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Francisco de Oliveira, Ricardo Antunes e Ruy Braga debatem o mundo do trabalho hoje em lançamento do livro Infoproletários
A nova era no mundo do trabalho foi o tema de debate no lançamento da obra Infoproletários: degradação real do trabalho virtual, que aconteceu na sexta-feira, 13 de novembro. Organizado pelos sociálogos Ricardo Antunes e Ruy Braga, o livro reúne uma série de ensaios sobre distintos aspectos da rotina atual da classe trabalhadora, num cenário em que o uso de novas tecnologias convive com condições de trabalho características do século XIX, configurando uma nova era de ‘precarização estrutural do trabalho’, nas palavras de Ricardo Antunes.
Além dos organizadores, Fracisco de Oliveira, também sociólogo, falou sobre o tema, durante o debate na USP (Universidade de São Paulo). Em Infoproletários, a classe trabalhadora é retratada em duas representações polarizadas. De um lado, aparecem os operadores de telemarketing. Globalizados em sua relação social, totalizados em sua subordinação, monitorados em cada um de seus movimentos, punidos em cada infração às regras, resumem e simbolizam os novos trabalhadores atrelados ao resplandecente, porém inatingível, mundo do consumo. Sua imaginação é totalmente circunscrita e dirigida pelo capitalismo.
Já em outro extremo estão os aristocratas do cibertrabalho, os programadores de software, gabando-se e desfrutando de sua autonomia enquanto se movem em espiral pelo espaço e pelo tempo. Eles não são menos prisioneiros da própria individualidade, intoxicados por seu ilusório empreendedorismo.
Confira alguns registros fotográficos do lançamento:

Lançamento de Infoproletários debate mundo do trabalho hoje

Os sociólogos Ricardo Antunes, Francisco de Oliveira e Ruy Braga discutem as transformações na classe trabalhadora

Selma Venço e Sirlei Marcia de Oliveira, autoras de ensaios do livro, respondem dúvidas após debate

Claudia Mazzei, também uma das autoras na obra, ao lado de Ricardo Antunes

Francisco de Oliveira, um dos mais importantes sociólogos brasileiros, no debate
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Russos comemoram aniversário da Revolução Bolchevique
Em meio às reportagens sobre os 20 anos da queda do Muro de Berlim, uma notícia passou despercebida pelos jornais brasileiros. Cerca de 8 mil pessoas assistiram às comemorações no 92º aniversário da Revolução Bolchevique de 1917, em Moscou, convocadas pelo Partido Comunista Russo no dia 7 de novembro, segundo informações do jornal La Jornada. As fotos ao final são registros do movimento revolucionário que serão resgatados na obra Revoluções, organizada por Michael Löwy e que será lançada no Brasil pela Boitempo neste mês.
Neste livro, o sociólogo brasileiro radicado na França reúne os principais registros fotográficos dos processos revolucionários do final do século XIX até a segunda metade do século XX. O livro convida o leitor ao percorrer a diversificada experiência das lutas populares por meio de imagens histórica, como os primeiros registros fotográficos da Comuna de Paris. Esse percurso é narrado por intelectuais como Gilbert Achcar, Rebecca Houzel, Enzo Traverso, Bernard Oudin, Pierre Rousset, Jeanette Habel e o próprio Löwy.
Nas palavras de Luiz Bernardo Pericás, que assina a orelha do livro, “as barricadas da Comuna de Paris, os camponeses e soldaderas em armas no México, os operários nos sovietes da Rússia, as revoluções abortadas na Alemanha e Hungria, os partisans anarquistas e socialistas na Guerra Civil espanhola, a Longa Marcha vermelha na China e os guerrilheiros barbudos da Sierra Maestra em Cuba são alguns dos momentos de luta e dos ‘heróis’ anônimos apresentados neste livro”.
O ensaio sobre a Revolução Russa é assinado por Rebecca Houzel e Enzo Traverso, que afirmam: ”A Rússia soviética valorizou a imagem, colocando-a no centro de seu sistema de representações e transformando-a em um dos pilares da ordem socialista. Estatuária, iconografia e desenhos privilegiaram o símbolo e o mito. A mais de noventa anos de distância, a revolução de 1917 permanece carregada de uma aura considerável, mesmo que nas correntes dominantes da opinião pública seu valor tenha sofrido uma inversão radical: de prenúncio de uma onda libertária de alcance universal – comparável a 1789 –, Outubro passou a data de nascimento dos totalitarismos modernos. Voltar às imagens do ano crucial de 1917, da queda do regime dos czares em fevereiro à tomada do Palácio de Inverno oito meses depois, pode ter um efeito salutar. Examinar os fragmentos do tempo, analisar os instantâneos que se fazem da História ajuda a revisitar o evento, despojando-o da camada espessa de projeções retrospectivas, a princípio hagiográficas e logo demonizantes”.
Confira alguns registros:

A Guarda Vermelha desfila durante o enterro das vítimas da revolução de fevereiro, em Petrogrado, em 23 de março de 1917.

Manifestação de mulheres nas ruas de Petrogrado, em abril de 1917.

Assembleia do soviete de Petrogrado na sala da Duma, em março de 1917.

Após o sucesso da ofensiva do início de julho, Kerenski é saudado pela multidão em sua chegada a Petrogrado.

No front, o governo provisório presta juramento.
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Confira o vídeo na íntegra do Seminário Internacional A crise vista pelos marxismos do século XXI

A Boitempo Editorial e CPFL Cultura realizaram no dia 24 de agosto de 2009, em São Paulo, o primeiro módulo do Seminário Internacional A crise vista pelos marxismos do século XXI, que conta com a curadoria do sociólogo Francisco de Oliveira, da Universidade de São Paulo, de Ivana Jinkings, editora da revista Margem Esquerda, e do cientista político Emir Sader, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e um dos organizadores do Fórum Social Mundial.
Para o primeiro debate do Seminário – “Crise do capital e perspectivas do socialismo” – foram convidados, além do curador Francisco de Oliveira, o filósofo húngaro István Mészáros, o sociólogo sueco Göran Therborn e Jorge Beinstein, economista argentino, professor catedrático das universidades de Buenos Aires, Córdoba e Havana.
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A ditadura do ombudsman
Qualquer pesquisa na internet informará que ombudsman é uma palavra sueca que significa representante do cidadão. E que a Folha de São Paulo foi o primeiro jornal brasileiro a ter algo semelhante, o seu próprio ombudsman, que deveria ser um profissional dedicado a receber, investigar e encaminhar as queixas dos leitores; realizar a crítica interna do jornal e, uma vez por semana, aos domingos, etc. etc. Vamos ao ponto e ao fato, agora.
Em 29 de julho de 2009, lancei o livro Soledad no Recife em São Paulo. O livro narra os últimos dias de Soledad Barrett, a militante socialista que teve a infinita infelicidade de ser mulher do Cabo Anselmo, pois grávida foi entregue por ele ao assassino Fleury. Que a executou sob torturas, a ela e a mais cinco militantes, em 1973. Isso é histórico. O livro, uma recriação literária em cima de pessoas, depoimentos e papéis, expõe o caráter da traição dc Anselmo, em um momento que não poderia ser mais inconveniente para ele.
De fato, na manhã seguinte ao lançamento, em 30 de julho, o Cabo Anselmo foi à Justiça Federal de São Paulo tirar impressões digitais para comparar com as registradas em seus documentos na Marinha. No outro dia, a Folha de São Paulo noticiou em caráter de exclusividade:
“Cabo Anselmo reaparece em São Paulo e quer anistia
Em pouco mais de 40 minutos, Anselmo tirou suas impressões digitais. A conclusão -que vai dizer se a pessoa que fez a perícia é o cabo Anselmo – vai ser apresentada em 30 dias. Só depois ele poderá retirar novamente carteira de identidade, CPF e título de eleitor, e passará a ser o último dos beneficiados pela Lei de Anistia…
‘Estou tomando porrada há muito tempo’, (Anselmo) reclamou à Folha. ‘Esse pessoal da esquerda ainda inventa muita mentira’, diz. ‘Há muita resistência no governo. Estão me enrolando já faz um bom tempo.’”
Então enviei esta mensagem ao ombudsman do jornal:
“Sou Urariano Mota, escritor e jornalista, autor do livro ‘Soledad no Recife’, lançado há menos de uma semana. Nesse livro há uma recriação dos crimes conhecidos como a ‘Chacina de São Bento’, e. mais particularmente, da traição de que foi vítima Soledad Barrett Viedma, mulher do Cabo Anselmo, entregue por ele a Fleury. Gostaria de chamar sua atenção para:
a) dois dias depois do lançamento do livro, o Cabo Anselmo reapareceu como notícia na Folha – a denúncia que faço do seu trabalho em janeiro de 1973 vai contra as suas pretensões de anistia;
b) não tive acesso à Folha de São Paulo, apesar do contato da editora com o repórter Lucas Ferraz.
Em nome da imparcialidade, ou pelo menos em nome do tradicional ‘ouvir o outro lado’, gostaria de ser ouvido, pois escrevi a outra versão, expressa em ‘Soledad no Recife’.”
A isso respondeu o ombudsman:
“Caro Senhor, a resposta da Redação está abaixo.
‘A reportagem a que o leitor se refere era sobre o tutor do Cabo Anselmo, acusado de tortura.
No texto é citado o episódio conhecido como massacre de São Bento, quando foram assassinados seis militantes da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). O episódio consta em várias obras que retrataram o período. A Folha citou na reportagem o livro ‘A Ditadura Escancarada’, do jornalista Elio Gaspari, que descreveu a ação como uma ‘das maiores e mais cruéis chacinas da ditadura’.”
O que me fez retornar:
“A resposta não satisfaz, porque:
1. Aqui, mais uma vez, repete-se o erro comum na imprensa – bem sei, sou também jornalista: em lugar de analisar e aprender, justifica-se.
2. O meu livro era o fato mais imediato e relevante às ações do Cabo Anselmo: lançado em 29/07, véspera de sua ida à Justiça em São Paulo, e todo narrado e construído em cima da ex-mulher do ‘cabo’, a brava Soledad Barrett Viedma.
3. Se o ilustre repórter houvesse parado para ler ou me ouvir antes de se justificar, aprenderia que jamais houve qualquer massacre na chácara. Então veria que o meu livro desmonta, peça por peça, o massacre da chácara. Jamais houve qualquer ou quaisquer assassinatos na chácara São Bento.”
E assim ficamos, até hoje. Nem a Folha me ouviu nem resenhou o livro (que merece alguma crítica, acreditem, pois sobre ele já falaram O Estado de São Paulo e O Globo). Somente agora, três meses depois, revelo este caso da democracia na Folha de São Paulo. O seu ombudsman pode até receber e encaminhar as queixas dos leitores. Mas poderia ser substituído por uma caixa online, que a cada reclamação respondesse automático: caro senhor, muito obrigado, senhor, atenciosamente.
* Artigo publicado originalmente no site Direto da Redação
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Sociedade do trabalho abstrato
Obra Os sentidos do trabalho, de Ricardo Antunes, ganha décima impressão revisada e ampliada, além de capa nova capa

Em Os sentidos do trabalho, Ricardo Antunes demonstra que a sociedade do trabalho abstrato possibilitou, por meio da constituição de uma massa de trabalhadores expulsos do processo produtivo, a aparência da sociedade fundada no descentramento da categoria trabalho e na perda de centralidade do ato laborativo no mundo contemporâneo.
O autor também alerta, porém, para o fato de que o entendimento das mutações em curso no mundo operário nos obriga a ir além das aparências. Ao fazer isso, lembra que o sentido dado ao trabalho pelo capital é completamente diverso do sentido atribuído pela humanidade.
Na décima reimpressão, que sairá este ano em versão ampliada e revisada, foram incluídos três novos apêndices que dão atualidade às teses originais do livro. “O primeiro, sintetizando algumas das teses centrais sobre o presente do trabalho, esboçando também uma hipótese sobre o seu futuro. O segundo trata da crise capitalista atual e o conseqüente processo de destruição e desmoronamento do trabalho, abrindo caminho para o início de uma nova fase de precarização estrutural do trabalho em escala global, se essa lógica não for obstada e confrontada. O terceiro, problematiza algumas formulações que, a partir da noção de trabalho imaterial, procuram desconstruir a teoria do valor-trabalho e o quarto explora elementos da economia política presente das lutas sociais, abordando em particular a decisiva contribuição da teoria da mais-valia elaborada por Marx”, explica Ricardo Antunes.
Além das diversas impressões do livro no Brasil, Os Sentidos do Trabalho vem encontrando acolhida positiva também no exterior. Há uma edição em espanhol (Los Sentidos del Trabajo, Herramienta Ediciones e TEL/Taller de Estúdios Laborales, Argentina, 2005) e outra na Itália, com o título Il Lavoro in Trappola: La Classe Che Vive di Lavoro (Jaca Book, 2006), e ainda uma versão em tradução para próxima edição franco-suiça pela Page2.
Confira a nota de Ricardos Antunes para a nova impressão no Brasil:
Os Sentidos do Trabalho ganham uma nova reimpressão, a 10a., publicada dez anos depois de sua primeira edição, em 1999. Revista, ampliada e atualizada pela primeira vez, suas teses centrais ganharam ainda mais força: há uma nova morfologia do trabalho que repõe os sentidos e significados essenciais do trabalho, mostrando que o trabalho é, nestes inícios do século XXI, uma questão (ainda) decisivamente vital.
Mais do que nunca, bilhões de homens e mulheres dependem exclusivamente do seu trabalho para sobreviver e encontram, cada vez mais, situações instáveis, precárias quando não nexistentes de trabalho. Ou seja, enquanto se amplia o contingente de trabalhadores e trabalhadoras no mundo, há uma constrição monumental dos empregos, corroídos em seus direitos e erodido em suas conquistas.
Maquinaria perversa e engenharia satânica que vêm gerando um contingente monumental de desempregados que assim o são pela própria lógica destrutiva do capital – que, ao mesmo tempo em que expulsa centenas de milhões de homens e mulheres do mundo produtivo gerador do valor em seus trabalhos estáveis e formalizados, recria, nos mais distantes e longínquos espaços, novas modalidades informalizadas e precarizadas de geração do mais-valor – depauperando ainda mais, pela expansão da força sobrante de trabalho que não pára de crescer, os níveis de remuneração daqueles que se mantém trabalhando.
Mas, contra a simplória tese da finitude do trabalho, esta se mostra, em sua forma contraditória de ser, um espaço de sociabilidade, mesmo quando é marcado por traços dominantes de estranhamento e alienação – o que se constata pela desumanização presente nos contingentes de desempregados que, especialmente mas não só no Sul do mundo, nunca vivenciaram sequer coágulos de welfare state.
Contrariamente, portanto, à unilateralização presente tanto nas teses que desconstroem o trabalho, quanto naquelas que fazem seu culto acrítico, sabemos que, na longa história da atividade humana, em sua incessante luta pela sobrevivência e felicidade social (como estava presente já na reivindicação do Cartismo, na Inglaterra do século XIX, o trabalho é, em si e por si, uma atividade vital. Mas, ainda no contraponto, se a vida humana se resumisse exclusivamente ao trabalho – como muitas vezes ocorre com o mundo capitalista e sua sociedade do trabalho abstrato – ela seria também expressão de um mundo penoso, alienante, aprisionado e unilateralizado.
A constatação de Os Sentidos do Trabalho é clara: se, por um lado, necessitamos do trabalho humano e de seu potencial emancipador, devemos também recusar o trabalho que explora, aliena e infelicita o ser social. Isto porque, como está longamente desenvolvido nas páginas deste livro, o sentido do trabalho que estrutura o capital acaba sendo desestruturante para a humanidade; na contrapartida, o trabalho que tem sentido estruturante para a humanidade, é potencialmente desestruturante para o capital.
E essa contraditória processualidade, presente no processo de trabalho, que emancipa e aliena, humaniza e sujeita, libera e escraviza, converte o estudo do trabalho humano numa questão crucial de nosso mundo e de nossas vidas, neste conturbado século XXI, cujo desafio maior é dar sentido autoconstituinte ao trabalho humano e tornar a nossa vida fora do trabalho também dotada de sentido.
RICARDO ANTUNES
Outubro de 2009
Confira abaixo o vídeo de homenagem a J. Chasin, preparado para o lançamento de sua obra Marx: estatuto ontológico e resolução metodológica, realizado no Colóquio Internacional Ontologia, Filosofia e História, em agosto deste ano (organização dos programas de Pós-Graduação em História da PUC-SP e em Filosofia da UFMG).
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Mooca genovesa
Em crônica repleta de cheiros, cores e lembranças, Mino Carta esquadrinha o mais paulistano dos bairros em livro para ser devorado com um cálice de um tinto encorpado
Por Gilberto Maringoni[1]
Mino Carta não é da Mooca. É de Gênova, outro bairro paulistano, um pouco mais distante do centro e de costumes e hábitos mais comedidos. No entanto, Mino escreve como se puxasse uma cadeira de palhinha na calçada da Barão de Jaguara ou da Oratório, nos colocasse em roda e passasse a desfiar suas andanças pelos cheiros, cores e histórias do lugar.
Na língua dos originais a região significa fazer casa (moo + ca). Quem diria, o duplo ‘o’, um fechado e outro aberto, nada tem a ver com os carcamanos do sul da Itália, mas com os índios que habitavam o lugar, muito antes da festa de San Gennaro se tornar popular, com suas tarantelas, molhos e sotaques de consoantes marcadas e ritmo flauteado.
As histórias de Mino estão em Crônicas da Mooca, um livrinho charmoso da coleção Paulicéia que a Boitempo Editorial acaba de relançar, ilustrado por dezenas de imagens de Helio Campos de Mello. A edição original é de 1983. Para a nova, o autor escreveu dois adendos – prefácio e pósfácio – carregados de melancolia diante da fúria imobiliária que transforma vilas e casarões em sequências de torres de gosto e estilos indefinidos.

Fotografia de Hélio Campos Mello
Possivelmente a Mooca do início dos anos 1980 ainda guardasse muito da marca das fábricas e costumes operários que hoje praticamente desapareceram.
O livro é uma sinuosa crônica, de texto cuidadosamente esculpido em estilo estica e puxa, na qual o editor de CartaCapital engata um assunto em outro, montando um caleidoscópio de histórias que percorrem quase um século do mais paulistano dos bairros. Bom seria lê-lo junto com outra obra-prima da coleção, Brás, sotaques e desmemorias, de Lourenço Diaféria (1933-2007).
Separados hoje pela Radial Leste, os dois volumes esquadrinham o mesmo espaço geográfico e afetivo, com visões um tanto distintas. Enquanto Diaféria declara ter sentido a vida sempre dura naquelas redondezas, Mino busca um tempo passado que imagina melhor.
Ele não é do lugar, mas aparenta querer ter sido. Conta da égua Faísca, usada para a entrega de pães pelas ruas de paralelepípedo, detém-se em histórias miúdas de gente que sonhava com o outro lado do mar, em sagas perdidas, fala de amores feitos e desfeitos, de fuzarcas de garotos, de Angelos, Taninos, Fortunatas, Alfonsos e seu filhos, netos e chegados. Tudo é contado com o prazer de quem degusta pães e brioches da Di Cunto, a mais tradicional confeitaria da zona leste paulistana, quiçá da própria metrópole.
Politicamente, a região já conheceu de quase tudo. Antiga periferia da capital, para lá se dirigiram imigrantes italianos e espanhóis pobres dos fins do dezenove, atraídos pelo primeiro surto de industrialização, sem saber ao certo que viriam substituir os braços negros na lida pesada. Jornadas infindáveis, trabalho infantil, salários mirrados e moradias precárias funcionaram como pavio de uma dinamite social que explodiria na formidável greve de 1917. A cidade parou por quase duas semanas, a partir de um protesto as operárias do cotonifício Crespi, de propriedade de Rodolfo Crespi, um dos poucos oriundi a se dar bem nas terras do outro lado da várzea do Tamanduateí e ter vida de nababo.
A turma do lugar era mesmo da pá virada, conta Mino. Enfrentou bombardeios de aviação na Revolução de 1924 e acabou batizando o largo na confluência da avenida Paes de Barros com as ruas da Mooca e Oratório, uma espécie de marco zero do lugar, de praça vermelha, tal a quantidade de comícios e manifestações que marcaram aquelas quadras.
Ao mesmo tempo, parte da italianada ali estabelecida se admirava com os feitos do condottiere que fazia e acontecia em sua terra natal. Il Duce, contavam alguns, restaurou monumentos e fez os trens italianos chegarem e partirem com precisão britânica. Talvez venha dessa mistura a influência que fenômenos eleitorais, como o adhemarismo, o janismo e o malufismo tiveram da Taquari até para lá do Juventos, o ex-clube operário, por décadas a fio.
Mino não faz sociologia. Busca melancolicamente lembranças de um bairro que não existe mais. Muita coisa mudou. O sotaque cantado e a fala exagerada se mantém, a melhor casa de massas é dirigida por irmãos paraibanos, o Toninho do churro, depois de meio século de atividades, fechou as portas sem revelar sua receita a ninguém e a festa de San Gennaro segue em frente. Mas a ocupação do espaço, na palavra dos arquitetos, mudou. O Crespi, que poderia ser uma espécie de museu do trabalho, foi selvagemente modificado para abrigar um hipermercado.
Mas há uma informalidade meio brusca e meio carinhosa que subsiste nas gentes, um tom direto nas falas e gestos que faz da Mooca algo tão indefinível quanto o esquisito encontro vocálico de seu nome. Isso sobrevive a qualquer fúria pretensamente modernizante.
[1] Morador do Belenzinho
* Resenha publicada também na Agência Carta MaiorArquivado em: Livros - Lançamentos | Tags: Alain Badiou, Boitempo, escravidão, França, Michael Löwy, Michel Pialoux, Revoluções, Stéphane Beaud
Na trilha da Comuna de Paris
Boitempo lança quatro obras especiais em outubro e novembro para celebrar ano da França no Brasil

Fotografia da Comuna de Paris, de Gilbert Achcar, que está no livro Revoluções
A Boitempo prepara quatro lançamentos especiais para os próximos meses, a partir das comemorações do ano da França no Brasil. Em sintonia com a proposta editorial de estímulo ao pensamento crítico, os livros apresentam algumas contribuições da produção intelectual francesa para a compreensão e transformação da sociedade global.
Em outubro, a editora lança o Retorno à condição operária, de Stéphane Beaud e Michel Pialoux, um clássico da sociologia do trabalho. A partir de uma profunda pesquisa sobre as transformações vividas pela classe operária na década de 1980, os autores buscam compreender o processo que resultou na perda de sua expressão política. Trata-se de um retrato não só das estratégias patronais para dissuadir a organização coletiva, mas também do impacto de novas técnicas gerenciais que alteraram de maneira significativa o sentido de identidades no mundo do trabalho.
O objeto de estudo de Beaud e Pialoux são as fábricas da montadora Peugeot, da região fabril de Sochaux-Montbéliard. Além de aspectos históricos e sindicais, os autores apresentam um mapa cultural do movimento operário, ampliando o escopo da sociologia do trabalho mais tradicional. O caso dos trabalhadores franceses serve de base para um panorama amplo e pertinente para entender o mundo do trabalho hoje.
Outro lançamento da Boitempo é o Revoluções, organizado por Michael Löwy. Nesta obra histórica, o sociólogo brasileiro radicado na França reúne os principais registros fotográficos dos processos revolucionários do final do século XIX até a segunda metade do século XX. O livro convida o leitor ao percorrer a diversificada experiência das lutas populares por meio de imagens histórica, como os primeiros registros fotográficos da Comuna de Paris. Esse percurso é narrado por intelectuais como Gilbert Achcar, Rebecca Houzel, Enzo Traverso, Bernard Oudin, Pierre Rousset, Jeanette Habel e o próprio Löwy.
Nas palavras de Luiz Bernardo Pericás, que assina a orelha do livro, “as barricadas da Comuna de Paris, os camponeses e soldaderas em armas no México, os operários nos sovietes da Rússia, as revoluções abortadas na Alemanha e Hungria, os partisans anarquistas e socialistas na Guerra Civil espanhola, a Longa Marcha vermelha na China e os guerrilheiros barbudos da Sierra Maestra em Cuba são alguns dos momentos de luta e dos ‘heróis’ anônimos apresentados neste livro”.
Alain Badiou, filósofo francês nascido em Rabat (Marrocos), é autor de outra tradução que a Boitempo lançará em outubro. Em São Paulo, o filósofo francês nascido em Rabat (Marrocos) parte do discurso do apóstolo para investigar os fundamentos do universalismo. Neste ensaio, Badiou aborda a conexão paradoxal feita por Paulo entre um sujeito sem identidade e uma lei sem suporte, que funda a possibilidade na história de uma predicação universal. Para o filósofo francês, o gesto inédito de Paulo é subtrair a verdade da dominação comunitária, seja de um povo, de uma cidade, de um império, de um território ou de uma classe social.
Olivier Pétré-Grenouilleau, em A História da escravidão, analisa não só a organização produtiva deste sistema, mas como a escravidão criou raízes na maneira da humanidade conceber e interagir com o mundo. Com um texto acessível e didático, o historiador francês resgata as origens da escravidão e seus desdobramentos ao longo da história para mostrar que este duro sistema deixou o racismo e as segregações como herança para os dias atuais.
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Uma teoria para a transformação
Em entrevista para o Blog da Boitempo, Carlos Eduardo Martins fala sobre a obra de Ruy Mauro Marini, a crise do neoliberalismo, a necessidade de práticas transformadoras e os desafios colocados para os marxistas no próximo período. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, Carlos Eduardo é professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ e pesquisador do Laboratório de Políticas Públicas (LPP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Na próxima quinta-feira, 01/10, participa de debate no II Simpósio de Teoria Política do IFCS, às 17h, na UFRJ, onde lança a obra A América Latina e os desafios da globalização: ensaios dedicados a Ruy Mauro Marini.
1) A aliança entre teoria e prática é essencial para os pensadores marxistas? Como a militância de Ruy Mauro Marini contribuiu com a sua obra? O período do exílio no Chile foi determinante neste sentido?
O marxismo, tal como pensado por Marx e Engels, não se contentava apenas em conhecer o mundo, mas pretendia transformá-lo, libertando a humanidade das opressões de classe que o constituíam. Só assim se realizaria plenamente a potencialidade criadora do homem. Este é o grande objetivo e o sentido mais profundo de sua obra. Mas realizá-lo requer o estudo dos processos de dominação, de suas contradições, das condições objetivas. Isto permite desenvolver a luta política como simultaneamente prática e teórica, sem o que, não poderá atingir esta finalidade. A relação entre teoria e prática, ainda que intensa, requer, portanto, uma autonomia relativa entre ambas. Não é por outra razão que entre as principais obras de Marx estão O Capital, a Crítica da Economia Política, A Ideologia Alemã e os Grudrisse. Marini foi um intelectual desse tipo. Militante socialista, concebia a atividade intelectual com a autonomia relativa necessária para conferir à atividade política, mais que um sentido imediato, a longa duração das grandes linhas do pensamento estratégico. Para isso constrói uma economia política da dependência, cujo paradigma é seu livro Dialética da Dependência. Marini foi liderança destacada da POLOP no Brasil, de onde saiu para o exílio em 1965, após ser torturado no CENIMAR, e do MIR chileno. Na POLOP desenvolveu com Theotonio dos Santos e Vânia Bambirra a crítica às teses do PCB de uma revolução democrático-burguesa, comandada pela burguesia industrial brasileira contra o latifúndio e o imperialismo, apoiada por trabalhadores e camponeses. Estas críticas, embrião da teoria marxista da dependência, formuladas juntas com Andre Gunder Frank na UNB, onde estes autores se reúnem em 1963/64, serão plenamente desenvolvida no Chile no CESO, Centro de Estudos Sócio-Econômicos. No MIR chileno, o autor realizou a crítica ao projeto político da Unidade Popular, que tentou circunscrever a dualidade de poderes ao interior do Estado, restringindo a organização das classes trabalhadoras e sua capacidade de confrontar a desestabilização do governo Allende pelo grande capital e sua base social. Estes materiais foram reunidos em seu livro, Reformismo e a contra-revolução: estudos sobre o Chile. No exílio mexicano aprofunda os seus estudos sobre o capitalismo dependente, escrevendo vários artigos que avançam a perspectiva traçada em Dialética da dependência, e preocupa-se com os rumos tomados pela redemocratização na América Latina, hegemonizado pelo grande capital. De volta ao Brasil, não se vinculou a nenhuma organização partidária, inclinando-se politicamente pela formação de uma frente de esquerda entre o PDT, liderado por Brizola, e o PT.
2) O autor é considerado um pilar da construção do pensamento marxista não só no Brasil, mas em toda a América Latina. O legado de Marini, entretanto, é pouco conhecido no País. Que fatores podem explicar esse paradoxo? Há uma motivação política?
Creio que podemos apontar três razões para este desconhecimento. A primeira o fato de Marini ter desenvolvido grande parte de sua obra fora do Brasil, em razão do exílio. A ditadura brasileira interveio na universidade e buscou redirecionar suas conexões e sua problemática, reorientando-a da América Latina e Europa para os Estados Unidos. A segunda razão foi que esta reorientação em direção aos Estados Unidos foi acentuada pela atuação da Fundação Ford no país, nos anos 1970 e 80. Buscava-se explicitamente a formação de uma nova comunidade acadêmica, não comprometida diretamente com o autoritarismo, e capaz de gerir o capitalismo brasileiro de forma segura em tempos de redemocratização. Para isso foi fundamental a difusão do pensamento analítico e o financiamento de centros de pós-graduação e associações especializadas, o que deslocou as grandes questões nacionais e internacionais, por natureza transdisciplinares, da condição de objeto de estudo. Finalmente a obra de Marini denunciava, na superexploração, os limites dos modelos políticos de desenvolvimento liberais ou neoconservadores tomados pelo capitalismo brasileiro, desde o fim da ditadura, o que a tornava incomoda para neodesenvolvimentistas e neoliberais, que preferiram silenciá-la ao invés de a integrarem na batalha das idéias.
3) No marco da malha conceitual da teoria da dependência qual papel o Brasil tem desenvolvido na América Latina? Que entraves há para uma integração maior? O que os governos progressistas recém eleitos estão fazendo concretamente neste sentido?
Vivemos um período de crise da hegemonia dos Estados Unidos e crise estrutural do capitalismo na economia mundial. Isto abre muito espaços para os países periféricos, sobretudo os de dimensões semi-continentais como o Brasil. As taxas de investimento nos países centrais são limitadas e há uma grande dificuldade para transformar a revolução científico-técnica numa realidade social e civilizatória, capaz de estabelecer as bases de uma nova divisão internacional do trabalho. O trabalhador se torna o principal ativo econômico e o aumento do valor de sua força de trabalho passa a ser o fundamento da produtividade, o que entra em contradição com a dinâmica do capital. O Estado volta a ganhar importância, como organizador do dinamismo da economia. A possibilidade estrutural de construção de um mundo multipolar ganha evidências crescentes, mas para que se realize é necessária a mediação da política. Os BRICAS, incluindo-se a África do Sul, devem assumir posições mais ousadas no movimento de reorganização da economia mundial. A formação de um bloco histórico que impulsione a integração regional na América Latina e dos países do sul torna-se uma prioridade para os próximos 20 anos. O Brasil detém a maior parte da população, das reservas monetárias, do desenvolvimento científico-tecnológico e da base industrial da sul-americanas, possuindo ainda substanciais reservas minerais e patrimônio biótico. O alcance da UNASUL e da integração regional depende amplamente de o Brasil abandonar as pretensões de se diferenciar como país semi-periferico, liquidando os compromissos subimperialistas e a superexploração de suas oligarquias, para assumir os compromissos sociais e políticos de uma América Latina solidária e articulada às forças emergentes do mundo atual.
4) Ao organizar a obra A América Latina e os desafios da globalização, que legado deixado pela vida e obra de Marini você e os outros organizadores da obra esperavam resgatar? Quais as principais contribuições para o pensamento marxista contemporâneo?
Nossa intenção foi resgatar a obra de Marini não apenas como uma referência histórica do pensamento brasileiro e latino-americano, mas como um instrumento para a compreensão do capitalismo contemporâneo. Nesse sentido nos propusemos fazer um balanço teórico e empírico de suas teses a luz da globalização da economia mundial. O conceito de superexploração, por exemplo, é de grande fecundidade para a interpretação de sua dinâmica, e um dos principais legados de sua obra. Continua extremamente válido para a análise dos processos de exclusão na América Latina tornando-se mesmo, com a globalização, aplicável aos países centrais. Para o autor, a desigualdade e a pobreza latino-americanas apresentam fortes componentes estruturais. As nossas burguesias inserem-se de forma subordinada e associada numa economia mundial monopólica e hierarquizada constituída pelo capitalismo mundial, e dirigida por seus grandes centros. As transferências de mais-valia de nossas formações sociais para a economia mundial se combinam às internas, que beneficiam o setor monopólico local, associado ao grande capital, em vantagem tecnológica, financeira e comercial. A necessidade de o capital médio restabelecer suas taxas de lucro – uma vez que sob condições monopólicas situa-se por debaixo das condições médias de produção – cria um mercado de trabalho que passa a gravitar em torno à superexploração. Esta se desenvolve pelo aumento da jornada e da intensidade de trabalho sem a remuneração equivalente, pela rebaixa salarial, ou pelo aumento da qualificação do trabalhador, sem o pagamento correspondente. Não é por outra razão que os 10% mais ricos do Brasil detém 75% de nossas riquezas, ou que os 10% mais ricos na América Latina 46% de nossas rendas. Esta é a raiz do caráter anti-democrático e oligárquico de nossas burguesias a qualquer processo político carregado de um conteúdo social mais substantivo, ou que ameace configurá-lo. O ódio aos Chávez, aos Evos Morales, aos Lugos, aos Zelayas, aos Kirchners e aos Lulas tem esta natureza.
Nos seus trabalhos mais recentes, Marini assinala que a superexploração se estende aos países centrais em função da reorganização produtiva proporcionada pela globalização e dos novos níveis de monopolização alcançados pela economia mundial. O monopólio deixa de ser uma realidade nacional ou multinacional para se transformar em trasnacional. Os seus resultados são as transferências de mais-valia das empresas de base estritamente nacional, mesmo dos países centrais, para estas grandes corporações, e a pressão daquelas para compensá-las sobre os salários dos trabalhadores. Os dados proporcionados pelo Economic Report of The President para a economia estadunidense, não deixam dúvidas quanto a isto. Os salários dos trabalhadores são hoje inferiores aos de fins da década de 1960.
Outros conceitos de sua economia política, como o de subimperialismo, permanecem relevantes, e são trazidos à cena contemporânea nas denuncias realizada pelos governos populares que emergiram na região, da presença brasileira na América do Sul nas últimas décadas, sendo tomados em consideração pelo governo Lula e sua política externa para o redesenho de nossa inserção internacional.
Finalmente de grande atualidade é sua compreensão da teoria da dependência como parte da teoria de um sistema mundial que deveria culminar em novo socialismo no século XXI: de caráter mundial e radicalmente democrático, realizando desafios civilizatórios que nem o capitalismo e nem o socialismo do século XX foram capazes de cumprir.
5) Na apresentação da obra, você diz que a crise de legitimidade do neoliberalismo potencializa a abertura de novos espaços. Você poderia identificar algumas brechas para os intelectuais, militantes e movimentos sociais de esquerda neste sentido?
Penso que a crise do neoliberalismo despertou uma sensibilidade crítica da população às políticas desenvolvidas nos últimos anos. É esta sensibilidade que deu a vitória com 60-65% dos votos aos governos populares da região. Entretanto, para que ela se desenvolva é preciso que estes lancem na agenda política da população temas mobilizadores. Não fazê-lo pode significar a perda de um momento histórico precioso para a emancipação dos povos latino-americanos.
Por Débora Prado (assessora de imprensa)
