Inferno precário

Moradores da comunidade do Pinheirinho (em São José dos Campos/SP) resistem à brutal ação de reintegração de posse promovida pela Polícia Militar

Por Ruy Braga.

No exato momento em que as crises europeia e estadunidense trazem de volta a insegurança para as relações de trabalho, o Brasil parece se esquecer de como nossa cidadania salarial é precária… Bastaram alguns modestos progressos na formalização do mercado de trabalho brasileiro somados a uma política de lenta recuperação do salário mínimo para que uma sensação de “dever cumprido” tomasse conta do governo federal. Dispensável dizer que a mídia repercute esta sensação de maneira acrítica por todo o país. Mas será que os gestores lulistas podem se dar ao luxo de dormir o sono dos justos?

De fato, a reformalização do mercado de trabalho é uma realidade no país. Mas já havia começado no final do segundo governo FHC. A razão é muito simples: devido às altas taxas de juros praticadas pelo governo, o Estado brasileiro necessita arrecadar cada vez mais impostos pra rolar sua dívida. Neste contexto, a informalização transformou-se em um problema. Ainda assim, demonstrando uma vez mais que a informalidade e a precarização são características estruturais da sociedade brasileira, mesmo após nove anos de hegemonia lulista, estamos ainda a anos-luz de distância da taxa de formalização (60% da População Economicamente Ativa, contra os atuais 50%) alcançada no final dos anos 1980, justamente quando o modelo nacional-desenvolvimentista conhecia seu colapso final. Se compararmos o tamanho de nosso mercado formal de trabalho com o de países como África do Sul (70%) e Argentina (75%), perceberemos como o “oba-oba” dos gestores lulistas não passa de uma cortina de fumaça para esconder o malogro das políticas adotadas.

E isso sem mencionar que não devemos confundir informalidade com precarização. O trabalhador pode perfeitamente estar precarizado, ainda que submetido a relações de emprego formais. Basta dar uma olhada nas taxas de rotatividade do trabalho em alguns setores econômicos paulistas que notoriamente empregam muita força de trabalho, como o comércio e o setor de serviços, por exemplo (algo entorno de 42% ao ano) ou no aumento do número de acidentes de trabalho no Brasil durante os últimos 3 anos (de 400.000 para 700.000 acidentes), para percebermos que, mesmo formalizado, o trabalho no país continua tristemente precário.

Com o salário mínimo acontece algo semelhante. Por uma lado, o DIEESE calcula que o salário mínimo necessário para o trabalhador suprir despesas básicas com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência, como determina a Constituição Federal, deveria ser de R$ 2.349,26. Este ano, o governo repassou a inflação mais a variação do PIB para o novo mínimo (R$ 622,00), tirando da conta a elevação da produtividade do trabalho no período, e diz que redistribuiu renda. Pode? Vale lembrar que o mínimo calculado pelo DIEESE diz respeito apenas à remuneração necessária à reprodução do trabalhador não-qualificação. Ou seja, o mínimo do governo federal ajuda a reproduzir a força de trabalho nacional abaixo de seu valor.

Tudo somado, a burocracia lulista pode dormir o sono dos justos? Aliás, por falar em sono, o precariado brasileiro voltou à baila esta semana como um pesadelo. A brutal e criminosa invasão do bairro do Pinheirinho, em São José dos Campos, pela Polícia Militar de São Paulo indignou o país. Descumprindo determinação da justiça federal que adiava a reintegração de posse do terreno, cerca de 2.000 soldados da PM, apoiados pela guarda municipal, helicópteros, cães, centenas de viaturas…, expulsaram brutalmente mais de 3.000 moradores de suas casas – os outros 3.000 moradores já haviam deixado o bairro antes por receio do conflito. Muitos dos moradores expulsos de suas casas são empregados com carteira assinada nas empresas da região. Poderiam até aparecer na propaganda lulista. No entanto, o Brasil real logo tratou de lembrar àqueles como nossa cidadania salarial é mesquinha.

Mas que um governador filofascista, acólito de organizações sinistras (como a Opus Dei) e à frente de um judiciário particularmente reacionário (como o de São Paulo), tenha decidido brutalizar crianças e trabalhadores para beneficiar um criminoso que, entre outras coisas, quebrou a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, não causa espanto algum. No entanto, saber que o governo pilotado por uma burocracia sindical que só existe politicamente devido àquela rebelião das bases metalúrgicas do final dos 1970 não fez absolutamente nada para evitar a tragédia é que irrita. Sem falar nas manobras lulistas pra faturar politicamente com a indignação popular contra o PSDB despertada pela ação da PM.

Ao invés de ficar declarando que a desocupação do Pinheirinho foi uma “barbárie”, a única coisa realmente séria que a presidenta Dilma Rousseff poderia fazer seria usar o Ministério das Cidades para desapropriar a área e devolvê-la aos moradores do bairro. Mas seu governo não fará isto. Por quê? Porque é aliado dos mesmos interesses financeiros que seu adversário paulista. Em certa medida, o massacre do Pinheirinho resume bem a relação que o capital financeiro (representado, aqui, por Naji Nahas) trava com o precariado brasileiro. Uma relação baseada na expropriação brutal (Alckmin) mediada por uma burocracia sindical (governo Dilma) que sabe bem faturar as oportunidades políticas, mas apenas empurra com a barriga as angústias dos trabalhadores. Até quando?

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Boitempo indica: para assistir após ler

Recomendamos que o leitor ou leitora assista ao filme de curta-metragem sobre a desocupação do Pinheirinho, realizado pelo Coletivo de Comunicadores Populares, após a leitura desta coluna de Ruy Braga.

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Dois livros organizados por Ruy Braga e publicados pela Boitempo já estão à venda em versão eletrônica (ebook): Infoproletários: degradação real do trabalho virtual (2009, em coorganização com Ricardo Antunes) e Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira (2010, em coorganização com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek). Ambos podem ser comprados na Livraria Cultura e Gato Sabido.

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Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP, é autor, entre outros livros, de Por uma sociologia pública (São Paulo, Alameda, 2009), em coautoria com Michael Burawoy, e A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial (São Paulo, Xamã, 2003). Na Boitempo, coorganizou as coletâneas de ensaios Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual (com Ricardo Antunes, 2009) e Hegemonia às avessas (com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, 2010), sobre a hegemonia lulista. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

A revolta da burguesia assalariada

Recriação do jogo Monopoly instalada por Banksy no acampamento do Occupy London

Por Slavoj Žižek.

Traduzido por Chrysantho Sholl e Fernando Marcelino.

Embora os protestos sociais em curso nos países ocidentais desenvolvidos pareçam indicar o renascimento de um movimento emancipatório radical, uma análise mais detalhada nos compele a elaborar uma série de distinções precisas que, de alguma forma, embaçam essa clara imagem. Três coisas caracterizam o capitalismo de hoje: a tendência de longo prazo de transformação do lucro em renda (em suas duas principais formas: a renda do “conhecimento comum” privatizado e a renda pelos recursos naturais); o papel estrutural mais forte do desemprego (a própria chance de ser “explorado” em um emprego duradouro é percebida como um privilégio); e a ascensão de uma nova classe que Jean-Claude Milner chama de “burguesia assalariada” [Veja Jean-Claude Milner, Clartes de tout, Paris, Verdier, 2011].

Para explicar a relação entre estas características, comecemos com Bill Gates: como ele se tornou o homem mais rico do mundo? Sua riqueza não tem nada a ver com o custo de produção daquilo que a Microsoft vende (pode-se até mesmo argumentar que a Microsoft paga a seus trabalhadores intelectuais um salário relativamente alto), isto é, a riqueza de Gates não é o resultado de seu sucesso em produzir bons softwares por preços mais baixos do que seus concorrentes ou por uma “maior exploração” de seus trabalhadores intelectuais contratados. Se este fosse o caso, a Microsoft teria ido a falência há muito tempo: as pessoas teriam optado massivamente por programas como Linux que são de graça e, de acordo com especialistas, de melhor qualidade que os programas da Microsoft. Por que, então, existem milhões de pessoas que ainda compram Microsoft? Porque a Microsoft se impôs como um padrão quase universal, “quase” monopolizando o setor, uma espécie de personificação direta daquilo que Marx chamou de General Intellect (Intelecto Coletivo), o conhecimento coletivo em todas as suas dimensões, da ciência ao prático know how. Gates se tornou o homem mais rico em algumas décadas através da apropriação da renda pela permissão de que milhões participem na forma do “intelecto coletivo” que ele privatizou e controla.

Deve-se transformar criticamente o aparato conceitual de Marx: por causa de sua negligência em relação à dimensão social do “intelecto coletivo”, Marx não vislumbrou a possibilidade de privatização do próprio “intelecto coletivo”. É isto que está no coração da luta contemporânea pela propriedade intelectual: a exploração tem cada vez mais a forma de renda, ou, como diz Carlo Vercellone, o capitalismo pós-industrial é caracterizado pelo “tornar-se renda do lucro” [Veja Capitalismo cognitivo, editado por Carlo Vercellone, Roma, manifestolibri, 2006]. Em outras palavras, quando, por conta do papel crucial do “intelecto coletivo” (conhecimento e cooperação social) na criação de riqueza, as formas de riqueza se tornam cada vez mais desproporcionais em relação ao tempo de trabalho diretamente empregado na produção, o resultado não é, como Marx parecia esperar, a autodissolução do capitalismo, mas a transformação gradual do lucro gerado pela exploração da força de trabalho em renda apropriada pela privatização do “intelecto coletivo”.    

O mesmo acontece com os recursos naturais: sua exploração é uma das maiores fontes de renda hoje, acompanhada da luta permanente pra saber quem ficará com esta renda – os povos do Terceiro Mundo ou as corporações ocidentais (a suprema ironia é que, para explicar a diferença entre força de trabalho – que, em seu uso, produz mais-valia sobre seu próprio valor – e outras mercadorias – que somente consomem seu próprio valor em seu uso e, portanto, não envolvem exploração -, Marx menciona como exemplo de uma mercadoria ordinária o petróleo, a própria mercadoria que hoje é a fonte de extraordinários “lucros”…). Aqui também não faz sentido vincular as altas e baixas do preço do petróleo com altos e baixos custos de produção ou preços do trabalho explorado – custos de produção são negligenciáveis, o preço que pagamos pelo petróleo é a renda que pagamos para os proprietários deste recurso por conta de sua escassez e oferta limitada.

A consequência deste crescimento na produtividade alavancado pelo impacto exponencialmente crescente do conhecimento coletivo é a transformação do papel do desemprego: embora o “desemprego seja estruturalmente inseparável da dinâmica de acumulação e expansão que constitui a própria natureza do capitalismo enquanto tal” [Fredric Jameson, em Representing Capital, Londres, Verso Books, 2011, p. 149], o desemprego adquiriu atualmente um papel qualitativamente diferente. Naquilo que, possivelmente, é o ponto extremo da “unidade dos opostos” na esfera da economia, é o próprio sucesso do capitalismo (crescimento produtivo etc.) que produz desemprego (produz mais e mais trabalhadores inúteis) – o que deveria ser uma benção (menos trabalho duro necessário) se torna uma sina. O mercado global é, assim, em relação a sua dinâmica imanente, “um espaço no qual todos já foram, um dia, trabalhadores produtivos, e no qual o trabalho, em todos os lugares, foi aos poucos retirando-se do sistema” [Fredric Jameson, em Valences of the Dialetic, Londres, Verso Books, 2009, p. 580-1]. Isso é, no atual processo de globalização capitalista, a categoria dos desempregados adquire uma nova qualidade além da clássica noção de “exército industrial de reserva”: devemos considerar em relação a categoria do desemprego “aquelas enormes populações, que ao redor do mundo foram ‘expulsas da história’, que foram deliberadamente excluídas dos projetos modernizadores do capitalismo de primeiro mundo e apagadas como casos terminais sem esperança” [Jameson, em Representing Capital, p. 149]: os assim chamados estados falidos (Congo, Somália), vítimas da fome ou de desastres ecológicos, presos a “rancores étnicos” pseudo-arcaicos, objetos da filantropia e das ONGs, ou (frequentemente os mesmos personagens) da “guerra contra o terror”. A categoria dos desempregados deve assim ser expandida para agregar uma população de largo alcance, dos temporariamente desempregados, passando pelos não mais empregáveis, até pessoas vivendo nas favelas e outras formas de guetos (todos aqueles desconsiderados pelo próprio Marx como “lúmpem-proletariado”) e, finalmente, áreas inteiras, populações ou estados excluídos do processo capitalista global, como os espaços em branco nos mapas antigos.

Mas esta nova forma de capitalismo não traz também uma nova perspectiva de emancipação? Nisto reside a tese de Hardt e Negri em Multidão: guerra e democracia na Era do Império [Rio de Janeiro: Record, 2005] onde eles pretendem radicalizar Marx, para quem o capitalismo corporativo altamente organizado já era uma forma de “socialismo dentro do capitalismo” (uma espécie de socialização do capitalismo, com os proprietários tornando-se cada vez mais supérfluos), de maneira que seria necessário apenas cortar a cabeça do proprietário nominal e nós teríamos socialismo. Para Hardt e Negri, entretanto, a limitação de Marx foi estar historicamente limitado ao trabalho industrial mecanicamente industrializado e hierarquicamente organizado, razão pela qual a sua visão de “intelecto coletivo” seria como uma agência central de planejamento; somente hoje, com a elevação do trabalho imaterial ao padrão hegemônico, a transformação revolucionária se torna “objetivamente possível”. Esse trabalho imaterial se desdobra entre dois pólos: trabalho (simbólico) intelectual (produção de ideias, códigos, textos, programas, figuras etc. por escritores, programadores…) e trabalho afetivo (aqueles que lidam com afecções corpóreas, de médicos a babás e aeromoças). O trabalho imaterial é hoje hegemônico no sentido preciso em que Marx proclamou que, no capitalismo do século XIX, a produção industrial em larga escala era hegemônica, como a cor específica dando o tom da totalidade – não quantitativamente, mas cumprido um papel chave, emblematicamente estrutural. Assim, o que surge é um inédito vasto domínio dos “comuns”: conhecimento compartilhado, formas de cooperação e comunicação etc. que não podem mais ser contidos na forma da propriedade privada – por quê? Na produção imaterial, os produtos já não são objetos materiais, mas novas relações sociais (interpessoais) – em suma, a produção imaterial já é diretamente biopolítica, produção de vida social.

A ironia é que Hardt e Negri se referem aqui ao próprio processo que os ideólogos do capitalismo “pós-moderno” celebram como a passagem da produção material para a simbólica, da lógica centralista-hierárquica para a lógica da autopóiese e da auto-organização, cooperação multi-centralizada etc. Negri é aqui efetivamente fiel a Marx: o que ele tenta provar é que Marx estava certo, que a ascensão do intelecto coletivo é, em longo prazo, incompatível com o capitalismo. Os ideólogos do capitalismo pós-moderno estão afirmando exatamente o oposto: é a teoria marxista (e sua prática) que permanecem dentro dos limites de uma lógica hierárquica e sob controle centralizado do Estado, e assim não conseguem lidar com os efeitos sociais da nova revolução informacional. Existem boas razões empíricas para esta afirmação: de novo, a suprema ironia da história é que a desintegração do Comunismo é o exemplo mais convincente da validade da tradicional dialética marxista entre forças produtivas e relações de produção com a qual o marxismo contou na sua tentativa de superar o capitalismo. O que arruinou efetivamente os regimes Comunistas foi sua inabilidade em acomodar-se à nova lógica social sustentada pela “revolução informacional”: eles tentaram dirigir esta revolução com um novo projeto de planejamento estatal centralizado de larga escala. O paradoxo, assim, é que aquilo que Negri celebra como chance única de superação do capitalismo, é exatamente o que os ideólogos da “revolução informacional” celebram como ascensão de um novo capitalismo “sem fricção”.

A análise de Hardt e Negri possui três pontos fracos que, em sua combinação, explicam como o capitalismo pode sobreviver ao que deveria ser (em termos marxistas clássicos) uma nova organização da produção que o tornaria obsoleto. Ela subestima a extensão do sucesso do capitalismo contemporâneo (pelo menos em curto prazo) de privatizar o “conhecimento comum”, assim como a extensão com que, mais do que a burguesia, são os próprios trabalhadores que se tornam “supérfluos” (número cada vez maior deles torna-se não somente desempregado, mas estruturalmente inempregável). Além disso, mesmo que seja verdade, em princípio, que a burguesia está progressivamente se tornando desfuncional, deve-se qualificar esta afirmação –  desfuncional para quem? Para o próprio capitalismo. Isto quer dizer que, se o velho capitalismo envolvia idealmente um empreendedor que investia dinheiro (seu ou emprestado) em produção organizada e dirigida por ele próprio, recolhendo o lucro, hoje está surgindo um novo tipo ideal: não mais o empreendedor que possui sua própria empresa, mas o gerente especialista (ou um conselho administrativo presidido por um CEO) de uma empresa de propriedade dos bancos (também dirigidos por gerentes que não possuem os bancos) ou investidores dispersos. Neste novo tipo ideal de capitalismo sem burguesia, a velha burguesia desfuncional é refuncionalizada como gerentes assalariados – a nova burguesia recebe cotas, e mesmo se ela possui uma parte na empresa, eles recebem as ações como parte da remuneração pelo trabalho (“bônus por sua gerência bem sucedida”).

Esta nova burguesia ainda se apropria da mais-valia, mas da forma mistificada daquilo que Milner chama de “mais-salário”: em geral, a eles é pago mais do que o salário mínimo do proletário (este ponto de referência imaginário – frequentemente mítico – cujo único verdadeiro exemplo na economia global de hoje é o salário de um trabalhador numa sweat-shop na China ou na Indonésia), e é esta diferença em relação aos proletários comuns, esta distinção, que determina seu status. A burguesia no sentido clássico, assim, tende a desaparecer. Os capitalistas reaparecem como um subconjunto dos trabalhadores assalariados – gerentes qualificados para ganhar mais por sua competência (razão pela qual a “avaliação” pseudo-científica que legitima os especialistas a ganharem mais é crucial hoje em dia). A categoria dos trabalhadores que recebem mais-salário não está, obviamente, limitada aos gerentes: ela se estende a todos os tipos de especialistas, administradores, funcionários públicos, médicos, advogados, jornalistas, intelectuais, artistas… O excesso que eles recebem tem duas formas: mais dinheiro (para gerentes etc.), mas também menos trabalho, isto é, mais tempo livre (para alguns intelectuais, mas também para setores da administração estatal).

O procedimento de avaliação que qualifica alguns trabalhadores para receberem mais-salário é, claramente, um mecanismo arbitrário de poder e ideologia sem nenhuma ligação séria com a competência real – ou, como diz Milner, a necessidade de mais-salário não é econômica, mas política: para manter uma “classe média” com o propósito de estabilidade social. A arbitrariedade da hierarquia social não é um erro, mas todo o seu propósito, de forma que a arbitrariedade da avaliação cumpre um papel homólogo à arbitrariedade do sucesso de mercado. Isto é, a violência ameaça explodir não quando existe muita contingência no espaço social, mas quando se tenta eliminar esta contingência. É neste nível que se deve buscar pelo que se pode chamar de, em termos um tanto vagos, a função social da hierarquia. Jean-Pierre Dupuy [em La marque du sacre, Paris, Carnets Nord, 2008] concebe a hierarquia como um dos quatro procedimentos (“dispositivos simbólicos”) cuja função é fazer com que a relação de superioridade não seja humilhante para os subordinados: a hierarquia (a ordem externamente imposta de papéis sociais em clara contraposição ao valor imanente dos indivíduos – eu, portanto, experimento meu menor status social como totalmente independente do meu valor intrínseco); a desmistificação (o procedimento crítico-ideológico que demonstra que as relações de superioridade/inferioridade não estão fundamentadas na meritocracia, mas são resultado de lutas objetivamente ideológicas e sociais: meu status social depende de processos sociais objetivos, não de méritos – como diz Dupuy sarcasticamente, a desmistificação social “cumpre o mesmo papel, em nossas sociedades igualitárias, competitivas e meritocráticas do que a hierarquia nas sociedades tradicionais” [p. 208] – isto nos permite evitar a conclusão dolorosa de que “a superioridade do outro é o resultado de seus méritos e conquistas”; a contingência (o mesmo mecanismo, porém sem a sua forma crítico-social: nossa posição em escala social depende de uma loteria natural e social – sortudos são aqueles que nascem com melhores disposições e em famílias ricas); a complexidade (superioridade ou inferioridade dependem de um processo social complexo independente das intenções ou méritos dos indivíduos – digamos, a mão invisível do mercado pode causar o meu fracasso ou o sucesso do meu vizinho, mesmo que eu tenha trabalhado muito mais e seja muito mais inteligente). Ao contrário do que parece, todos estes mecanismos não contestam ou sequer ameaçam a hierarquia, mas a tornam palatável, uma vez que “o que desencadeia o turbilhão da inveja é a ideia de que o outro merece a sua sorte e não a ideia oposta, a única que pode ser abertamente expressa” [p.211]. Dupuy extrai desta premissa a conclusão (óbvia, para ele) de que é um grande erro pensar que uma sociedade que seja justa e que se perceba como justa será assim livre de todo o ressentimento – ao contrário, é precisamente em tal sociedade que aqueles que ocupam posições inferiores encontraram uma válvula de escape para seu orgulho ferido em violentas explosões de ressentimento.

Aí reside um dos maiores impasses da China hoje: o objetivo ideal das reformas de Deng Xiaoping era introduzir um capitalismo sem burguesia (como classe dominante); agora, entretanto, os líderes chineses estão descobrindo dolorosamente que o capitalismo sem hierarquia estável (conduzida pela burguesia como nova classe) gera permanente instabilidade – portanto, que caminho tomará a China? Mais genericamente, esta é possivelmente a razão pela qual (ex-)comunistas reaparecem como os mais eficientes gestores do capitalismo: sua histórica inimizade com a burguesia enquanto classe se encaixa perfeitamente na tendência do capitalismo contemporâneo em direção a um capitalismo gerencial sem burguesia – em ambos os casos, como Stalin disse a muito tempo, “os quadros decidem tudo” (está surgindo também uma diferença interessante entre a China de hoje e a Rússia: na Rússia os quadros universitários eram ridiculamente mal pagos, eles de fato se confundiam com os proletários, enquanto na China eles são bem remunerados com um “mais-salário” como meio de garantir sua docilidade).                       

Além disso, esta noção de “mais-salário” também nos permite lançar novas luzes sobre os atuais protestos “anti-capitalistas”. Em tempos de crise, o candidato óbvio para “apertar os cintos” são os níveis mais baixos da burguesia assalariada: uma vez que o seu mais-salário não cumpre nenhum papel econômico imanente, a única coisa que permite diferenciá-los do proletariado são seus protestos políticos. Embora estes protestos sejam nominalmente dirigidos pela lógica brutal do mercado, eles efetivamente protestam contra a gradual corrosão de sua posição econômica (politicamente) privilegiada. Lembremos da fantasia ideológica favorita de Ayn Rand (de seu Atlas Shrugged), a de “criativos” capitalistas em greve – esta fantasia não encontra sua realização perversa nas greves de hoje, que em sua maioria são greves da privilegiada “burguesia assalariada” motivada pelo medo de perder seu privilégio (o excedente sobre o salário mínimo)? Não são protestos proletários, mas protestos contra a ameaça de ser reduzido à condição proletária. Isto quer dizer: quem ousa se manifestar hoje, quando ter um emprego permanente já se tornou um privilégio? Não os trabalhadores mal pagos (no que sobrou) da indústria têxtil etc. mas o estrato de trabalhadores privilegiados com empregos garantidos (muitos da administração estatal, como a polícia e os fiscais da lei, professores, trabalhadores do transporte público etc.). Isto também vale para a nova onda de protestos estudantis: sua maior motivação é o medo de que a educação superior não mais lhes garanta um mais-salário na vida futura.

Está claro, obviamente, que o enorme renascimento dos protestos no último ano, da Primavera Árabe ao Leste Europeu, do Occupy Wall Street à China, da Espanha à Grécia, não devem definitivamente ser desconsiderados como uma revolta da burguesia assalariada – eles guardam potenciais muito mais radicais, de forma que devemos nos engajar numa análise concreta caso a caso. Os protestos estudantis contra a reforma universitária em curso no Reino Unido são claramente opostos às barricadas do Reino Unido em agosto de 2011, este carnaval consumista de destruição, a verdadeira explosão dos excluídos. Em relação aos levantes do Egito, pode-se argumentar que, no começo, houve um momento de revolta da burguesia assalariada (jovens bem educados protestando contra a falta de perspectiva), mas isto foi parte de um amplo protesto contra um regime opressivo. Entretanto, até que ponto o protesto conseguiu mobilizar trabalhadores e camponeses pobres? Não seria a vitória eleitoral dos islâmicos também uma indicação da base social estreita do protesto secular original? A Grécia é um caso especial: nas últimas décadas surgiu uma nova “burguesia assalariada” (especialmente na administração estatal superdimensionada) graças à ajuda financeira e empréstimos da União Europeia, e muitos dos protestos atuais, mais uma vez, reagem à ameaça de perda destes privilégios.

Além disso, esta proletarização da baixa “burguesia assalariada” vem acompanhada do excesso oposto: as remunerações irracionalmente altas dos grandes executivos e banqueiros (remunerações economicamente irracionais, uma vez que, como demonstraram as investigações nos Estados Unidos, elas tendem a ser inversamente proporcionais ao sucesso da empresa). É verdade, parte do preço pago por essa super remuneração é o fato dos executivos ficarem totalmente disponíveis 24 horas por dia, vivendo assim num estado de emergência permanente. Mais do que submeter estas tendências a uma crítica moralista, deveríamos interpretá-las como a indicação de como o próprio sistema capitalista não é mais capaz de encontrar um nível interno de estabilidade autorregulada e de como esta circulação ameaça sair do controle.       

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, confira:

Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917, de Slavoj Žižek * ePub (Livraria Cultura |Gato Sabido)

A visão em paralaxe * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Em defesa das causas perdidas * ePub e PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Lacrimae rerum: ensaios sobre cinema moderno * PDF * R$25 (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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Slavoj Žižek  nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009) e os mais recentes Em defesa das causas perdidas e Primeiro como tragédia, depois como farsa(ambos de 2011). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

O estupro da razão

"O abraço", de Gustav Klimt (1862-1918)

Por Izaías Almada.

Volto ao país depois de merecidas férias. Visto à distância, o Brasil é um país como outro qualquer. É como estar em São Paulo, por exemplo, e ler as notícias sobre países europeus, asiáticos ou sobre nossos vizinhos sul-americanos. As notícias do dia a dia são muitas vezes superficiais, sensacionalistas, procurando encobrir a natureza dos motivos pelos quais elas acontecem ou se desenvolvem.

A diferença, é claro, se dará por conta do conhecimento que temos da nossa própria realidade, os interesses e os fatores objetivos e subjetivos que se entrelaçam na informação produzida por jornais, televisões, revistas, sites e blogues.

A Rede Globo de Televisão, beneficiária e por isso mesmo defensora do golpe de Estado no Brasil em 1964 (ou seria o contrário?) chamou uma vez mais para si os olhares da nação, muitos deles cada vez mais descontentes com o que ali assistem.

Detentora de uma estratégia e de um marketing de comunicação imposto pelo poder econômico que construiu e que a sustenta, a emissora vem atravessando os anos colocando-se acima das leis e da Constituição, uma vez que o seu DNA foi formado no período autoritário mais recente da história política brasileira.

Ao se arrogar em fazer o que quer, a Rede Globo finge não ver que a ditadura já terminou e apresenta-se com aquela prepotência dos que fingem que nada de mais se passa à sua volta. Coloca-se acima da própria Constituição do país (consultar os artigos 221 e 223 da Constituição).

Talvez o braço mais forte do pequeno grupo que comanda impunemente a informação no Brasil, a “Venus platinada”, como alguns a chamaram ou ainda a chamam, não tem pelo país qualquer tipo de consideração, a não ser aquela – é claro – em benefício próprio, quando se proclama líder de audiência em vetustos programas, entre eles alguns já mofados e embolorados como “Fantástico”, “Jornal Nacional”, “Faustão”, “Programa da Xuxa” e a maioria de suas telenovelas, cujo conteúdo, aliás, é de dar enjôo em antiácido.

Baseados na antiga falácia de que a televisão produz aquilo que o povo gosta de ver, as emissoras de um modo geral e a Rede Globo em particular, mistura alhos com bugalhos propositadamente, pois sabe que um povo desinformado, confuso, indisciplinado, ignorante de seus direitos constitucionais, iludido por partidos políticos de pouca ou nenhuma expressão ideológica, é um povo paralisado e medroso.

A estratégia de desinformação coloca o cidadão diante da dúvida, da negação da própria política, do desânimo, da apatia, do medo.

Ainda assim, é possível identificar alguns bolsões de resistência a esse plano de manipulação de consciências e de votos, que transforma o país num amálgama de incertezas.

As manifestações de vários setores da sociedade quanto ao possível estupro de uma cidadã brasileira num programa de qualidade cultural zero são sinais de conscientização do entrave que representa para a democracia a existência de uma mídia partidarizada e defensora dos privilégios do poder econômico.

Imprensa livre, sim, mas não usurpadora do poder político, também ele livre, dos cidadãos e contribuintes.

Condenável sob todos os aspectos, até porque toda a armação foi para aumentar a audiência de um programa lamentável, o maior estupro não é o que a TV Globo mostrou, mas é o estupro que se faz da razão, da nossa inteligência e da própria democracia.

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mimO medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Lucio Magri e a história do comunismo

Por Emir Sader.

Lucio Magri foi um dos principais dirigentes da esquerda italiana e, ao mesmo tempo, um de seus mais destacados intelectuais. Muito jovem foi promovido a cargos importantes de direção quando o então Secretário Geral do Partido Comunista Itália, Palmiro Togliatti, desejava rejuvenescer os quadros do partido, dando espaço a uma nova geração de dirigentes.

Junto com Rossana Rossanda e Luciana Castellina, entre outros, Magri constituiu um grupo crítico de esquerda à política do PCI, especialmente quando Enrico Berlinguer – que sucedeu a Togliatt na direção do Partido – promoveu a política do compromisso histórico, que abandonava a estratégia da aliança comunista-socialista, concedendo um espaço fundamental para a Democracia Cristä. O grupo saiu do PCI e fundou o movimento chamado Il Manifesto, que passou a publicar um diário com esse nome. Mais adiante, o grupo foi convidado pelo próprio Berlinguer para retornar ao PCI, quando o máximo dirigente do partido se propunha a dar um giro à esquerda. Retornados ao PCI, o grupo sofreu a morte de Berlinguer um mês depois do seu retorno e acompanhou o triste caminho do PCI para sua mudança de nome e sua dissolução como partido comunista.
Magri foi participante de toda essa trajetória, sendo o único dirigente que votou contra a mudança de nome do PCI. (O outro dirigente, com a mesma posição, Pietro Ingrao, estava viajando.) Magri conta a tristeza da sua saída do histórico edifício da rua delle Boteghe Oscure, sede do PCI, caminhando para sua casa, no próprio centro de Roma, com a sensação de que um período histórico terminava e que sua vida ia embora com esse passado.
Desaparecido o partido – considerado a memória historica do proletariado. Magri se propôs a fazer uma história do comunismo italiano que, pelo papel relevante que teve em escala internacional e pelas estreitas relações com o movimento comunista internacional, em parte cobre a história dos partidos comunistas e suas relações com o Partido Comunista da União Soviética.
Nesse intervalo de tempo, quando se dedicava a escrever o livro, ficou doente Mara, a sua companheira de toda a vida. Um processo doloroso de três anos até sua morte, para completar o quadro de fim de vida para Magri. Ele pensou em proceder como havia feito André Gorz, que se suicidou junto com sua companheira doente (processo relatado no belo livro Uma vida), mas Mara o impediu de fazer isso, incitando-o a que primeiro terminasse o livro.
O alfaiate de Ulm – livro que a Boitempo publicará este ano – é uma obra imprescindível para a compreensão da história da esquerda ao longo do século XX. Em primeiro lugar porque quase toda a bibliografia sobre as transformações radicais nas correlações de força no plano internacional e em cada país, são em geral de direita, com seus valores e suas óticas. Magri faz um balanço desde a esquerda com seus dilemas e alternativas.
Em segundo lugar, porque a desaparição do maior partido comunista do Ocidente ficaria sem história, incluindo seu triste fim, no caso de que alguém como Magri, com sua trajetória e sua capacidade de análise, não tivesse assumido essa tarefa.

Em terceiro lugar porque retoma a dura tarefa de fazer balanços das derrotas desde a própria esquerda, sem nenhuma solução fácil – do tipo “eu sempre disse que isso ia terminar mal” – ou da subestimação do tamnho da derrota, mas sem renunciar aos princípios gerais que orientam a esquerda.

Tive a possibillidade de estar uma semana na casa de Magri, em 2010. Sua decisão de terminar conscientemente sua vida era algo reiterado. Ele sentia que, do ponto de vista político e histórico, mas também do ponto de vista pessoal, sua vida tinha chegado a um fim. O que terminou concretizado com um suicídio assistido na Suíça, como decisão conscinte e racional. Seu livro tinha sido publicado na Itália, com grande sucesso. Na Espanha, país que ele visitou para o lançamento do livro. Pudemos cumprir o compromisso assumido com ele e publicar uma edição latinoamericana, na Argentina. Eu lhe fiz chegar a notícia de que já estava em processo de tradução a edição brasileira do livro, no último contato que tive com ele.
A edição brasileira será uma grande contribuição para o balanço e a reflexão sobre o presente e o futuro da esquerda no século XXI.
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Emir Sader é coordenador da Coleção Pauliceia, que reúne títulos que resgatam personagens, bairros, instituições e textos literários e apresentam uma nova visão sobre como se construiu, nas artes, no esporte, na política, na academia e principalmente nas ruas, a identidade de São Paulo, metrópole de expansão acelerada e mistura de culturas. Em comemoração ao aniversário de 458 anos de São Paulo, hoje, a Boitempo Editorial oferece 40% de desconto em todos os títulos da coleção, confira os detalhes da promoção abaixo (ou clique aqui).
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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas-feiras.

Promoção Coleção Pauliceia: 40% de desconto nos livros da coleção durante a semana do aniversário de São Paulo


A Boitempo Editorial está oferecendo uma promoção especial em comemoração ao aniversário de São Paulo, que completa 458 anos nesta semana: até o dia 28 de janeiro, na compra feita diretamente com a editora, livros da coleção Pauliceia poderão ser adquiridos com 40% de desconto.

Com coordenação de Emir Sader, a Coleção Pauliceia resgata personagens, bairros, instituições e textos literários e apresenta uma nova visão sobre como se construiu, nas artes, no esporte, na política, na academia e principalmente nas ruas, a identidade de São Paulo, metrópole de expansão acelerada e mistura de culturas. Um dos destaques da coleção é o livro Democracia corintiana: a utopia em jogo, co-autoria do jogador Sócrates e do jornalista Ricardo Gozzi que há anos encontrava-se esgotado e foi recentemente reimpresso e lançado em ebook.

O contato para a compra dos livros com desconto deve ser feito para o e-mail vendasboitempo@gmail.com, com o assunto “Promoção Pauliceia”. O pedido deve conter o endereço completo (com CEP) para cadastro como cliente e cálculo do frete (para pedidos abaixo de R$ 150,00 líquido), além do número do RG e CPF. Nas compras acima de R$150,00 o frete será grátis para todo o país. O pagamento será feito por meio de depósito em conta corrente a ser posteriormente informada. A promoção está sujeita à disponibilidade dos livros em estoque. Caso o título solicitado esteja em falta, o comprador será informado antes da conclusão do pedido.

Relação dos livros com desconto:

- A hora futurista que passou e outros escritos. Mário Guastini – R$ 20,40

- Adoniran: se o senhor não tá lembrado. Flávio Moura e André Nigri – R$ 19,20

- As bienais de São Paulo: da era do museu à era dos curadores (1951-2001). Francisco Alambert e Polyana Canhête – R$ 27,60

- Brás: sotaques e desmemórias. Lourenço Diaféria – R$ 19,20

- Caio Prado Júnior: o sentido da revolução. Lincoln Secco – R$ 21,60

- Carlito Maia: a irreverência equilibrista. Erazê Martinho – R$ 19,20

- Crônicas da Mooca (com a benção de San Gennaro). Mino Carta (texto) e Hélio Campos Mello (fotos) – R$ 19,20

- Democracia corintiana: a utopia em jogo. Sócrates e Ricardo Gozzi – R$ 19,20

- Florestan: a inteligência militante. Haroldo Ceravolo Sereza – R$ 21,60

- João do Rio: um dândi na Cafelândia. Nelson Schapochnik (org.) – R$ 19,20

- Meneghetti: o gato dos telhados. Mouzar Benedito – R$ 17,40

- Meu velho Centro: histórias do coração de São Paulo. Heródoto Barbeiro – R$ 19,20

- Portinari: o pintor do Brasil. Marilia Balbi – R$ 21,00

- Ronda da meia-noite: vícios, misérias e esplendores da cidade de São Paulo. Sylvio Floreal – R$ 19,20

- Semana de 22: entre vaias e aplausos. Marcia Camargos – R$ 19,20

- Teatro de Arena: uma estética de resistência. Izaías Almada – R$ 19,20

- Vila Madalena: crônica histórica e sentimental. Enio Squeff – R$ 21,60

De bar em bar X: Acontece cada coisa atrás da igreja!

Por Mouzar Benedito.

Calma! Não pensem que é sacanagem eu falar que frequentei o Cu do Padre. Não é safadeza nenhuma, muita gente boa frequentou.

Oficialmente, o estabelecimento que se localiza atrás da igreja de Nossa Senhora do Monte Serrat, que fica no largo dos Pinheiros, em São Paulo, chama-se Bar das Batidas. Mas justamente por causa dessa localização ele ficou conhecido como Cu do Padre.

Acredito que seja o primeiro bar de batidas de São Paulo. Foi fundado em 1954. Recentemente ele foi vendido pelo herdeiro, filho do seu Narciso, que manteve o bar e a freguesia cativa por décadas, até morrer no início de 2009.

Suas batidas eram cheias de componentes secretos para ter um sabor especial, “diferenciado”, para usar a palavra modernosa. Com o novo dono, não sei se continua igual. Pelo que fiquei sabendo mudou pouco, mas os preços subiram.

Cheio de enormes provolones, mortadelas e linguiças penduradas no teto, com aparência de que estavam ali há décadas, sua marca era o aspecto de empoeirado, dando a impressão de que nunca um espanador andou por ali…

Mas alguns frequentadores tradicionais diziam que aquilo era puro charme. Onde interessava, quer dizer, na limpeza dos copos e dos alimentos utilizados, era um rigor total. Até o chão era limpíssimo. “Você pode lamber o chão”, disse-me um adepto incondicional do Cu do Padre. Exagerou, mas tudo bem.

Foi no Cu do Padre que tomei a primeira batida que não era simplesmente a de limão, que já existia em vários lugares, ou aquelas engarrafadas industriais, de coco, amendoim e não sei que mais, que nunca tive coragem de tomar.

Era 1964, eu tinha 16 anos de idade, pouco depois de chegar a São Paulo para morar numa pensão, e um irmão me levou lá, dizendo: “Hoje você vai conhecer uma coisa diferente”. E era diferente mesmo, na época.

Mas além das características já citadas, havia outra: o dono, que chamava todo mundo de “sócio”, era corintiano fanático e durante muito tempo esperava ansioso que o Corinthians ganhasse um campeonato paulista, na época não havia o nacional. A decoração do bar incluía distintivos do Timão e uma coleção de flâmulas penduradas no teto também.

Muitos jovens nem imaginam que houve época em que havia gente que colecionava flâmulas, aquelas bandeirinhas triangulares, com distintivos de times, de empresas ou de qualquer coisa, com alguns dizeres.

Desde 1954, por coincidência o ano da fundação do bar, o Corinthians não ganhava o título perseguido, e surgiram então promessas feitas pelo seu Narciso. Uma delas, segundo a lenda, é que ele tiraria o pó dos provolones e mortadelas pendurados só quando o Corinthians fosse campeão – “o que vai demorar muito”, gozavam os “sócios” até meados da década de 1970.

Aliás, um monte de gente não sabe por que a torcida do Corinthians é chamada de “Fiel”, e dos torcedores radicais surgiu a Gaviões da Fiel. É justamente por causa do longo jejum de títulos, sem que ela abandonasse o Timão que começou a ser chamada pela imprensa de “Fiel Torcida”.

Outra promessa é a de que as pessoas que cobiçavam as flâmulas penduradas no teto poderiam ir lá no dia seguinte ao que o Corinthians fosse campeão e pegar as que quisessem.

Pois bem. Em outubro de 1977, no dia da final do campeonato paulista, disputado por Corinthians e Ponte Preta, até uns palmeirenses colecionadores de flâmulas torceram pelo Corinthians, prevendo incluir algumas raridades nas suas coleções.

O Corinthians ganhou por 1 x 0. A festa durou a noite inteira, pois foram 23 anos para chegar lá de novo. Foi uma alucinação coletiva que dominou São Paulo e que durou até o amanhecer.

Pouco antes de abrir o Cu do Padre, epa!, o Bar das Batidas, um monte de gente esperava na porta. O bar abriu, todos entraram correndo para pegar as flâmulas que queriam, mas… Surpresa! Seu Narciso tinha levado todas para sua casa na véspera.

Não puderam pegar as flâmulas, mas comemoraram de forma inédita ali: um daqueles provolones enormes, que pareciam milenares, pendurados no teto, foi devidamente retirado, picado e servido gratuitamente como tira-gosto. Um cara que estava lá jurou que foi assim. Eu não garanto: nem fui lá, estava com uma baita ressaca depois da noite de bebedeira, pois fui corintiano também. Só deixei de ser depois que acabou a Democracia Corintiana, que nem era desse tempo. Mas isso é outra história.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças-feiras. 

Lançamentos da Boitempo em ebook (novembro e dezembro de 2011)

Confira abaixo a lista de títulos da Boitempo Editorial lançados em ebook entre novembro e dezembro de 2011. Atendendo às solicitações de nossos leitores, buscamos dar preferência aos autores mais pedidos em pesquisa realizada no Blog em maio do ano passado, assim como viabilizar obras com preços mais acessíveis. O destaque vai para a obra completa de Slavoj Žižek e Giorgio Agamben, a obra magistral de István Mészáros (Para além do capital), o lançamento de David Harvey (O enigma do capital e as crises do capitalismo) e mais títulos das coleções Mundo do Trablho e Marxismo e Literatura.

A relação completa de ebooks da editora pode ser conferida nesta página (contém links para livrarias, preço etc.).

Livros à venda na Livraria Cultura, Gato SabidoGrioti Livros Digitais, Livrarias Curitiba, Positivo, Livraria da Travessa, Livraria30porcento e Livraria Saraiva.

A visão em paralaxe * Slavoj  Žižek (ePub)

Democracia corintiana: a utopia em jogo * Sócrates e Ricardo Gozzi (formato PDF)

Em defesa das causas perdidas * Slavoj Žižek (Pub)

Em torno de Marx *Leandro Konder (formato PDF)

Estado de exceção * Giorgio Agamben (formato PDF)

Infoproletários: degradação real do trabalho virtual * coletânea de textos organizada por Ruy Braga e Ricardo Antunes(formato PDF)

Memórias * Gregório Bezerra (formato PDF)

O continente do labor *Ricardo Antunes (formato PDF)

O enigma do capital * David Harvey (formato PDF)

O que resta de Auschwtiz * Giorgio Agamben (formato PDF)

O reino e a glória * Giorgio Agamben (ePub)

Para além do capital * István Mészáros (formato PDF)

Sobre o amor *Leandro Konder (formato PDF)

Trabalho e dialética * Jesus Ranieri (formato PDF)

Trabalho e subjetividade * Giovanni Alves (formato PDF)

Crise europeia e resgate da utopia social

Por Giovanni Alves.

A crise europeia, tal como a esfinge grega, provoca-nos com seu enigma: “decifra-me ou devoro-te!” Não se trata de mais uma crise europeia, mas sim, expressão mais plena da crise de civilização que atinge o sistema mundial do capital. O que se expõe na primeira década do século XXI é o desmonte do “modelo social” de civilização do capital que continha as mais candentes ilusões sobre a possibilidade de conciliar capitalismo e bem-estar social no bojo da União Europeia como modelo histórico de integração econômica bem-sucedida. Portanto, a crise do Euro é expressão-mor da crise da civilização do capital.

Em pouco mais de uma década do novo milênio, o capitalismo global expôs a sua dimensão de barbárie histórica. Primeiro, com os atentados terroristas ao World Trade Center, em Nova York, no dia 11 de setembro de 2001; e depois, como crônica de uma morte anunciada, com a crise financeira de 2008, que se origina nos EUA com a crise do subprime e dissemina-se, mais tarde, em 2011, para os países da Zona do Euro, com a crise das dívidas soberanas, ameaçando implodir a partir da semi-periferia europeia as promessas de unificação europeia.

No caso da crise europeia, não podemos vê-la tão-somente como crise financeira. A interpretação de direita sobre a crise europeia, interpretação hegemônica que seduz a opinião pública, inclusive de esquerda, é que ela se reduz ao problema de déficits orçamentários e da elevação da dívida pública. Imputa-se, deste modo, a crise à incapacidade de gestão dos Estados da semi-periferia europeia (os PIGS – Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha). Essa perspectiva analítica conduz à receita da austeridade orçamentária que, além da transferência do peso da dívida para as classes populares, levará, num segundo momento da crise (como se vislumbra em 2012), os países europeus (inclusive Alemanha e França), a mergulharem na recessão. Mais uma vez, as classes populares – incluindo a “classe média” assalariada – serão penalizadas.

A crise europeia é manifestação contingente da crise do capitalismo global com dominância financeira. Ela expõe a dimensão de crise estrutural do capital no sentido de crise de civilização. A crise financeira apenas aprofunda e expõe com intensidade as contradições estruturais da ordem burguesa hipertardia no núcleo orgânico do sistema mundial do capital.

A crise europeia não se trata apenas da crise do neoliberalismo, como se pudessemos imaginar que outro capitalismo seria possível nas condições históricas da crise estrutural do capital, isto é, um capitalismo regulado de cariz pós-neoliberal que resgate o ideário fordista-keynesiano, conciliando crescimento da economia e bem-estar social. Mesmo experiências de crescimento da economia capitalista de viés pós-neoliberal que ocorreram na última década, por exemplo, no Brasil e na China, apesar do sucesso relativo no combate à pobreza absoluta, são experiências de modernização capitalista hipertardia incapazes de resgatarem historicamente as promessas de cidadania salarial e bem-estar social constituídas nas primeiras décadas do pós-guerra nos países capitalistas centrais.

No plano midiático, existe um movimento de claro-escuro que oculta da percepção de homens e mulheres, o verdadeiro significado histórico da crise europeia. Não apenas a direita conservadora, mas a esquerda social-democrata e socialista e seus intelectuais orgânicos, não expõem (nem podem expor) no plano do discurso político, a crise estrutural do capital, tanto na personificação do mercado deformado pelos interesses do capital especulativo-parasitário; quanto na personificação do Estado político e sua democracia liberal corroída pelos interesses da privataria financeira. Existe no debate político (e inclusive, acadêmico) uma densa névoa ideológica que oculta a natureza da nossa crise histórica. Por exemplo, na academia, o espírito do pós-modernismo e o neopositivismo contribuíram para a cegueira ideológica que impede a percepção crítica do mundo histórico.

Na verdade, mais do que nunca, explicita-se como efetivamente atual, a denominação do capitalismo histórico do século XXI como “capitalismo manipulatório”. O adjetivo “manipulatório” não é apenas uma qualificação contingente, mas um traço essencial para a reprodução sistêmica da civilização do capital. Na medida em que agudizam-se as contradições sociais no plano mundial, impõe-se com vigor, no estágio avançado de dominância do fetichismo da mercadoria, a manipulação da subjetividade humana de acordo com os interesses da classe do capital. 

É provável que as sociedades europeias retomem, daqui a alguns anos, a trajetória de crescimento do PIB depois da profunda recessão da economia da Zona do Euro, pelo menos em sua semi-periferia devorada pelas políticas de austeridade neoliberal (Portugal, Espanha, Itália e Grécia). Como temos salientado, crise estrutural do capital não significa irremediavelmente estagnação da economia capitalista. Entretanto, o que preocupa os analistas sociais é o novo “modelo social” que nasce da Europa pós-crise, isto é, uma Europa clivada de desigualdades sociais e concentração de renda, muito distante do Welfare State festejado pela social-democracia com sua ideologia da concertação social. Deve-se aprofundar a precariedade laboral, principalmente entre os jovens trabalhadores, ameaçados pelo desemprego de longa duração e pelo trabalho precário. Como Kronos, deus grego do tempo cronológico, o capitalismo devora seus próprios filhos.

David Harvey observa em seu último livro, O enigma do capital e as crises do capitalismo (recém-publicado no Brasil pela Boitempo [à venda em ebook na Gato Sabido e Livraria Cultura]) que as crises no capitalismo são, não apenas inevitáveis, mas também necessárias, pois, diz ele, “constituem a única maneira de restaurar o equilíbrio e de resolver, pelo menos temporariamente, as contradições internas da acumulação do capital.” E conclui: “As crises são os racionalizadores irracionais de um capitalismo sempre instável”.

Ora, se as crises são os “racionalizadores irracionais de um capitalismo sempre instável”, como tem sido o capitalismo global em sua fase de dominância financeira, o que temos que nos interrogar é o que está a ser racionalizado aqui e que direções estão a tomar essas racionalizações perversas do capital, pois serão elas que definirão nossa maneira de sair da crise como o caráter futuro do capitalismo.  

Na verdade, ocorre hoje o esgotamento de um ciclo histórico civilizacional. O que se observa é que a crise europeia expõe, com vigor, aquilo que István Meszáros indicou em Para além do Capital [à venda em ebook na Gato Sabido e Livraria Cultura], como sendo a vigência da equalização descendente das taxas de exploração diferencial no plano do mercado mundial, que impulsiona a corrosão irremediável, lenta e persistente, dos pilares sociais do capitalismo europeu, principalmente nos países da Europa mediterrânea, com posição em desvantagem no plano da concorrência internacional. Trata-se de uma lei tendencial imposta pelo capitalismo global sob dominância financeira, conduzido pelas políticas neoliberais. É claro que a operação da lei histórica depende das opções políticas em disputa e da luta de classes que ocorrerão na Europa na década de 2010. Entretanto, o aumento da desigualdade social nas últimas décadas de capitalismo neoliberal no pólo desenvolvido do capitalismo global (EUA, União Européia e Japão), expressa com clareza inaudita, o movimento de equalização descendente das taxas de exploração diferencial. Portanto, com a crise europeia, a precariedade laboral e o desemprego estrutural devem se ampliar, mesmo que as economias capitalistas consigam retomar o crescimento do PIB. O que significa que a crise europeia é tão-somente o momento mais candente de um processo de longa duração de desmonte do Estado social europeu que ocorre nos “trinta anos perversos” de capitalismo neoliberal – desmonte social, diga-se de passagem, levado a cabo tanto pelos partidos de direita, quanto pelos partidos da esquerda social-democrata e socialista.

A crise europeia possui um valor heurístico: ela expõe, com vigor, os traços essenciais da miséria do capitalismo global com dominância financeira. Na verdade, crise não significa tão-somente riscos, mas pode significar também oportunidades de percepção cognitiva dos elementos compositivos da tragédia histórica da civilização do capital. Podemos salientar como traços históricos essenciais do metabolismo social do capital nos “trinta anos perversos” (1980-2010) os seguintes elementos compositivos:

1. A deformação intelectual-moral das forças políticas das classes populares, o que significa que a crise europeia é não apenas crise financeira ou crise da economia capitalista, mas crise moral-intelectual das forças de esquerda socialista. É crise política irremediável da social-democracia, na medida em que se explicita, com vigor, a perda de credibilidade política de lideranças socialistas que aplicaram, ao lado da direita conservadora, medidas de austeridade neoliberal contra as classes populares. Contra a crise de credibilidade política, a social-democracia e seus intelectuais orgânicos incrementam o jogo do ilusionismo política, imputando tão-somente à direita a responsabilidade pelo “inferno social” criado pelas políticas de austeridade. Eles tentam ser a alternativa credível nas próximas eleições democráticas. Enfim, a deformação intelectual-moral das forças políticas ativa o pêndulo perverso dos operadores da política do capital, que oscila entre a direita conservadora e a esquerda social-democrata. Todos eles pertencem ao espectro do neoliberalismo hegemônico.

No plano do metabolismo social, a deformação intelectual-moral das forças políticas das classes populares alimenta (e tende a reforçar) dois processos sociais lúgubres do movimento do capital no século XX. Primeiro, o processo de imbecilização das massas populares pela indústria cultural – incluindo a classe média assalariada. Segundo, a “presentificação crônica” na qual vivem imersos os jovens e o rompimento dos laços geracionais com o passado histórico. Diz-nos Eric Hobsbawn no livro A era dos extremos (de 2001): “A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem”.

Portanto, a crise europeia não é apenas crise da política social-democrata e socialista, como salientamos acima, mas também crise irremediável do pensamento europeu hegemônico que legitimou, no plano epistemológico, a ordem social-democrata. Nos “trinta anos perversos”, incapazes de fazer a crítica radical do capitalismo, uma série de autores legitimaram direta ou indiretamente, a ideologia da concertação social (como por exemplo, Jürgen Habermas e Anthony Giddens). O esclerosamento do pensamento crítico europeu impediu a percepção lúcida do significado da crise europeia. Gerações e gerações de jovens licenciados foram educados nas universidades europeias na visão de mundo neopositivista e pós-modernista e encontram-se hoje desarmados para efetuarem, no plano do pensamento, a crítica da ordem burguesa senil. Trata-se da miséria espiritual que aflige a “geração à rasca” (como se diz em Portugal).  De fato, esses jovens, homens e mulheres, licenciados, com títulos de mestres e doutores, encontram-se órfãos não apenas das promessas do Estado de Bem-estar social, mas da visão crítica de mundo, incapazes de perceberem o sentido radical da crise europeia. Sob as condições da miséria espiritual das massas, o capitalismo manipultaório tende a reforçar novas dimensões do irracionalismo social.

2. Nos “trinta anos perversos” sob hegemonia neoliberal, as políticas de privatizações contribuíram para que o Estado político do capital se reduzisse cada vez mais ao mercado. A redução do seu tamanho na economia nacional, criando espaços de produção de valor, ocorre pari passu com a redução do Estado social. As políticas neoconservadoras hegemônicas tendem a abolir a universalização de direitos sociais, adotando-se a focalização de políticas sociais nos segmentos mais candentes da população. Não se trata de “Estado mínimo” para o capital, mas sim “Estado mínimo” para o trabalho. Os grupos capitalistas continuam a aproveitar-se do fundo público com as transferências de riqueza da sociedade para o mercado por meio do aumento de impostos (bancos e corporações industriais e financeiras, como se comprovam pelos juros pagos a título de pagamento da dívida pública). Enquanto isso, cortam-se direitos sociais dos trabalhadores e reduzem-se investimentos na saúde, educação e serviços públicos em geral.

3. A democracia política se reduz a “democracia representativa” moldada por leis eleitorais que deformam a vontade popular. Mais do que nunca, torna-se impossível conciliar verdadeira democracia e capitalismo histórico. As democracias ocidentais reduzem-se àquilo que o sociólogo Boaventura de Sousa Santos denominou de “democracia de baixa intensidade”. Nos últimos trinta anos aprofundou-se a crise de legitimidade das democracias europeias. Na verdade, com a crise europeia, os impasses políticos sob determinadas circunstâncias, como ocorreu na Grécia e Itália, impõe a própria abolição efetiva da democracia representativa e a instauração da “democracia dos mercados” com a indicação pelos mercados de tecnocratas para conduzirem governos de maioria parlamentar. Mais um elemento heurístico da crise que desvela a farsa da democracia no capitalismo. Ao mesmo tempo, apela-se, com uma intensidade diretamente proporcional à dimensão da crise de legitimidade democrática, para o ilusionismo político visando ocultar a situação farsesca, pois a farsa pressupõe manipulação de alta intensidade que caracteriza o capitalismo manipulatório nos últimos trinta anos.

A crise estrutural do capital possui um valor heurístico. Ela nos obriga a colocar, como pressuposto da crítica radical, a interrogação sobre as alternativas necessárias capazes de resgatar as esperanças no futuro da civilização humana. A crise do capitalismo global sob dominância financeira e a barbárie social como modo de sociometabolismo dominante colocam cada vez mais a necessidade candente do controle social, caso queiramos resgatar os valores da civilização humana vilipendiados pelo movimento do capital. Na verdade, torna-se urgente, no plano do pensamento e da atividade política, a reposição da utopia socialista radical como controle social. Isto é, coloca-se como necessidade social a democratização radical da sociedade, o que conduziria efetivamente à abolição do capital como modo estranhado de metabolismo social.

A ideia de socialismo no século XX foi degradada no sentido da sua deformação tanto pela social-democracia, quanto pelo stalinismo. A utopia socialista pode ser traduzida tão somente na ideia do controle social ou democratização radical da sociedade. Portanto, põe-se como tarefa histórica necessária e urgente a luta pela democratização radical com tudo aquilo que isto implica, tanto no plano do Estado político, quanto do trabalho e na vida cotidiana ou espaços de sociabilidade e relações sociais.

Deste modo, podemos salientar como tarefas históricas necessárias, cada vez mais auto-evidente no século XXI para o resgate da utopia social:

1. A formação de sujeitos humanos capazes de intervenção coletiva social e política. Eis o maior desafio da esquerda radical: resgatar homens e mulheres da imbecilização de massa produzido pelo capitalismo manipulatorio do século XX sob as condições históricas do fetichismo da mercadoria. Trata-se de construir por meio das lutas sociais e da reflexão crítica, um pensamento e subjetividade contra-hegemônicos, um processo de formação moral-intelectual das massas que não se confunde com doutrinação política. Esta é a tarefa histórico-política mais difícil, tendo em vista que exige uma nova metodologia social capaz de formar os sentidos humanos numa época de barbárie social.

Os “trinta anos perversos” de neoliberalismo foram anos de revolução cultural conservadora e a esquerda histórica comunista ou trotskistas não conseguiu se contrapor efetivamente à cultura neoliberal hegemônica com seus valores-fetiches de mercado (individualismo e consumismo). Pelo contrário, a esquerda comunista ou trotskista reduziu a sua intervenção prático-sensível à luta política e ao sindicalismo propriamente dito. A esfera cultural onde se opera a formação humana ainda é, hoje, um campo exclusivo de intervenção hegemônica inovadora do capital.

2. A luta política pela “estatização” das instâncias estratégicas de produção e reprodução da sociedade, ou seja, impulsionar o movimento reverso das políticas de privatizações que caracterizaram o movimento do capital nas últimas décadas, inclusive sobre governos ditos de esquerda. Eis o momento tático das alianças com forças políticas pós-neoliberais.

Mas é importante salientar que colocamos “estatização” entre aspas, tendo em vista que o Estado que diz respeito ao movimento de emancipação social não é o Estado político do capital. Eis o momento de divergência política radical com as forças políticas pós-neoliberais: o movimento de “estatização” necessário implica irremediavelmente, ao mesmo tempo, caso queira aparecer como movimento emancipatório, a terceira tarefa histórica: a democratização radical do Estado político.

3. A democratização radical do Estado político significa, no limite, a sua irremediável extinção no sentido processual. Resgata-se, deste modo, o ideal comunista clássico. Enfim, a vigência da democratização radical é, nada mais e nada menos, que o socialismo na sua acepção verdadeira. Não se trata de proclamar tão-somente o valor da “democracia de alta intensidade”, como diz Boaventura de Sousa Santos, mas sim, de re-afirmá-la na perspectiva da classe social do proletariado (o pós-modernismo de Boaventura de Souza Santos perde substância crítica na medida em que tende a ocultar o conteúdo de classe do processo de democratização radical). Enfim, é preciso qualificar o processo de democratização radical como re-apropriação do poder social pela classe-que-vive-do-trabalho, a imensa maioria da população humana alienada do poder decisório sobre as instâncias estratégicas da vida social.

Entretanto, a democratização radical pressupõe homens e mulheres capazes de auto-apropriação das objetivações sócio-técnicas constituídas no decorrer do processo civilizatório do capital. Entretanto, na medida em que o processo de desenvolvimento sócio-técnico até o presente tem se caracterizado pela alienação, o sociometabolismo do capital tem (de)formado e incapacitado homens e mulheres para o processo de auto-apropriação autônoma e criativa do mundo social. O modo de produção capitalista não é apenas um modo de produção de mercadorias, mas modo de produção (e reprodução) de homens e mulheres deformados em suas capacidades humano-genéricas. Por isso, uma das maiores tarefas históricas do processo de emancipação social é formar sujeitos humanos coletivamente autônomos, criativos e inovadores, capazes de constituírem a troca orgânica emancipada entre si e a natureza. Por isso, a terceira tarefa histórica – a democratização radical – pressupõe irremediavelmente a primeira tarefa política como movimento histórico de luta de classes: a centralidade da atividade de formação humano-genérica.

Eis, portanto, um breve esboço das linhas estratégicas de intervenção prático-sensível que a intelectualidade política radical comprometida com a emancipação social é levada necessariamente a adotar sob pena de reiterar tão-somente a miséria do capital no século XXI. O papel (e a responsabilidade política) do cientista social é tornar claro as possibilidades efetivas do desenvolvimento humano-social nas condições históricas da crise estrutural do capital como sistema estranhado de controle sociometabólico. Para se contrapor ao neoliberalismo de mercado não podemos adotar, numa perspectiva estratégica, tão-somente a ideologia do pós-neoliberalismo que propugna, em última instância, o fortalecimento do Estado político do capital a título de garantir a acumulação privada e a concorrência (o pós-neoliberalismo como neoliberalismo restringido) visando conciliá-la com um programa mínimo de bem-estar social. Na verdade, a lei do valor afetada de negação, não dá margens à concessões civilizatórias no âmbito das relações sociais baseadas na propriedade privada e na divisão hierárquica do trabalho.

O desenvolvimento histórico explicita, no plano da percepção do bom senso, que cada vez mais Estado político e mercado se confundem, diferenciando-se tão-somente pelas margens de ação política e intervenção social minimalista que permitem políticas sociais compensatórias, principalmente nos países com “carecimento de modernidade” (como o Brasil). É claro que, no plano tático-político, não podemos desprezar as diferenças de espaço de ação política como espaço de acumulação de força, ou melhor, espaços de formação de classe como sujeito histórico. Mas, na medida em que existem espaços de formação, coloca-se a necessidade ineliminável da direção política consciente capaz de hegemonia estratégica no sentido de alargar as possibilidades da intervenção social intervertendo o pós-neoliberalismo como campo de transição para a democratização radical da sociedade, o verdadeiro sentido do socialismo do século XXI, que não deve se confundir com as experiências pós-capitalistas do dito “socialismo real”, prisioneiro das determinações negativas do capital. Eis o verdadeiro sentido da arte da política que o mercado concentrado sob dominância do capital financeiro busca eliminar.

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O livro mais recente de Giovanni Alves, Trabalho e subjetividade (Boitempo, 2011) já está à venda também em formato eletrônico (ebook) nas lojas da Gato Sabido e Livraria Cultura.

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Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Marília. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET) e do Projeto Tela Crítica. É autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000) e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo Editorial, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

O sapo Gonzalo em: Touradas, budismo e religião

Por Luiz Bernardo Pericás.

A noite havia chegado, e com ela, a calmaria do mar. O dia fora cansativo e o calor, sufocante. Agora, descansavam. Corto apoiava a nuca com as mãos trançadas atrás da cabeça. Deitado, controlava sem dificuldades o leme do barco com os dedos do pé direito. Podia navegar até dormindo! Vez ou outra abria um olho apenas, checava, lá no alto, a posição do Cruzeiro do Sul, e voltava a cochilar. O veleiro estava em boas mãos! Gonzalo, por seu lado, observava as águas escuras à sua volta, com os dois braços levemente encostados no parapeito da popa. Apenas uma lâmpada iluminava a embarcação: um pequeno ponto de luz amarelada no oceano infinito. 

O sapo terminava de fumar mais um cigarro. Gosto amargo na boca. Jogou fora a guimba, que foi rapidamente levada pela correnteza. O pucho se distanciou, boiando junto de algumas garrafas pet e sacos plásticos, que haviam chegado até ali sabe-se lá como. Mas o batráquio continuou sem falar. Afinal de contas, não queria interromper o sono do amigo. 

Foi quando viu, ao lado de Maltese, um livreto bastante amassado, com um pequeno rasgo no canto da capa. Era um panfleto apócrifo, de tiragem limitada, publicado pela Editorial Siqueo, no México, na década de setenta, sobre o único toureiro budista de que se tinha notícia. O sapo argentino sabia que o colega maltês estivera havia muito tempo no porto de Veracruz, e que provavelmente teria sido lá que o marujo conseguira aquele texto raríssimo. Gonzalo achou o tema tão exótico e fascinante, que abriu as páginas do livro na mesma hora. E esta é, portanto, a história que ele leu naquela noite solitária…     

As narrativas que descrevem a relação entre as touradas e a religião são numerosas e podem ser encontradas nos principais tratados de tauromaquia, que relatam especialmente a ligação histórica entre a fiesta brava e o catolicismo ao longo dos tempos. São muitos os exemplos. Quem quisesse ingressar em uma congregação mariana, no século XV, era obrigado a cumprir com seu oitavo estatuto, que proibia receber em suas fileiras qualquer sacerdote que não fosse também um cavaleiro de touradas. Em Tudela, não se podia tourear sem que antes um frade capuchinho fizesse um pedido para que os touros fossem “bons”, ou seja, bravos. Quando as corridas eram celebradas em algum cabido da catedral de León, os padres eram obrigados a benzer os matadores. Era comum presenciar em Granada, no século XIX, a imagem da Virgem das Angústias presidindo as faenas, assim como os toureiros pedindo permissão a ela para lutar com os animais na arena. Naquela época quase nenhum lidiador entrava na arena sem levar em volta do pescoço um escapulário com a imagem da Virgem de Carmem, a padroeira dos vagabundos e pícaros espanhóis. Ao lado das praças de touros, encontrava-se, sempre de portas abertas, uma capela, em geral de são José, a quem os matadores pediam proteção. 

Pode-se ir mais longe. Casamentos reais e populares eram realizados durante as corridas, conhecidos como “touro nupcial”. Este foi o caso do casamento de Felipe II e Ana da Áustria, assim como também das bodas do imperador Alfonso VII em Saldaña, em 1124 ou de sua filha com García Ramírez de Navarra, em León, em 1144. Muitas vezes, quando os estudantes se doutoravam ou quando se ganhava uma guerra, ocorriam faenas. As touradas também se celebravam quando se cortejava alguma mulher, como fazia Henrique IV; em missas; ou durante um ato de canonização ou beatificação. Na santificação de santa Teresa de Ávila, em 1614, por exemplo, foram sacrificados mais de duzentos touros em trintas corridas. Os espetáculos taurinos também ocorreram quando foram canonizados santo Isidro, são Francisco Xavier, são Luiz Gonzaga, santo Inácio de Loyola e são João Sahagún. No século XVII era comum matar centenas de reses enquanto se evocavam mártires da Igreja. A carne dos bovinos era, então, guardada como relíquia e como remédio contra a febre. Nessa mesma época, era costume entre a nobreza também realizar touradas para celebrar nascimentos no seio de famílias influentes. Por isso, em 1658, para comemorar o nascimento de Felipe Próspero, foram sacrificados 24 touros. 

A Igreja católica possivelmente se apropriou das touradas como forma de controlar o paganismo e difundir os ensinamentos bíblicos na península ibérica, da mesma forma que os padres se “apropriaram” de santuários celtas na Galícia ou de mesquitas árabes em Córdoba e erigiram, sobre aquelas construções, seus próprios templos cristãos. A influência muçulmana na região, como se sabe, sempre foi grande. Muitas pinturas com cenas de touros, nas paredes de algumas igrejas de Castela, por exemplo, em realidade se referiam à liberação dos tributos das “cem donzelas”, que devia ser pago pelos árabes da região e que foi suprimido depois que um rebanho de touros botou os cobradores de impostos para correr. Era comum que se celebrassem as faenas nas cerimônias de circuncisão dos príncipes mouros, no século XIV, ou quando as damas locais davam à luz. Por isso, não é de estranhar que a fé cristã tenha utilizado muito da simbologia e das tradições taurinas islâmicas naquela região.   

Na própria praça de são Pedro, em Roma, no dia 4 de fevereiro de 1492, em comemoração pela retomada de Granada dos muçulmanos, se realizaram corridas, promovidas pelo cardeal Rodrigo Borgia, que pouco tempo depois se tornaria o papa Alexandre VI, e que contou com a presença de seu filho César, que chegou a matar dois touros. Nessa ocasião, o dignitário também organizou massacres de idosos, judeus e prostitutas em praça pública. Tudo como parte da festa. A Igreja sempre foi mais propensa a matar índios, negros, “bruxas” e judeus do que touros…   

Mas também havia aqueles que combatiam a fiesta brava. Em 1567, o papa Pio V, na bula De salutis gregis dominici, condenava as touradas, punindo com a excomunhão os “contraventores” da sua lei. Exigiu que o governador de Roma impusesse a pena capital àqueles que participassem dos combates, que haviam se estendido no século XVI à Itália. Apesar disso, nem mesmo um católico fervoroso como Felipe II da Espanha reconheceu a bula, já que havia os interesses da nobreza e a pressão popular envolvidos no assunto. O próprio clero participava sem problemas da festa. Assim, quando o bispo de Salamanca foi nomeado delegado papal para perseguir todos aqueles que não seguiam os ditados do Vaticano, não teve sucesso. O papa Gregório XIII relaxou a imposição a pedido de Felipe II, em sua Exponis Nobis, mas os problemas voltaram com o papa Sixto V, o que obrigou o rei a enviar um recurso através do frei Luis de León, o qual afirmava que a proibição não surtiria efeito, considerando que as touradas faziam parte da vida e das tradições do povo de seu país. Finalmente, em 1596, uma nova bula, desta vez do papa Clemente VIII, acabava com quaisquer excomunhões a quem estivesse envolvido na festa taurina, com exceção dos clérigos. Mesmo assim, os religiosos continuaram desobedecendo as ordens do Sumo Pontífice. Todos os padres que gostavam das touradas, para fugir das punições da Igreja, tiravam seus trajes de religiosos e se disfarçavam para poder lutar contra as feras. Até mesmo o cardeal Barberini, em 1625, se fantasiou e participou de touradas. Um dos mais ferrenhos opositores das faenas foi são Tomás de Villanueva, que considerava as touradas bestiais e diabólicas. Mas no dia de sua canonização, em 1658, paradoxalmente ocorreram várias festas com touros para celebrar o acontecimento. 

O mais interessante é que, mesmo havendo significativos setores da Igreja contra as corridas, muitas ganaderias foram propriedade de religiosos, como as dos cartuxos e dos dominicanos de Jerez de la Frontera. Os padres da região, no final do século XVII, recebiam os bois não castrados como parte do dízimo e gradualmente começaram a escolher os melhores espécimes para a criação de touros de lidia. Mais tarde, os dominicanos de são Domingo de Jerez e são Jacinto de Sevilha, inspirados nos padres da Companhia de Jesus de Sevilha, decidiram promover touradas entre os religiosos. Já no século XVIII, o Convento de santo Agostinho era um dos principais criadores destes animais na Espanha, assim como o sacerdote de Rota, Marcelino Bernardo Quiróz e anos depois o padre Francisco Tejero. No século XIX, os mais importantes criadouros encontravam-se nas mãos do clero, como os de Diego Zapata, Manuel Rodríguez e Trujillo Agustín Solís, que contava com 352 reses bravas. 

Entre as comemorações católicas relacionadas aos touros na Espanha, é possível destacar a Festa de são Marcos. Nessas celebrações, que se iniciaram em Baeza, Andaluzia, os camponeses originalmente pediam ao santo padroeiro que expulsasse os bandidos e os mouros da região. Mais tarde, a população solicitava proteção durante a safra e a colheita de trigo. A maioria das feiras de gado em todo o país ainda ocorre em dias santos, como o da Virgem da Merced, em Barcelona; santa Madalena, em Castellón; são Pedro e são Paulo, em Burgos; são Fermín, em Pamplona; santo Isidro, em Madri; assim como o Corpus Christi em Toledo e Granada. Em Arnedo, a festa de Nossa Senhora de Hontanar, que se celebra no mesmo dia da Festa de são Marcos, começa com um ritual religioso e termina com touradas. O fato é que esta festividade já havia sido descrita pelo frei Francisco de Coria, em sua Descripción general de Extremadura; pelo frei Juan de la Trinidad, na Crónica de la provincia de San Gabriel; e pelo frei Juan de San Antonio, em seu San Marcos, defendido en el milagro que Dios obra todos los años en amansar un toro por sus méritos, publicado no final do século XVII. 

A tradição supostamente começou a partir da lenda que dizia que Jesus, ao descobrir que são Marcos havia traído a própria esposa, decidiu punir o apóstolo, transformando sua mulher em touro, para que o marido pudesse ver sempre seus chifres e se recordar que nunca deveria ter sido infiel. O culto a são Marcos tornou-se ao longo do tempo extremamente popular em toda a Espanha. De acordo com a tradição, na véspera das celebrações, os mayordomos de uma congregação com o nome do santo se dirigem a um campo aberto onde se encontra o gado, escolhem um touro entre vários e o chamam pelo nome do discípulo de Cristo. Aparentemente o animal, naturalmente agressivo, misteriosamente se desgarra dos outros e acompanha os religiosos calmamente até a igreja, onde assiste a missa e a procissão, até que, ao final das festividades, torna-se novamente feroz e sai correndo de volta ao pasto. Enquanto está entre as pessoas, contudo, permite ser tocado e acariciado pelos fiéis. Se por acaso o touro não seguisse o padre que o chamasse pelo nome do apóstolo e ainda continuasse agressivo, isso seria sinal de que o religioso havia pecado…

Muitos milagres também foram atribuídos aos touros. Esse foi o caso quando Ordonho I condenou o bispo Ataulfo, acusado de sodomia, a ser estraçalhado por uma destas feras. No momento em que o sacerdote foi jogado na arena, em trajes de religioso, e foi atacado agressivamente pelo animal, segurou seus chifres e os arrancou de sua cabeça: ficou com os cornos na mão. Algo similar ocorreu com são Pedro Regalado, em Valladolid, e com são Juan de Sahagún, em Salamanca, em ocasiões distintas. Esses homens aparentemente foram salvos enquanto enfrentavam touros bravos e servem como exemplo da relação entre a tauromaquia e a religião naquele país. 

No México não foi diferente. Como se sabe, os touros chegaram ao continente americano no começo do século XVI, trazidos pelos espanhóis. As primeiras corridas informais ocorreram no dia 24 de junho de 1526, no Convento de são Francisco, promovidas pelo próprio Hernán Cortés, que naquela época também começou a criar gado na região. As primeiras festas oficiais com touros foram realizadas a partir do dia 31 de julho de 1528, para homenagear vários santos católicos, como são João, são Tiago e Nossa Senhora de Agosto. Em 1529, foi decidido que todos os anos, no dia de são Hipólito – data em que a principal cidade asteca foi conquistada –, sete touros participariam das corridas, dos quais dois seriam sacrificados e doados, “por amor a Deus”, aos mosteiros e hospitais locais. 

Quando foi confirmado pelo rei Felipe III como vice-rei das Índias Ocidentais, em 31 de março de 1611, o arcebispo Pedro García Guerra decretou que a partir de então, em todas as sextas-feiras daquele ano, deveriam ocorrer corridas na praça de touros que ele mesmo havia mandado construir no Palácio Arcebispal, para recordar sua nomeação ao cargo. Ao se iniciar a primeira tourada, a terra subitamente começou a tremer. Muitos acharam que o terremoto fosse um castigo por se realizarem festas no dia da Paixão de Cristo. Uma semana mais tarde, tentaram novamente dar continuidade às celebrações e mais uma vez um forte sismo abalou a cidade. Depois disso, o governante decidiu interromper as festividades. 

Como na Espanha, os touros corriam em datas religiosas. No dia 12 de maio de 1680, na consagração da igreja de Guadalupe, em Querétaro, vários destes animais foram sacrificados, enquanto em junho de 1734, outros foram enfrentados em público na recepção do arcebispo e vice-rei Juan Antonio de Vizarrón y Eguiarreta. 

No século XIX, as touradas se tornam cada vez mais uma expressão da identidade nacional mexicana. Até mesmo os “pais” da independência tinham vínculos com a tauromaquia. O padre Miguel Hidalgo era dono de várias fazendas que criavam gado e touros bravos; já Morelos gostava de laçar reses; e Ignácio Allende, militar e charro, durante festas religiosas também lidiava touros. 

Naquele período as corridas mexicanas já possuíam características próprias, muitas das quais adaptações de modalidades espanholas. As festas incluíam os “loucos”, personagens caricaturais que provocavam os touros; cegos, que tinham de laçar porcos soltos no picadeiro; cachorros perseguindo coelhos jogados na arena ou caçando veados; balões aerostáticos; fogos de artifício; e até mesmo pau de sebo, para o entusiasmo do público que frequentava o espetáculo. Com o tempo, se desenvolveram outras atrações exóticas, como saltar com uma vara comprida sobre um touro; colocar bandarilhas no animal, equilibrando-se sobre um barril; e fincar flores de papel no dorso do bicho com as mãos, para depois retirá-las, quase como um contorcionista, apenas com os pés. 

Como na Espanha, sempre havia quem não gostasse da fiesta brava. Em 28 de novembro de 1867, as touradas foram banidas por vinte anos na capital e somente ocorreram no interior do país. Depois da liberação, contudo, as festas não duraram muito, já que em 1890 uma nova proibição na Cidade do México impediu que a população local pudesse apreciar a arte por quase um lustro. Quando as corridas voltaram a ser celebradas em 1895 já haviam perdido popularidade. Ou seja, no final do século XIX poucos se interessavam pela tauromaquia. 

Somente no começo do século XX é que as touradas trariam um enorme público para as praças novamente. Em grande parte, os responsáveis por isso foram três grandes toureiros, Arcadio Ramírez, Juan Silveti e Rodolfo Gaona, que com seu estilo e coragem levaram as faenas a ter, ao longo dos anos, o prestígio e respeito de toureiros de nível internacional. É importante recordar especialmente a Rodolfo Gaona, “o índio grande”, considerado possivelmente como o maior espada de sua época. Mas estes não foram os únicos toureiros de importância que lidiaram naquele país. Entre os mais interessantes estão o espanhol Luis Mazzantini y Eguía, “o rei do volapié”, que foi também ator, cantor de ópera e político; o sevilhano Antonio Montes, surdo desde a infância, coroinha e carpinteiro, que depois se tornou um grande matador; e Vicente Segura, o “toureiro milionário”, filho de uma família rica, que estudou nas melhores escolas e universidades do México, Bélgica e Nova Jersey (Estados Unidos) e que mais tarde abandonou o Colégio Militar para atuar nas arenas. Durante a revolução mexicana, deixou a fiesta brava e tornou-se comandante da “Brigada Hidalgo”, lutando ao lado do general Lucio Blanco. Chegou a coronel. 

E há outros exemplos. Luis Freg, “Don Valor”, indivíduo de coragem impressionante, que mesmo tendo recebido ao longo dos anos em torno de oitenta cornadas, foi perder a vida afogado, quando o navio em que se encontrava afundou; ou Pepe Ortiz, “El Orfebre Tapatío”, ator de cinema, cantor e roteirista, que atuou em longas como El tigre de Yautepec (1933), Seda, sangre y sol (1941) e Maravillas del toreo (1942), considerado um artista das arenas; e Alfonso Ramírez, “El Calesero”, um poeta do redondel, que se destacou ao longo de quarenta anos de vida profissional. 

Como todos estes, Pablo Almeyra foi também um dos grandes toureiros que se apresentaram no México na primeira metade do século XX, mesmo que não seja conhecido pelo grande público da atualidade. Este interessante matador, que combateu nas tropas de Pancho Villa por dois anos na revolução mexicana, foi talvez aquele que combinou de maneira mais exótica a tauromaquia com a religião. Mesmo assim, os aficionados da nova geração ainda não estão cientes de sua trajetória nas arenas do país. Os poucos registros sobre Almeyra podem ser encontrados em algumas edições do El Universal Taurino, dos anos vinte, época de seu auge como matador, e também o período em que abandonou a fiesta brava por completo. Como se sabe, alguns consideram as touradas um esporte; outros, uma arte; e há ainda aqueles que a descrevem principalmente como uma experiência religiosa. Era assim que Pablo Almeyra interpretava as faenas. Mas este excelente diestro não ficou conhecido necessariamente por inovar na técnica de lidiar  touros, mas por ser talvez o primeiro e único toureiro budista que se tem notícia. 

Nascido no final do século XIX, Almeyra passou a infância na pobreza. Não chegou a frequentar a escola, mas aprendeu a ler, ensinado por um vizinho da família, um velho professor aposentado que tomara afeição pelo menino. 

Sua inteligência pôde ser percebida desde cedo, assim como sua aguda percepção de tudo a sua volta. Aprendia rapidamente qualquer ofício após observar atentamente do que se tratava. Quando ainda era pequeno, podia ser visto entregando jornais pelas ruas da capital. Foi olhando como os outros agiam que começou a trabalhar, na adolescência, como padeiro. De ajudante, em poucos meses tornou-se o chefe da cozinha de um restaurante de Coyoacán, o que significou um salário maior do que havia recebido até aquele momento. 

Durante a revolução, entusiasmado com os combates no campo militar e ansioso por participar, largou tudo e se uniu às tropas de Pancho Villa. A maior parte do tempo ficou na retaguarda, preparando refeições para os soldados. Teria participado de alguns combates com a Divisão do Norte. Não há, contudo, nenhum documento ou evidência que possa garantir que isso tenha ocorrido, com exceção de relatos duvidosos do próprio Almeyra, em entrevista para a imprensa mexicana, anos mais tarde, quando já era um toureiro relativamente conhecido. De qualquer forma, ao terminar os anos mais sangrentos da revolução, retornou à capital, onde reencontrou a família e voltou a trabalhar. Mas foi nesse momento que sua vida iria mudar. Nesta época começaria a lidiar touros e em seguida se converteria ao budismo. 

Quando criança, nunca demonstrara interesse especial pelas corridas. Com a proibição das touradas entre 1916 e 1920, não chegou a ter acesso ao espetáculo taurino. Preocupado por um lado com os problemas resultantes da guerra que terminara recentemente, e por outro, com a difícil situação econômica de sua família, não tinha tempo para diversão nem para conhecer a tauromaquia. Mas ao assistir uma lidia de touros, no final de 1922, se impressionou tanto com o espetáculo que se tornou um assíduo espectador. Podia ser visto todas as semanas da temporada assistindo seus novos ídolos enfrentando as feras. Mesmo sendo adulto e nunca tendo toureado anteriormente, decidiu começar a treinar para se tornar um matador. Seu pai, já idoso, achou a ideia um absurdo e tentou dissuadi-lo. Alguns amigos também fizeram o possível para que desistisse. Mas ele estava determinado. Queria ser um diestro!   

Sua capacidade de observação continuava tão aguda quanto antes e em poucos meses, podia ser considerado um dos mais destacados “novilheiros” do país. Ao se doutorar, na Cidade do México, foi aclamado pelo público e exaltado pela imprensa especializada. Os anos como padeiro, cozinheiro e soldado haviam passado. Almeyra agora só se preocupava com as corridas. Em breve, contudo, ele teria outra grande mudança em sua vida. 

A conversão ao budismo ocorreu naquela mesma época. Em meados de 1925, conheceu Toshiro Okinawa, um velho japonês, dono de uma loja de tecidos. Foi Okinawa que pela primeira vez apresentou o budismo ao toureiro mexicano. 

A história deste vendedor nipônico ainda é pouco conhecida e repleta de controvérsias. Não há registros de sua chegada ao México nem dos motivos que o teriam levado ao continente americano. Novamente é necessário aqui recorrer ao testemunho de Almeyra, em uma de suas poucas entrevistas para El Universal Taurino. Aparentemente Okinawa chegara ao México antes da revolução e começara desde então o negócio de tecidos. Deixara a família no Japão e por isso, vivia completamente só em seu novo país. Como não tinha interesse por política, não teve qualquer participação nos eventos revolucionários. Sua loja permaneceu intacta e ele pôde continuar seu trabalho sem interrupções, apesar de sua clientela diminuir consideravelmente durante alguns anos. Dizem que chegou a fornecer tecidos para membros do governo e até mesmo para alguns líderes militares de diferentes facções da guerra. 

Depois da revolução, a quantidade de clientes aumentou, mas não o suficiente para garantir grandes lucros. Após anos no México, continuava basicamente na mesma situação de antes.   

Certo dia, Pablo Almeyra entrou na loja de Okinawa para consultar o velho sobre o melhor tecido para um paletó que estava querendo encomendar a um amigo alfaiate. Percebeu, no mesmo momento, uma enorme imagem dourada de Buda no fundo do local e perguntou do que se tratava. Okinawa explicou rapidamente alguns detalhes da vida de Siddharta e depois foi buscar o tecido pedido por Almeyra. Mas a imagem plácida e tranquila daquele homem gordo e sorridente, de pernas cruzadas e braços encostados nos joelhos, a própria versão japonesa do iluminado príncipe indiano, continuou a intrigar o matador, que depois de acariciar o pano indagou novamente sobre a estátua e a religião do velho a sua frente. 

Esta havia sido a primeira vez que um mexicano demonstrara tanto interesse em suas crenças. É bem verdade que outros clientes já haviam percebido a estátua no fundo da loja e perguntado do que se tratava. Muitas pessoas pensavam que aquilo era apenas um enfeite qualquer. Outras, que era um objeto pagão: eram devotos da Virgem de Guadalupe, tinham fé em Jesus Cristo e rezavam para os santos católicos. Aquela imagem oriental, na opinião de muita gente, não estava de acordo com os preceitos cristãos. Mas Pablo Almeyra tinha uma ideia distinta. Aquele Buda, de alguma forma, parecia simbolizar paz interior e espiritualidade. Ficou admirando o objeto por vários minutos, fascinado com a beleza do trabalho do escultor e com o seu misterioso significado. 

O velho japonês percebeu o interesse do diestro, que já conhecia de nome e fama, e o convidou a ir no próximo dia à sua loja para prosear com mais calma sobre o budismo. Almeyra aceitou. 

A conversa foi longa e aparentemente mudou a vida daquele toureiro. Okinawa chamou Almeyra para tomar um chá em sua casa, após fechar a loja, e permaneceu horas com o matador. Falou calmamente sobre a trajetória de Gautama, da infância até a velhice, explicou sua filosofia de vida e suas ideias. E Almeyra ouviu tudo, impressionado. Nunca tivera interesse em nenhuma religião. Quando criança, ia à missa com os pais, devotos de São Francisco, mas nunca se envolvera com a fé cristã como o resto de sua família. Sempre tivera um distanciamento com a Igreja, assim como não lhe agradavam os padres e sacerdotes em geral. Como muitos mexicanos, sentia certo anticlericalismo e desprezo pela hierarquia católica, apesar de demonstrar em diversas ocasiões respeito pelos santos. Algumas vezes fazia o sinal da cruz ao entrar na arena, talvez por temor ao touro, talvez por costume de família. Mas aquilo era algo quase mecânico. Poucas vezes realmente pedira proteção divina antes de entrar numa praça para lidiar um touro. Tinha excessiva confiança em si mesmo e não acreditava que pudesse ser ajudado por nenhum santo. Havia lutado com Villa e visto balas voando sobre sua cabeça durante a revolução: se podia enfrentar homens armados, podia também lidar touros. E tinha a convicção que mataria as feras. Mas agora, parecia que algo estava mudando sua maneira de ver o mundo. Okinawa começou a lhe emprestar vários livros, que Almeyra lia vorazmente e poucos dias depois devolvia, para então pedir mais material sobre o assunto. 

Quase todos os dias visitava Okinawa, com quem ficava horas conversando e ouvindo conselhos, depois que este fechava as portas da loja. Já o considerava seu novo mestre. 

Em poucos meses Almeyra raspou a cabeça e se acostumou a tomar chá todos os dias, um hábito de Okinawa que começava a copiar. Os amigos acharam estranho, especialmente porque o toureiro sempre fora adepto ao café forte de Oaxaca, que antes tomava cotidianamente. O espada mexicano certamente parecia outra pessoa. E todos percebiam a transformação. 

A temporada ainda não havia iniciado e Almeyra dava a impressão de estar mais interessado em suas meditações do que nas corridas. Alguns parentes mostravam-se claramente preocupados com suas estranhas atitudes, que destoavam do resto da população. Foi nessa época que o lidador começou a ter dúvidas de seu ofício de matador. Mas o amor às touradas ainda era forte. Queria conciliar as fainas com sua nova espiritualidade, procurando justificativas que permitissem ao mesmo tempo acabar com a vida de um animal na arena sem contradizer sua “religião”. Ele sabia da importância das cinco regras proferidas por Gautama, inclusive a de ser compassivo e respeitar todo o tipo de vida no planeta. Por isso, perguntava por noites inteiras a Okinawa o que devia fazer: o velho japonês apenas retrucava que esta resposta ele teria de encontrar por si só. Seria apenas questão de tempo. 

Almeyra, considerado pela crítica especializada como uma das maiores promessas do mundo taurino, um dos lidadores mais ágeis e habilidosos do país, comparado aos melhores matadores espanhóis, agora era alvo de piadas da população. Ninguém acreditava que ele poderia triunfar nas arenas mexicanas na temporada que se aproximava. Mas todos queriam assistir a sua estreia. Seu desempenho seria analisado por aficionados, leigos e jornalistas da mesma maneira. Alguns chegavam a dizer que tudo não passava de uma estratégia de marketing, uma forma de se autopromover, de ganhar adeptos e garantir novos contratos. Mesmo assim, poucos levavam a sério sua conversão ao budismo. Era comum ouvir comentários sobre seus hábitos pessoais e sua rotina diária. Apesar de cada vez mais se tornar um recluso e manter sua vida privada longe dos olhos do público, crescia a lenda sobre as excentricidades de Almeyra e sua relação com o velho japonês. Mas não era a grande massa que Almeyra queria iluminar. Como o Arahat, não se iludia com a ideia de que o populacho fosse compreender sua escolha. Seguindo os ensinamentos milenares do Tathagata, do Saccanama, sabia que seu caminho era solitário e a descoberta do conhecimento verdadeiro deveria ser feita buscando a verdade numa viagem interior. A conquista da salvação ocorreria sem a intervenção de uma divindade. Mas também, como o Baghavat, tinha ciência de que, mesmo vivendo em condição de pobreza e longe das multidões por algum tempo, era também importante estar perto das pessoas, inclusive dos ricos, que poderiam se interessar em financiar um mosteiro que planejava construir no futuro. E, como se sabe, a fiesta brava no México é um evento extremamente apreciado principalmente pelas classes mais abastadas do país. 

Certamente, a maior parte dos boatos era mentira. Os cronistas taurinos tinham o prazer em criar e destruir mitos das arenas, e muito do que foi dito sobre o toureiro budista foi difundido com o objetivo explícito de acabar com sua imagem. De qualquer forma, Almeyra aparentemente não se importava com isso. Cada vez mais centrado em si mesmo, passava várias horas por dia meditando em sua casa ou em companhia de seu mestre Okinawa. Aquele que antes supostamente havia sido um feroz combatente na revolução agora parecia calmo, relaxado e extremamente concentrado. Sabia que a nova temporada taurina estava próxima, mas preferia ficar em seu costumeiro estado de meditação, de pernas cruzadas no chão, com os olhos fechados e com os indicadores e os polegares se tocando levemente, enquanto emitia um som gutural que saía da garganta sem que precisasse abrir a boca. Não parecia nem de longe com o treinamento normal de um toureiro. Mas achava que era como deveria se preparar. 

Foi nessa época que começou a desenvolver sua própria interpretação das touradas. Almeyra, em realidade, sentia a necessidade de explicar os motivos pelos quais participava das corridas, assim como queria expor sua forma de se relacionar com sua religiosidade. Sua teoria foi divulgada em uma de suas raras entrevistas, antes de sua estreia na nova temporada.   

De acordo com ele, seria importante um enfoque direto entre a experiência vivida e a realidade objetiva, sem qualquer mediação, fosse de palavras ou ideias. Para se atingir um estado transcendental, uma consciência limpa, que permitisse ao indivíduo perceber os mistérios e as belezas de cada momento preciso, seria fundamental que a mente estivesse completamente aberta, sem reflexões de qualquer tipo. Só assim a pessoa poderia vivenciar e compreender simultaneamente a relação entre o mundo real e espiritual. Seria nesse estado de ânimo que o espada deveria lidar. Por isso, Almeyra afirmou que conhecia os dhyana budistas (os oito graus de meditação), o exercício dos “Quatro Ilimitados” da seita Mahayana e até mesmo alguns poderes ocultos, tomados emprestados do lamaísmo. Todas essas técnicas permitiriam transcender as impressões sensoriais; superar o mundo concreto, expandindo os limites da consciência, pela amizade, compaixão e sentimento de igualdade em relação aos outros; e desenvolver todas suas capacidades psíquicas. 

A técnica do Mahamuda também não lhe passou despercebida. Almeyra incorporou o budismo tântrico ao seu processo de meditação, se esforçando, como os iogues, em manter as pernas flexivelmente cruzadas, jogando em seguida uma corda por trás das costas para depois suspender seus joelhos, com o intuito de impedir que seu torso se envergasse; e então, a língua curvada para trás, tocando o palato e os olhos mirando fixamente a ponta do próprio nariz. Almejava, em algum momento no futuro, conseguir a independência dos dois pulmões, assim como poder controlar as “679 fibras lisas” de seus músculos. 

O processo para alcançar os mundos do karma (desejos), do Rupa (formas) e Arupa (imaterial), se daria pela concentração de um ponto físico qualquer, para, a partir daí, ser abandonado ao movimento e seguir por conta própria, usando a imaginação para desvencilhar o espírito de seu conteúdo. Seria aí, então, que a verdade surgiria. E se poderia sentir o universo. O matador, portanto, teria de estar em estado de transe completo, sem nenhuma outra preocupação que não fosse o momento da tourada. Nessa meditação, ele se moveria leve e instintivamente e investiria em seguida no animal, deixando de lado o público, o barulho, o dinheiro e a glória. O sangue correria em suas veias, a adrenalina cada vez em níveis mais altos, cada poro respirando, cada músculo sendo sentido, cada movimento realizado por instinto. Então haveria a conexão necessária entre o matador e o touro a sua frente. Os dois seriam parte de um mesmo processo, de uma mesma aventura no planeta. Isso estaria de acordo com a doutrina difundida pelo Anoma, ou seja, “considerar a igualdade de toda a criação”. O homem e o touro, durante a fiesta brava, seriam um só. 

O “conhecimento” estaria ligado a uma prática mística, e a arena seria o lugar ideal para que, num estado quase hipnótico, se pudesse, subitamente, descobrir a estrutura dos mundos invisíveis, e consequentemente, dominar a natureza. Isso seria equivalente a uma libertação e ao mesmo tempo a capacidade de exercer a magia sobre os outros, neste caso, o público. 

Esses preceitos de certa forma aliviavam Almeyra moralmente, já que ele sabia que um dos maiores “pecados” no budismo era incontestavelmente o sacrifício de animais. O toureiro mexicano estava ciente das dificuldades em se interpretar livremente a doutrina de Buda, e tentava se adaptar da melhor maneira possível às suas regras práticas. 

Somente seguindo essas normas da vida o indivíduo conseguiria aliviar seu karma. Ou seja, o toureiro que abraçasse o budismo poderia estender seus princípios para o meio social. Se a moral budista é estritamente pessoal e justa, decorrente do nível espiritual de cada um, ela também, ao mesmo tempo, influenciaria o karma coletivo. Almeyra parecia estar imbuído da percepção do sacríficio bramânico, já que de alguma forma acreditava que o próprio sacrificador iria ao Paraíso, retornando às origens e tornando-se parte do divino. Isso se estenderia ao público na praça de touros, fazendo com que o espetáculo fosse uma impressionante experiência mística coletiva. Só com sacrifícios deste tipo é que os espadas e o público poderiam lapidar a alma e desfrutar o oceano perene de felicidade. Para tentar ganhar adeptos católicos no México para o budismo, Almeyra gostava de recordar que a Igreja chegou a canonizar Siddharta Gautama com o nome de são Josafá, mostrando como até os mais altos dignitários de Roma o respeitavam. 

A iluminação só poderia ser alcançada se o espada estivesse num estado profundo de consciência, um transe ativo que lhe permitisse praticar todas as suas intuições. Só assim pode-se explicar que alguns toureiros idosos continuaram a lidiar como na juventude. Mesmo com o corpo envelhecido, conseguiam se superar porque tinham uma espiritualidade e capacidade de concentração especiais. Isso tudo ocorreria dentro do redondel, na praça de touros, que representaria a própria Dharmaçakra, a Roda da Vida.   

Cada lidador que seguiu os ensinamentos de Almeyra aprendia, portanto, como controlar sua respiração, dominar o medo e meditar profundamente enquanto toureavam. Muitas vezes o público não percebia isso, já que o toureiro lutava de olhos abertos, gritando e matando o touro aparentemente sem piedade. Em realidade, estes homens entravam no picadeiro em estado de transe profundo e se exibiam sem perceber ninguém por perto. Apenas sentiam o que estava ocorrendo e reagiam por instinto. Quando a faina terminava, acordavam do torpor e sentiam-se aliviados. Era uma verdadeira experiência religiosa!

Para o zen-budismo é necessário liberar energia acumulada. O centro desta energia estaria supostamente localizado no ventre, perto do umbigo, num ponto conhecido como hara. Seria nesse ponto que se concentrariam todas as forças do homem, assim como nas costas, especificamente entre a terceira e quarta vértebras, região onde o corpo e a mente se fundiriam e se conectariam com a terra. Em teoria, com uma técnica correta de respiração, qualquer ação humana ganharia muito mais força e precisão. O abdômen, assim, seria tão importante quanto a cabeça ou o coração. As posturas do corpo, portanto, refletiriam o estado de consciência no zen. 

De acordo com Almeyra, como para muitos diestros, ao se tourear, seria fundamental colocar a barriga adiante, com o intuito de provocar o touro. Ao mostrar seu hara para o oponente, o matador estaria ao mesmo tempo expondo sua essência humana e ganhando certa invulnerabilidade, pois concentraria toda sua força vital naquele ponto diante de um perigo iminente. Todos os sentimentos convergiriam para o abdômen naquela hora. 

Quando o espada começasse a caminhar lentamente em direção ao animal, apoiado apenas na ponta dos dedões, na prática estaria realizando o kin-hin, ou meditação a pé. Desta forma conseguiria manter o queixo e a nuca eretos, permitindo o correto posicionamento da coluna vertebral, postura fundamental para estar num estado completamente alerta para a luta. 

O grito do espada e o mugido dos touros também fariam parte da meditação, pois não apenas remeteriam aos velhos templos budistas japoneses, como ajudariam a aguçar o estado de alerta do matador. Em seguida, haveria um grande silêncio, quando o diestro e o animal olhariam um ao outro, como se pudessem se comunicar. Esse seria o momento do sacrifício, quando os dois pareceriam compreender o que estaria para ocorrer. O respeito seria mútuo. Cada qual saberia o seu papel. O toureiro então enfiaria a espada, como extensão de seu braço, no dorso do bovino. E, como já foi dito anteriormente, seria como se ele e o touro então se tornassem um só. Neste momento, supostamente, ambos transcenderiam aquele evento trágico. Aí não haveria lugar para personalismos nem egoísmo. Apenas um ato de desapego pessoal, uma forma de se desinvestir de sua própria identidade no tempo e metamorfosear-se em uma entidade única dentro da natureza. 

É claro que Almeyra sabia que a doutrina não era um dogma, mas um caminho que o levaria para o conhecimento. Era uma atitude pessoal que exigiria uma estrita disciplina para chegar à salvação. Mas não seria preciso conhecer a fundo nenhuma grande obra filosófica para se atingir a iluminação, mesmo sabendo que o espada budista tenha lido diversas obras emprestadas de seu mestre, inclusive os sete volumes do Abhi dharma, entre outras. Em realidade, o mais importante seria meditar, se concentrar e se envolver inteiramente na prática de tourear. Os homens não poderiam estar condicionados pelo passado, mas sim, pela percepção atual. E deveriam sempre se recordar que a sabedoria consistiria em renunciar às falsas dependências do mundo exterior. Ou seja, um desapego da matéria, sensação e sentimento. 

Durante vários meses, Almeyra se preparou para a nova temporada apenas com técnicas de meditação. Alguns boatos diziam que ele inclusive havia sido visto mendigando pelas ruas da capital, com uma tigela para esmolas na mão. Seu empresário, José Mallorquín, entretanto, aproveitou o interesse do público pela estranha conversão do toureiro e divulgou como pôde sua futura apresentação. Acreditava que os cartazes colados nas ruas da cidade e a intensa propaganda que fazia na imprensa especializada criariam um enorme entusiasmo entre a população, ávida por ver um grande espetáculo taurino. Até que chegou o momento. 

Entrou na arena junto com dois outros matadores, assim como vários assistentes, picadores e bandarilheiros, enquanto escutava o som da banda que anunciava o início das festividades. Sua aparência certamente impressionou o público que lotava aquela arena. Completamente calvo, alguns quilos mais magro, trazia a imagem cintilante do Buda bordada nas costas. Os diestros saudaram os aficionados, o presidente e as autoridades presentes e se retiraram. Mais uma vez se escutou o som dos clarins. A festa estava para começar. E Almeyra seria o primeiro toureiro a se apresentar. 

A porta do touril se abriu, e uma fera de 604 quilos saiu a toda velocidade, investindo brutalmente sobre a amurada e os quatro subalternos inexperientes que tentavam distrair o animal com o capote. Os picadores foram mais duros e afundaram as lanças no dorso do animal, que sangrava em profusão. Mas este não parava de atacar. Quase derrubou um cavalo e seu obeso cavaleiro em uma de suas mais violentas investidas. No momento em que os bandarilheiros chegaram, a fera parecia tão desesperada como no início. Aqueles homens, em geral tão corajosos, tremiam diante do enorme touro. 

As bandarilhas penetravam com dificuldade na pele profunda e calejada do bicho, que, com a língua para fora, bufava e atacava de baixo para cima, tentando perfurar o inimigo. Um dos bandarilheiros saiu com ferimentos leves, enquanto outro evitou o confronto. Sentiam como se realmente houvesse algo de demoníaco naquele pesado animal. Nunca haviam visto um touro tão furioso como aquele. 

O som metálico dos clarins foi ouvido mais uma vez e Almeyra entrou no picadeiro. Estava tão tranquilo como no momento de sua apresentação, alguns minutos antes. O touro, até então extremamente agitado, subitamente parou e olhou para ele. Os dois pareciam se transfigurar, mudando a postura dos corpos e as expressões faciais. Daí em diante o público presenciou o que foi considerada a maior lide de touros de 1926 em todo o México. Os cronistas da época foram unânimes em apontar aquela apresentação de Almeyra como a mais formidável que haviam visto em muito tempo. Certamente foi uma luta impressionante. E também, a última participação de Almeyra na fiesta brava. 

Todos os meses de meditação proporcionaram ao espada mexicano um maior conhecimento e controle de seu corpo e mente. Agora se sentia flutuando na arena. O animal já não era seu rival. Fazia parte de seu destino, havia sido escolhido entre outros touros para viver com intensidade aqueles momentos trágicos de luta, na qual o sangue e o suor dos dois iriam se mesclar, no qual seriam parte do mesmo drama pela sobrevivência e no qual compartilhariam todos os seus sofrimentos. 

Almeyra subitamente se tornou extremamente agressivo e correu em direção ao touro, como se estivesse em transe. Os olhos abertos pareciam indicar ódio, mas em realidade apenas refletiam o estado alterado de sua mente. Com a muleta, provocou o monstro, que tentava estraçalhá-lo com seus chifres. Almeyra, contudo, desviava-se com leveza de cada ataque. Ainda chegava a brincar com bicho, dando tapas em sua cabeça. Destronques contínuos. A cada provocação, o lidiador gritava e então voltava a atiçar a fera. Mesmo começando a apresentar sinais de fadiga e muito sangramento, o touro ainda assim mantinha o mesmo ritmo de investidas. 

A multidão, extasiada, parecia não acreditar no que presenciava. A energia e vigor dos dois protagonistas eram evidentes. Havia algo que parecia transcender o mundo físico ali, e alguns podiam sentir a energia emanada dos contendores. Em algumas ocasiões, todos ali presentes ficavam calados, silenciosos, os músculos em estado de tensão pela ferocidade da batalha. Alguns segundos depois, contudo, a multidão repentinamente, em êxtase, irrompia em gritos de júbilo. Tudo era eletrizante. Até os vendedores e guardas pararam de trabalhar para ver o que acontecia no picadeiro. Muitas vezes os chifres do animal pareciam raspar no traje de luzes de Almeyra, que aparentemente não percebia. A destreza e agilidade do matador eram impressionantes: conseguia se desviar de cada feroz investida. Tinha tanta confiança em si que não sentia nenhum temor diante daquele adversário. 

Até que chegou o momento do sacrifício. O touro dava a impressão de saber que aquele seria o final de seus dias. Diante do diestro, abaixou a cabeça, como se aceitasse seu destino. Almeyra empunhou com firmeza a espada e apontou delicadamente em direção à corcova da fera. Penetrou a lâmina inteira, de forma rápida e certeira, uma única vez, dentro do corpo do oponente. Quando os ajudantes se aproximaram para distrair o bicho, Almeyra pediu para que se afastassem. Queria ficar a sós com seu amigo e contendor. Colocou sua mão aberta em cima da cabeça do adversário, enquanto este tentava a todo custo permanecer de pé. Até que o touro tombou sobre suas quatro patas e colocou a língua para fora da boca. O combate havia terminado. 

Subitamente, o matador acordou de seu transe. Ouviu gritos ensurdecedores do público e viu milhares de mãos que agitavam panos brancos. Pediam que tivesse o direito de cortar as duas orelhas e o rabo, a maior honra que um toureiro pode ter. O presidente concedeu a exigência da multidão. Almeyra começou a caminhar lentamente, só então percebendo que sua roupa estava rasgada, repleta de manchas de sangue daquele enorme touro. Sentia dores em todos os músculos de seu corpo. Mas não demonstrava estar contente. Pelo contrário, por algum motivo, sentia uma tristeza profunda. Todas as suas teorias e justificativas já não pareciam mais satisfazê-lo. Queria apenas sair dali o quanto antes. 

Ainda se aproximou mais uma vez do touro estendido no chão. Colocou a mão no rosto e chorou. Mas a multidão parecia não perceber isso e continuava a gritar freneticamente, jogando flores e chapéus no picadeiro. 

Alguns fanáticos entraram no redondel e tentaram carregá-lo nas costas. Mas ele se recusou energicamente. Saiu sem falar com ninguém. 

Nunca mais se teve notícias de Almeyra nas corridas de touros. Algumas pessoas chegaram a afirmar que ainda viram o toureiro, logo após aquela famosa lide, saindo do estádio correndo, com lágrimas no rosto, sozinho, pelas avenidas barulhentas da capital. Até que entrou numa rua estreita e nunca mais foi encontrado. 

Gonzalo terminou de ler a última página e fechou o livreto. A história o havia impressionado. O amigo Corto ainda estava na mesma posição. Até roncava! Coçou a barriga, inconscientemente, virou-se de lado e continuou em sono profundo. O sapo, por sua vez, melancólico, com os pensamentos distantes, acendeu mais um cigarro e apenas olhou para o céu iluminado, repleto de estrelas. 

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Já está à venda em versão eletrônica (ebook) o livro de Luiz Bernardo Pericás publicado pela Boitempo Editorial, Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica, disponível no Gato Sabido e na Livraria Cultura.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

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Está previsto para o mês que vem o novo livro de Luiz Bernardo Pericás, Cansaço, a longa estação. Confira uma prévia do romance:

“Em um sertão imaginário, mágico, mitológico, em algum momento entre o final do século XIX e começo do XX, dois rapazes e uma moça se encontram uma única vez na Fazenda Alvorada.A partir daí, suas vidas irão mudar radicalmente e nada mais será como antes. Cansados do calor sufocante, da rotina de imobilidade, da falta de perspectivas, da opressão e do ambiente à sua volta (o próprio inferno), só lhes restava a fuga e a busca por uma vida melhor.”

Natal com neve

Por Flávio Aguiar.

Chico Gui tinha um sonho: passar um Natal com neve, e com muita oração.

Quem era Chico Gui?

Era Francisco Guilherme Müller Schmidt, nascido em Teutônia, então uma vila da colônia alemã no Rio Grande do Sul, Brasil. Lá ele passou a infância.

Mas depois a família se mudou. Foi para Porto Alegre, a capital do estado. Ele cursou a universidade e se formou em Jornalismo. Foi morar em São Paulo. No seu trabalho, numa redação de jornal, Francisco Guilherme Muller Schmidt virou Chico Gui.

Nunca esqueceu da sua cidade natal, nem dos natais de sua casa. Eram natais de uma pequena vila do interior. À noite, a família se reunia ao redor de um pinheiro iluminado, e rezava. As crianças ganhavam chocolates, porque a mãe dizia que era assim que acontecia, na Alemanha, de onde os pais dela tinham vindo, ainda pequenos, antes da Guerra. E os agora avós confirmavam.

Mas tinha uma coisa errada nesses natais: era verão. Por que era verão? Porque o Brasil fica no hemisfério sul, e o Natal, no hemisfério sul, acontece no verão. E o Chico Gui sonhava com os natais que seus avós contavam ter passado na Alemanha, cheios de neve, e todos indo à igreja rezar, na pequena aldeia em que moravam, cantando “Stille Nacht, Heil’ge Nacht”, no Brasil, “Noite Feliz”.

Além disso, o Natal no Brasil foi perdendo o ar religioso. Virou uma grande festa, meio como se fosse Carnaval: muita música, muito fogo de artifício, samba, alegria, cerveja. Chico Gui gostava daquilo. Mas sentia saudade do Natal recolhido, em Teutônia, com a família e as orações. E do Natal que nunca vira, o dos avós, cheio de neve e mais orações.

Chico Gui viu neve no Brasil. Certa vez foi visitar os avós em Teutônia, no mês de julho. Fez muito frio naquele ano, e nevou em Teutônia, quando o Chico Gui estava lá. Para ele foi muito bonito. Tirou fotos. Mas ficou com uma sensação de que a neve viera fora de época, porque não era Natal.

Mas um dia a oportunidade que Chico Gui esperava se apresentou. Ele tirou férias em dezembro, e decidiu fazer uma viagem a Berlim. Queria visitar uma prima distante, que morava há muito tempo na capital alemã. E lá se foi ele, cheio de esperança. Veria um Natal com neve, e entraria numa capela, numa igreja, para rezar, como fazia quando criança, com os pais e avós, em Teutônia.

Chico Gui chegou em Berlim em meados de dezembro. A prima foi esperá-lo no aeroporto. Uma graça de pessoa, que ele não via desde criança. A simpatia mútua foi imediata. Chico tinha um hotel reservado, mas ela convidou-o para ficar na casa dela. Podia dormir no sofá da sala. Ele topou.

Tinham se encontrado apenas algumas vezes, quando crianças. A avó paterna dela, que também emigrara da Alemanha para o Brasil, era prima do avô materno de Chico. Ou algo assim.

Passaram um tempo encantador. Visitaram muita coisa em Berlim. O portão de Brandemburgo. O Reichstag, a Porta de Ishtar no Pergamon. O que restava do Muro. E assim por diante. Berlim não tinha segredos para a prima. Nem ela teve para ele.

Mas a prima – que se chamava Elisabete Amália – notou que o primo estava inquieto.

– Por quê? Ela perguntou.

– É que não há neve, respondeu o primo. O que está acontecendo?

– É, devia haver, disse a prima. Vai ver que é o aquecimento global.

A explicação não acalmou o Chico Gui. Que azar! Logo agora! Mas que fazer? Bom, esperar o Natal, ver se nevaria, e, pelo menos, rezar numa igreja, como nos velhos tempos.

Chico Gui se deliciava. Curtiu os fins de semana do Advento, coisa que não se comemora no Brasil. Houve dois fins de semana do Advento, antes do Natal. E ele e a prima acendiam as velas, e se divertiam fazendo jantares. Ele gostava de cozinhar carnes, ela, peixes. E tomavam vinhos. Apesar da decepção pela falta de neve, o Chico Gui estava encantado. Ele adorava o jeito com que ela conhecia e lhe mostrava a cidade, e a sua história. E ela adorava o jeito com que ele contava histórias dos tempos de infância, em Teutônia, histórias que ela nem lembrava mais, não sabia se eram mesmo de verdade. Não importava.

Bom, enfim chegou o Natal. Sem neve. Mas os dois primos saíram, no dia 24, pela cidade. Passearam. Foram ao Krumme Lanke. Quando viram, estavam de mãos dadas no meio das árvores. Beijaram-se. O Chico Gui disse que ele tivera umas namoradas. Nada sério. Nada que tivesse deixado saudades.

Ela viera para a Alemanha por causa de uma grande paixão. A paixão naufragara. Ela sobrevivera. Mas o coração se fechara.

Depois dessas confidências e mais alguns beijos, voltaram a passear pela cidade. O Chico adorou as luzinhas fabricadas em Hong Kong, grudadas nas árvores. As vitrines coloridas. A multidão nas ruas, fazendo compras como em todo o mundo. Os bonequinhos de neve – na verdade, de plástico – nas janelas dos apartamentos. O Chico até lembrou dos algodões de sua infância, que fingiam ser neve nos pinheiros brasileiros, em pleno verão. Passearam mais. De tanto passear, quando se deram conta era tarde.

– Chi, disse ela, olhando no olho dele.

– Não faz mal, disse ele. Vamos rezar amanhã.

Foram para casa. Pela primeira vez, o sofá da sala ficou intocado. E o amanhecer surpreendeu roupas pelo chão no quarto dela, e as janelas, se contassem o que tinham vislumbrado durante a noite, falariam de uma certa fragrância de amor.

Tomaram o café da manhã com pressa. Era tarde. E saíram pela cidade, atrás de uma igreja, onde ele pudesse rezar.

Que problema! Foram de igreja em igreja: todas fechadas. Em algumas, nada anunciado. Em outras, um cartaz: “Heute, 16:00 Uhr: Konzert. Bach, Händel, Haydn” etc. Ainda numa outra, em inglês: “Today, 17h00: Gospel Music, Alabama Soul Singers”.

Mas nada, nenhuma porta aberta. Reza? Nenhuma. Onde?

E andaram e andaram, e tomaram o metrô e alguns ônibus. De nada adiantou. Todas as igrejas estavam fechadas!

Até que…

Depois de baterem nas portas fechadas da Marienkirche, na Alexanderplatz, eles foram até a Nikolaikirche, logo adiante.

Estava aberta! E era o prédio mais antigo de Berlim! O coração de Chico Gui tremeu! Que realização do seu sonho! Apesar da falta de neve, rezar na igreja mais velha da antiga e nova capital alemã!

Abriram a porta. Na entrada, um simpático… O quê? Um porteiro? Um funcionário? Ele os recebeu. E apontou a bilheteria. Havia uma exposição na igreja. Pinturas antigas. Cinco euros a entrada.

O Chico Gui, que não sabia falar alemão, pediu pra prima que explicasse ao simpático velhinho (fosse o que fosse, era um velhinho):

– Por favor, diga a ele que eu não quero ver a exposição. Eu só quero entrar e rezar um pouco.

Ela traduziu:

– Er sagt er möchte die Ausstellung gar nicht besuchen. Er möchte nur ganz kurz in die Kirche hinein um zu beten.

O velhinho teve um sorriso compreensivo. E disse:

– Können Sie bitte Ihren Freund sagen, dass der lieber Gott nicht mehr hier wohnt. Das ist jetzt ein Museum.

Ela traduziu:

– Ele me pediu para te dizer que o bom Deus não mora mais aqui. Isso agora é um museu. Faz muito tempo.

O Chico Gui arregalou os olhos e disse à prima:

– E agora?

– Sei lá, disse a prima. Vamos visitar a exposição, quem sabe?

O Chico Gui sentiu-se roubado. Disse:

– De jeito nenhum. Vamos embora!

E saíram.

Mas a fúria dele durou pouco. A prima levou-o para passear. Afinal, não estava tão frio… Acabaram sentados no restaurante da casa de Brecht e Helène Weigel, na Chausseestrasse, que, surpreendentemente, estava aberto. Talvez, ele pensou, porque Brecht e Helene fossem comunistas, ateus, e não comemorassem o Natal, senão ali também haveria um concerto!

 Ele confessou sua decepção. Sem neve, sem oração no dia de Natal, o que fazer, o que contar quando voltasse ao Brasil?

E ela lhe disse:

– Não te aconteceu nada de importante aqui em Berlim?

Então ele a olhou nos olhos. E viu a enorme capela de adoração que havia neles, aberta para que ele rezasse. E ele viu pontos luminosos naqueles olhos, como se fossem flocos de neve suspensos no ar. Outra confissão lhe veio: ele disse que a amava, que ela era o grande amor da sua vida. E que aquilo, para ele, era uma oração. Ela ficou vermelha, e abriu seu coração, como as portas de uma capela, de par em par. Disse tudo o que sentia.

Bom, vocês podem imaginar o que aconteceu.

Eles acabaram decidindo viver juntos. Por esses acasos da sorte, foram morar em Salvador, na Bahia. Falam até em ter filhos.

Ele é chefe da sucursal de uma importante revista, a Carta Capital, e ela trabalha no escritório da Attac na cidade.

Em dezembro, é claro, faz um calor de rachar.

Em compensação, tem 365 igrejas para rezarem, todas abertas o ano inteiro, inclusive no dia de Natal. E ele tem na parede uma foto com os avós, daquele dia de julho em que nevou em Teutônia.

Mas quando está na praia, depois de tomar umas três caipirinhas, se alguém lhe pergunta como encontrou seu grande amor, ele começa:

– Era dia de Natal. Caía uma terrível tempestade de neve em Berlim, e eu entrei na igreja mais antiga da cidade para rezar…

Ela sorri… E deixa rolar.

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Dois livros de Flávio Aguiar publicados pela Boitempo Editorial já estão disponíveis para venda em versão eletrônica (ebook): o romance histórico Anita, sobre a vida de Anita Garibaldi, e seu livro mais recente, Crônicas do mundo ao revés. Ambos estão à venda no Gato Sabido e na Livraria Cultura.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, e o recente Crônicas do mundo ao revés (2011). Colabora com o  Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.