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Pobres bancos

Por Vladimir Safatle.*

Quando o governo resolveu, enfim, denunciar a “lógica perversa” que guia o sistema financeiro brasileiro, era de esperar que os consultores e economistas regiamente recompensados pelos bancos aparecessem para contemporizar. Como em uma peça de teatro na qual as máscaras acabam por cair, foi isto o que ocorreu.

Há algo de cômico em ver adeptos do livre mercado e da concorrência procurando argumentos para defender uma banca de oligopólio especializada em espoliar os brasileiros com “spreads” capazes de deixar qualquer banco mundial corado de vergonha.

Se os bancos brasileiros estão entre os que mais lucram no Universo, é porque nunca precisaram, de fato, viver em um sistema no qual o poder estatal impediria a extorsão institucionalizada à qual ainda estamos submetidos.

No mundo inteiro, o sistema bancário faz jus à frase do dramaturgo Bertolt Brecht: “O que é roubar um banco se você imaginar o que significa fundar um banco?”.

Nos últimos anos, vimos associações bancárias com comportamentos dignos da máfia, pois são especializadas em maquiar dados e balanços, criar fraudes, ajudar a evasão fiscal, operar em alto risco e passar a conta para a frente, além de corromper entes públicos.

Mas a maior astúcia do vício é travestir-se de virtude. Assim, o sistema financeiro criou a palavra “austeridade” a fim de designar o processo de assalto dos recursos públicos para pagamento de rombos bancários e “stock-options” de executivos criminosos, com a consequente descapitalização dos países mais frágeis.

Se não tivemos algo da mesma intensidade no Brasil, vemos agora um processo semelhante do ponto de vista retórico. Assim, os “spreads” bancários seriam o resultado indigesto do risco alto de inadimplência, já que a população brasileira teria o hábito pouco salutar de não pagar suas dívidas e se deixar endividar além da conta.

Neste sentido, os lucros bancários seriam (vejam só vocês) o remédio amargo, porém necessário, até que a população brasileira aprenda a viver com o que tem e assuma gastos de maneira responsável. O mais impressionante é encontrar pessoas que se acham capazes de nos fazer acreditar nessa piada de mau gosto.

A verdade é que quanto menos poder e margem de manobra o sistema financeiro tiver, melhor é a sociedade. Há sempre aqueles “consultores” que dirão: “É fácil falar mal dos bancos”, apresentando o espantalho do populismo. A estas pessoas devemos dizer: “Sim, é fácil. Ainda mais quando não se está na folha de pagamento de um”. Já sobre o “risco” do populismo, pobres são aqueles para os quais a defesa dos interesses econômicos da população sempre é sinal de irracionalidade.

 * Artigo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo, em 08/05/2012.

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Os livros de Vladimir Safatle publicados pela Boitempo Editorial já estão disponíveis para venda em versão eletrônica (ebook), em média custando metade do preço dos livros impressos:

Cinismo e falência da crítica, de Vladimir Safatle * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

O que resta da ditadura: a exceção brasileira, organizado por Edson Teles e Vladimir Safatle * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real!, de Slavoj Žižek (posfácio de Vladimir Safatle) * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas, coletânea de artigos com textos de David Harvey, Edson Teles, Emir Sader, Giovanni Alves, Henrique Carneiro, Immanuel Wallerstein, João Alexandre Peschanski, Mike Davis, Slavoj Žižek, Tariq Ali e Vladimir Safatle * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido | Livraria da Travessa | Livraria Saraiva)

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Vladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP, bolsista de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), professor visitante das Universidades de Paris VII e Paris VIII, professor-bolsista no programa Erasmus Mundus. Escreveu A paixão do negativo: Lacan e a dialética (São Paulo, Edunesp, 2006), Folha explica Lacan (São Paulo, Publifolha, 2007), Cinismo e falência da crítica (São Paulo, Boitempo, 2008) e co-organizou com Edson Teles a coletânea de artigos O que resta da ditadura: a exceção brasileira (Boitempo, 2010), entre outros. Atualmente, mantem coluna semanal no jornal Folha de S.Paulo e coluna mensal na Revista CULT. Em 2012, teve um artigo incluído na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas, publicada pela Boitempo Editorial em parceria com o Carta Maior.

Claramente a favor do aborto

“Sem título (Seu corpo é um campo de batalha)”, de Barbara Kruger (1989)

Por Vladimir Safatle.*

Há algum tempo, a política brasileira tem sido periodicamente chantageada pela questão do aborto. Tal chantagem demonstra a força de certos grupos religiosos na determinação do ordenamento jurídico brasileiro, o que evidencia como a separação entre Igreja e Estado está longe de ser uma realidade efetiva entre nós. Uma das expressões mais claras dessa força encontra-se no fato de mesmo os defensores do aborto não terem coragem de dizer isso com todas as letras.

Sempre somos obrigados a ouvir afirmações envergonhadas do tipo: “Eu, pessoalmente, sou contra, afinal, como alguém pode ser a favor do aborto? Mas esta é uma questão de saúde pública, devemos analisá-la de maneira desapaixonada…”

Talvez tenha chegado o momento de dizermos: somos sim absolutamente a favor do aborto. Há aqui uma razão fundamental: não há Estado que tenha o direito de legislar sobre o uso que uma mulher deve fazer de seu próprio corpo. É estranho ver algumas peculiaridades brasileiras. Por exemplo, o Brasil deve ser um dos poucos países onde os autoproclamados liberais e defensores da liberdade do indivíduo acham normal que o Estado se arrogue o direito de intervir em questões vinculadas à maneira como uma mulher dispõe de seu próprio corpo.

Há duas décadas, a artista norte-americana Barbara Kruger concebera um cartaz onde se via um rosto feminino e a frase: “Seu corpo é um campo de batalha” [ilustração acima]. Não poderia haver frase mais justa a respeito da maneira com que o poder na contemporaneidade se mostra em sua verdadeira natureza quando aparece como modo de administração dos corpos e de regulação da vida. Esta é a função mais elementar do poder: fazer com que sua presença seja percebida sempre que o indivíduo olhar o próprio corpo.

Nesse sentido, não deixa de ser irônico notar como alguns setores do cristianismo, como o catolicismo e algumas seitas pentecostais, parecem muito mais preocupados com o corpo de seus fiéis que com sua alma. Daí a maneira como transformaram, a despeito de outros segmentos do cristianismo, problemas como o aborto, a sexualidade e o casamento homossexual em verdadeiros objetos de cruzadas. Talvez seria interessante lembrar: mesmo entre os cristão tais ideias são controversas. Os anglicanos não veem o aborto como um pecado e mesmo entre os luteranos, embora se digam contrários, ninguém pensaria em excomungar uma fiel por ela ter decido fazer um aborto.

É claro que se pode sempre contra-argumentar dizendo que problemas como o aborto não podem ser vistos exclusivamente como uma questão ligada à autonomia a que tenho direito quando uso meu corpo. Pois haveria outra vida a ser reconhecida enquanto tal. Esse ponto está entre os mais inacreditáveis obscurantismos.

Uma vida em potencial não pode, em hipótese alguma, ser equiparada juridicamente a uma vida em ato. Um embrião do tamanho de um grão de feijão, sem autonomia alguma, parasita das funções vitais do corpo que o hospeda e sem a menor atividade cerebral não pode ser equiparado a um indivíduo dotado de autonomia das suas funções vitais e atividade cerebral. Não estamos diante do mesmo fenômeno. A maneira com que certos grupos políticos e religiosos se utilizam do conceito de “vida” para unificar os dois fenômenos (dizendo que estamos diante da mesma “vida humana”) é apenas uma armadilha ideo-lógica. A vida humana não é um conceito biológico, mas um conceito político no qual encontramos a sedimentação de valores e normas que nossa vida social compreende como fundamentais. Se dizemos que alguém desprovido de atividade cerebral está clinicamente morto, mesmo se ele conservar grande parte de suas funções vitais ainda em atividade graças a aparelhos médicos, é porque autonomia e autocontrole são valores fundamentais para nossa concepção de vida humana.

Assim, quando certos setores querem transformar o debate sobre o aborto em uma luta entre os defensores incondicionais da vida e os adeptos de alguma obscura cultura da morte, vemos a mais primária tentativa de transformar a vida em um conceito ideológico. Isso se admitirmos que será necessariamente ideológico um discurso que quer nos fazer acreditar que “as coisas falam por si mesmas”, que nossa definição de vida é algo assentado nas leis cristalinas da natureza, que ela não é uma construção baseada em valores sociais reificados.

Levando isso em conta, temos de saudar o fato de alguns arautos do conservadorismo pretenderem colocar tal questão na pauta do debate político brasileiro e esperar que existam algumas pessoas dispostas a compreender a importância do que está em jogo. Desativar as molas do poder passa pela capacidade de colocá-lo a uma distância segura de nossos corpos.

 * Artigo publicado originalmente na revista CartaCapital.

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Cinismo e falência da crítica, de Vladimir Safatle * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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Bem-vindo ao deserto do Real!, de Slavoj Žižek (posfácio de Vladimir Safatle) * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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Vladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP, bolsista de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), professor visitante das Universidades de Paris VII e Paris VIII, professor-bolsista no programa Erasmus Mundus. Escreveu A paixão do negativo: Lacan e a dialética (São Paulo, Edunesp, 2006), Folha explica Lacan (São Paulo, Publifolha, 2007), Cinismo e falência da crítica (São Paulo, Boitempo, 2008) e co-organizou com Edson Teles a coletânea de artigos O que resta da ditadura: a exceção brasileira (Boitempo, 2010), entre outros.

À sombra da ditadura

Crédito da fotografia: Domicio Pinheiro/AE

Por Vladimir Safatle.*

2011 será um ano lembrado, entre outras coisas, como aquele no qual o Brasil se viu assombrado por seu passado. Durante décadas, o País tudo fez para nada fazer no que se refere ao acerto de contas com os crimes contra a humanidade perpetrados pela ditadura. Isso o transformou em um pária do direito internacional, objeto de processos em cortes penais no exterior. Contrariamente a países como Argentina, Uruguai e Chile, o Brasil conseguiu a façanha de não julgar torturador algum, de continuar a ter desaparecidos políticos e de proteger aqueles que se serviram do aparato de Estado para sequestrar, estuprar, ocultar cadáveres e assassinar.

Nesse sentido, não é estranho que convivamos até hoje com um aparato policial que tortura mais do que se torturava na própria época da ditadura. Aparato completamente minado por milícias, grupos de extorsão e extermínio, assim como pela violência gratuita contra setores desfavorecidos da população. A brutalidade securitária continua a nos assombrar. Este é apenas um dos preços pagos por uma sociedade incapaz de dissociar-se dos crimes de seu passado recente.

Outro preço é o tema que mais assombra certos setores da classe média brasileira, a saber, a corrupção. Esquece-se muito facilmente como a ditadura foi um dos períodos de maior corrupção do Brasil. Basta lembrar-se de casos como Capemi, Coroa-Brastel, Lutfalla, Baum-garten, Tucuruí, Banco Econômico, Transamazônica, Ponte Rio-Niterói, entre tantos outros. Eles demonstram a consolidação de um modus operandi na relação entre Estado e empresariado nacional que herdamos da ditadura. Talvez não seja por acaso que boa parte dos casos de corrupção que assolam o País tenha participação de empresas que praticam negócios escusos desde a ditadura. Empresas que tiveram participação ativa, por exemplo, no financiamento da Operação Bandeirantes.

Corrupção e violência policial são apenas dois aspectos do que restou da ditadura. Poderíamos lembrar ainda do caráter imperfeito da democracia brasileira. Temos leis herdadas de períodos totalitários que se esconderam em nosso ordenamento jurídico. Ou seja, esperamos por uma reforma jurídica que racionalize nosso direito a partir de princípios gerais de liberdade social. Seria bom lembrar como temos uma lei constitucional que legaliza golpes militares. Basta lermos com calma o Artigo 142, no qual as Forças Armadas são descritas como “garantidoras dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”. Ou seja, basta, digamos, o presidente do Senado pedir a intervenção militar em garantia da lei (mas qual? sob qual interpretação?) e da ordem (social? moral? jurídica?) para que um golpe militar esteja legalizado constitucionalmente.

Diante desse cenário de desagregação normativa da vida social por causa da incapacidade da sociedade brasileira de elaborar seu passado, poderia esperar-se que a instalação de uma Comissão da Verdade servisse para iniciar um real processo de reconciliação nacional. Temos, porém, sólidas razões para -duvidarmos disso.

Um dos pontos mais aberrantes da comissão é a indicação de que seus integrantes devam ser pessoas “isentas”. Uma piada de mau gosto. Há de se perguntar quem seria suficientemente amoral para ser isento diante de crimes contra a humanidade e atos bárbaros de violência estatal contra setores descontentes da população. Quem pode ser isento diante da informação de que integrantes do Exército, no combate à Guerrilha do Araguaia, jogavam camponeses de helicópteros e estupravam mulheres da região? Há algo de profundamente intolerável em pedidos de “isenção” nesse contexto.

Um dos exemplos pedagógicos de tal isenção pode ser encontrado no próprio dia de anúncio da criação da Comissão da Verdade. Diante da pressão dos militares, Vera Paiva, filha do deputado desaparecido Rubem Paiva, não pôde ler seu discurso, deixando os parentes de desaparecidos sem voz. Não poderia haver gesto mais simbólico e prenhe de significado. Não haverá voz para enunciar demandas de Justiça que não são apenas de familiares, mas de toda a sociedade brasileira.

Em crimes como os cometidos pela ditadura, não estamos a lidar com o sofrimento individual. Este é um erro cometido inclusive por setores de esquerda que querem “resolver tudo isso o mais rápido possível”. Eles compraram a ideia de que se trata apenas de encontrar reparação adequada para o sofrimento individual, seja por meio de compensações financeiras, seja por meio de anulação de atos que portaram prejuízo a um grupo reduzido de pessoas. Estamos, no entanto, lidando neste caso com um sofrimento social. Ou seja, toda a sociedade sofreu e ainda sofre por meio do “corpo torturável” desses indivíduos. Ela sabe que a violência estatal ainda paira como uma espada de Dâmocles por sobre nossas cabeças. Ela pode explodir de maneira a mais irracional, como um conteúdo recalcado que retorna lá de onde menos esperamos.

Por outro lado, é claro que tais demandas de “isenção” escondem o pior dos raciocínios, a saber, a defesa de que a violência de um Estado ilegal contra a população equivale à violência de setores da população contra o aparato repressivo do Estado. “Temos de julgar também os terroristas”, é o que dizem.

Aqui talvez seja o caso de se perguntar: Para que serve a verdade? Alguns acreditam que a verdade serve principalmente para reconciliar. Ou seja, sua enunciação forneceria o quadro de um reconhecimento dos danos ocasionados no passado. Tal reconhecimento, por mais simbólico que seja, teria a força de produzir conciliações e versões unificadas da história nacional.

Não creio que isso possa ocorrer. Sempre teremos leituras divergentes e irreconciliáveis do que foi a ditadura. Sempre haverá os que dirão que os militares nos salvaram da transformação do Brasil em uma ditadura comunista. Por isso, talvez seja o caso de dizer que a enunciação da verdade não serve para conciliar. Ela serve para romper. Ela rompe com o medonho exercício de desresponsabilização que foi colocado em marcha no Brasil. Rompe com a tentativa de colocar no mesmo patamar quem usurpa o poder e cria um Estado de medo e aqueles que se voltam contra tal situação. Desde o Evangelho sabemos isso: a verdade não tem o poder de unir. Ela tem a força de cortar.

É importante dizer isso porque corremos o risco de ver a Comissão da Verdade se transformar em uma macabra validação da famosa “teoria dos dois demônios”. Certamente haverá a tendência em colocar em circulação a necessidade de investigar os “crimes feitos pelos terroristas de esquerda”. Por isso creio ser mais que necessário perder o medo de dizer em alto e bom som: toda ação contra um governo ilegal é uma ação legal. Um Estado ilegal não pode julgar ações contra si por ser ele próprio algo mais próximo de uma associação criminosa. Esta era a situação brasileira.

Pois podemos dizer que dois princípios maiores fundam a experiência de modernização política que caracteriza a tradição da qual fazemos parte. O primeiro desses princípios afirma que um governo só é legítimo quando se funda sobre a vontade soberana de um povo- -livre. O segundo princípio afirma o direito à resistência. Mesmo a tradição política liberal admite, ao menos desde John Locke, o direito que todo cidadão tem de assassinar o tirano, de lutar de todas as formas contra aquele que usurpa o poder e impõe um Estado de terror, de censura, de suspensão das garantias de integridade social. Nessas situações, a democracia reconhece o direito à violência.

Costuma-se dizer que o direito à resistência não pode ser aplicado ao caso brasileiro já que a repressão caiu exclusivamente sobre os ombros de integrantes da luta armada que procuravam criar um governo comunista e totalitário no Brasil. Mas a afirmação é falsa. A repressão agiu contra toda forma de resistência, não só aquela da luta armada. O deputado Rubem Paiva, assim como vários sindicalistas e estudantes não faziam parte da luta armada e foram brutalmente mortos. Diz-se que estávamos em uma guerra e “efeitos colaterais” são produzidos. Mas, mesmo em situações de guerra, abusos são punidos.

Por outro lado, contrariamente ao que ocorreu na Argentina, os grupos de guerrilha apareceram no Brasil a partir do golpe militar, ou seja, se não houvesse ditadura não haveria grupos de guerrilha, a não ser focos isolados e completamente irrelevantes. É bom lembrar que boa parte daqueles que se engajaram na guerrilha tinha apenas uma vaga ideia do que queria, mas tinha uma ideia muito clara do que não queria. Lembre-se ainda que o direito à resistência não se anula pelo fato de defender outro regime de governo. Não por outra razão, líderes comunistas ainda são vistos como heróis da resistência na Europa.

Por essas razões, a única reconciliação possível ocorrerá quando aplicarmos no Brasil o que foi feito na África do Sul. O que queremos não é a cadeia para generais octogenários. Queremos que os responsáveis pelos crimes da ditadura peçam perdão, em sessão pública, diante dos familiares e torturados. Se o perdão é o gesto que reconcilia e apaga as feridas do passado, há de se lembrar que só pode haver perdão onde há reconhecimento do crime. Que a Comissão da Verdade não sirva para, mais uma vez, tentarem nos extorquir uma falsa reconciliação.

* Artigo publicado originalmente na revista CartaCapital.

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Os livros de Vladimir Safatle publicados pela Boitempo Editorial já estão disponíveis para venda em versão eletrônica (ebook):

Cinismo e falência da crítica, de Vladimir Safatle * PDF (Livraria Cultura)

O que resta da ditadura: a exceção brasileira, organizado por Edson Teles e Vladimir Safatle * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real!, de Slavoj Žižek (posfácio de Vladimir Safatle) * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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Vladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP, bolsista de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), professor visitante das Universidades de Paris VII e Paris VIII, professor-bolsista no programa Erasmus Mundus. Escreveu A paixão do negativo: Lacan e a dialética (São Paulo, Edunesp, 2006), Lacan (São Paulo, Publifolha, 2007), Cinismo e falência da critica (São Paulo, Boitempo, 2008) e co-organizou com Edson Teles a coletânea de artigos O que resta da ditadura: a exceção brasileira (Boitempo, 2010), entre outros.

Preservem este espaço: discurso de Vladimir Safatle aos manifestantes do Ocupa Sampa

Vladimir Safatle apresentou, na quarta-feira 26 de outubro, aula pública aos manifestantes do movimento Ocupa Sampa acampados no Vale do Anhangabaú. O texto abaixo foi transcrito pelos integrantes do movimento e originalmente publicado no site do Acampa Sampa. Acompanhe o movimento em suas redes sociais: Facebook, Twitter, YouTube e Livestream.

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Na verdade vocês são uma peça na engrenagem que se montou de uma maneira completamente inesperada e imprevisível em várias partes do mundo. Existem certos momentos na história onde um acontecimento aparentemente localizado, regional, tem a força de mobilizar uma série de outros processos que vão ocorrendo em várias partes do mundo. Ou seja, as ideias, quando elas começam a circular, desconhecem espaço, não conhecem as limitações do espaço, elas constroem um novo espaço. E de uma certa maneira, vocês aqui são uma peça de uma ideia que aos poucos vai construindo um novo espaço, através dessas mobilizações mundiais que tocam várias cidades: Nova York, Cairo, Túnis, Madri, Roma, Santiago e agora São Paulo. Gostaria de lembrar para vocês um exemplo que me parece bastante interessante, de como uma ideia pode ignorar o seu espaço original. Existe um fato histórico, muito impressionante e que nos toca de uma maneira relativamente próxima, porque diz respeito a uma coisa que hoje o Brasil esta envolvido, que é a revolução no Haiti em 1804.

Foi a primeira revolução feita por escravos, escravos que se libertaram do domínio francês. Aconteceu um fato bastante impressionante no interior dessa história que é mais ou menos o seguinte: em 1793, a Assembléia Nacional Francesa, Assembléia Revolucionária Francesa – graças aos jacobinos – resolveu abolir a escravidão nas colônias. Era o resultado de um princípio, princípio da igualdade radical. Se nós defendemos a igualdade radical não é possível que a igualdade valha apenas nesse país e não valha em outro lugar, ela deve ser incondicional, deve desconhecer espaço e deve desconhecer tempo, então ela vale tambám para as colônias. Quando Napoleão assume o poder, tenta rever esse decreto, ou seja, fazer com que a escravidão voltasse a operar nas colônias. Os haitianos se sublevam, e Napoleão manda tropas ao Haiti. E acontece um dos fatos mais impressionantes da história nos últimos 200/300 anos. No momento da guerra, quando as tropas francesas estão de um lado e as tropas haitianas do outro, os franceses comecam a ouvir, cantado do outro lado, a Marselhesa – o hino francês, hino da revolução francesa. Isso arrebentou moralmente com as tropas francesas, eles perderam a guerra. Começaram a se perguntar “Afinal de contas, contra quem estamos lutando? Nós estamos lutando contra nós mesmo, contra nossos ideiais que agora se voltam contra nós. Porque na boca desses ex-escravos esses ideais são mais verdadeiros do que na nossa própria boca.”

Essa é a força impressionante das ideias, elas explodem contextos, explodem espaços, constroem novos espaços, rearticulam uma relação radical, fundamental de igualdade. Por que é interessante lembrar disso agora? Porque de uma certa maneira é o que vocês estão fazendo aqui. Vocês estão conseguindo fazer com que uma ideia, que apareceu inicalmente em um determindado lugar, no mundo árabe, na Tunísia, começe a circular de uma maneira tal que ela vai mobilizando populações absolutamente dispersas e diferentes em torno de uma noção central: nossa democracia não existe ainda, nossa democracia ainda não chegou, nós ainda esperamos uma democracia por vir. O que nós temos pode não ser uma ditadura, não ser o sistema totalitário, mas ainda não é uma democracia. E nenhum de nós quer viver nesse limbo, nesse purgatório entre um regime de absoluto autoritarismo e uma democracia que nós esperamos. Não queremos uma democracia em processo contínuo, incessante de degradação, que já nasce velha. Por isso, quando as colocações das manifestações dos quais vocês fazem parte insistem na ideia de que ainda falta muito para alcançarmos a democracia real, vocês colocam uma questão que até então não podia ter direito de cidadania. Se vocês criticassem a democracia parlamentar, tal como ela funciona hoje, olhariam vocês como arautos do totalitarismo. Se vocês não querem isso, vocês querem o quê? Vocês não querem o Estado Democrático de Direito? Vocês não querem a segurança do Direito Democrático? Então vocês querem o quê? E essa é a questão interessante, vocês recolocam a questão dizendo “Onde vocês estão vendo Estado Democrático de Direito? Eu não encontrei! Como assim, o que isso significa?”.

Se tem uma coisa que a democracia nos demanda, nos exige, é que só se fale de democracia no futuro, só se fale de democracia como democracia por vir. Quando você acredita que a democracia já está realizada no nosso ordenamento jurídico, já está realizada no nosso Estado, na situação social presente, então todas as imperfeições do presente ganham o peso da eternidade, todas as imperfeições do presente parecem eternas, parecem ser impossíveis de superar, parece ser mais que isso, ser criminoso superá-las, parece se colocar em risco quando você tenta superá-las, discutí-las. Então nesse sentido, a primeira coisa interessante em toda essa discussão, vocês estão dispostos a, no fundo, discutir. Não discutir no sentido de fazer alguns acertos pontuais a respeito de algumas questões que girem em torno de nossa política, por exemplo, existe corrupção, vamos nos mobilizar aqui para pedir que fulano, cicrano e beltrano vão para cadeia! Como se independente disso ser feito ou não, como se isso resolvesse o problema de nossa democracia, como se ações pontuais que não tocam problemas estruturais de processos de decisão de partilha de poder, de participação popular, de densidade popular nas decisões do governo, como se não tocando nesse problema nós conseguíssemos avançar de uma maneira ou de outra. Essa, me parece, é uma questão extremamente interessante, por que quando vocês colocam “nós queremos discussão”, isso toca uma questão extremamente clássica, que é a relação entre teoria e práxis. Por exemplo, vejam que coisa interessante, quem passa por aqui não vê nenhuma palavra de ordem, nenhuma proposta no sentido forte do termo, “nós queremos isso, isso e isso!”. Em princípio isso pode parecer um problema, mas eu diria que não, isso é uma grande virtude, porque, se vocês me permitirem, gostaria de fazer um pequeno parênteses na história da filosofia, lembrando de uma resposta de um grande filósofo do século XX, politicamente equivocado, mas que nem por isso deixou de ser um grande filósofo, Martin Heiddeger em um pequeno texto chamado “Cartas ao Humanismo”. Em um dado momento, um sujeito perguntava a Heiddeger, “Afinal de contas, como o senhor entende a relação entre teoria e práxis?”. Ele responde o seguinte, “Eu nunca entendi a dicotomia, a diferença entre teoria e práxis. Porque o pensamento quando pensa de verdade, ele age. Na verdade, a ação mais forte é ação do pensamento, porque o pensamento quando pensa de verdade” – e vejam, pensar de verdade significa pensar na sua radicalidade, pesar na sua força crítica, utilizar a força crítica e a força radical do pensamento – “quando ele pensa de verdade, ele questiona os problemas, os pressupostos, as respostas.” A história é muito interessante, porque a resposta é uma resposta muito inteligente, a resposta era: a verdadeira ação é feita pelo pensamento, não é verdade essa ideia de que muitas vezes nós pensamos porque não queremos agir, na verdade, muitas vezes nós agimos porque não queremos pensar. Muitas vezes nós procuramos um tipo de ação imediata, rápida, por que não queremos nos confrontar com o verdadeiro trabalho. (…) que é o problema, construir o que é a solução, construir o espaço que nós temos pra conseguir pensar hipóteses e pensar aquilo que pode ser mudado e o que não pode ser mudado. Ou seja, colocar a força crítica do pensamento em ação, quando a força crítica do pensamento começa a agir, então todas as respostas começam a ser possíveis, alternativas novas começam a aparecer na mesa, possibilidades começam a ser repensadas. Isso significa a verdadeira discussão de manifestações como essa, só manifestações como essas são capazes de fazer (…)

Nesses momentos, é como se o espectro das possibilidades aumentassem. Aumentam por quê? Porque vocês estão dispostos a pensar, estão dispostos a recolocar novos esquemas de pensamento em circulação e essa é a questão fundamental. Nesse sentido, quando isso ocorre, novas ações e novas propostas sempre aparecem. Para que novas propostas apareçam, é necessário que saibamos, afinal de contas, quais são os verdadeiros problemas, quais são os problemas reais e concretos, por qual sentimento de desconforto, de insatisfação e de angústia em relação ao presente, vocês estão descobrindo que o mundo inteiro tem. Mesmo nessas sociedades aparentemente tribais que todo mundo gostava de desqualificar como sociedades árabes, estamos descobrindo uma coisa que nos une a eles. Nós também somos insatisfeitos, descontentes, não queremos reproduzir o presente tal como ele aparece agora, também temos a angústia da necessidade de mudança, de ruptura, isso nos faz a mesma ideia, isso nos faz presentes diante e dentro da mesma ideia. Isso que vocês têm (e devem saber guardar por toda vida porque esse é o motor da crítica) é o profundo sentimento de mal estar e de desconforto que todos vocês sentem e é por isso que estão aqui. É o sentimento mais verdadeiro que vocês tem, e o sentimento mais capaz de colocar vocês em ação. No entanto, vivemos numa sociedade onde o desconforto e o mal estar são vistos imediatamente como índice, como sintoma de uma doença, doença que deve ser tratada o mais rápido possível nem que precisemos dopar todos vocês com antidepressivos ou qualquer coisa dessa natureza. No entanto, é isso que vocês têm de mais concreto, de mais real, pois esse é o índice de que há algo errado. Não com vocês enquanto indíviduo, não com o corpo de vocês, há algo errado com a vida social da qual vocês fazem parte e esse problema da vida social da qual vocês fazem parte se manifesta dessa forma, em cada uma das individualidades que compõe cada uma dessas pessoas que estão aqui. Nesse sentido, é muito importante vocês serem capazes de se mobilizar pra dizer que esse desconforto que eu sinto não é um problema meu, é um problema da sociedade, problema da vida social, essa maneira como a impossibilidade estrutural da vida social constituir uma vida bem sucedida se coloca para cada um de vocês.

Terminaria lembrando o seguinte: hoje, nem acredito, estou chegando aos 40 anos. Lembro que na idade de vocês, 18, 19, 20 anos, nós ouvíamos a seguinte questão: não há mais luta a ser feita, o mundo está globalizado, agora o que vale é a eficácia, o que vale é a capacidade que você tem de que essa forma da proximidade, assumir risco, de ser criativo, de assumir a inovação, de preferência em uma agência de publicidade ou departamento de marketing de uma grande empresa. Mas essa capacidade que vocês têm – o que eu ouvia há 20 anos atrás – levaria vocês a um futuro radiante onde só há vencedores, onde os perderdores ficam pra trás, porque os perdedores têm também um problema moral que não têm a coragem de assumir o risco, ou teriam a coragem de assumir a necessidade de inovação e blá blá… Todos esses caras, foram exatamente esses caras que quebraram o mundo, esses que tinham 20 e agora 40 e que foram todos trabalhar no sistema financeiro e conseguiram arrebentar completamente com uma crise maior que a de 1929, da qual ninguém sabe sair. Mas por que, não era só o problema (…) simplesmente na seguinte questão, eram pessoaas que não acreditavam que o futuro podia ser diferente do presente, que em hipótese alguma acreditavam na capacidade de transformação da participação popular, acreditavam que isso era ideologia velha, envelhecida, no limite do rídiculo. Como assim, participação popular? Isso não existe mais! Manifestações, isso não existe!. Vocês não existiriam aqui, não teriam nenhuma razão de estar aqui presente. Porque a história já tinha acabado, não tinha muto mais o que fazer, então é muito engraçado que essas pessoas que vêem essas manifestações como a que vocês estão organizando perguntem “Afinal de contas, o que eles querem?” E quando vocês falam o que vocês querem eles dizem “Vocês estão loucos! O que é isso!”. Isso me lembra uma amiga psicanalista, que atende em seu consultório mulheres que eram massacradas pelos maridos. Quando elas ficavam insatisfeitas, os maridos perguntavam “O que você quer?” e elas não sabiam e quando falavam o que queriam os maridos chegavam e arrebentavam e é isso que está acontecendo agora. Trata-se de desqualificar, não a pretensa incapacidade de manifestações como essa de conseguir colocar pautas em ação, mas trata de desqualificar o tempo que essas manifestações exigem para que o pensamento possa começar a operar da maneira como ele é realmente capaz de fazer. Porque, percebam bem, se pensarem muito bem, as manifestações que ocorreram esse ano trouxeram pautas extremamente precisas. Vejam, Santiago do Chile parou 400 mil pessoas na rua para pedir educação pública de qualidade, para todos e gratuita – porque só o Chile tem essa capacidade de conseguir ter educação pública que não é gratuita. Então vejam, o que é interessante numa proposta como essa, proposta que parece ser muito regional: um problema da educação pública, mas que no fundo modifica radicalmente a estrutura econômica do país, porque para garantir a educação pública o Estado tem que ter mais dinheiro. E como o Estado faz isso? Taxando mais, tem de cobrar mais impostos. De quem? De vocês que não têm mais dinheiro ou dos ricos que não pagam impostos em lugar nenhum da America Latina? Ou seja, você paga 27%, eu 27% e o banqueiro 27% do imposto de renda. Não existe nenhum lugar no mundo onde isso aconteça. Ou seja, significa uma radical redistribuição de renda através do uso democrático do Estado como aparelho de constituição de uso conjunto de serviços públicos que consigam melhorar a vida do cidadão. Ou seja, uma proposta extremamente precisa.

Vejam, por exemplo, as propostas dos indignados na Espanha: “Nossa democacia parlamentar faliu junto com o sistema econômico que ela sustentava”. Por que a crise econômica ficou desse tamanho? Que maldito sistema político é esse que permite uma crise desse tamanho? Que não consegue enquadrar a ala mais terrorista do sistema financeiro? A ala mais canalha do sistema financeiro continua tendo lucros exorbitantes! Façam esse exercício, vá na internet e peguem os balanços dos bancos que estavam quebrados há três anos atrás. Hoje, todos estão extremamente superavitários. De onde vem esse dinheiro? Vem do Estado que pagou! Que tipo de sistema político é esse que é incapaz de colocar contra a parede quem destrói a vida, a propriedade, que destrói toda a inflação? Fala-se em defesa da propriedade privada, esse bancos conseguiram destruir toda a propriedade privada de um número maior do que Lenin tinha tentado fazer em 1917. Alguem devia ter colocado esse pesosal para trabalhar pra gente!

Vejam bem, as pautas são extremamente precisas e conscientes, de uma clareza e visão cirúrgica. Então é mais uma demonstração de quando o pensamento começa a agir, as pautas reais aparecem. É isso que deve acontecer, o que deve acontecer, entre nós no Brasil, nossa situação vai ser uma repetição de um processo que vai acertando a nossas costas, um tempo novo que está se abrindo. Daqui a 5 anos vão se perguntar “Como que nós acreditávamos durante tanto tempo que nenhum acontecimento real pudesse acontecer?”. Daqui a 5 anos, o nível de descontamento vai ser tamanho, a insatisfação vai ser tamanha, que vão se perguntar como que se acreditou durante tanto tempo que a roda da história estava parada, que não havia muito mais a se esperar, a não ser uma espécie de erro geral da nação a partir dos princípios postos pelo liberalismos econômico. Vocês são o primeiro passo de um grande movimento, uma grande corrida que só começou agora. Aqui tem 100 pessoas, daqui a 3 ou 4 anos isso aqui vai estar com 3 mil, 5 mil pessoas falando a mesma coisa. Esses processos são lentos, tudo por uma razão, como diz Freud, “a razão pode falar baixo, mas não se cala”. Processos como esses são lentos, eles nunca param. Agora vocês perceberam uma coisa fundamental: não dá mais pra confiar em partidos, sindicatos, estruturas governamentais que podem ter suas funções em certos momentos, mas não têm nenhuma capacidade de ressoar as verdadeiras necessidades de rupturas, perderam completamente a capacidade de fazer ressoar as verdadeiras necessidades de ruptura. Veja por exemplo o caso da Grécia, qual partido governa a Grécia? Partido Social Democrata, em princípio de esquerda. Qual partido governa a Espanha? Um Partido Social Democrata, dito de esquerda. Com uma esquerda desse tipo, nínguem precisa de direita. Tá ótimo, porque todo mundo joga no mesmo time. A única diferença é que um faz com dor no coração – “olha vou ter que arrebentar seu salário, não gostaria disso!” – enquanto o outro faz cantando “você era um funcionário público inútil” – e por aí vai. Fora isso, a diferença é mínima, é retórica, isso significa simplesmente o quê? A época onde nos mobilizávamos tendo em vista a estrutura partidária acabou, acabou radicalmente. Pode ser que a gente ainda não saiba o que vai aparecer, a gente sabe o que não vai acontecer, a gente pode não saber exatamente como as coisas vão se dar daqui pra frente, como vai se dar esse tipo de organização mais flexível, mais aberta, democrática, e também muito mais difícil de ser gerida. A gente não sabe o que vai acontecer daqui pra frente, a gente sabe onde o aconteimento não ocorre. Com certeza não ocorre nas dinâmicas partidárias. Você tem uma força de pressão enquanto está fora do jogo, porque quando entra, ela diminui. Então, conservem este espaço!

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Vladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP, bolsista de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), professor visitante das Universidades de Paris VII e Paris VIII, professor-bolsista no programa Erasmus Mundus. Escreveu A paixão do negativo: Lacan e a dialética (São Paulo, Edunesp, 2006), Lacan (São Paulo, Publifolha, 2007), Cinismo e falência da critica (São Paulo, Boitempo, 2008) e co-organizou com Edson Teles a coletânea de artigos O que resta da ditadura: a exceção brasileira (Boitempo, 2010), entre outros.

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Os livros de Vladimir Safatle publicados pela Boitempo Editorial já estão disponíveis para venda em versão eletrônica (ebook):

Cinismo e falência da crítica, de Vladimir Safatle * PDF (Livraria Cultura)

O que resta da ditadura: a exceção brasileira, organizado por Edson Teles e Vladimir Safatle * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real!, de Slavoj Žižek (posfácio de Vladimir Safatle) * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)