cultivo do humor.

Cenas como a que evoquei aqui nos lembram, no entanto, alguns outros traços essenciais da humanidade:

1)      A negação da reflexão como estratégia de dominação;

2)      A satisfação com a própria ignorância e a dos outros, e seu estímulo programado;

3)      O embrutecimento das emoções;

4)      O ódio ou o desprezo pelo próximo, e sua indução individual e coletiva;

5)       A capacidade de fugir ou negar os problemas da vida através de fantasias fanatizantes;

6)      A fixação num único ideal de beleza, em geral narcisista, e a destruição de outras formas do belo como repugnantes, decadentes ou impuras;

7)      A simplificação fanática do mundo e dos seres, em geral de forma maniqueísta e auto-complacente;

8)      Last, but not least, o cultivo do ressentimento e do amargor, e a confusão do humor com o sarcasmo destruidor do outro.

Não fiz essa comparação para negar a lista de valores de Antonio Candido. Ao contrário, é para confirmá-la, lembrando o que ela procura combater através da fruição desse “sonhar acordado” que é a literatura, por ele identificada, de modo genérico, com a capacidade de fabulação dos seres humanos, coisa que também percebemos no teatro, no cinema, na música e nas demais artes. Podemos também compreender aí a arte das operações verbais que outro pensador da teoria literária e do exercício da linguagem, Northrop Frye, chama de “temáticas”, por oposição às fictivas: o ensaio, o tratado, a tese,  a dissertação, etc.

Nessa altura o pensamento de Frye pode nos ajudar a compreender, ampliando, o ponto de vista do Professor Antonio Candido. Frye visualiza a experiência verbal humana – a individual e a das coletividades – como compondo, em contato com outras formas da cultura, um círculo da experiência, um autêntico “anel de saber” que acompanha toda a atividade dos seres humanos e que lhes dá a possibilidade de ver sentido, algum sentido, naquilo que fazem. Essa “faculdade da expressão” se manifestaria de modo radical nas obras de arte, inclusive na literatura, por se tratar de uma experiência – agora retomando os termos de Candido – de dar alguma organização a esta e “superar o caos”. É evidente que isso está longe de afirmarmos que somente a boa ordem sintática e morfológica das palavras encarna essa “tentativa de superação do caos”, ou que apenas certa ordem figurativista e acadêmica em outras artes o faz com exclusividade.

Não. Como diz Candido, a fruição da arte literária, seja a de criador, leitor ou crítico especializado, está longe de ser algo inocente. Ela é uma “uma iniciação à vida”, e isso implica o medir-se com a pletora das dimensões da vida, seus lados satânicos – por vezes os mais criativos artisticamente – obscuros, turvos, malditos, recalcados, destruidores, como vimos na cena inicial evocada nesta fala.

Dizendo de outro modo, em outra dimensão, Frye, que era pastor metodista, afirma que toda obra de arte tem algo de profundamente herético nela, pois trata-se de um esforço de recriar a Criação, de refundar na dimensão humana o gestus, no sentido brechtiano, inicial do Criador. E que isto é essencialmente bom e desejável. Dizia ainda  Frye que em todas as suas formas e expressões – até a de um Big Bang – o nome do Criador é um Verbo, como está na versão de João Ferreira de Almeida do Evangelho de São João. Se assim for, então a Criação e sua história nada mais são do que a conjugação desse Verbo em todas as suas formas, modos, tempos, os que conhecemos e os que ainda não conhecemos, e a fruição das formas de fabulação, como quer Candido, nos leva ao encontro e de encontro a essa inimaginável dimensão da liberdade humana.

Tocamos aqui num ponto essencial do pensamento do Professor, neste seu ensaio e em outros. Seguindo os passos do Padre Louis Joseph Lebret, que atuou muitos anos no Brasil, e teve entre nós uma influência enorme, na tábua dos direitos humanos, a capacidade e o acesso às formas de fabulação seria um dos bens “incompressíveis” (não “incompreensíveis”… mas aqueles que não podem ser comprimidos…) dos seres humanos. A capacidade de fabulação é uma qualidade universal dos seres humanos, embora ela possa – e até deva – se manifestar de formas diferentes em diferentes culturas. Ela é como o sonho: indispensável. Portanto, por essa dimensão, ela é um direito, e, como tal, um direito inalienável do direito ao exercício da liberdade, do direito de ter e exercer direitos. De certo modo, ela é um “ur-direito”, um direito primevo, porque é através do exercício contínuo da fabulação que podemos abrir o pensamento e as emoções para a imaginação de outros mundos possíveis, e portanto, assim, começar a transformar este em algo melhor. Ou pior, retomando novamente as cenas iniciais aqui evocadas da iniciação à hecatombe nazista.  De qualquer modo, olhando esta faculdade e esse direito de um ponto de vista positivo, também é através dos processos de fabulação que começamos a ver o mundo e a nós mesmos com os olhos de outrem, abrindo o espírito para as aventuras das transformações.

Antonio Candido fez a conferência que transformou em ensaio para livro em 1988, incluído nas edições revistas e ampliadas de Vários escritos, livro publicado pela primeira vez em 1970. Pode=se dizer que a conferência culmina um ciclo do pensamento de Antonio Candido, iniciado em 1975 com os Debates do Teatro casa Grande, no Rio de Janeiro, ainda em plena ditadura militar, onde Antonio Candido apresentou uma reflexão sobre as vanguardas literárias. De um modo geral, pode-se dizer que esse ciclo ou momento se dá na moldura da intensificação  das lutas pelas liberdades democráticas e pelos direitos humanos no Brasil, depois da histórica eleição de 1974, primeira desde o golpe militar de 1964 em que o partido da ditadura saiu claramente derrotado das urnas. São marcos mundiais desse momento o fim da guerra do Vietnã, em 1975, com a vitória dos Vietcongs e do Vietnã do Norte contra o Vietnã do Sul e os Estados Unidos, e a queda do muro de Berlim, em 1989, começo do fim dos regimes comunistas e da União Soviética, derrotada na Guerra Fria pelo hegemon do capitalismo ocidental, a partir daí mundial.

No ensaio, o Professor situa a contradição de um momento histórico em que se vislumbra possibilidades de construir um mundo menos desigual, eliminando, por exemplo, a fome como endemia social, mas onde permanece uma combinação de “barbárie e civilização”. Nessa época muito do que era apenas uma utopia distante se transformara em possibilidade real. No plano da consciência, se via que, se a barbárie continuava a permanecer no mundo, já não se fazia o elogio da barbárie, como naquela sinistra queima de livros em 1933. “Há uma consciência infusa”, diz o ensaio/conferência, “cada vez mais generalizada de que a desigualdade é insuportável”. Este era o contexto espiritual em que se deu o ciclo de palestras sobre direitos humanos, em S. Paulo, de que “O direito à literatura” fez parte, convivendo com as últimas etapas da definição da nova Constituição brasileira, promulgada em outubro daquele ano.

Podemos nos perguntar o que mudou neste contexto, de lá para cá, em quase um quarto de século. É certo que muita coisa mudou no Brasil e na América Latina como um todo, tendo nós atravessado um ciclo neoliberal de desossamento do Estado brasileiro, do espaço público e da consciência coletiva e atravessando agora um ciclo em que se tenta a reconstrução desses espaços, com um sucesso relativo em áreas sociais. Também devemos registrar que o Brasil, por assim dizer, mudou de lugar na ordem – ou desordem, se quiserem – internacional. O Brasil tornou-se uma liderança mundial de médio porte, digamos assim, sem ter a fluência política, econômica e militar das potências dominantes, mas, por isso mesmo, fruindo de um trânsito político muito aberto em relação ao chamado Sul do mundo e em relação a potências relativamente periféricas em relação ao hegemon central, como China e Rússia, por exemplo.

Ao mesmo tempo, constatamos que vivemos num mundo desnorteado, isto é, em que o chamado Norte do mundo não serve mais de exemplo ou modelo para ninguém. Pelo contrário, hoje vemos, com alguma angústia, é verdade, a União Européia, sobretudo na Zona do Euro, construir a sua periferia, o seu Sul, reorganizando e redistribuindo de modo franco e aberto a desigualdade social dentro de suas fronteiras geográficas. Do outro lado do Atlântico, o american way of life mostrou seu lado mais feio, descortinando pobres e desamparados fora de qualquer sistema de proteção social em números espantosos. Para culminar esse quadro de um mundo de pernas para o ar, lembro que já há algum tempo os relatórios anuais da Organização Internacional do Trabalho citam a Europa como um dos lugares mais ameaçadores no mundo no que se refere à segurança no emprego para os trabalhadores, sobretudo os jovens, ao mesmo tempo em que se refere à América Latina e ao Brasil em particular como países que vão se tornando exemplares nesse campo. Só dizendo: o tempora o mores!

Ou seja, para retomar o eixo central de nosso tema, vivemos num mundo que está a clamar, tanto do ponto de vista individual quanto do coletivo, por novos processos fabulativos que nos ajudem a entender o que está acontecendo e a vislumbrar novas experiências possíveis.  Aqui começam os novos problemas.

Nestes quase quarenta anos que separam o fim da guerra do Vietnã e a atual discussão das potências da OTAN de como se desatolar da Guerra do Afeganistão, o espaço de fabulação em liberdade terá se ampliado ou diminuido? De certo modo, ambas as coisas. O desenvolvimento tecnológico, assim como nas décadas de 70 e 80 do século passado tornava possível vislumbrar a transformação de utopias em realidades palpáveis, ainda que permanecendo distantes, hoje permite experimentar redes de conhecimento e comunicação espantosas, pelo menos para quem venha do tempo do papel carbono e considerasse o fax e o xerox como instrumentos quase mágicos de reprodução e contato.

Porém ao mesmo tempo esses novos espaços são cada vez mais disputados e ocupados por megamensagens, às vezes caóticas demais, às vezes organizadas em uníssono demasiado, bombardeando todos os sentidos do corpo humano com um único sentido: você não precisa sonhar, nós sonhamos por você. Basta você comprar o aparelho, o acesso à rede e o conteúdo. Para retomarmos uma terminologia que hoje já é quase peça de museu, você pode comprar simbioticamente o meio e a mensagem – ou se deixar comprar por eles, cada vez com mais facilidade. Não nos iludamos em nenhuma das direções: também é verdade que a telefonia celular ajudou a bloquear o golpe de estado na Venezuela em 2002, ou que processos como o do Fórum Social Mundial seriam impensáveis sem as grandes redes virtuais de contato internacional. Mas também é verdade que, com a convergência cada vez maior de redes e de apararelhagens, unificando, por exemplo, tv, telefone móvel ou fixo, computador e rede virtual, se potencia cada vez mais o alcance do que, a partir de retóricas especialmente construídas para tal fim, ainda que algumas possam ser inadvertidas, se injeta, como vírus, veneno ou sedativo, nos processos de fabulação individuais e coletivos.

Vou me deter num exemplo, entre tantos possíveis, que estou vivendo bem de perto, embora hoje a noção de “perto” e “longe” seja inteiramente outra daquela de trinta anos atrás. Faz já algum tempo que parte considerável do mundo europeu – o norte-americano também, e por extensão, muito do nosso mundo – vem sendo organizado de modo sistemático em torno de uma idéia de diluição do mundo conceitual de O choque das civilizações (The Clash of Civilizations), de Samuel Huntington. O livro com tal título, e com o subtítulo “Remaking the World Order”, “Refazendo a ordem mundial”, foi publicado em 1996, desenvolvimento de um artigo inicialmente publicado por aquele professor universitário em 1993 na revista Foreign Affairs, transcrição de uma conferência proferida em 1992 no “American Entreprise Institute”.

Curiosamente, o título do artigo era uma pergunta: The Clash of Civilizations?. No livro, três anos mais tarde, o ponto de interrogação sumira. A conferência e  o artigo eram uma resposta à teoria do “fim da história”, de Francis Fukuyama,  publicada em livro naquele mesmo ano, 1992. Não, dizia Huntigton, a história não terminara; no século XXI, prosseguia ele, ela seria moldada não mais pela luta ideológica, como fora na Guerra Fria, nem pela guerra entre as nações (a luta de classes, aparentemente, não estava entre as suas cogitações principais) ou por disputas econômicas. O século XXI sria moldado pelo choque entre distintas civilizações, culturas e religiões. Huntignton identificava várias “civilizações” no mundo: 9 maiores, para ser mais preciso, com algumas interfaces entre elas, como no caso da América Latina. Mas é claro que entre esses confrontos privilegiava-se aquele entre a Ocidental e a Islâmica, como apontou Edward Said na crítica rascante que escreveu sobre o livro e as idéias de Huntington, “The Clash of Ignorance”, em 4 de outubro de 2001, publicada no semanário norte-americano The Nation.

Evidentemente, podemos ver traços profundos e marcantes do mundo conceitual de Huntington na macropolítica externa dos Estados Unidos, mais tenazes pelo menos durante o governo de George Bush e depois da hecatombe de 11 setembro de 2001, com o assalto às Torres Gêmeas em Nova Iorque. Também, como aponta Said em seu artigo, podemos ver a contrapartida deste mundo conceitual naqueles que querem reduzir o Islã a “um código penal”, bem como o significado da palavra jihad a um amontoado de procedimentos guerreiros indiscriminados contra inimigos mais presuntivos do que reais.

Mas há uma outra permanência desses traços, talvez mais insidiosa ainda, nas políticas do cotidiano, na mídia e no contexto do dia a dia. Refiro-me, por exemplo, ao sucesso do recente livro Deutschland schafft sich ab – “A Alemanha se anula”, ou se destrói, de Thilo Sarrazin. O livro vendeu 1,3 milhão de exemplares, e transformou seu autor num milionário da noite para o dia. Ele era e é membro do Partido Social Democrata (!), foi Secretário da Fazenda de Berlim e era membro do Conselho do Bundesbank, posiçào que teve de abandonar por pressão do próprio presidente da República depois da publicação do livro.

Essa publicação é uma longa (e maçante) diatribe contra os imigrantes – turcos em particular – muçulmanos, em geral – que se recusam a se integrar no mundo germânico, rejeitando a educação, preferindo viver às custas do Estado, e assim contribuem de modo significativo para o que o autor considera o “emburrecimento” generalizado do país.

Segundo ele, o que caracteriza o mundo de turcos e árabes na Alemanha é:

  • “Integração abaixo da média no mercado de trabalho;
  • Dependência do sistema social acima da média;
  • Participação educacional abaixo da média;
  • Fertilidade acima da média;
  • Segregação espacial com tendência à formação de uma sociedade paralela;
  • Religiosidade acima da média com crescente tendência ao fundamentalismo;
  • Criminalidade acima da média, variando de um simples crime violento até o terrorismo.

Também afirma que apenas um terço dos imigrantes muçulmanos sobrevivem do seu próprio trabalho, e que a taxa de desemprego entre os muçulmanos é quatro vezes maior do entre os alemães. Destaca ainda, que a alta dependência dos sistema social e alta taxas de desemprego não são comuns entre os grupos de imigrantes não-muçulmanos.

“Em todos os países europeus os imigrantes muçulmanos custam à sociedade mais do que fornecem devido a sua pouca atividade de trabalho e aos benefícios sociais que recebem”

“Do ponto de vista cultural e civil, as concepções sociais e os valores que representam são um retrocesso”, e que a imigração tem tornado a sociedade alemã mais burra, pois os imigrantes muçulmanos não tem bom nível educacional  (…) a maioria deles não tem qualquer atividade produtiva, senão vender frutas e legumes”. http://pt.wikipedia.org/wiki/Thilo_Sarrazin

Sarrazin foi muito enfático em declarar, quando do lançamento do livro, em agosto de 2010, que ambos, ele e a publicação, nada têm de “racismo”.  Suas referências seriam “estatísticas confiáveis” e o universo cultural desse meio.

A mesma reivindicação fazem inúmeros políticos e movimentos de extrema-direita em toda a Europa, inclusive Marine Le Pen, na recente eleição presidencial francesa, estigmatizando os imigrantes – e sempre ressaltam aí os muçulmanos, árabes, norte-africanos, etc. – como os culpados e portanto os tentadores bodes expiatórios da crise econômica, social, cultural e política que vive a Europa nesse mundo desnorteado. Tais movimentos se espalham hoje de modo dramático pela Holanda, Áustria, Grécia, Suíça, Suécia, Finlândia e o antigo Leste Europeu, onde também vicejam movimentos anti-roma (ciganos) sugerindo alguns, até que se subtraiam as crianças das famílias roma para educá-las em separado como “cidadãos dos seus países” (caso específico da Hungria). Há portanto, uma rejeição massiva – embora não majoritária, ainda que difusa, infusa e disseminada – de qualquer política ou convivência multi-cultural.

Dois casos recentes e dramáticos espelham essa nova fabulação disfórica, grotesca e dissimuladora da natureza da crise vivida hoje pelas sociedades européias e mundiais. No primeiro, ocorrido na Noruega, um visionário de extrema direita, Anders Breivik, tentou eliminar o que ele via como a esquerda multiculti de amanhã em seu país, no  duplo massacre no centro de Oslo e no acampamento da juventude do Partido Trabalhista Norueguês. No segundo, a polícia alemã ficou procurando, durante mais de dez anos, uma suposta “máfia turca” para solucionar dez assassinatos e outros atentados cometidos, ao fim e ao cabo descobriu-se, por uma célula de neonazistas, que sobreviveu 13 anos na clandestinidade tendo, inclusive, infiltrações nos aparatos de segurança. O caso comoveu a sociedade e as autoridades alemãs, pela cegueira coletiva que se instalou em relação ao grupo neonazi, cujos indícios foram tão conspícuos e evidentes que chegaram a chamar até a atenção do FBI norte-americano, que alertou seus congêneres alemães sobre a verdadeira natureza dos crimes.

Também podemos lembrar aqui de repetidos argumentos na mídia e fora dela, por vulgarizações mas também por analistas que se apresentam como sábios, de que a crise que varre os países desse novo “Sul da Europa” se deve às diferenças culturais com o “Norte” laborioso, já que naquele Sul haveria, por exemplo, uma “aceitação cultural” da corrupção, da irresponsabilidade, da leniência e do favor. Para volvermos à n ossa terra, lembremos da fúria que tomou conta de parte de nossas elites econômicas quando “aquele índio”, “daquela nação de índios” aqui ao lado, ousou nacionalizar as reservas de gás. Houve até quem mencionasse, além de sanções econômicas, uma intervenção militar para salvaguardar “nossos” direitos.

É nesse contexto complexo que voltamos a afirmar a pertinência de incluir o “direito à literatura”, como direito à fabulação com liberdade, no âmbito das lutas pelos direitos humanos, como conquista individual e patrimônio coletivo. É claro que, sem prejuízo quanto ao valor dos demais processos fabulativos, cabe sempre ressaltar o valor do especificamente literário e do amor pelos livros, sejam eles impressos ou virtuais, tanto quanto pelo rico universo da oralidade sempre presente em todas as culturas. Ressalta portanto a importância daquela singela cerimônia no dia 10 de maio próximo passado, recobrindo a cicatriz dolorosa e pungente com a homenagem aos livros queimados: até mesmo porque, entre os exemplares expostos àquela brisa que os folheava algo amorosamente, estavam alguns que, evidentmente, haviam sido salvos, na clandestinidade, por quem não se abatera perante a fúria do nazismo triunfante.

Ao final de seu ensaio, conclui o Professor:

“Portanto a luta pelos direitos humanos abrange a luta por um estado de coisas em que todos possam ter acesso aos diferentes níveis da cultura. A distinção entre cultura popular e cultura erudita não deve servir para justificar e manter uma separação iníqua, como se do ponto de vista cultural a sociedade fosse dividida em esferas incomunicáveis, dando lugar a dois tipos incomunicáveis de fruidores. Uma sociedade justa pressupõe o respeito aos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável”.

A essa justa preocupação com as desigualdades internas às diversas sociedades humanas, poderíamos acrescentar também esta outra preocupação, parafreasando o texto anteriormente citado:

“Portanto a luta pelos direitos humanos abrange a luta por um estado de coisas em que todos possam ter acesso aos diferentes níveis de cultura, e tenham suas culturas mundialmente respeitadas e estimuladas.  As diferenças culturais não devem servir para justificar e manter separações iníquas, como se do ponto de vista cultural as sociedades se dividissem em esferas incomunicáveis. Um mundo mais justo pressupõe o respeito aos direitos humanos de todas as sociedades. A fruição da arte e da literatura em todas as modalidades  e em todos os níveis é um direito inalienável de todos os indivíduos e de todas as coletividades, no sentido de que eles e elas venham a se conhecer melhor uns aos outros e umas às outras, tornando possível assim, vislumbrar, desejar e construir o horizonte de uma cultura da paz”.

Para encerrar, quero lembrar que se hoje podemos fazer essa ampliação do horizonte de nosso olhar, é porque estamos assentados sobre os ombros de um gigante intelectual, que ajudou a elevar a reflexão brasileira a um nível extraordinário para qualquer cultura no mundo.

Obrigado.

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Dois livros de Flávio Aguiar publicados pela Boitempo Editorial já estão disponíveis para venda em versão eletrônica (ebook): o romance histórico Anita, sobre a vida de Anita Garibaldi, e seu livro mais recente, Crônicas do mundo ao revés (finalista do Prêmio Portugal Telecom 2012). Ambos estão à venda na Livraria da Travessa e na Gato Sabido pela metade do preço dos livros impressos.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, e o recente Crônicas do mundo ao revés (2011). Colabora com o  Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Crônicas de Berlim (13): Berlim, os vivos e os mortos

Treptower Park: sete mil soldados soviéticos ali jazem

Por Flávio Aguiar.

A semana passada foi uma semana de comemorações.

A primeira foi no dia 8. Tema: o fim da Segunda Guerra Mundial.

O conflito final e o futuro.

Um alto oficial alemão (Gen. Alfred Jodl) assinou, na cidade francesa de Reims, no dia 7 de maio de 1945, às duas e meia da madrugada, uma capitulação perante oficiais norte-americanos, britânicos, franceses e um soviético, vindo especialmente do front oriental para a ocasião. Mas os soviéticos não aceitaram essa assinatura como a definitiva. Curiosamente, houve unidades alemãs que também não aceitaram, ou tiveram uma interpretação própria, dizendo que o exército alemão se rendera apenas para os aliados ocidentais, não para os soviéticos. Unidades alemãs em Praga, por exemplo, lutaram até o dia 11 de maio. Alguns bolsões lutaram até o dia 12. A última unidade se rendeu apenas no dia 16 de maio. O motivo alegado era que oficiais e soldados queriam se render para os norte-americanos, não para os soviéticos ou guerrilheiros locais, temendo vingança.

Uma segunda cerimônia de rendição foi acertada então para Berlim. Esta ocorreu numa casa no bairro berlinense de Karlshorst, que ainda está de pé hoje, e abriga o Museu Teuto-Russo sobre a Segunda Guerra. Foi perto da meia noite, e estavam presentes o Marechal Wilhelm Keitel, pelo exército alemão (além de representantes das outras armas), o General Giorgi Zhukov, pelo Exército Vermelho, e representates norte-americanos, britânicos e franceses.

Talvez sem saber na ocasião, os oficiais presentes nessas diferentes cerimônias estavam já começando a Guerra Fria.

Há fontes que dizem ter o Mal. Keitel retardado a assinatura do documento a pedido de alguns companheiros de armas que queriam furar o cerco soviético em Berlim e procurar unidades norte-americanas ou britânicas para se render. Houve de fato esforços nesse sentido: poucos conseguiram de fato furar o cerco; a maioria ou morreu na tentativa ou foi detida pelos soviéticos.

Os últimos dias.

No dia 28 de abril Benito Mussolini foi morto na Itália tentando fugir para a Suíça, com sua companheira Clara Petacci e outros fascistas, que também foram mortos na ocasião. No dia 30 Adolf Hitler e sua esposa (desde alguns dias) Eva Braun se suicidaram no Bunker sob a Chancelaria berlinense, na esquina das hoje Vossstrasse e Wilhelmstrasse. Uma placa é tudo o que resta de visível, hoje, nessa esquina, assinalando a tragédia e o fim do Reich que deveria durar mil anos. No dia seguinte, no mesmo local, haveria a horrenda tragédia da família Goebbels. Joseph Goebbels e sua esposa Magda assassinaram os seis filhos antes de se suicidarem. Não podiam suportar a ideia de sua descendência viver num mundo sem o Reich.

Além dos aspectos terríveis de toda a guerra, do holocausto, do extermínio de romas, homossexuais, comunistas, outros opositores e tudo o mais – não há etcétera que possa conter esses acontecimentos – a consciência do que sucedeu nesses últimos dias em Berlim é patética.

80 mil soldados soviéticos pereceram em todo o processo da tomada de Berlim, com 100 mil alemães, pelo menos. Mas nos últimos vinte ou quinze dias, quando a luta já se dava casa a casa, em alguns momentos quarto a quarto, dentro de Berlim, pereceram 22 mil soldados soviéticos, 30 mil alemães e uns tantos outros 30 mil civis.

É célebre a foto dos soldados soviéticos desfraldando a bandeira vermelha sobre o Reichstag destruído. Pois a cerca de 500 metros do hoje reconstruído Reichstag estão enterrados os corpos de cerca de 2.200 soldados soviéticos que pereceram na tomada desses últimos redutos nazistas em torno do portão de Brandemburgo, hoje um cartão postal da cidade. Um monumento, sempre cheio de flores e visitantes, marca o local, no Tiergarten, antes parque de caça dos reis prussianos, e jé desde antes do fim da monarquia um parque público, uma das maiores áreas verdes urbanas da Alemanha e da Europa. Pois bem, quando a guerra terminou, não havia uma única árvore no parque: as que não foram destruídas ou queimadas nos bomabardeios foram derrubadas pela população para servir de lenha nesse estertor do 3º Reich.

Por esses dias fui visitar de novo o impressionante cemitério do parque de Treptow – Treptower Park, em alemão. Sete mil corpos estão ali enterrados: é o segundo maior cemitério russo (ex-soviético) fora da Rússia, só superado pelo da Geórgia (onde nascera Stalin), que hoje é uma república independente. É esmagador. Tudo é muito monumental, mas mais monumental é a lembrança da ferocidade nazista que provocou tudo isso.

Mal passada a comemoração do 8 de maio, veio outra: 10 de maio. Nesse dia, há 79 anos, em 1933, fez-se a sinistra e célebre queima de livros de Berlim. Aconteceu na hoje Bebelplatz, em homenagem a um dos autores cujos livros ali foram incinerados, o militante revolucionário August Bebel. A queima ceifou 25 mil livros perante 40 mil pessoas, na maioria jovens estudantes. Essa praça onde ela se deu fica entre a Ópera de Berlim e a Faculdade de Direito, tendo do outro lado da rua a sede da Universidade Humboldt. Consta que quem começou a loucura foi o próprio diretor da Faculdade, que trouxe uma braçada de livros “decadentes” tirados da biblioteca para a fogueira. Presente, o ministro da Propaganda, aquele mesmo sinistro Joseph Goebbels, fez o elogio do novo homem alemão que deveria nascer daquelas cinzas, livre do “intelectualismo judaico” (sic).

Todos os anos, nesse dia, se organiza uma leitura de livros (quem o faz é o Partido A Linke) no local. Neste ano a abertura foi feita por uma senhora de 101 anos que testemunhou a loucura daqueles dias.

No centro da praça há um monumento, planejado pelo artista israelense Misha Ullmann, que consiste numa placa de vidro transparente colocada no chão. Sob ela veem-se estantes brancas e vazias. Ao lado, uma frase em bronze do poeta alemão Heinrich Heine, que também teve seus livros ali queimados:

Das war ein Vorspiel nur, dort
wo man Bücher verbrennt,
verbrennt man am Ende auch Menschen.

A frase pode ser resumida como:

Ali onde se queimam livros
Se termina por queimar também seres humanos.

Uma frase profética.

Depois disso, caras leitoras e caros leitores, façamos um brinde à vida, aos livros, à inteligência, e aos bravos (inclusive, com certeza, os alemães) resistentes que ajudaram a extirpar o nazismo. Embora, como um vampiro, ele não tenha de todo morrido.

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Dois livros de Flávio Aguiar publicados pela Boitempo Editorial já estão disponíveis para venda em versão eletrônica (ebook): o romance histórico Anita, sobre a vida de Anita Garibaldi, e seu livro mais recente, Crônicas do mundo ao revés. Ambos estão à venda na Livraria da Travessa e na Gato Sabido pela metade do preço dos livros impressos.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, e o recente Crônicas do mundo ao revés (2011). Colabora com o  Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Crônicas de Berlim (12): Crônica de uma pancadaria anunciada

Manifestações em Berlim durante o 1º de maio (foto de Fabrizio Bensch/Reuters)

Por Flávio Aguiar.

Em Berlim, 1º. de maio é dia de passeata, festa, muita cerveja… e pancadaria para encerrar o dia.

As comemorações começam relativamente cedo. Às nove da manhã a Central Sindical Alemã, Deutscher Gewerkschaftsbund (DGB) Bundesvorstand, começa sua concentração. Essa se realiza sempre em frente a um dos prédios da Central na capital. Neste 1º. de maio de 2012 ela ocorreu na Hackescher Markt, um dos bairros antigamente de concentração de judeus e de trabalhadores. É um dos espaços privilegiados no romance Berlin, Alexanderplatz, de Alfred Döblin, de leitura obrigatória. Publicado em 1929, o romance teve duas versões cinematográficas, uma de Piel Jutzi, de 1931, e outra, hoje mais famosa, de Werner Fassbinder, feita primeiro para uma série de TV, em 1980, e que tem 15 horas de duração.

De lá, como sempre, ela seguiu em passeata para o Brandenburger Tor, onde já a esperava uma coorte de barracas de cervejas e acepipes, com sua corte de cultuadores que cortaram caminho e foram direto para a festa. Segundo organizadores, 10 mil pessoas participaram do festejo.

Esta é a manifestação tradicional, bem comportada e que teve, como palavra de ordem deste ano, “bons empregos para a Europa”, com “salários justos” e “segurança social”. Sinal dos tempos: a Organização Internacional do Trabalho, em seu relatório de 2012, publicado dias antes do 1º de maio, denuncia que, junto com o Oriente Médio e a África, a Europa é hoje um dos lugares de maior insegurança para os empregos dos trabalhadores no mundo, ao contrário da América Latina, apontada como um bom exemplo. O tempora, o mores…

Lá vão sindicatos tradicionais, como o IG Metall (o dos metalúrgicos), e a manifestação tem um ar geral social-democrata. Muitas crianças, muitos idosos, alguns comunistas de velha cepa, e por aí vai.

À tarde, enquanto prossegue a festa social-democrata em frente ao portão-símbolo de Berlim, começa outra manifestação, desta vez uma festa alternativa no bairro de Kreuzberg, tradicional ponto de concentração dos imigrantres turcos. Talmbém há muita festa, muita cerveja, muita Wurst (salsicha), pratos turcos, árabes, muita caipirinha brasileira rolando. Quando vim para Berlim pela primeira vez, além de raríssima em restaurantes e bares, uma caipirinha podia custar mais de 20 marcos – hoje mais de 10 euros, pelo valor de troca estabelecido pelo Banco Central Europeu. Contudo, hoje elas estão em toda a parte. Antes de ontem, na festa, a gente podia comprar duas por 5 euros, mais ou menos R$ 12,50, ou seja, o preço de uma em muito bar e restaurante de São Paulo, pelo menos. E se a gente quiser tomar uma no aeroporto, nem é bom falar… Vá lá: as capirinhas daqui são mais aguadas, as que se espremem por aqui não se espremem como lá. Mas têm padrão de qualidade: a prática germânica, por exemplo, não admite outros ingrediantes que não sejam a pinga brasileira, e os limões taiti (aqui ditos Limetten) importados do Brasil. Limões amarelos (os Zitronen), rum, vodka, kiwi, nem pensar…

Esta é a festa dos alternativos. A esmagadora maioria dos presentes é composta por jovens, bicho-grilos, punks, é orelha e beiço furados para todo lado, tatuagens as mais loucas, cabelos verdes, vermelhos, roxos, e milhares e milhares de gentes. É impossível calcular o número: falam em 50 mil. Pode ser, ou mais, porque a festa se espalha pelo bairro inteiro.

O olho treinado logo percebe também, às ocultas, os milhares de policiais que guarnecem a festa. Por quê? Porque tradicionalmente, também, ela se encerra com uma passeata – a do “1º de maio revolucionário”, que, invariavelmente, termina em pancadaria. Invariavelmente? Invariavelmente. Todo mundo já sabe, os da passeata, os assistentes, a polícia.

Normalmente, a passeata se organiza a partir da estação de metrô de Kottbusser Tor, bem na “entrada” do bairro, se é que bairro tem entrada. Dessa vez, no entanto, anunciaram um outro ponto de concentração, a Lausitzerplatz, mais adiante, seguindo a linha do metrô. Só depois fui entender o porquê. Por quê? Porque o novo lugar era de todo mais inconveniente para uma concentração: praça mais atravancada, ruas mais estreitas, enfim, se eu fosse organizar uma concentração, como nos velhos e idos tempos de 1968, jamais escolheria um lugar como aquele.

Mas enfim, lá pelo começo do fim da tarde, como de costume, principiou a concentração. Havia um ar de irritação geral no ar, talvez provocada pela quantidade de cigarros fumados de parte a parte. Os policiais fardados não fumavam, mas os em civil sim. A linha de frente da passeata que se ia formando também era uma chaminé em plena atividade. Entre ambas as linhas – os policiais à paisana que parlamentavam e a linha de frente da passeata – corria uma chusma de “go-betweens”, que falavam sem parar com uns e outros. A gente via que algo estava sendo combinado, ou pelo menos mensagens corriam de um lado para o outro continuamente.

De passagem para a frente da passeata, cujo começo, como de tradição, eu queria ver, observei que não havia, nas ruas, policiais tradicionais, que se vestem sempre de verde. Dessa vez não. Havia praticamente apenas uniformes pretos, da tropa de choque. E disfarçados por ruelas e vegetação, meu Deus, havia policial que não acabava mais!

Do lado dos manifestantes, os mesmos rituais de sempre. Vestidos de preto, a maioria com capuzes do tipo chapeuzinho vermelho, óculos escuros desses que nada deixam ver, alguns já de lenço no rosto ou no queixo, a maioria afeta um ar nervoso de grandes decisões. Olhares fixos, daqueles que antecedem as grandes batalhas. Uma enorme faixa, à frente, cobre-lhes os corpos e nos mais das vezes os rostos. Tudo muito elétrico.

Havia razão de ser para tanta eletricidade. Na noite anterior, 30 de abril, conhecida como “A Noite de Walpurgis”, um ensaio de pancadaria geral ocorrera no bairro de Wedding, durante uma concentração contra o aumento do preço dos aluguéis em Berlim. Houve confronto com a polícia, quebra-quebra, pedradas e bombas de gás lacrimogênio, essas coisas.

Além disso, nas convocações pela internet, as várias organizações promotoras anunciavam que dessa vez pretendiam chegar ao Reichstag, ou seja, à chamada Regierungs Platz – a Praça do Governo. Sei de antemão que muitas dessas organizações pequenas sonham em invadir o Reichstag. Cá com meus botões sempre penso que a única vez em que o Reichstag foi invadido foi em 1945, e pelo glorioso Exército Vermelho, ao custo de uma Segunda Guerra Mundial, um Holocausto e outros milhões de mortos de parte a parte. Mas enfim, vamos em frente.

Essa lembrança só me serviu para dar a certeza de que a manifestação jamais chegaria lá. Seria detida no meio do caminho. Mas onde? E como? E por quê?

Eis que no meio das minhas cogitações, a passeata começou! Foi de repente, no meio de um discurso que alguém fazia. E a turma se foi, faixa à frente, aos gritos de “anti-capitalista”, “anti-fascista”, “internacional”, e outros mais. Saíram caminhando sob a linha do metrô, que nessa altura é de superfície.

Como já sei o que vai se passar, como D. João VI fiz uma retirada estratégica para o alto do metrô, depois de caminhar até outra estação. Não sem antes ver que, num edifício em reforma ao lado da linha, alguns manifestantes que lá tinham subido jogavam fogos de artifício. Um deles colocara uma luminária de fumaça a pleno vapor e dois outros agitavam bandeiras vermelhas. Era tudo igual à famosa foto da tomada do Reichstag! Que, portanto, afinal fora retomado, depois de invadido!

Mas deslizando pelo alto do metrô em movimento, descortinei porque a concentração fora deslocada para outro local: é que dessa vez quem se concentrara, aos milhares, em Kottbusser Tor fora a polícia de choque! “É aqui”, pensei, “que a manifestação vai ser detida”.

Como? Ora, depois de caminharem ao longo da linha de metrô, ao chegarem em Kottbusser Tor, alguns manifestantes investiram a pedradas contra uma agência de banco, quebrando-lhes os vidros da frente. Foi a senha: os policiais de desataram, investiram, voaram coquetéis molotov, bombas de gás, pedras, vidros se estilhaçaram e a manifestação se dissolveu algum tempo depois. Poucas prisões, alguns feridos (poucos, felizmente), nenhum óbito.

Então eu compreendi. Para não seguir adiante, a manifestação tinha de ser detida em Kottbusser Tor. Seria o que passaria naquelas conversas nervosas, movidas a fumaça de cigarro, na linha de frente pré-passeata? Haveria alguma infiltração que estimulasse o grupo das pedras a investir contra a agência de banco na Kottbusser Tor, onde estava a massa dos policias? Segundo a mídia, havia 10 mil manifestantes na passeata e sete mil policiais: um número equilibrado, pensei.

Não tenho muita simpatia pelos movimento desses jovens que acorrem a esse tipo de passeata em que o confronto já está previsto e organizado de antemão. Minha expectativa é a de que daqui a alguns anos um grande número deles esteja à frente de grandes empresas – ou atrás – lembrando os doces anos da juventude, quando faziam estrepolias.

Além disso, não posso refutar o sentimento de que, olhando os arranjo dos acontecimentos a posteriori, fora tudo germanicamente cronometrado demais. É impossível que os organizadores não soubessem que a massa dos policiais estava onde de fato estava. E era impossível que essa massa fosse ali concentrada sem a expectativa de que ali algo aconteceria, que jutificasse a intervenção.

Enquanto seguia para casa, ia pensando: “neste ano, no entanto, os danos e confrontos foram menores. Essa é uma tendência. A cada ano, eles diminuem um pouco”.

Mas depois pensei, diante do arranjo que se fizera, proposital ou por acaso: “Mas o confronto jamais terminará. Se um dia os organizadores cancelarem essa passeata, ou impedirem o quebra-quebra, a polícia certamente mandará prendê-los. Por violação das tradições, desacato à autoridade e ameaça à ordem constituída”.

E fui pra casa.

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Dois livros de Flávio Aguiar publicados pela Boitempo Editorial já estão disponíveis para venda em versão eletrônica (ebook): o romance histórico Anita, sobre a vida de Anita Garibaldi, e seu livro mais recente, Crônicas do mundo ao revés. Ambos estão à venda na Livraria da Travessa e na Gato Sabido pela metade do preço dos livros impressos.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, e o recente Crônicas do mundo ao revés (2011). Colabora com o  Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Paris, ah Paris…

Por Flávio Aguiar.

As outras cidades que me desculpem, mas passei a Páscoa em Paris. Ah, Paris…

Paris é inesgotável. Não estou me referindo a turismo. Turismo é para quem gosta de ser peregrino sem religião: roteiros e nichos marcados, registrar o que já foi registrado de antemão, viver dentro do cartão postal. Tive uma experiência com o turismo: quis conhecer Versalhes por dentro. Eu e mais um milhão de pessoas ao mesmo tempo.

Impossível. Desisti, fui embora. Troquei a visita por um almoço num restaurante familiar próximo (e barato!).

Paris é para viajantes. Viajante é aquele que se transforma com a viagem, que vai atrás do inusitado, do desconhecido. Tenho dois modelos de viajantes. Um é o Erico Verissimo de Gato preto em campo de neve e México. O outro é o personagem Goldmund, de Narciso e Goldmund, o romance de Hermann Hesse.

No primeiro de seus grandes livros de viagem (Gato preto…), Erico vai aos Estados Unidos às vésperas da entrada desse país na Segunda Guerra Mundial. Dedica-se a um sem número de visitas a cidades e a entrevistas com grandes intelectuais do momento, como Thomas Mann, lá exilado. Na entrevista com Mann, encanta-se pela ideia de uma “social-democracia”. Não estou fazendo a apologia da social-democracia, mas sublinhando o fato de que Erico foi àquele país em busca de uma resposta íntima para grandes problemas do momento. A seu modo, encontrou.

No seu terceiro e penúltimo livro de viagem (México), um clássico do gênero, Erico vai a este país em busca de sua identidade. Ele estava em Washington, dirigindo o setor cultural da União Pan-Americana. Queria escrever a parte final de O tempo e o vento, O Arquipélago. Não conseguia. O excesso de ordem o sufocava, diria ele tempos depois em suas memórias (Solo de clarineta). Decide então ir ao México. Naquele tempo “América Latina” era um termo praticamente exclusivo para a hispânica. Erico foi para o México “apenas” brasileiro e voltou de lá “brasileiro e latino-americano”, assim, embrulhadamente. Seguia o dito do brilhante Alfonso Reyes, para quem todo intelectual latino-americano tinha duas pátrias: a sua e o México. Depois, nos anos 1960, seria necessário incluir Cuba. Naquela viagem Erico abriu uma senda que brasileiros e mais brasileiros passariam a percorrer.

Já Goldmund é o vaijante de um mundo (a Idade Média) que está perecendo, mas sem que se saiba ainda o que vai nascer. De certo modo corresponde a uma percepção de Hermann Hesse de seu país e de seu continente às vésperas da ascensão do nazismo e da Segunda Guerra Mundial. Goldmund entrega-se ao mundo e ao mundo de seus amores e sempre volta coberto de cicatrizes, por dentro e por fora, para os braços de seu amigo e professor Narciso, prior do convento onde estudou.

Mal comparando, é a sensação que uma visita por esses dias a Paris evoca. Há uma eleição no ar. Um reino – o de Sarkozy – estertora, a possível vitória de Hollande se aproxima. A esquerda, com Mélénchon, renasce das cinzas. Tudo é dúvida, numa Europa onde agora se queimam quadros num museu, em protesto pelos cortes das verbas públicas (aconteceu no sul da Itália).

A Europa de hoje era inimaginável uns tempos atrás. A Europa, como o mundo, está dividida em sul e norte. E tudo isso atravessa Paris de forma palpável e enigmática, ao mesmo tempo. Paris é intensamente multicolorida, étnica e culturalmente, talvez mais do que qualquer outra capital europeia. Num museu, dessa vez, fui visitar a cama onde Marcel Proust escreveu Em busca do tempo perdido. Ainda num cemitério, visitei o túmulo de Marie Alphonsine Duplessis. Quem é? A amante de Alexandre Dumas Filho que lhe inspirou a personagem conhecida como “A dama das camélias”. Tão forte foi essa passagem da vida real para a literatura que na relação de personalidades enterradas no cemitério (o de Montmartre) não consta nem Marie Alphonsine nem Duplessis, mas tão somente “La Dame aux Camélias”. Mas o que marca mesmo em Paris é seu eterno bulício de gente, e sua agitação permanente: Paris parece sempre estar pronta para rearmar as barricadas, as de 1789, de 1832, de 1848, de 1871, as do dia da libertação dos nazistas, em 1944, as de 1968… e esperemos agora um novo alevantamento das esquerdas tão combalidas neste continente em crise econômica, cultural, política e… ética.

Por tudo isso, e por causa das chamas da esperança, a imagem que melhor me ficou dessa Paris, inesgotável como ela, foi a dos enamorados, tão pequenos, mas tão marcantes, nas margens do Sena.

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Dois livros de Flávio Aguiar publicados pela Boitempo Editorial já estão disponíveis para venda em versão eletrônica (ebook): o romance histórico Anita, sobre a vida de Anita Garibaldi, e seu livro mais recente, Crônicas do mundo ao revés. Ambos estão à venda na Livraria da Travessa e na Gato Sabido pela metade do preço dos livros impressos.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, e o recente Crônicas do mundo ao revés (2011). Colabora com o  Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

São Paulo vista de perto

Por Flávio Aguiar.

Saí da geladeira para entrar no forno. Deixei Berlim a menos 5 graus, na segunda 27 de madrugada, e cheguei em S. Paulo com 30, no começo da noite.

Há décadas eu não sentia tanto calor na cidade.

Tradicionalmente São Paulo não era associada a calor, mas a garoa e frio. O Rio Grande do Sul era associado a vastidão, vento e sol; frio, neblina, eram coisas de S. Paulo e Minas Gerais.

Mas o crescimento desvairado da metrópole mudou a percepção. A garoa transformou-se em inundação. O frio, que continua existindo, cedeu espaço no imaginário à reverberação escaldante da capa de asfalto. O próprio cinza tradicional das paredes dos prédios vai cedendo espaço ao reflexo também escaldante dos vidros fumês. A Paulista transformou-se em Berrini.

Outra coisa: o número de pessoas que ouvem rádio a altos brados aumentou muito. Estou morando em casa de filha na Vila Gomes, entre a av. Corifeu de Azevedo Marques e a Raposo Tavares. Não paro de ouvir os acordes conflitantes de um pagode ao lado com o jazz do vizinho… da outra rua, a dezenas de metros!

No trânsito, o número de motoristas que decide compartilhar seu som com os demais, detidos no engarrafamento, é muito grande.

Sem falar nos que decidem compartilhar seu mau humor. Tomei um táxi para uma longa viagem a São Bernardo. Ao saber que eu morava em Berlim, o motorista resolveu dedicar-se ao esporte favorito de muita gente, achando que me agradava: falar mal do Brasil. Quando eu lhe disse que lá fora a imagem do Brasil vai muito bem obrigado, ele me retrucou despeitado: “é porque eles não moram aqui!”.

Ainda comentou: “a história do mundo passou pela Alemanha! Em compensação, o que aconteceu de importante aqui no Brasil? Nada!”

Resolvi mudar de assunto, e passei a falar do calor.

Nesse mesmo dia, deparei com as filas imensas nos postos de gasolina por causa da ameaça de lock out por parte dos motoristas de caminhão que entregam combustíveis na cidade. Era um protesto diante da proibição de circularem nos horários de pico nas avenidas marginais da cidade, particularmente na do Tietê. Uma baita confusão, pois a verdade é que, como está, não pode ficar, uma vez que, na verdade, nos horários de pico não há mais circulação propriamente dita.

À noite, suando em bicas, não pude deixar de pensar: a população de São Paulo está colhendo o que a sua burguesia semeou. E provavelmente vai cotinuar prestigiando os candidatos desta. O Brasil vai melhor sim. São Paulo, não, embora continue sendo uma metrópole atraente. Fiquei um pouco triste.  

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Dois livros de Flávio Aguiar publicados pela Boitempo Editorial já estão disponíveis para venda em versão eletrônica (ebook): o romance histórico Anita, sobre a vida de Anita Garibaldi, e seu livro mais recente, Crônicas do mundo ao revés. Ambos estão à venda na Livraria Cultura e no Gato Sabido.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, e o recente Crônicas do mundo ao revés (2011). Colabora com o  Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

O chichisbéu

Por Flávio Aguiar.

Você deve estar pensando: o que é isso? Em primeiro lugar, por que é “o” chichisbéu, e não “a” chichisbela, ou a “chichisboa”? Vamos então às definições.

Um chichisbéu… bem, digamos, um chichisbéu é alguém merecedor de epítetos e chalaças. Jamais será digno de encômios. Ninguém dirá, ao ver se aproximar um da laia: alvíssaras! Ao contrário, todos dirão: Irra! Cáspite! Com a breca! Que carambolim! Pois a chegada de um chichisbéu sempre provoca um chimbalau na festa.

Um chichisbéu, ainda que porte um jacoto, sempre se achará casquilho, pois é dado a chibantear. Entretanto, é certo que dificilmente se tornará um xabregano. Isto confirma, aliás, o conhecidíssimo dito popular, “quem nasceu para xabrega jamais chegará a xabregano”.

Um chichisbéu é aquele biltre que está sempre a coscuvilhar as raparigas, e a fazer-lhes patuscadas. Se você está na festa, e decide contar uma história em que foi antagonista algum brutaz, aliado a um bando de asseclas, só floreando um pouquinho para ver se consegue catrapiscar alguma miosota na chilreta, o chichisbéu é aquele aziago que virá admoestá-lo: “não, não, não foi assim; na verdade o labrego não era tão goldre, nem procedia como vindo de algum valhacouto de valdevinos; aliás, não se pôs de permeio à choldrabolda porque maquino fora, mas sim por mero hábito de leriante”. Quer dizer, além de atolar-te o avanço em relação à edível, o safardana quer impor-se como ecdótico! Bofé! Só aplicando-lhe um caluete!

Não há mezinha capaz contra um chichisbéu. Ele é fumeta. O único modo de dar-lhe um quinau é sair à francesa, mal ele se disponha à parolagem em tua freguesia, porque certamente se cotovia ou seriema notar em tua caçapa, ele quererá primeiro fazê-la chimarrã, para depois albergá-la em sua soroca. E não há superá-lo em solércia: suspicaz, ele te fará parecer somelga aos olhos da semeada; e colherá o ainda solhorento broto com filáucia, deixando-te a contemplar brulotes. Ou no máximo com alguma semelé.

Portanto, diante de um chichisbéu é melhor alcantilar-se bem a pique do que depois prantear a asa que partiu. E se com tal cristalina explicação você ainda não sabe o que é um chichisbéu, ora figas, vá queixar-se ao cardeal porque bispo para tal esturdície é pouco, seu capadócio!

Já capadócio quer dizer… bem, fica para outra.

Glossário para entender “O chichisbéu”, por ordem de entrada em cena.

Ele mesmo, o chichisbéu – Em português antigo também se dizia o sigisbeo, e se escreviam ambas as palavras com “o” no final. A primeira referência escrita da palavra data de 1727, importado do italiano “cicisbeo”, cuja referência primeira data do ano anterior, 1726. Também nesta época o termo aportou no francês, igualmente importado do italiano. Esta velocidade de passagem de uma língua para a outra sugere a intensidade da imitação do gosto nos salões do tempo, ainda aristocráticos, mas em processo rápido de aburguesamento, graças à importação de modas e trejeitos. O “cicisbeo” originalmente designava um “chevalier servant”, ou seja, um “cavalheiro de companhia”, que acompanhava uma dama de linhagem mais alta do que a dele, e dirigia-lhe ditos elegantes e de efeito. Coisa de safado atrás de favores, nem sempre sexuais, mas de sobrevivência, para falar em castiço. Mais ou menos como o trovador medievo que dedicava um poema à castelã. Nem por sombra imaginava ele um romancete. Queria dizer mesmo: “olha como sou bom para educar seus filhos, em troca de comida, um canto aquecido para dormir e, se der, algumas moedas”. Com o aburguesamento definitivo dos salões, quando neles podia entrar qualquer um, desde que tivesse ou aparentasse ter muito dinheiro ou dívidas em relação aos outros frequentadores, “chichisbéu” passou a designar simplesmente o sujeito que dirigia galanteios insistentes às senhoras e senhoritas presentes. De acordo com o Houaiss, a base da palavra em italiano seria uma onomatopéia, “cici”, pronunciada “tchitchi”, que sugere o ciciar de palavras ao pé do ouvido das disputadas damas. A essa raiz se acresceu a terminação “beo”, provavelmente sugerindo “belo”, mas também derivada de nomes como “Matteo” ou “Taddeo”, que devem ter sido personagens que se destacaram na arte de chichisbelar junto ao belo sexo.

Epítetos, chalaças, encômios – Convenhamos, leitor ou leitora, deixe de preguiça e vá procurar um dicionário.

Alvíssaras –  Expressão da preferência do político João Amazonas, do PCdoB, que, ao saber da queda de Gorbachev, na finada União Soviética, derrubado pelos velhos estalinistas, escreveu um artigo na Folha de São Paulo intitulado “Notícias Alvissareiras”.

Irra! Cáspite! – Qualquer romance do século XIX está cheio destas exclamações, que indicam contrariedade, incômodo. Sinônimos mais civilizados e menos ridículos para os dias de hoje: “Aaargh! Puta que o pariu!” Sobre a ideia hoje corrente de civilização e ridículo, nada a comentar.

Com a breca! – Sempre me perguntei quem ou o quê seria essa tal de “breca”, e o que seria de nós se ficássemos “sem a breca”. Depois fiquei sabendo que “breca” era sinônimo de “cãibra”, que a gente nunca sabe quando vai atacar. Era, portanto, vista como uma coisa ruim, de origem diabólica, como todas as coisas ruins, e inesperada. Como o diabo tem pelo menos duas faces, uma ruim, mas a outra simplesmente traquinas, safada, brejeira, “breca” também passou a designar “traquinagem”. Daí, por exemplo, dizer-se ainda hoje “levado da breca” para um moleque safado. Portanto, pode-se deduzir que “com a breca!” é uma expressão abreviada de algo mais ou menos assim: “Essa coisa surpreendente veio (ou deve ir embora, se for ruim) com a breca”, isto é, com as artes de maldade ou de peraltices próprias do diabo, aquelas que são as inesperadas. Hoje quase não usamos mais essa expressão tão “out of fashion”; preferimos uma interjeição mais elegante e palatável, como “Puta Merda!”, que quer dizer também que algo “veio” ou “deve ir embora” como um monte de merda. Sinceramente, eu não me achava capaz de enjambrar uma explicação destas. Com a breca!

Carambolim – É uma palavra aparentada com carambola. Designava uma perda em cascata, num jogo de mesa, como o de cartas. Era algo como perder três mãos em seguida uma da outra, e ainda uma por causa da outra. A imagem vinha de jogos com bolas, como o bilhar ou antecessores, com bolas batendo umas nas outras e levando à perda de quem está olhando. Em todo caso, pode confiar: é uma desgraça.

Chimbalau – Prejuízo, problema, atrapalhação. Agora, o que chimbalau tem a ver com prejuízo, não tenho a menor ideia. Deve ter sido por causa de um balão que um chim soltou numa festa, e que estourou. Quem quiser que conte outra.

Jacoto – Pau pequeno. Sem comentário.

Casquilho – Vestido como janota, quer dizer, exageradamente elegante. É interessante pensar que “casquilho” pode ter a ver com “casco”, “casca”, isto é, envoltório, roupagem. É, mas não descobri qualquer prova de que tem.

Chibantear – Sinônimo de chibar, que quer dizer mostrar-se fanfarrão, janota, casquilho. Parece que vem de chibo, que quer dizer “cabrito jovem”. O que leva à conclusão de que os cabritos jovens devem ter ser muito exibidos antigamente. Hoje, se algum se exibir, vai pro espeto ou pra panela.

Xabrega, xabregano – Xabrega quer dizer coisa sem valor, vagabunda. Deve ser uma antecessora da contemporânea “brega”. Já “xabregano” é o monge do convento de Xabregas, na Espanha, da Ordem dos Franciscanos. Agora, o que xabrega tem a ver com xabregano, confesso não ter a menor ideia. Também, se você ainda não descobriu por que quem nasceu para xabrega nunca chegará a xabregano, é porque você de fato nasceu para xabrega, e nunca chegará a xabregano.

Biltre – Masculino de “biltra”, mulher vil, de má condição. Imagine então o que o biltre pode ser. Para o português, veio do castelhano “belitre”. Isso nos deve fazer supor que havia uma castelhana “belitra”. Ba, devia ser supimpa. Já supimpa…

Coscuvilhar – Bisbilhotar, imiscuir-se, esgravatar, ciscar. O que queria dizer vilhar, pra gente vilhar cos…  deixa pra lá.

Raparigas – Aquelas à cuja sombra é delicioso ficar. Sobretudo quando dão. Flores, é claro, conforme o Marcel. No Brasil, igual a folgada. Em Portugal, equivalente a moçoilas. Não sabes o que é moçoila? Então jamais estarás à sombra delas em flor. Sinto muito.

Patuscadas – Brincadeiras e folganças, como aquelas que os patos costumam fazer nas escadas, tentando subi-las ou desce-las. Quem quiser que conte outra…

Brutaz – Bruto assaz..

Catrapiscar – Se você não sabe o que é, descubra logo, pois quem não catrapisca se trumbisca, como dizia o finado Chacrinha.  Por volta de 1968 a gente costumava catrapiscar uns breguetes aqui e ali.

Miosota – Flor. Miosótis. Também dita flor-de-lis. Aquela que Milady tinha no ombro, marcada a fogo. Quem é Milady? Ora vá se roçar nas ostras! Se não sabe, que adolescência teve? Flor de lis. Se quiser saber, leia Os Três Mosqueteiros.

Chilreta – Colar de corda com uma aselha. Esclarecedor, não?

Aziago – Que traz mau agouro, azarento. Que só lembra de coisa ruim. Em geral, nos governos, ocupa o Ministério da Fazenda ou o Banco Central.

Labrego – Homem de sentimento brutaz. Quer dizer “lá, eu brego”, eu brigo. Caramba, a que ponto cheguei, inventando algo assim!

Goldre – Indivíduo desavergonhado. Mistura de biltre com labrego. Sinônimo: Labregolde, o que não quer dizer nada. Nada: tema para a Filosofia. Então: Goldre: assunto filosófico. Donde, o Departamento competente que se arranje. De preferência, na Delegacia. Que, aliás, está cheia de goldres, labregos, labregoldes, aziagos, chilretas, miosotas, brutazes e o escambau.

Valhacouto – Também dito valhacoito. Abrigo, refúgio, tugúrio. Coito (ou couto) quer dizer um pedaço de terra ocupado e defendido. Quem diria, hein? Daí vem acoitar, dar abrigo, ou acoitar-se, procurar abrigo. O resto é com Freud. Valha-me o Couto! Que, aliás, deve ter sido um chefe de Capitania no Brasil. Cheio de coutos. Mas se enfiando certamente pelos coitos. É claro que só pelos pedaços de terra, gente!! Vocês pensaram o quê?!

Valdevinos – Vadio, estróina. Parece que derivou de um Balduíno, que devia ser um grande valdevinos. Que na Espanha plantava “vinos” em um “val”. Daí Valdevinos. Meu Deus, que explicação valdevinas!!

Choldrabolda – Choldra é um ajuntamento de gente bagunceira e desordeira. Imagine então a choldrabolda! É de pôr sebo nas canelas e depois dar às de Vila Diogo!

Maquino – Assaltante. Assaltante de estrada. Será que vem de “maquis”, aquela vegetação cerrada na França e na Córsega que dava abrigo aos assaltantes e depois à Resistência durante a Segunda Guerra? Si non é vero, é bene trovato. Mas no Cerrado brasileiro, isso daria simplesmente “cerradino”, o que não valeria grande coisa. Maquino, europeu, é melhor, porque lembra “máquina”. “Civilisé”.

Leriante – Indivíduo falastrão, fanfarrão, dado a lérias. Veja só. Ante ele, só no pau. Quero dizer, na pancadaria. Pensou o quê?

Edível – Comível. Mulher edível. Sem comentários.

Safardana – Biltre. Possível derivação de uma das acepções de safar, que é subtrair, furtar. Dana era a mulher do sultão Safar-el-Din. Quer dizer, ela brinca com el-Din, e ele se dana. Daí, Safardana: a mulher que furtou a felicidade do sultão Safar. Deve estar na maravilhosa história, os Mil e um dias, em que o sultão conta histórias para sua mulher etc. Ou será o contrário?

Ecdótico – De Ecdótica, ciência que ajuda a fixar os textos. Há um tipo de chato de festa ou roda de conversa que não tem nada para contar. Então ele embarca no que os outros contam. A gente conta uma piada e ele corrige: não, não, eu conheço uma versão melhor, que é assim… Ou então alguém conta um fato engraçado que aconteceu com um político e ele: não foi bem assim não, pois segundo o Jornal X o que se passou foi o seguinte etc. etc. Da próxima vez em que isso acontecer, olhe o biltre firme nos olhos e diga: “Cáspite, seu labrego; ponha-se daqui com sua ecdótica falastraz”. Depois olhe o efeito na turma. Algum fará, sem dúvida.

Bofé – Acho demais essa exclamação. Vem de “à boa fé”, ou seja, “à luz da boa fé”. É óbvio que caiu em desuso. Hoje se diria “francamente”, “sinceramente”. Também está caindo em desuso. Mais comum, hoje: “merda!”.

Caluete – A estaca afiada que se usava no empalamento. O Conde Drácula, o histórico, que se chamava Vlad Tepes, parece que entendia disso como ninguém. Há até um quadrinho, em xilogravura, que mostra o Conde almoçando à sombra de centenas de seus inimigos turcos empalados. Gente fina. Mas é bom desconfiar desses quadrinhos: vendidos em livros depois da invenção da imprensa, eles davam muito dinheiro. Dizem que Vlad Tepes mandou empalar milhares de inimigos. Não é verdade. Foram apenas algumas dezenas. O que mostra que ele era um ser civilizado, numa época em que papas mandavam queimar às mancheias.

Mezinha – Remédio. Imagino que seja porque remédio costuma ficar em cima da mesinha, ao lado da cama. Esta, si non é vera, é horrível também.

Fumeta – Antigamente havia um papelzinho que se queimava para espantar mosquito. O cheiro era tão medonho que espantava tudo: até gente, gato e cachorro, vampiro, chato com e sem galocha, até santo e o diabo a quatro. Daí “fumeta” ficou para expressar o cara ou aquilo que ninguém aguenta. Este glossário, por exemplo, é fumeta.

Quinau – Uso metafórico, para “aplicar um corretivo”. Originalmente o “quinau” era a marca que os professores faziam nos trabalhos dos alunos assinalando os erros. Daí, “dar um quinau” passou a designar a ação de “admoestar alguém com palavras”, demonstrando-lhe o erro. E depois deslizou para “dar uma lição”, “deixar alguém em dificuldades”, sem ação. Agora, por que raios um quinau é um quinau tem uma explicação deveras suspicaz. Parece ter derivado de uma expressão “quin autem”, tataravó latina da nossa “mas muito antes pelo contrário”. Ou seja, era o que introduzia a argumentação adversa à de quem, ao contrário de dar, levava o quinau.

Sair à francesa – Sair à sorrelfa, escapar-se sem dar na vista, sem despedir-se. Não sei de onde vem esta expressão. Todos os franceses que conheço sempre se despedem muito polidamente. Alguns são muito salientes até, sobretudo se há damas ao redor, pondo-se muito chichisbéus com elas. Vai ver que os franceses só saem à francesa na França.

Chimarrã – Chimarrão é o animal doméstico, ou, se for gado, criado na estância, que depois volta à vida solta, selvagem. No vizinho Uruguai e no pampa brasileiro fronteiriço, virou uma raça de cachorro, hoje domesticada de novo: o “cimarrón”. Nas colônias francesas, “marron” era o escravo fugido. Enfim, são essas belas coisas da civilização.

Soroca – Pequena grota aberta naturalmente pelas chuvas e que serve de abrigo para animais silvestres. Ou então devia ser uma senhora oca, de algum índio muito rico. Escolha sua explicação preferida.

Solércia, suspicaz, e logo mais adiante filáucia – Solércia é uma das qualidades do suspicaz, que consegue combiná-la com a sua proverbial filáucia. Suspicaz é aquele usa de sua filáucia solertemente. Enquanto filáucia é, das qualidades do suspicaz, a mais solerte. Fácil de entender, não?

Somelga – Sinônimo de bisbórria, pessoa sem muita importância. És somelga?

Semeada – Diz-se da quadra de terra que acabou de ser semeada, para futura colheita.

Solhorento – Prematuro. Que recém tomou sol, e portanto ainda é muito novo para a colheita. Que apanhou sol mas ficou ao relento. Essa última fui eu que inventei. As outras, algum outro biltre.

Brulote – Barcaça velha que se enchia de explosivos e se infiltrava entre os navios inimigos, para faze-los ir pelos ares. Do francês “brûlot”. Assim como Cocote, que deve ter vindo de… Deixa pra lá.

Semelé – Essa é extraordinária. Segundo o Cândido de Figueiredo uma “semelé” é “uma mulher enrugada, mas cheia de malícia”. Será uma definição arcaica de “sogra”? Salomé? Prefiro a última. Uau!

Esturdície – Qualidade de quem fica lendo, ou pior, escrevendo um glossário desses.

Capadócio – A Capadócia era uma região muito pobre e desassistida de tudo, lá pela Ásia Menor, ao sul do Cáucaso, próxima da Armênia e da Anatólia. Muita gente emigrou de lá. Na Europa, “Capadócio” virou sinônimo de “trapaceiro”. No Brasil, de “tapado”. Nada muito lisonjeiro, não? Quero dizer, nada lisonjeiro para quem fica inventando e usando esses adjetivos. Mas há compensações: São Jorge é o padroeiro da Inglaterra e um santo muito forte, padroeiro do Brasil. Ele e Nossa Senhora Aparecida são nossos protetores maiores. Além do mais, ele é um santo sincrético, que visita outras religiões. No Rio Grande do Sul, também atende pelo nome de Ogum. Na Bahia, Oxossi. Uma mãe de santo me disse que sou filho dele. E ele era da Capadócia, o que me faz ser um pouco capadócio. Com muita honra.

Para escrever essas esturdícies acima consultei muitos dicionários, como o Houaiss, o Aurélio, o Cândido Figueiredo, o Lello Universal, o Caldas Aulete, o Larousse du XIXème, a Grande Enciclopédia Italiana, e “Emília no país da gramática” e “Viagem ao céu”, do Monteiro Lobato.

E a cachola. Já cachola…

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Dois livros de Flávio Aguiar publicados pela Boitempo Editorial já estão disponíveis para venda em versão eletrônica (ebook): o romance histórico Anita, sobre a vida de Anita Garibaldi, e seu livro mais recente, Crônicas do mundo ao revés. Ambos estão à venda na Livraria Cultura e no Gato Sabido.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, e o recente Crônicas do mundo ao revés (2011). Colabora com o  Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Crônicas de Berlim (11): A Berlinale toma Berlim de assalto

Veja mais imagens das filas e das emoções dos espectadores da Berlinale clicando na imagem acima

Por Flávio Aguiar.

Começou nesta quinta-feira a 62a Berlinale – o festival internacional de cinema de Berlim, um dos mais importantes da Europa. O Q.G. do festival fica na praça Marlene Dietrich, nomeada em homenagem à grande atriz alemã que se refugiou nos EUA durante o nazismo. Mas o festival toma conta da cidade inteira. As filas para compra antecipada de entradas são imensas. Pode-se levar de uma a duas horas numa delas. Milhares de berlinenses e cinéfilos do mundo inteiro assistirão, até o dia 19, as centenas de filmes de todos os tipos –  longas, curtas, desenhos, documentários, estreias, retrospectivas, homenagens, mais seminários especiais dedicados a jovens cineastas selecionados em dezenas de países, inclusive no Brasil. O Brasil participa da competição pelo cobiçado urso de ouro (já dado a Tropa de Elite e Central do Brasil) numa co-produção brasileira, portuguesa, francesa e alemã, o filme Tabu, dirigido pelo cineasta português Miguel Gomes.

Participam da mostra, mas não do concurso, mais três filmes brasileiros: Xingu, de Cao Hamburger, sobre os irmãos Villas Boas, Olhe pra mim de novo, de Kiko Goifman e Cláudia Priscilla, e Licuri Surf, de Huile Martins.

Entre os filmes mais procurados estarão Les adieux à la Reine, de Benoit Jacquot, onde a Revolução Francesa é vista a partir das mulheres que cercam a rainha Maria Antonieta, e The iron Lady [A dama de ferro, sobre o qual Emir Sader escreveu aqui no Blog ontem], controvertido filme sobre a nada controversa ex-primeira ministra Margareth Thatcher, que também aborda a Guerra das Malvinas – de 30 anos atrás – um tema quente, aliás, no momento, com troca de palavras ásperas entre os governos britânico (que faz desfilar todo o seu aplomb imperial) e argentino – felizmente só palavras, até agora.   

Diz-se com muita justiça que a Berlinale é mais do que um festival, é um estado de espírito. É verdade. A Berlinale é filha da Guerra Fria. Nos anos cinquenta, Berlim Ocidental era uma ilha capitalista cercada por comunismo de todos os lados. Vitrine contra vitrine, os norte-americanos e o governo da RFA (República Federal da Alemanha, não a Rote Armée Fraction – RAF…) decidiram investir em cultura. Criaram uma universidade. Numa cidade cuja população adulta fora devastada pela guerra (e também pelo nazismo), a RFA decidiu liberar do serviço militar obrigatório os jovens que habitassem em Berlim.

E assim também criaram um Festival Internacional de Cinema – a Berlinale, em 1950. Para se entender o sucesso do festival junto ao público, é necessário compreender a mentalidade de “ilhéus” que marcava os habitantes da Berlim Ocidental. Era um momento em que “o mundo vinha a Berlim”.

Bom, a Guerra Fria acabou. Aliás, uma das melhores definições do seu final foi dada, smj, pelo romancista John Le Carré, especializado no tema: parodiando uns versos de Leonard Cohen, ele diz que os mocinhos perderam, e os bandidos dos dois lados ganharam. Mas o Festival ficou, adquiriu vida própria, se ampliou, tomou conta de Berlim inteira.

Um dos melhores aspectos da Berlinale é seu investimento na juventude. Não só trazem jovens cineastas e cinéfilos do mundo inteiro, mas ele tem vastas seções dedicadas a crianças e adolescentes que têm, inclusive, um júri a parte e que dá prêmios de verdade. Esse é um verdadeiro investimento no futuro, e ajuda a compreender por que Berlim é uma cidade onde raramente cinemas fecham, e, até pelo contrário, alguns que estavam fechados às vezes reabrem também.

Outro bom investimento é o deslocamento da apresentação de filmes para bairros afastados das regiões centrais, uma promoção excelente que se chama “Berlinale no bairro”. Isso facilita, nesses dias nevados e gélidos, o acesso para idosos, portadores de deficiência etc.

Claro, há a tietagem de perseguir estrelas, desfiles etc. Mas a Berlinale, como podem ver, é muito mais do que isso.

Diz a lenda que nas longas e demoradas filas que se formam nos guichês nascem amizades, amores, casos, casamentos etc. Às vezes se desfazem…

Nem tudo são flores. Um grande complicador entrou em cena: o celular.

Cada pessoa pode comprar dois ingressos por filme. Os ingressos à venda se referem aos filmes que passam nos três dias seguintes, mais alguns que já estão à venda, e os do último dia do Festival, sempre um domingo, momento de ver o que se perdeu, também os filmes premiados, essas coisas. Isso significa que cada pessoa leva consigo um pequeno memorando com uma batelada de datas, cinemas, opções etc., e que está comprando, normalmente, para pelo menos mais uma pessoa. Em cima dos guichês há uma tela com a relação dos filmes disponíveis, os esgotados etc. Mas isso não adianta. Muitas pessoas chegam no guichê e começam a checar com o vendedor as disponibilidades. Aí entra em cena o celular. Elas ligam para o(s) eventual(ais) parceiros(as), que também deve ter em mãos uma lista de filmes, e começa aquela conversa a três bocas e muitos cliques em computadores ou o que seja, até se chegar a um consenso sobre os tíquetes a comprar. Muitas vezes uma única pessoa pode ficar de dez a quinze minutos num guichê a discutir, telefonar, escolher, re-escolher etc.

É um inferno.

Ah, que saudades dos bons tempos da Guerra Fria, quando não havia celulares!

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Dois livros de Flávio Aguiar publicados pela Boitempo Editorial já estão disponíveis para venda em versão eletrônica (ebook): o romance histórico Anita, sobre a vida de Anita Garibaldi, e seu livro mais recente, Crônicas do mundo ao revés. Ambos estão à venda na Livraria Cultura e no Gato Sabido.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, e o recente Crônicas do mundo ao revés (2011). Colabora com o  Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Natal com neve

Por Flávio Aguiar.

Chico Gui tinha um sonho: passar um Natal com neve, e com muita oração.

Quem era Chico Gui?

Era Francisco Guilherme Müller Schmidt, nascido em Teutônia, então uma vila da colônia alemã no Rio Grande do Sul, Brasil. Lá ele passou a infância.

Mas depois a família se mudou. Foi para Porto Alegre, a capital do estado. Ele cursou a universidade e se formou em Jornalismo. Foi morar em São Paulo. No seu trabalho, numa redação de jornal, Francisco Guilherme Muller Schmidt virou Chico Gui.

Nunca esqueceu da sua cidade natal, nem dos natais de sua casa. Eram natais de uma pequena vila do interior. À noite, a família se reunia ao redor de um pinheiro iluminado, e rezava. As crianças ganhavam chocolates, porque a mãe dizia que era assim que acontecia, na Alemanha, de onde os pais dela tinham vindo, ainda pequenos, antes da Guerra. E os agora avós confirmavam.

Mas tinha uma coisa errada nesses natais: era verão. Por que era verão? Porque o Brasil fica no hemisfério sul, e o Natal, no hemisfério sul, acontece no verão. E o Chico Gui sonhava com os natais que seus avós contavam ter passado na Alemanha, cheios de neve, e todos indo à igreja rezar, na pequena aldeia em que moravam, cantando “Stille Nacht, Heil’ge Nacht”, no Brasil, “Noite Feliz”.

Além disso, o Natal no Brasil foi perdendo o ar religioso. Virou uma grande festa, meio como se fosse Carnaval: muita música, muito fogo de artifício, samba, alegria, cerveja. Chico Gui gostava daquilo. Mas sentia saudade do Natal recolhido, em Teutônia, com a família e as orações. E do Natal que nunca vira, o dos avós, cheio de neve e mais orações.

Chico Gui viu neve no Brasil. Certa vez foi visitar os avós em Teutônia, no mês de julho. Fez muito frio naquele ano, e nevou em Teutônia, quando o Chico Gui estava lá. Para ele foi muito bonito. Tirou fotos. Mas ficou com uma sensação de que a neve viera fora de época, porque não era Natal.

Mas um dia a oportunidade que Chico Gui esperava se apresentou. Ele tirou férias em dezembro, e decidiu fazer uma viagem a Berlim. Queria visitar uma prima distante, que morava há muito tempo na capital alemã. E lá se foi ele, cheio de esperança. Veria um Natal com neve, e entraria numa capela, numa igreja, para rezar, como fazia quando criança, com os pais e avós, em Teutônia.

Chico Gui chegou em Berlim em meados de dezembro. A prima foi esperá-lo no aeroporto. Uma graça de pessoa, que ele não via desde criança. A simpatia mútua foi imediata. Chico tinha um hotel reservado, mas ela convidou-o para ficar na casa dela. Podia dormir no sofá da sala. Ele topou.

Tinham se encontrado apenas algumas vezes, quando crianças. A avó paterna dela, que também emigrara da Alemanha para o Brasil, era prima do avô materno de Chico. Ou algo assim.

Passaram um tempo encantador. Visitaram muita coisa em Berlim. O portão de Brandemburgo. O Reichstag, a Porta de Ishtar no Pergamon. O que restava do Muro. E assim por diante. Berlim não tinha segredos para a prima. Nem ela teve para ele.

Mas a prima – que se chamava Elisabete Amália – notou que o primo estava inquieto.

– Por quê? Ela perguntou.

– É que não há neve, respondeu o primo. O que está acontecendo?

– É, devia haver, disse a prima. Vai ver que é o aquecimento global.

A explicação não acalmou o Chico Gui. Que azar! Logo agora! Mas que fazer? Bom, esperar o Natal, ver se nevaria, e, pelo menos, rezar numa igreja, como nos velhos tempos.

Chico Gui se deliciava. Curtiu os fins de semana do Advento, coisa que não se comemora no Brasil. Houve dois fins de semana do Advento, antes do Natal. E ele e a prima acendiam as velas, e se divertiam fazendo jantares. Ele gostava de cozinhar carnes, ela, peixes. E tomavam vinhos. Apesar da decepção pela falta de neve, o Chico Gui estava encantado. Ele adorava o jeito com que ela conhecia e lhe mostrava a cidade, e a sua história. E ela adorava o jeito com que ele contava histórias dos tempos de infância, em Teutônia, histórias que ela nem lembrava mais, não sabia se eram mesmo de verdade. Não importava.

Bom, enfim chegou o Natal. Sem neve. Mas os dois primos saíram, no dia 24, pela cidade. Passearam. Foram ao Krumme Lanke. Quando viram, estavam de mãos dadas no meio das árvores. Beijaram-se. O Chico Gui disse que ele tivera umas namoradas. Nada sério. Nada que tivesse deixado saudades.

Ela viera para a Alemanha por causa de uma grande paixão. A paixão naufragara. Ela sobrevivera. Mas o coração se fechara.

Depois dessas confidências e mais alguns beijos, voltaram a passear pela cidade. O Chico adorou as luzinhas fabricadas em Hong Kong, grudadas nas árvores. As vitrines coloridas. A multidão nas ruas, fazendo compras como em todo o mundo. Os bonequinhos de neve – na verdade, de plástico – nas janelas dos apartamentos. O Chico até lembrou dos algodões de sua infância, que fingiam ser neve nos pinheiros brasileiros, em pleno verão. Passearam mais. De tanto passear, quando se deram conta era tarde.

– Chi, disse ela, olhando no olho dele.

– Não faz mal, disse ele. Vamos rezar amanhã.

Foram para casa. Pela primeira vez, o sofá da sala ficou intocado. E o amanhecer surpreendeu roupas pelo chão no quarto dela, e as janelas, se contassem o que tinham vislumbrado durante a noite, falariam de uma certa fragrância de amor.

Tomaram o café da manhã com pressa. Era tarde. E saíram pela cidade, atrás de uma igreja, onde ele pudesse rezar.

Que problema! Foram de igreja em igreja: todas fechadas. Em algumas, nada anunciado. Em outras, um cartaz: “Heute, 16:00 Uhr: Konzert. Bach, Händel, Haydn” etc. Ainda numa outra, em inglês: “Today, 17h00: Gospel Music, Alabama Soul Singers”.

Mas nada, nenhuma porta aberta. Reza? Nenhuma. Onde?

E andaram e andaram, e tomaram o metrô e alguns ônibus. De nada adiantou. Todas as igrejas estavam fechadas!

Até que…

Depois de baterem nas portas fechadas da Marienkirche, na Alexanderplatz, eles foram até a Nikolaikirche, logo adiante.

Estava aberta! E era o prédio mais antigo de Berlim! O coração de Chico Gui tremeu! Que realização do seu sonho! Apesar da falta de neve, rezar na igreja mais velha da antiga e nova capital alemã!

Abriram a porta. Na entrada, um simpático… O quê? Um porteiro? Um funcionário? Ele os recebeu. E apontou a bilheteria. Havia uma exposição na igreja. Pinturas antigas. Cinco euros a entrada.

O Chico Gui, que não sabia falar alemão, pediu pra prima que explicasse ao simpático velhinho (fosse o que fosse, era um velhinho):

– Por favor, diga a ele que eu não quero ver a exposição. Eu só quero entrar e rezar um pouco.

Ela traduziu:

– Er sagt er möchte die Ausstellung gar nicht besuchen. Er möchte nur ganz kurz in die Kirche hinein um zu beten.

O velhinho teve um sorriso compreensivo. E disse:

– Können Sie bitte Ihren Freund sagen, dass der lieber Gott nicht mehr hier wohnt. Das ist jetzt ein Museum.

Ela traduziu:

– Ele me pediu para te dizer que o bom Deus não mora mais aqui. Isso agora é um museu. Faz muito tempo.

O Chico Gui arregalou os olhos e disse à prima:

– E agora?

– Sei lá, disse a prima. Vamos visitar a exposição, quem sabe?

O Chico Gui sentiu-se roubado. Disse:

– De jeito nenhum. Vamos embora!

E saíram.

Mas a fúria dele durou pouco. A prima levou-o para passear. Afinal, não estava tão frio… Acabaram sentados no restaurante da casa de Brecht e Helène Weigel, na Chausseestrasse, que, surpreendentemente, estava aberto. Talvez, ele pensou, porque Brecht e Helene fossem comunistas, ateus, e não comemorassem o Natal, senão ali também haveria um concerto!

 Ele confessou sua decepção. Sem neve, sem oração no dia de Natal, o que fazer, o que contar quando voltasse ao Brasil?

E ela lhe disse:

– Não te aconteceu nada de importante aqui em Berlim?

Então ele a olhou nos olhos. E viu a enorme capela de adoração que havia neles, aberta para que ele rezasse. E ele viu pontos luminosos naqueles olhos, como se fossem flocos de neve suspensos no ar. Outra confissão lhe veio: ele disse que a amava, que ela era o grande amor da sua vida. E que aquilo, para ele, era uma oração. Ela ficou vermelha, e abriu seu coração, como as portas de uma capela, de par em par. Disse tudo o que sentia.

Bom, vocês podem imaginar o que aconteceu.

Eles acabaram decidindo viver juntos. Por esses acasos da sorte, foram morar em Salvador, na Bahia. Falam até em ter filhos.

Ele é chefe da sucursal de uma importante revista, a Carta Capital, e ela trabalha no escritório da Attac na cidade.

Em dezembro, é claro, faz um calor de rachar.

Em compensação, tem 365 igrejas para rezarem, todas abertas o ano inteiro, inclusive no dia de Natal. E ele tem na parede uma foto com os avós, daquele dia de julho em que nevou em Teutônia.

Mas quando está na praia, depois de tomar umas três caipirinhas, se alguém lhe pergunta como encontrou seu grande amor, ele começa:

– Era dia de Natal. Caía uma terrível tempestade de neve em Berlim, e eu entrei na igreja mais antiga da cidade para rezar…

Ela sorri… E deixa rolar.

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Dois livros de Flávio Aguiar publicados pela Boitempo Editorial já estão disponíveis para venda em versão eletrônica (ebook): o romance histórico Anita, sobre a vida de Anita Garibaldi, e seu livro mais recente, Crônicas do mundo ao revés. Ambos estão à venda no Gato Sabido e na Livraria Cultura.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, e o recente Crônicas do mundo ao revés (2011). Colabora com o  Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Fantasias de Natal

O cronista disfarçado de Rei Mago, em 1964. Ou será o contrário?

Por Flávio Aguiar.

“Natal” é uma palavra em português que se refere, originalmente, a “lugar de nascimento”. Por exemplo, a minha cidade natal é Porto Alegre, o meu estado natal é o Rio Grande do Sul, o meu país natal é o Brasil. Tudo porque ela deriva de uma palavra da língua latina, “Natalis”, que era o nome de um deus que favorecia os nascimentos.

Ela, essa palavra, faz parte de uma extensa família, em geral referente ao tema do “nascimento”. Por exemplo, “natalidade”, que se opõe a “mortalidade”. Assim: a taxa de natalidade (número de nascimentos por mil habitantes) no Brasil está caindo. A taxa de mortalidade infantil (número de mortes de crianças antes de um ano de idade) também está caindo.

Há também “natalício”, que pode significar “o dia do aniversário”. Mas também é um nome próprio, exclusivamente masculino. Só existe o “seu Natalício”. Não existe uma “dona Natalícia”. Embora a gente possa falar da “data natalícia”. Em compensação, só existe a “dona Natália”, um nome feminino. Não existe o “seu Natálio”.

Por outro lado, acho que eu nunca diria “a minha língua natal”, mas “a minha língua nativa”. Eis outros membros proeminentes da família: o nativo, a nativa.

Existem famílias de palavras que são primas da palavra Natal. Por exemplo, “natureza”, que veio da palavra latina “natura”. Até em alemão existe a palavra “Natur”, em inglês “nature”, línguas que não são latinas. “Natural” faz parte desse grupo, com diversos significados, entre eles o de lugar de nascimento: eu sou natural de Porto Alegre. Outras primas de “Natal” são “nação” e “nacional”, que vêm do latim “natio”.

E Natal também tem a ver com o verbo nascer. Daí a lista de agregados e clientes é enorme.

Por exemplo: Nascituro, o que vai nascer, e nascido, o que já nasceu.

Também Nascente, que quer dizer três coisas: aquilo que está nascendo, o lugar onde o sol nasce (por oposição a Poente), e também fonte d’água. A gente diz “o Nascente” – a leste – e “a Nascente – a fonte. Que também se pode dizer “Manancial”. Ou “Manantial”, como se dizia na nossa fronteira antiga com os castelhanos, que se dizia “Manantsial”, num jeito de falar que só existia por lá.

Mas tem mais. A palavra grega “Gnosis”, que quer dizer “Conhecimento”, deu em Latim Gnata, filha (daí veio Nata) e Gnatus, filho (daí veio Natus), mas nesse caso “filhos reconhecidos”, por oposição aos “ilegítimos”, ou “Ignoti”, desconhecidos. Houve várias derivações, ou coincidências, como Ignorante, o que desconhece, mas também verbos, como Ignoro, Ignorare, que quer dizer desconhecer, ou Ignosco, Ignoscere, que quer dizer perdoar. E desse conjunto faz parte também o verbo Innato, Inatare, que em português deu nadar, ou simplesmente boiar, permanecer na superfície, o que também nos deu a palavra “Nata”, aquela película que bóia na superfície do leite e de que, normalmente, as crianças têm um certo nojo.

Pois é. Mas Natal quer dizer também uma certa data, uma época do ano, referente à comemoração do nascimento de Jesus Cristo, época de ganhar e dar presentes, fazer festa, lembrar da infância. Se eu me lembro da minha infância, nesse momento do ano, o que significa “Natal”?

Natal era sinônimo de “Papai Noel”, o bom velhinho que trazia presentes. Quando eu era muito criança, a gente ia dormir cedo na noite de 24 de dezembro, e no dia 25 acordava cedo para correr até a árvore de Natal e descobrir os presentes que ele tinha trazido. Árvore de Natal? Era um pinheiro – naquela época uma Araucária, hoje proibida de cortar – decorada com bolas e até com algodão fingindo que era neve. O Natal era uma festa muito familiar, a pequena família: pai, mãe, filhos, avós, netos.

A foto mais antiga que tenho de minha família é a de meus avós maternos com os filhos, entre eles minha mãe, a caçula, ao lado de uma árvore de Natal. A foto é de 1916 ou 1917. Fico pensando no mundo ao redor dela: a Europa na Primeira Guerra Mundial, o Império Alemão morria, a União Soviética nascia.

Depois aprendi que o Papai Noel não existia, era uma ficção representada por adultos. Já nessa época a distribuição dos presentes se fazia na noite do 24, normalmente na casa de um vizinho da nossa. Era uma festa ampliada: vinham os agregados, empregadas domésticas e seus filhos, tios, primos, e se comia muito.

Eu invejava os adultos que representavam o Papai Noel, com aquela roupa vermelha, o disfarce dos bigodes e da barba brancos, as botas pretas de plástico fingindo ser de couro, com aquele ar de ter vindo de países frios, ao norte, onde era inverno. As crianças menores não reconheciam o adulto. Eu queria ser um Papai Noel no Natal. Distribuiria presentes. Teria crescido. Seria alguém importante.

Na minha cidade natal, Porto Alegre, também se representava, às vezes, um “Presépio Vivo”. Eu invejava aquilo também, até o boneco de plástico que representava Cristo na manjedoura.

Mal sabia o que iria me acontecer.

A primeira vez que entrei numa representação de Natal foi em Burlington, Vermont, nos Estados Unidos, quando fui um “exchange student”. Convidaram-me para participar da representação natalina da Igreja Metodista que minha família norte-americana frequentava. Eu fui um dos Reis Magos, Melquior, para ser mais exato. Gaspar era meu irmão norte-americano, e Baltazar um dos poucos negros da cidade que frequentava a igreja. E lá entrei eu na Igreja, ao som de um órgão, olhando o céu, como se visse uma estrela, em direção ao altar, com manto, coroa, barba postiça e tudo. Tenho uma foto. Depois, me pediram para tocar acordeão. Toquei. Eu só sabia duas músicas. Felizmente, uma delas era Noite Feliz. Toquei com barba, manto, coroa e tudo. Deu certo.

Minha experiência posterior veio décadas depois. Vivendo no Canadá, a creche de minha filha mais moça, então com quatro anos, me convidou para ser o Papai Noel da festa. Aceitei. Foi legal. Receberam-me como quem, num país gelado, recebe quem vem dos trópicos festivos. Puseram até música de batucada brasileira para receber o “Papai Noel”. Eu disse que estava chegando do Rio de Janeiro. As crianças adoraram aquele Papai Noel festeiro. Mas nunca esqueci o comentário dessa minha filha: “esse Papai Noel está usando as sandálias de meu pai”. Eu esquecera de trocá-las, e as crianças tinham ficado mais observadoras.

Minha terceira experiência foi em Maceió, capital do estado de Alagoas. Eu estava num Congresso do Sindicato Nacional dos Professores Universitários. Era dezembro. De repente, no meio de uma das sessões, um colega me bateu no ombro e me pediu que eu fosse até a porta do auditório. Fui. Um grupo de estudantes secundaristas me esperava. O meu colega me explicou: eles eram de uma escola pública, havia um concurso, para ganhar eles precisavam levar um poeta que declamasse, no auditório, um poema de Natal. “Você é poeta, eu sei”, me disse o colega.

Olhei o bando: eles e elas me olhavam com olhares pedintes. “OK”, eu disse, “eu vou”. E lá nos saímos pelas ruas de Maceió, atrás da escola. Não caminhamos muito. Chegamos. O prédio, pelo menos, era bonito. Esse tipo de concurso, no Brasil, se chama “gincana”. Só que aí eu me lembrei que não lembrava de nenhum poema de Natal, assim, de cor. E agora?

Felizmente, houve uma circunstância que me ajudou. Um dos alunos chegou até mim com um pacote e me disse: “aí está uma roupa de Papai Noel”. “O senhor tem que vestir, é a regra da gincana”. “O quê?”, eu disse. “É”, ele disse, “é a regra”. Aí eu disse: “Está bem, eu preciso ir até uma sala para me vestir”. Eles me levaram até uma sala de aula. E lá eu vesti a roupa de Papai Noel, botei a barba postiça, as botas de plástico, travesseiro na barriga para parecer gordo, algodões nos ombros para fingir que era neve (fazia um calor de rachar), e aproveitei o tempo para rabiscar um poema num papel que achei, com uma caneta que eu tinha levado. Entrei no palco do teatro da escola, um prédio antigo, provavelmente do século XIX, li o poema, recebi um aplauso triunfal, o grupo que lá me levara ganhou a gincana. Saí de lá vitorioso, caminhei de volta até o lugar de encontro, embriagado por aquela vitória com que eu comemorava meu sonho de infância.

Bom, o papel do poema eu perdi, e o próprio poema eu esqueci. Felizmente. Devia ser muito ruim, de tão improvisado que era. Mas tudo aquilo junto incluído foi um dos melhores poemas que eu já criei, acho.

E agora aqui em Berlim, um grupo de alunos de português brasileiro, para quem a minha mulher dá aulas na universidade, me pediu para ler uma crônica natalina na sua festa. Lá vou eu. Felizmente, ainda não me pediram para que eu me vista de Papai Noel ou de Rei Mago. Mas nunca se sabe, pois as fantasias de Natal sempre podem se realizar. 

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Dois livros de Flávio Aguiar publicados pela Boitempo Editorial já estão disponíveis para venda em versão eletrônica (ebook): o romance histórico Anita, sobre a vida de Anita Garibaldi, e seu livro mais recente, Crônicas do mundo ao revés. Ambos estão à venda na Livraria Cultura e no Gato Sabido.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, e o recente Crônicas do mundo ao revés (2011). Colabora com o  Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Crônicas de Berlim (10): As cicatrizes do futuro

Por Flávio Aguiar.

O Terceiro Reich era para durar mil anos. Durou 12. Mas deixou atrás de si um rastro de morte, destruição e ódio. Além da destruição em outros países, deixou também uma Alemanha em escombros. Pior: deixou almas em ruínas.

Não me refiro apenas às vítimas. Penso também nos algozes.

Ao saber que o limite chegara, Hitler orgnazizou uma cerimônia em que ele e Eva Braun se casaram. Houve até brinde com champanhe. Quando eles se mataram, na tarde de 30 de abril de 1945, ele nomeou seu ministro de Propaganda, Joseph Goebbels, como novo chanceler. Mas não o nomeou Führer, isto é, mais que o líder, o guia. De maneira muito adequada nestas circunstâncias, ao saber da morte de Hitler, Goebbels declarou: “O coração da Alemanha cessou de bater. O Führer está morto”.

A seguir, no dia 1o de maio, Goebbels e sua esposa, Magda, se suicidaram. Até hoje há dúvidas sobre como, se ele atirou nela e depois nele, se ele se matou com um tiro e ela com veneno, ou se foram mortos por um guarda da SS. Mas não há dúvidas sobre uma coisa: antes de morrerem, eles assassinaram, com a ajuda de um dentista da SS, que lhes deu morfina, e do médico de Hitler, que lhes deu cianeto enquanto dormiam, os seus seis filhos.

A justificativa foi a de que não podiam conceber seus filhos vivendo num mundo sem o Terceiro Reich.

Essa combinação de acontecimentos macabros criou uma bolha metafórica. Deixaram atrás de si, além de vários cadáveres, um oco (o vazio do Führer, o coração da Alemanha que não bate mais), e a impossibilidade do futuro sem esse coração: o futuro tornou-se um prolongamento desse vazio. Pelo menos para quem acreditasse naquilo, ou seja, que o Führer fosse realmente aquele coração.

Hoje a esmagadora maioria dos alemães ainda tem de conviver com as ruínas que essa loucurália toda, inclusive com as almas em ruína que isso deixou. Mas há ainda que viva tudo isso com a mágoa do ressentimento, do futuro que não houve o que, como se sabe, é a única cicatriz que permanece como tal e como ferida por debaixo dela, sem fechar. Como uma ferida de superfície necrosada, uma úlcera hipertensiva, para ser mais preciso na imagem médica – e na histórica também, porque isso é sinal de uma alta pressão que pode explodir a qualquer momento.

Qual a razão para que uma pessoa viva isso dessa forma, fazendo do ressentimento histórico e do ódio a sua razão de vida? Talvez não haja uma única razão, haja várias, haja cadeias de acontecimentos que levem pessoas a assim acumularem esse potencial destrutivo dentro de si, até o momento de soltá-lo de maneira devastadora. Uma coisa é certa: depois que eles, o ressentimento e o ódio se deflagram combinados, raramente há volta. Não há espaço para o arrependimento, nem para o retorno: o procedimento de Goebbels e de Magda ilustra isso. Hitler, que não tinha filhos, matou seu adorado cão antes de morrer. Goebbels e Magda que, tanto quanto se sabe, não tinham cão, pelo menos naquele momento, mataram os filhos. Poderiam dizer que foi por uma forma torta de “misericórdia”. Talvez porque não suportassem a ideia de viverem na memória deles.

Segundo o Serviço de Inteligência alemão, há, entre os quase 82 milhões de habitantes desse país, 25 mil militantes com alguma atividade de extrema-direita. Desses, entre 9 e 10 mil estariam propensos a alguma forma de violência direta, que pode ir desde o ataque a sinagogas, a propriedades de imigrantes, ou mesmo atentados contra aqueles cuja presença, por si só, é uma agressão a esse ideal soterrado dentro de suas almas da existência de um Terceiro Reich de mil anos. Dentre esses 09 ou 10 mil, alguns, não todos, chegam às vias de fato. Mas, embora mínimos em relação ao todo, são devastadores. São como anjos da morte que evocam, dentro de si mesmos, aquele oco, aquele vazio de existência, deixado como herança por Hitler e Goebbels.

Foi o caso de um trio de neonazistas recentemente descobertos, dois homens e uma mulher que moravam na cidade de Zwickau. Durante vinte anos, treze dos quais na clandestinidade, eles desenvolveram atividades neonazis. De início, a descoberto, eram atividades de propaganda. Depois, a partir de 1998, partiram para ações diretas e mergulharam no segredo. Desde então tornaram-se responsáveis por dez assassinatos – sendo oito de negociantes turcos, um de um negociante grego e um de uma policial em Heilbronn – dois atentados a bomba de fragmentação com trinta feridos em Colônia e Düsseldorf– e pelo menos 14 assaltos a banco. No último assalto a banco, na cidade de Eisenach, os dois homens foram descobertos e cercados pela polícia. Na versão oficial, os dois repetiram os destinos trágicos de seus heróis legendários: um deles teria atirado no outro e depois atirado em si mesmo. A mulher, depois de explodir o apartamento em que o trio morava, se entregou.

Desde então não cessam de surgir descobertas e suspeitas surpreendentes e arrasadoras sobre o caso. Eles tinham uma rede de apoio de cerca de 20 pessoas, que lhes forneciam identidades falsas, armas, passaportes etc. Provavelmente (isso ainda se investiga) teriam algum tipo de acobertamento no aparato policial e do próprio Serviço Secreto. Suspeita-se agora que a policial em Heilbronn foi morta porque, contactada pelo grupo para colaborar, terminara se recusando: seria uma forma de vendetta e de aviso para outros.

Mas junto com isso tudo, o que mais despertou perplexidade foi a constatação de que o Serviço de Inteligência (BfV – Bundesamt für Verfassungschütz, em alemão: Agênciapara a Proteção da Constituição, literalmente) subestimara sempre não só a atividade desse grupo, como a de toda a extrema-direita alemã. Também se descobriu que nesse campo a colaboração entre esse Serviço e as polícias locais era mínima ou inexistente. Também ficou claro que, se é verdade que o número de extremistas dispostos à ação é mínimo, o número de simpatizantes próximos de suas idéias não é tão pequeno assim. Tomando-se a proporção dessa célula de Zwickau, pode-se conjeturar que para cada extremista desses há pelo menos três outras pessoas dispostas a ajudá-lo ou a acobertá-lo. Não falando de ideias difusas.

Pergunta-se se essa “cegueira” do Serviço de Informação se deveu a uma excessiva fixação na possibilidade do terrorismo de esquerda ou por parte de grupos islâmicos. Pode ser. Mas também mostra a dificuldade de se olhar, mesmo que de outros pontos de vista, para esse oco deixado como herança maldita pelo Reich e seus últimos próceres.  

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Dois livros de Flávio Aguiar publicados pela Boitempo Editorial já estão disponíveis para venda em versão eletrônica (ebook): o romance histórico Anita, sobre a vida de Anita Garibaldi, e seu livro mais recente, Crônicas do mundo ao revés. Ambos estão à venda no Gato Sabido.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, e o recente Crônicas do mundo ao revés (2011). Colabora com o  Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.